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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
fim
fim
keats quando estava deprimido
se sentindo mais pateta que poeta
vestia uma camisa limpa
eu tomei um banho
com os dedos ajeitei os cabelos
vesti roupas limpas
olhei praquele espelho
o suficiente pra
sem relógio caro
fazer pose de lota
e sem pistola automática
pose de anjo do charlie
então eu disse: "é, gata"
rápida peguei as chaves
saí num pulo
só fui rir no elevador.
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - Cosacnaif
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
estatuto do desmallarmento
minha senhora, tem um mallarmé em casa?
você sabe quantas pessoas morrem por ano
em acidentes com o mallarmé?
estamos organizando uma consulta popular
para banir de vez o mallarmé dos nossos lares
as seleções do reader's digest fornecerão
contêineres onde embarcaremos os exemplares,
no porto de santos, de volta pra frança.
seja patriota, entregue seu mallarmé. olê.
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - Cosacnaif
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domingo, 2 de setembro de 2012
entro na livraria do bobo
entro na livraria do bobo.
não tenho dinheiro
e tampouco tenho talento para o crime.
desfilam ante meus olhos
títulos maravilhosos
moribundos de tanto estar
nas prateleiras.
roube-nos, dizem eles.
não agüentamos mais ficar aqui
na livraria do bobo.
quem acreditaria
nesta versão dos fatos?
ajudem-me, maragatos
nesta hora afanérrima
de uma libertadora paupérrima
de livros.
retumba meu coração. retumba
mais que a bateria do salgueiro.
treme o corpo por inteiro
e as mãos já suam em bicas.
ganho a rua, as mãos vazias
e os livros gritam: maricas.
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - Cosacnaif
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sexta-feira, 31 de agosto de 2012
não adianta
não adianta
chegar na porta
e ordenar
abra
öffnen
open
é preciso
girar a chave
e mais
é preciso saber
qual chave
ou então
esbarrar na dureza
de certos materiais
mogno pinho
cedro ou lâmina
de qualquer madeira
conhecer a chave
ou intuir para que
lado gira
tantos têm
tão pouca paciência
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - Cosacnaif
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quarta-feira, 29 de agosto de 2012
família vende tudo
família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - Cosacnaif
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segunda-feira, 27 de agosto de 2012
aos onze anos
aos onze anos
atrás da casa da minha avó
na colônia de pescadores z-3
eu fumava um cigarro gol comprado
avulso num boteco
onde a moça conhecia a minha mãe
a moça me olhou atravessado
mas me deu o cigarro mesmo assim
e lá onde tinha uma horta
eu minha irmã e uma prima
demos nossas primeiras baforadas
foi bem ruim
o medo deu uma estragada
no gol de cinco centavos
que alguém jogou fora
ao ouvir uma tia um cachorro ou
o vento nos pés de couve
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segunda-feira, 20 de agosto de 2012
o que passou pela cabeça do violinista
o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivárius no grande desastre
aéreo de ontem
dó
ré
mi
eu penso em béla bartók
eu penso em rita lee
eu penso no stradivárius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso
dó
ré
mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three
Angélica Freitas in "Rilke Shake", 7 Letras - CosacNaif
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Mulher de regime
eu me sinto tão mal
eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal
engordei vinte quilos depois que voltei do hospital
quebrei o pé
eu vou lhe contar eu quebrei o pé
e não pude mais correr eu corria 10 km/dia
aí um dia minha mãe falou: regina
regina você precisa fazer um regime você está enorme
você fica aí na cama comendo biscoito
e usando essa roupa horrível que parece um saco de batatas
um saco de batatas com um furo pra cabeça
também não precisava óbvio que fiquei magoada
primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão
