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terça-feira, 8 de março de 2022

Chaves....

" ... mas foi durante a criação de Human Flow que percebi que os seres humanos, desde os tempos antigos até hoje, sempre estiveram procurando por uma casa - o processo de construir uma casa e sair de uma casa. Percebi que alguns refugiados ainda tinham as chaves de suas casas, embora todos soubéssemos que todas as ruas ou mesmo cidades inteiras onde moravam haviam desaparecido."

Ai Weiwei

domingo, 26 de setembro de 2021

O jumento e o sal


Um jumento carregado de sal atravessava um rio. A certa altura escorregou e caiu na água. Então o sal derreteu-se e o jumento, levantando-se mais leve, ficou encantado com o acontecido. Tempos depois, chegando à beira de um rio com um carregamento de esponjas, o jumento pensou que, se ele se deixasse cair outra vez, logo se levantaria mais ligeiro; por isso resvalou de propósito e caiu dentro do rio. Todavia ocorreu que, tendo-se as esponjas embebidas de água, ele não pôde levantar-se, e morreu afogado ali mesmo. Assim também certos indivíduos não percebem que, por causa das suas próprias astúcias, eles mesmos se precipitam na infelicidade. 

Esopo

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Passado.....

O passado vem nos buscar onde quer que a gente esteja.

Ignácio de Loyola Brandão

sexta-feira, 11 de junho de 2021

O poder do vinho....

Se com água você encher seus copos
Você nunca escreverá nada sábio
Mas o vinho é o cavalo de Parnassus
Que carrega um bardo para os céus.


Ditado grego

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Melão com presunto

Melão com presunto. Ou seria presunto com melão? Toda vez que como melão em fatias, penso que ele deveria ser servido com presunto, trazendo-me à lembrança um dia específico no fim da infância, início da minha adolescência. O melão seria a minha "madeleine", mas como não sou Proust, essa constante lembrança não consegue inspirar-me sete volumes e duas mil e quinhentas páginas, mas apenas esta pequena crônica.

O curioso é que a lembrança é sempre a mesma: eu e meu pai sentados à mesa da cozinha do apartamento de Botafogo, um melão entre nós. Sem mãe, irmã, empregada. Onde estariam? Devia ser um sábado ou domingo, por meu pai estar em casa de tarde. O melão seria a entrada do almoço? O lanche da tarde? Detalhes perdidos no tempo.

Meu pai colocou dois pratos na mesa, com presunto, e uma travessa larga vazia. Ele trouxe da geladeira a fruta amarela, colocou-a na travessa e disse: "melão espanhol, você vai gostar". Eu já conhecia algumas coisas da Espanha: toureiros, Dom Quixote, castanholas, azeite, flamenco, vinho, o dono da quitanda perto de onde morara, agora iria conhecer o melão. Parecia-me uma melancia pequena ou uma laranja bem grande.

Papai pegou um facão, espetou-o, com uma certa dificuldade, numa das pontas do melão. Segurando a fruta com a mão esquerda, fez o facão deslizar pela casca até a outra ponta. O corte pareceu-me um sorriso, um sorriso "melãocólico". Sacou a lâmina, rodou a fruta, cravou-a e deslizou-a com maestria até encontrar com o primeiro corte exatamente na outra ponta. Cortes precisos, cirúrgicos, permitindo a extração de um bonito pedaço da fruta. Levantou uma ponta do pedaço com o facão, o suficiente para retirá-lo e colocá-lo no prato. Fiquei surpreso: o tal melão não se parecia, por dentro, nem com melancia nem com laranja. Tinha uma poupa amarelo-esverdeada, com muitas sementes quase brancas na parte superior, achatadas e alongadas, presas por uma gosma amarelada. Nada daquelas sementes pretas pequenas da melancia, encrustadas em toda a fruta, que a gente tinha que cuspir para não ter apendicite ou morrer, como minha mãe alertava. Engolindo um daqueles caroços pretos e brilhantes, nem dormia de tanta preocupação.

