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sábado, 10 de outubro de 2015

Praia deserta



Estar só numa praia deserta

Ter diante dos olhos uma paisagem eterna

Pisar na orla de espuma


Tocar com as mãos num rochedo

Ver a tarde cair num mar imóvel

Sob o domínio de uma estrela azul

Ficar parado, contemplando o espaço!

Olhar as estrelas, deitado na areia

Dormir debaixo da lua,

No chão do mundo



Dante Milano, via Alcides Villaça


sábado, 16 de maio de 2015

Poética


I.
O coração da poesia
são as metáforas


Para inventá-las
há que evitá-las



II.
O coração da poesia
bate no ritmo.


Nunca o paralisa
o ritmo dos silêncios



III.
O assunto da poesia
é outra coisa


Quanto mais idêntica a si mesma
Mais familiarmente estranha



IV.
A fonte da poesia
somos nós


Nossa bravura
Nossa covardia
Nossa bela incompetência



V.
O destino da poesia
sobrevive à folha
e à voz das traças



VI.
A missão da poesia
é muito precisamente
ser
o que
não 
fora 
da poesia


VII.
A morte da poesia 
não nos reconhecerá



Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, págs.23/24

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Largo do Arouche


o gato safado continua rindo.
postretutas oswaldianas andradeiam vigilantes
as floriculturas abundam em ramalhetes
bem em frente à Academia de letras 
da imortalidade paulista
um dia isso foi belle-époque
atravessar agora é suicídio
olho pro quinto andar: morei lá outrora
naquela sacada
do edifício de pastilhas
vivia cheio de ideias
não tenho tantas como antigamente

Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.72

sábado, 9 de maio de 2015

Evento oswaldiano


O grande poeta e ensaísta mexicano manifestava ao
auditório lotado suas afinidades com a literatura
de vanguarda em meio à leitura de seus poemas
barrocos.
Solicitado a reafirmá-las por um jovem centroavante
da vanguarda o grande poeta e ensaísta mexicano
reiterou suas afinidades com a literatura de
vanguarda em meio à leitura de seus poemas
barrocos.
Mas quem roubava a cena era uma fotógrafa esguia
de blusinha curta e jeans saint-tropez que para flagrar
o grande poeta e ensaísta mexicano em poses de
vanguarda
fazia tais malabarismos com o corpo elástico
exibia tamanho maleável no contorcionismo grácil
tantas posições arriscava atirando os cabelos
ora na pontinha dos pés
ora curvada nos joelhos
ora semideitada no lânguido carpete vermelho
que os rapazes e senhores mui entusiasmados
não mediram aplausos ao fecho da sessão
o que deixou sinceramente comovidos o grande 
poeta e ensaísta mexicano e o pessoal da vanguarda


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.10

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Madrugal paulistano


When I fall in live na alameda Glete
tocava na vitrola aquele hit do Nat
Magnólia, de flor, virou menina Mag.
O pisca azul-neon colhia-se na janela.

Não interessa o azul da adolescência breve?
Não vá morrer em sépia o que era cor mais leve.
São Paulo já foi nuvem, meu coração foi outro:
por que não repor Mag em sua primavera?


When I fall in love it will be forever
no primeiro Hi-Fi do último Telefunken:
nossas mãos se tocavam para o faustoso Gênesis
em que o ânimo de deus encorajasse as águas.

Uma luz de outro anjo, tão vaga, se quedava
no mundo silencioso da carne telepática.
O estrabismo de mag era um charme tão fino
na conjunção do olhar aceso azul abismo.

Em suor as mãos extáticas
fechavam-se numa audácia apenas enlaçada.
Penumbra azul, neon no parapeito.
Santa Cecília em luz na mag-madrugada.


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.39

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Esses poetas


Esse tem um plano, e já se aplaude.
Esse arde em memória, lembra e assopra.
Esse quer ter saudade, abre e morde.
Esse tem mistério, solta e fecha.
esse faz humor, diz que desdiz.
Esse tem traçados, pesos, balanças.
Esse faz versinhos, chuleia em casa.
Esse faz história, borda para fora.
Esse é rapsodo, come de tudo.
Esse é noctívago, retoca olheiras.
Esse é sonâmbulo, vive em sacadas.
Esse é pintor, usa dedos de água.
Esse é diabético, requer penínsulas.
Esse é ingênuo, dá o braço a virgílio.
Esse é irônico, quase não confessa.
Esse é dramático, cospe a própria máscara.
Esse é profundo, nunca vem à tona.
Esse é tão casto, toca luvas na harpa.
Esse é sem norte, sem sul, sem sorte.
Esse é tão seco, ninguém tem saco.
Esse é tão sutil, dedilha anagramas.
Esse é tão ambíguo, versos tão bimembres.
Esse é tão puro, tão puro, tão puro.


