sábado, 25 de maio de 2013

Hoje ela quer dar à beça!!!


"Hoje vou dar á beça!"

Ela sorriu com a ideia, ainda de olhos fechados e espreguiçando-se. De onde surgira aquela vontade, desejo, se perguntou. Espremeu os olhos, vasculhou o cérebro à procura de alguma lembrança, mas nada encontrou. Sonhara aquela noite? Não lembrava de nada. Ou seria influência do filme que assistira?

Abriu os olhos, viu a hora: atrasada. Xixi, banho, escovar os dentes, secar os cabelos. Viu-se no espelho. Gostou-se. "É fácil dar muito com esse rostinho, esse corpo. Só mostrar essa pintinha aqui, bem aqui abaixo da sobrancelha esquerda, sorrir e deixar rolar: mais um na rede, ou melhor, na cama", falou para o espelho. Pegou a calcinha e o sutiã de renda preta, vestiu uma saia curta, uma camisa com botões esparsos e saiu, bem a tempo de pegar o ônibus fretado para o escritório.

Última a entrar, só achou lugar no fundo do ônibus. Respirou fundo, relaxando. "Vou dar à beça". "De onde tirara aquela frase", perguntou-se pela segunda vez. O filme. Político, francês, início dos anos setenta. Fechou os olhos, reclinou a poltrona e deixou as imagens fluírem: casal namorando, bonitinho ele, ela com corpo esquisito, peito meio caído, ombros largos, cintura estreita, sem bunda. "Quem desejaria uma mulher triângulo?" Balançou a cabeça horizontalmente numa forte negativa, abriu os olhos e viu, espantada, dois rapazes olhando-a. Será que teria pensado em voz alta, indagou-se. Envergonhada, fechou os olhos e abstraiu-se das pessoas em volta. "Hoje vou dar à beça",  vontade, desejo, porque não dizer desafio, voltou-lhe à mente. Especulou a origem da ideia fugidia. Surgira no seu âmago? No ego, id, superego, essas bobagens? Liberou outras cenas: o carinha na passeata, na pichação, vendo filme sobre a guerra do Laos, etc. A fogosa frase não viera do filme. Livro? Em "Angústia" só um se dera bem, mas morrera no final. Concluiu, então, que a frase refletiria algo mais íntimo, um desejo forte, uma coceira na bacurinha, como diria sua avó. Ainda em dúvida, pensou que, se era para dar à beça, melhor começar logo, ali mesmo, no ônibus.

Abriu os olhos, ninguém olhava para ela. Tentou recordar de todos que vira ao entrar no ônibus. Concluiu que só o motorista teria chance de abrir com ela os trabalhos do dia. Indagou-se se eles dois caberiam no banheiro estreito e fedido do ônibus, mas logo abandonou a ideia, pois ele não poderia abandonar o volante. Decidiu começar as funções sexuais mais tarde, na padaria. Fechou os olhos e tentou dormir. "Se Claudinho estiver lá, será um bom começo...". Dormiu.

- Bom dia, meninas!
- Bom dia! Que animação é essa?
- Tou ouriçada! Acordei com fogo na periquita! Hoje vou dar à beça!!!

As colegas riram, a garçonete se aproximou, para sua desilusão:

- Cadê o Claudinho?
- Doente, vai chegar atrasado.
- Que pena. Precisava dele hoje...
- Para que? Faço o mesmo serviço que ele.
- Mas não faz mesmo! Só se eu estiver enganada com um dos dois. Acordei acalorada, um fogo só. Você apaga meu incêndio?
- Isso é só com o Claudinho.
- Não falei? Traga um misto quente e um café bem forte, que o dia vai ser longo.

Ela entrou no edifício já prospectando os amantes do dia. Aquele não, este sim, o motoboy suado não, o segurança talvez, o bombeiro com certeza. Entrou no elevador lotado e conferiu a fauna disponível: o ascensorista talvez, o pediatra do terceiro andar sim, o advogado do quinto também, os outros dois advogados do quinto, o contador do quarto, o motoboy de botas longas. Pensou que se o elevador parasse entre dois andares, daria para ela bater a meta ali mesmo, como numa orgia romana, um bacanal. Sorriu, notando eles comendo-a com os olhos. Quem tomaria a iniciativa? Para sua tristeza, eles saíram em seus andares, ela ficou só com o ascensorista, que cortou o tesão dela ao assoar o nariz.

Entrou no escritório, com outra frase em mente: "onde se ganha o pão, não se come a carne". Um vendedor a esperava. "Mas gente de fora pode...". Abriu um largo sorriso e convidou-o a entrar em sua sala. Aproveitou, ao fechar a porta, para abrir, disfarçadamente, o botão superior da sua camisa, deixando aparecer parte da renda negra. O homem falou, falou, ela mostrou-se interessada  e atacou:

- Gostei da sua proposta, mas estou sem tempo agora. A gente podia almoçar para fechar o negócio – falou debruçando-se sobre a mesa, oferecida.
- Bem que eu gostaria – respondeu o vendedor, engolindo em seco diante do belo  panorama à sua frente. Porém, tenho que levar minha mulher para fazer ultrassom, vamos ter um bebê – completou  embevecido.
- Parabéns – disse ela friamente, levantando-se e convidando-o a se retirar.