Voltando ao melão, meu pai deslizou o facão pela parte superior daquele pedaço, separando as sementes. Depois, deixou o facão percorrer a fatia da fruta em paralelo à casca, mas com pressão exata, de forma que a parte cortada ficasse sobre a casca. Parecia um toureiro espanhol manejando espada. Agora o facão vai de cima para baixo cortando a meia lua em pequenos pedaços geométricos. O pedaço ficou parecendo o sorriso do gato da Alice, brilhando no escuro. Uma simpatia, esse tal de melão espanhol.

Meu pai repetiu a operação, colocando um sorriso no seu prato. Uma coca para mim, uma cerveja para ele, não é que o melão com presunto era bom mesmo? O doce da fruta contrastava e completava o salgado do presunto. "Quer mais?" Repetimos. Ficou na lembrança o melão espanhol, como meu pai frisava. Do presunto não guardei a nacionalidade, poderia ser um parma, um brasileirinho, mas era coisa do dia a dia. 

A Martina, apesar da tenra idade, já conheceu melão e adorou. Entretanto, a fruta já chega para ela em pequenos pedaços que possa pegar com a mão. Um dia, quem sabe, ela já grandinha, podendo comer com garfo e faca, repetirei o balé do corte da fruta, farei o sorriso do gato da Alice para ela, apesar de não ter a precisão geométrica de papai.

Outro dia fiquei pensando porque aquele melão seria espanhol. Pesquisando, constatei que, por muito tempo, o melão comercializado vinha da Espanha, no Brasil só era encontrado em pomares caseiros. Depois, com o aumento da demanda, as plantações comerciais transformaram o Brasil em grande exportador de melão, não só do tipo espanhol, como de outros tipos, com cores e sabores variados. Ao Mercadão!

Na Espanha existe um ditado popular que diz que o "melão pela manhã é ouro, ao meio dia é prata e pela tarde mata", querendo mostrar que o melão sendo um fruto alcalizante, cai melhor no desjejum. Papai dera-me prata ou queria matar-nos? Aqui estou, foi prata!

Passei por uma fase de problemas com uma hérnia de hiato. O médico suspendeu tudo que eu gostava de beber: bebidas alcoólicas, refrigerantes, chocolates, mates, etc. No dia a dia, a proibição que mais me incomodou foi o mate, que tomava toda tarde nas lojinhas em volta do trabalho. Tive que trocar por suco de melão. Uma vez o empregado da lanchonete fez o suco na minha frente e, quando colocou os pedaços da fruta no copo do liquidificador, quase perguntei se não dava para bater com umas fatias de presunto…..

Nesses anos, comi muitos melões, no Brasil e no exterior, com ou sem presunto, de diversos tipos, mas aquele primeiro é incomparável, o único memorável. Não se tem mais melão espanhol como aquele? Ou aos outros faltou o ingrediente especial, meu pai?


José FRID

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Escrava....

Também sem voz está a mulher a que Frederick Douglass se refere em sua autobiografia:

Não obstante, ela foi deixada escrava - escrava para o resto da vida - escrava nas mãos de estranhos; e nas mãos deles ela viu seus filhos, seus netos e seus bisnetos, divididos, como tantas ovelhas, sem se gratificar com o pequeno privilégio de uma única palavra, quanto ao seu próprio destino.

Douglass escreve três vezes como escrava, primeiro simplesmente e depois acrescentando palavras para ter certeza de que o leitor entende o horror de seu estado: uma escrava para a vida e uma escrava nas mãos de estranhos. Ele também repete os filhos, estendendo a palavra através das gerações, da mãe aos bisnetos. Ela não pode proteger ninguém, incluindo ela mesma. Cada repetição é um passo no caminho para mais agonia.

Also voiceless is the woman Frederick Douglass refers to in his autobiography:

She was nevertheless left a slave—a slave for life—a slave in the hands of strangers; and in their hands she saw her children, her grandchildren, and her great-grandchildren, divided, like so many sheep, without being gratified with the small privilege of a single word, as to their or her own destiny.