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.8

sábado, 2 de maio de 2015

Vida rápida



Toda manhã a gente toma café
na xicrinha de ágata vermelha.
Um dia ela permanece limpa limpa
sobre a toalhinha branca branca


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.92

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Farewell



Pois então, adeus.
Mas como tudo é breve,
até breve.


Se tudo é passagem,
por Minas, de trem, e além,
passar bem.


Se tudo o que é mais distante
logo logo fica perto,
até logo.


Se no invisível se tem
mais do que se vê,
até mais ver.


Se outra lição não é
um verso senão a volta,
até.


Se o pássaro gauche
deitou por terra o céu,
farewell.


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.93

domingo, 26 de abril de 2015

Os domingos


Justiça com os domingos:
eles começam em seda e pérola
porto ensolarado
nau aprestada
ares de viagem

É lentamente
que o domingo vai engordando

Perde um marfim
ganha suspeitas
retarda o almoço
pesado e acorda
estremunhado
em meio à tarde:
tarde demais

Os corpos moles querem morrer
o braço não alcança o botão da música
a televisão produz o espírito universal
não se fez a viagem água limpa não há



Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.79

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O primeiro mistério



Se a goiabada é feita de goiaba,
se de limão é eita a limonada,
do que será que é feita a madrugada, 
a alvorada, a revoada. De nada?

A madrugada é feita dos passeios
que as últimas estrelas dão no céu;
a alvorada é feita da preguiça
do sol que acorda e os braços já estendeu;
a revoada é feita pelas asas
de quem durante a noite adormeceu.

Mas de que é feito o céu? E o sol?
E cada estrela? E quem voou
antes que houvesse asas
e em seu próprio mistério se escondeu?


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.84

terça-feira, 21 de abril de 2015

Queda bruta


Quando caio em mim,
não é que sessenta anos hão passado?
Sem danos de monta,
o corpo distraído segue andando.


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.68

sábado, 18 de abril de 2015

Elas


Todas são bailarinas.
Sempre sabem
requisitar o palco
em que fazem
do corpo o que a alma escolher.

Todas dançam, magas. E buscam
encontrar os parceiros
sobre os quais rodopiem
até que eles confessem
quem, de fato, são.

Depois olham para o espelho
longamente
carentes do que já são.



Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.53

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Pela manhã


do portão vejo-a passar
short esculpido em rosa
rabo de cavalo em ouro
colo torneado em jambo
onda de luz vaga marinha


e ela me deita um olhar
aquele olhar que me aninha
um olhar claro incisivo,
direto invulnerável
qual respeitável netinha


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.55

domingo, 12 de abril de 2015

Lição


                                                         Quem morre sorri da morte.
                                                                               Dante Milano



Quem parte fala da morte
a lição desconhecida.
Por isso quis o ouvido,
pai, colado à tua boca.
Eu que o tempo tenho escrito
e lido desejos vivos
pu-me ouvinte do silêncio
antes que ele se fechasse
em sua boca, resumido.

Ouvi, sim, aquela música
da emancipação antiga, 
à margem, sim, das palavras
que nos remendam, as tímidas.
Queria tua narrativa,
um pedido, prosa pequena
que meu corpo atenderia;
mas não ouvi mais que um sopro,
um insuspeito suspiro, resíduo
do teu primeiro vagido,
teu susto de recém-nascido.




Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.87

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Mala de menino


Só o essencial de viagem:
           óculos escuros
           calção de banho
           álbum de figurinhas quase completo
           régua pequena para medir concha
           colherinha de cavar tatuíras
e a noite da véspera, interminável


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.82

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Correria


os jovens são tão rápidos
falam rápido
andam rápido
ouvem música rápida
somem e reaparecem sem aviso
mudam rápido de opinião

nunca têm tempo
pra concordar comigo


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.74

sábado, 4 de abril de 2015

Pedido


Que falam as pegadas na areia
de quem passou pela praia olhando
as nuvens e as estrelas?


Qual terá sido a canção do vento
que soprou na terra como no céu?


Alguém cante ou assobie
(para algum ouvido atento)
o rumo que tomou o vento.


Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.21

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Lampejo


Ela só queria um abraço
- Só um abraço, ela disse.
Assim dizendo me enlaçou
como sucede nos abraços.


E se despediu contente,
e com leveza partiu,
levando o abraço consigo
e me deixando abraçado
naquele abraço partido.



Alcides Villaça in Ondas Curtas, Cosac Naify, 2014, pág.45