Ela está sobre a mesa –
nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torná-la única:
pêra, pêssego, abricô – o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afagá-la com duas mãos.
De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la –
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.
Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
(aflita)
não pode conter diante do torvelinho dos sentidos –
do cataclismo que o desejo encena
no afã de conhecer-lhe o rosto!
Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(esse manancial de sucos que me lambuza,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.
Maria Lúcia Dal Farra in "Vergilianas", do Livro de possuídos. São Paulo: Iluminuras, 2002,
4 comentários:
Muito bom!!!
Margarida
Supimpa!!!...lindíssima poesia...abraço !!!
Lula F.
hoje na "Folha" há uma cronica sobre a manga.
Legal
Regina H.
Menino!
Linda e dá muitos pensamentos, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.
Aquele abraço.
Marli
Postar um comentário