Three times Douglass writes slave, first simply and then adding words to be sure that the reader understands the horror of her state: a slave for life and a slave in the hands of strangers. He also repeats children, extending the word through generations, from the mother to her great-grandchildren. She can protect no one, including herself. Each repetition is a step on the path to more agony.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

"Bang"!

GUERRA - UM HORRÍVEL CONFLITO DE INFANTARIA, que me fez acordar no meio da noite e sentir vontade de me refugiar no mato feito Thoreau - estou sozinho numa espécie de colégio, cercado de todos os lados por orientais que disparam de uma distância de 100 metros, pelos campos e matagais, com trabucos e espingardas, numa barulhada ensurdecedora, ou que todos fazem pontaria contra mim, tão inocente e infantil no sonho, e a única "arma" de que disponho é fazer "pum" com a boca, merda, pelas janelas e mesmo quando as vidraças se quebram e o inimigo aponta as espingardas ali dentro para mim, levanto o revólver de brinquedo e grito "bang"! - Não paro de imaginar a chuva de balas penetrando no meu corpo, a dor, mas por enquanto nada disso acontece - no entanto são tantos os tiros desfechados contra a escolinha, que é, em parte, a Secundária de Bartlett, mas só no andar térreo, e parecida com a Casa Mal-assombrada em frente ao Joe e qualquer coisa anterior, mais estranha ainda - as balas são tantas que não é possível que não seja atingido. Finalmente o dia nasce enluarado e nem sei bem como vou me livrar dessa situação, pois de repente encontro balas de verdade e uma espingarda que funciona e coloco uma cápsula dentro dela, só que não consigo achar o gatilho, um inimigo assesta a arma na janela para me matar e a única coisa que faço é levantar a espingarda de verdade e fazer "pum"! - Tinha esperança de sair furtivamente no meio da escuridão, mas no luar, que já vai clareando com o romper do dia, dá para enxergar nitidamente vultos de índios que se aproximam em rápidas corridas entre as árvores - e não posso sair sem risco, rumo à segurança, ao esquecimento, do outro lado dos matagais. Acordo percebendo que gostaria de estar morto, e pensando na próxima guerra, que não conseguirei sobreviver, me lembrando dos nossos soldados que estão na Coréia, de mãos atadas nas costas, caídos no chão, fulminados por baionetas, vítimas de armas que nada têm de brinquedo, uma morte lúgubre sob a geada de inverno. Não vejo por que o Ocidente deva sofrer a indignidade de viver no mesmo planeta com esses Mongóis Idiotas do Oriente, que investiram aos milhares de suicidas em ataques ao luar  e adoraram a experiência - Pearl Harbor foi só o começo - Ganharam couraçados dignos de Átila - acho que deve haver outros mortos junto comigo na sala de aulas - não vejo nem percebo nenhum no meio das cores douradas, estranhas e gerais deste sonho horrível e definitivamente desesperado.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.147/148

sábado, 30 de maio de 2020

Experiências sexuais.....

Nessa época o meu irmão mais velho me levou para transar com uma prostituta. Foi uma experiência horrível, mecânica, completamente sem graça. O que considero a minha primeira experiência sexual, de verdade, ocorreu dentro da fazenda do meu avô, com uma das primas distantes de minha mãe. Uma delas, de 17 anos, ficava se insinuando para mim, que estava com 13 anos. Não perdi tempo. À noite, ia escondido para o quarto dela e fingia que dormia. A família falava: "É uma criança, deixa ele...". Eu ficava lá, fingindo que dormia, e quando ela deitava rolava uma transa gostosa. A cena se repetia por alguns dias, da mesma maneira: eu me deitava na cama de minha prima, fingia que estava dormindo e rolava a transa. Era um código entre nós, cheios de hormônios. Minhas experiências sexuais na adolescência foram bem esporádicas, eu não sentia necessidade de transar. E como eu não namorava, não tinha com quem transar. O sexo só virou um interesse mesmo após os 30 anos, até que me tornei compulsivo por sexo, não conseguia dormir se não transasse. Com o tempo, quando comecei a perceber que era atraído por homens, tive uma crise moral. Eu achava que homem que transava com homem andava rebolando na rua de sobrancelha feita, pois era essa minha referência, um estereótipo que construí na minha cabeça. 