O próximo na sua sala foi um cliente tipo "Danny Devito". Era demais para ela:  fechou logo o botão da blusa, vetando qualquer iniciativa dele. A seguir, uma cliente e depois uma vendedora. Nem pensou em dar para elas, a periquita queria poleiro. Outro cliente, mas parecia ter mil anos, morreria no ato. Desesperou-se: doze horas e não dera para ninguém! Saiu escondida para almoçar, para poder ir à caça. Elevador no automático, nem o cabineiro estava disponível para ela. Saiu do prédio especulando quantas vezes precisava dar para caracterizar o "à beça". Dez, quinze vezes? Mais ou menos? Vasculhou rapidamente seu passado atrás de parâmetros. Festa da faculdade, três caras numa noite, em locais separados porque não era nenhuma vadia, só fogosa. Três vezes no mesmo dia com o Paulinho, num camping. Perguntou-se por onde andaria o mancebo, seria a solução para o dia. Fez umas contas e concluiu que o "à beça" seria atingido por, no mínimo, cinco vezes, com três caras diferentes. Devido ao adiantado da hora, teria que ter um homem no almoço, outro na happy hour e mais um à noitinha. Indagou-se sobre qual seria o melhor restaurante para uma transa na hora do almoço. Resolveu que seria bom um que pudesse sentar à mesa da vítima.

Caminhando pela avenida, já com dois botões liberados, "agora ou nunca", pensou que, se fosse aeromoça internacional, bateria a meta em um só vôo, afinal teria duzentas, trezentas pessoas para dar cinco vezes. Mole, mole, ou melhor, duro, duro, dureza, pau puro! Riu alto com a besteira que pensara, o que atraiu a atenção de um belo rapaz que conhecia de vista. Ele, diante dos rendados irmãos gêmeos sorrindo-lhe, convidou-a para almoçar. Foram para um charmoso café-bar com pratos executivos, toalhas de pano, guardanapos de papel e televisão a cabo: Barcelona x Real Madri. Os gêmeos murcharam diante de Messi e Cristiano Ronaldo. Depois do fracasso, voltou correndo para o trabalho, fim de mês, metas para atingir. Atendeu inúmeros telefonemas, entremeados com clientes e vendedores na sua sala. Quando deu um intervalo, lembrou-se do namorado. Ficara tão ligada na fogosa frase, na possibilidade de dar à beça, que esquecera dele. Podia assegurar três com ele. Marcaria para umas dez horas da noite, teria chance de arranjar alguma rapidinha no happy hour da firma, "dar à beça". Um jantarzinho japonês com saquê para descontrair e o menino daria conta do recado!

- Pedrinho, meu boyfriend. Você anda sumido. Dá para você passar lá em casa hoje? Vou comprar comida japonesa que você adora, um saquezinho...
- Hoje? Estou ocupado.
- Hoje, querido. Sexta-feira. Dia dos namorados se encontrarem.
- Não sei se vai dar...
- "Benhê", preciso de você hoje!

O interfone soa exatamente às dez e quinze. Ela fica animada ao ouvir a voz dele, a happy hour foi um fracasso, só falaram de trabalho, metas, bônus, etc., não houve oportunidade dela usar seus gêmeos rendados para atrair um incauto ou dois. Ela abaixa a música romântica, atenua a luz da sala, confere se tudo está no lugar: comida, saquê, camisinhas, velas afrodisíacas. Ajeita os cabelos e o decote, exibindo mais a pele sedosa. Abre a porta com um sorriso dengoso. Ele sério:

- Precisamos conversar...
- Acho que hoje quero mais ação do que conversa. Entre, benzinho.
- Acho melhor a gente conversar primeiro ...
- Você está tão sério. Relaxa, hoje é sexta e tou com saúde de você...
- Precisamos conversar!
- O que tem nesse saco? Presente para mim?
- Estou devolvendo suas coisas que você deixou lá em casa: escova de dentes, de cabelos, calcinhas, meias....


José FRID


Mais coisas do FRID (estou parecendo o Pelé...)  crônicas, contos, poesias, fotos: aqui!

7 comentários:

Anônimo disse...

Vc poderia ser redator daqueles seriados/comédias inteligentes da Globo, tipo Taps e Beijos, Louco por elas........

Muito bom, parabéns!!!

Lucy

Metamorfose Ambulante disse...

á vi que você é realmente minha amiga: são tantos elogios!

Fico contente que você tenha gostado, é para isso que escrevo.

Já estou pensando na parte II, onde ela se pergunta "o que querem os homens??

Grande abraço!

Anônimo disse...

Kkkkkkkk......

Luiz Carlos Ferreira

Anônimo disse...

kkkkkkkkk, tive que rir mesmooooo

Feliz quinta e proveitoso final de semana que já está por chegar.
Bjs

Clara

Metamorfose Ambulante disse...

Gostei que você tenha rido! Esforço recompensado!
Bom fim de semana para você também, mas estamos é de olho no feriado vindouro!

Grande abraço!

Anônimo disse...

Se você encontra uma dessas tu estas feito, não é, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk,
loucura total, e a vaca vai pro brejo, rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs.

Marli S.

Metamorfose Ambulante disse...

A menina ficou na mão!!!

Você viu o video do amante saindo pela janela no apartamento de esquina perto de você? Deu até bombeiros! Clique no link abaixo:
http://tvuol.uol.com.br/assistir.htm?video=amante-pulando-da-janela-no-centro-de-sao-paulo-04028D9B3960D8A14326

Bom fim de semana!!