Tem um dedo no cimento
Da calçada em reforma
De um rebelde do nosso tempo
Que tem medo de perder a memória
Uma cicatriz contra o esquecimento
Na matéria ainda fresca
O pavimento foi feito
Pras pessoa passa, pros mendigo canta
Mas esse furo de dedo
Me fez pensar:
É uma forma de protesto
Contra a construção civil
Deformar a calçada
Com o indicador direito?
(Ou isso é um polegar?)
Não faço parte dos concretos
(Tampouco assino contratos
Com movimentos, círculos sociais, multinacionais)
Mas encontrei nesse dedo de prosa
Uma tentativa de imprimir uma digital
No mundo
Antes desse monobloco cinzento secar.
Gustavo Lacerda in Mallarmargens, revista de poesia e arte contemporânea
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