Não me sentia culpado por nada, tinha era medo de me transformar no único exemplo de "viado" que havia em Mato Grosso, uma verdadeira "Geni". E, certa vez, um homem cheio de trejeitos passou na rua, em frente de minha casa, e as pessoas começaram a xingar. Orgulhoso, ele mantinha o passo e os trejeitos firmes, requebrando. Era um homem gay que trabalhava num hotel, e sempre que me via ficava parado em frente à casa dos meus tios, para depois me seguir pela cidade. Eu morria de medo dele. Minha tia me dizia que ele estava apaixonado por mim. Eu, aos 16 anos, respondia: "Deus me livre!" Tudo que não queria, com todas as minhas questões, era o gay da cidade apaixonado por mim. Ele morava sozinho, um escândalo na época, pois homem só saía de casa aos 21 anos para casar.

Ney Matogrosso in  pág.35


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Liberdade....

em outra crônica memorável, esta publicada em 4 de novembro de 1894, Machado, que era assíduo leitor de Montaigne, estabelece um preciso e irônico juízo histórico sobre um tópico de larga tradição humanista e liberal, a liberdade, comparando os fundamentos de uma antiga cena européia  com os do cenário brasileiro contemporâneo. Observa o cronista: "A liberdade é um mistério, escreveu Montaigne, e eu acrescento que o monopólio é outro mistério, e, se tudo são mistérios neste mundo, como no outro, fiquem-se com seus mistérios que eu vou aos meus espinafres." Pois logo após a Abolição - e com a modernização dos bondes elétricos, como se pode ler em outra de suas crônicas -, os burros também tiveram a "liberdade de morrer" de fraqueza ou de fome, os escravos gozaram da "liberdade" de continuar a receber petelecos, pontapés e salários irrisórios, e os homens livres, como a engomadeira da rua Senhor dos Passo, da liberdade de se "oferecer em aluguel" ou, como aquele empregado doméstico, da "liberdade" de pronunciar ou não corretamente a palavra "debêntures", perdendo sempre todas as suas economias e, como consolo, traduzir quaisquer transações financeiras por "desventuras". 

Ivan Junqueira in Cinzas do espólio, Record, pág.262

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

um dia, nos setenta:

um dia, nos setenta:

cheguei da rua
carregando uma maçã
e seis meses de desemprego.
li uma carta de minha mãe
fechei as janelas
a porta, a cara
deitei-me no chão
e abri o gás.
esperei.
e, somente meia hora depois,
descobri o gás cortado
por falta de pagamento.
levantei-me
e comi a maçã:
nu e louco
 como o quadro da bienal.

Marçal Aquino

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

MULHER CONTEMPORÂNEA?

Almeida Júnior,  1899!!!
(Detalhe de "A Saudade ")

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Agredir primeiro.....

Quando surgiu o Secos & Molhados, na década de 1970, vivíamos num país muito conservador, machista - não muito diferente do que vivenciamos hoje, talvez hoje ainda seja pior -, então nós causávamos incômodo e estranheza com a carga de transgressão através da questão sexual, do comportamento. Tínhamos consciência de que vivíamos num país careta, submetido a uma ditadura militar agressiva e nojenta. Recebi inúmeras ameaças de morte, mas nunca me intimidei. Minha arma era a libido. Sempre fui muito recatado, mas descobri que, com aquela maquiagem, liberava um lado meu mais agressivo, contestador. O que eu fazia era para chocar e questionar. Já entrava no palco com tanta raiva que não havia espaço para me agredirem, eu agredia primeiro. Enfim, hoje não é muito diferente. No atual momento do país, com o crescimento da bestialidade do conservadorismo, penso que um grupo como o Secos & Molhados apanharia na rua.



