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sábado, 26 de maio de 2012

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Efeitos colaterais!



Depois de um frugal almoço, nada melhor que um chocolate. Entro nas Americanas atrás de uns bombons. A loja é barulhenta, pois sempre tem um CD berrando, às vezes um DVD também, quando não um locutor oferecendo as promoções do dia em altos brados. Passo por entre as gôndolas de bombons e chocolates olhando de um lado para o outro, nada atiça minhas lombrigas. Olho mais à frente uma pilha de BIS em promoção, salivo. Pego uma caixa e vou à fila.

As pessoas mais próximas de mim são dois rapazes à minha frente e duas moças atrás. A fila é lenta de propósito, para forçar os consumidores apreciarem papel de presente, cadernos, meias, pendrives, chicletes, balas, cuecas, escovas de cabelo, CD virgem, DVD de  desenho animado, carrinhos, camisinhas, sorvetes, bebidas geladas, tudo ao alcance das mãos para tomar o dinheiro dos clientes.

Um pagode animado toma conta da loja. Imagino a cena: um bando de homens com roupas semelhantes, cantando juntos, instrumentos nas mãos, balançando os corpos de um lado para o outro, um passinho para frente, outro para trás, uma coreografia simples e animada. De repente, o rapaz à minha frente recua uns dois passos. Procuro o motivo do seu movimento: o homem à sua frente leva o samba nos pés. O pagode assume um ritmo mais animado, o que induz ao rapaz mexer também os quadris. As moças atrás de mim comentam que o rapaz sabe sambar. Nova virada rítmica e ele incorpora à sua coreografia a mão direita levantada em forma de taça, revirando-a no compasso do samba. A fila ri discretamente. Ele percebe, dá uma olhadinha para trás, controla-se e para seu bailado.

Nova faixa animada do CD. O rapaz tenta controlar-se, mas logo seus pés entram no samba. Ele olha muito para a esquerda. Acompanho seu olhar até dois televisores no outro lado da loja. Seria a origem da sua coreografia? Fixo o olhar, mas é a Paula Fernandes tocando violão. O som que embala o cidadão não é dela, com certeza. Enquanto eu reparava nas duas telas, os quadris e a mão do rapaz entraram no ritmo da música. Novas risadas da turma. Logo ele percebe e, acanhado, para seu gingado.

A fila não anda, a música para. O rapaz olha sério para as pessoas atrás dele, mas todos desviam o olhar. Ele está vestido discretamente, óculos de grau com armação azul escura, cabelos com máquina um ou dois, camisa pólo escura, jeans, sapatos de couro pretos, nada que revele um pagodeiro contumaz. Outra vez o pagode toma conta da loja. Todos ficam na expectativa da dança do rapaz. Entretanto, agora ele está atento apenas aos caixas, é o primeiro da fila.

Mas o pagode come solto, até eu fico com vontade de balançar o corpo. As moças cantarolam baixinho. O rapaz à minha frente faz da caixa de bombom Garoto um pandeiro. Como o outro resistiria? E lá vão os pés, depois os quadris, a mão, todo o corpo no ritmo dançante da música. "Próximo, caixa 6". Nosso bailarino evolui pelo corredor. Seria espírito de carnaval? Enquanto é atendido, seus pés não param. Ele comenta com o atendente sobre a música, os dois fazem sinal de positivo. Ele paga suas compras e desfila até a porta sem atravessar o ritmo.

Sou atendido pelo mesmo "caixa 6", a quem pergunto sobre a música que está no ar. Ele aponta para um cartaz: Este é o CD que você está ouvindo. ExaltaSamba, "a gente bota pra quebrar, 20 sucessos ao vivo." Explicado!

- O senhor gostou?
- Muito animado.
- Dá vontade de sair dançando, não?
- E como!
- Quer levar um?
- Não, obrigado.
- Por que não? Tá na promoção, pode parcelar...
- Não!! Ele causa graves efeitos colaterais!!!





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