daí eu comecei regime porque me sentia mal
eu me sinto mal eu me sinto tão mal
troquei os biscoitos por brócoli queijo cottage e aipo
coragem eu não tenho de fazer uma lipo
eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo
tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo
eu vou lhe dizer eu me sinto tão mal
engordei vinte quilos depois que voltei do hospital
quebrei o pé
eu vou lhe contar eu quebrei o pé
e não pude mais correr eu corria 10 km/dia
aí um dia minha mãe falou: regina
regina você precisa fazer um regime você está enorme
você fica aí na cama comendo biscoito
e usando essa roupa horrível que parece um saco de batatas
um saco de batatas com um furo pra cabeça
também não precisava óbvio que fiquei magoada
primeiro fiquei muito magoada depois pensei: ela tem razão
daí eu comecei regime porque me sentia mal
eu me sinto mal eu me sinto tão mal
troquei os biscoitos por brócoli queijo cottage e aipo
coragem eu não tenho de fazer uma lipo
eu me sinto tão mal por tudo que comi esse tempo todo
tão mal e tem tanta gente passando fome no mundo
ANGÉLICA FREITAS in Folha de São Paulo - Ilustríssima, 2 de outubro de 2011
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domingo, 9 de outubro de 2011
Mulher de posses
em comum com o mestre zen
que partiu a sua xícara
porque a ela se apegava
esta mulher não tem nada
por outro lado, tem
aparelho completo de chá
e faqueiro vindo de solingen
nunca ofereceu
um chá que fosse
e banquetes, quando houve
só usaram tramontina
mas nada pretende vender
e se é uma arte perder
desolée, não a domina
ANGÉLICA FREITAS in Folha de São Paulo - Ilustríssima, 2 de outubro de 2011
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Mulher de rollers
no condomínio querem saber
se ela pirou de vez ou
se vai competir
nalguma espécie de jogos olímpicos
porque deu para andar de rollers
na área comum do prédio
prejudicando a saída
e a entrada de veículos
ainda por cima anda mal
nem ganhou velocidade
pirueta é coisa então
para a próxima encarnação
consternação entre condôminos
com seu senso do ridículo
"que essa daí vai acabar
como na música do chico"
"vai passar nesta avenida
o samba popular?"
"não, atrapalhando o trânsito"
ANGÉLICA FREITAS in Folha de São Paulo - Ilustríssima, 2 de outubro de 2011
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terça-feira, 4 de outubro de 2011
Mulher de vermelho
o que será que ela quer
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser
ANGÉLICA FREITAS in Folha de São Paulo - Ilustríssima, 2 de outubro de 2011
essa mulher de vermelho
alguma coisa ela quer
pra ter posto esse vestido
não pode ser apenas
uma escolha casual
podia ser um amarelo
verde ou talvez azul
mas ela escolheu vermelho
ela sabe o que ela quer
e ela escolheu vestido
e ela é uma mulher
então com base nesses fatos
eu já posso afirmar
que conheço o seu desejo
caro watson, elementar:
o que ela quer sou euzinho
sou euzinho o que ela quer
só pode ser euzinho
o que mais podia ser
ANGÉLICA FREITAS in Folha de São Paulo - Ilustríssima, 2 de outubro de 2011
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segunda-feira, 4 de abril de 2011
Às vezes nos reveses
às vezes nos reveses
penso em voltar para a england
dos deuses
mas até as inglesas sangram
todos os meses
e mandam her royal highness
à puta que a pariu.
digo: agüenta com altivez
segura o abacaxi com as duas mãos
doura tua tez
sob o sol dos trópicos e talvez
aprenderás a ser feliz
como as pombas da praça matriz
que voam alto
sagazes
e nos alvejam com suas fezes
às vezes nos reveses
Angélica Freitas in Rilke shake, Cosac Naify, 2007
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sábado, 5 de março de 2011
Violinista
o que passou pela cabeça do violinista em que a morte acentuou a palidez ao despenhar-se com sua cabeleira negra & seu stradivarius no grande desastre aéreo de ontem
dó
ré
mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso
dó
ré
mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three
Angélica Freitas in Rilke shake, Cosac Naify, 2007
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