Ney Matogrosso in Vira-lata de raça - Memórias   

sábado, 14 de dezembro de 2019

Ney-anjo

Ney foi o anjo enviado por Deus para que o brasileiro compreenda melhor sua louca identidade de homem-mulher unidos num só: pássaro e tigre, cobra e borboleta, miséria e esplendor. Muito além do bustiê, Ney Matogrosso parece uma tese de mestrado ao vivo sobre a ambiguidade deste país. Tê-lo entre nós nos deixa mais nítidos e felizes também, pois a clareza dele é bela e como ele é nós, épico e arquetípico, nos tronamos belos através dele e muito mais livres e muito mais nobres. Rosa de Hiroshima soropositiva, seria radioativa, something between Greta Garbo, Rodolfo Valentino e Antígona: saúde!

Caio Fernando Abreu in Ney Matogrosso, muito além do bustiê, O Estado de São Paulo, 3 de fevereiro de 1995

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O tempo e o mar.....

O tempo é meu aliado, a minha casa. O tempo é uma invenção, ele simplesmente é. O tempo sou eu. Eu sou. Esse tempo contado, fragmentado, não existe, nós é que o inventamos. O tempo não está passando por nós, e sim nós é que estamos passando por ele. Somos nós que acessamos o tempo em algum instante. Se eu me submetesse ao tempo já seria um homem velho. Não tenho medo do tempo, tenho medo é do mar. Acredito que meu medo do mar seja um trauma de infância, quando minha família viajou da Bahia para o Rio de Janeiro de navio, durante a guerra, e pegamos um imenso temporal. Minha memória desse episódio é muito fragmentada, mas recordo das lembranças de minha mãe: ela diz que eu fiquei na cama olhando a tempestade por uma pequena janela redonda, vomitando o trajeto inteiro de tanto enjoo. Estava tão assustado com a tempestade e com a imponência do mar que não conseguia levantar da cama. Teve também outro episódio na infância em que me afoguei no mar e fui resgatado por um homem que não tinha um braço. Penso que esse medo do mar se alastrou por toda minha vida, mas não me paralisou, me fez aprender a lidar com o tempo. Eu faço o meu tempo da forma como penso e digo, como encaro a vida: trabalho com a palavra, sou um ator que canta. A palavra é o pensamento materializado, pois as palavras têm poder. Os místicos já diziam isso, nós criamos o nosso tempo.  

Ney Matogrosso in Vira-lata de raça - Memórias

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Como ele começou a fumar....

Levado por meu pai para assistir à inauguração de Brasília, deixei cair a jovem mandíbula ante tanta pompa, tanto fraque, tanta esquadrilha da fumaça, vendo passar em carro aberto o presidente Juscelino a distribuir acenos para nós, o populacho. Provavelmente me senti na obrigação de também eu fazer alguma coisa, qualquer coisa, para estar à altura do momento histórico – mesmo que essa coisa fosse me encostar no balcão de uma vendinha e, como quem anunciasse ao mundo a sua entrada na idade adulta, comprar o primeiro maço de cigarros, para a ele escravizar-me pelos 20 anos seguintes. A situação terá sido ainda mais risível, me ocorre agora, se a inspiração tabagística tiver vindo (desconfio que sim) do espetáculo daqueles aviões a esguichar fumo no céu da nova capital.

Humberto Werneck  no Estadão de 15 de outubro de 2019.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Urinar e escrever ....

Talvez lhe interesse saber (e ver) que a minha escrita voltou a ser o que era. Ela foi afetada durante semanas em consequência do meu último acesso de distúrbios urinários, os quais estão agora desaparecendo. Existe um vínculo interior entre o fato de urinar e o de escrever, e certamente isso não acontece somente comigo. Quando notei os primeiros sinais de hipertrofia prostática no funcionamento da minha bexiga em 1909, em Nova York, sofri ao mesmo tempo da cãibra dos escritores, coisa que jamais me ocorrera até então.

Freud in O Homem Freud - O romance do inconsciente - Lydia Flem, pág.161