Mostrando postagens com marcador Kafka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kafka. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de setembro de 2021

A arte...

A arte quebra o mar que está congelado dentro de nós.

Kafka

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Convém distinguir...

Por que comparas teu mandamento interior com um sonho? Ele te parece, por acaso, absurdo, incoerente, inevitável, irrepetível, origem de alegrias ou terrores infundados, incomunicável em sua totalidade, porém ansioso de ser comunicado, como são precisamente os sonhos?

Franz Kafka, in Quarto caderno in-oitavo, transcrito por Jorge Luis Borges in O Livro dos Sonhos, pág.63 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Kafka e Joyce - os obstáculos

(...)

Joyce  era um homem capaz, quanto a isso não há dúvidas; Kafka, em compensação, não era capaz, era desajeitado e transformou-se em especialista de sua própria falta de jeito. Joyce carrega um estandarte que diz: Sou aquele que supera todos os obstáculos, enquanto Kafka escreve num bloco e guarda num bolso de sua jaqueta abotoada esta inscrição: Sou aquele a quem todos os obstáculos superam.


Ricardo Piglia in Respiração artificial, Companhia das Letras, 2010, pág.193

domingo, 9 de novembro de 2014

Kafka


Sou
o equilibrista que
no ar caminha
descalço
sobre um arame
de farpas


Ricardo Piglia in Respiração artificial, Companhia das Letras, 2010, pág.189

domingo, 27 de janeiro de 2013

Literatura realista

 
"Penso que os limites da literatura realista são os da realidade, que não tem limites. Que à realidade pertencem a ação humana e também os sonhos humanos. Os pesadelos de Kafka, as trabalhadas ficções psicológicas de Proust ou Dostoiewski, a impecável objetividade de Hemingway, a mítica de Carpentier, as fantasmagorias alucinantes de um Cortázar... expressam zonas diferentes, níveis distintos de uma só realidade."


Mario Vargas Llosa, citado por Flávio Moreira da Costa in "Os  Subúrbios da Criação", Livraria e Editora Polis Ltda. – São Paulo/SP – 1979, p.37

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Semana dos Pais - Da dificuldade de criar filhos: Kafka e seu pai - parte final

(Clique no algarismo e leia as partes anteriores:  I,  II , III, e IV )



Querido Pai:


........


Você tinha especial confiança na educação pela ironia, era ela a que melhor correspondia à sua superioridade sobre mim. Em você uma admoestação tinha comumente esta forma: "Será que você não pode fazer isto assim e assado? Será que é demais para você? Naturalmente para isso você não tem tempo, não é?", e coisas semelhantes. Nessa hora cada pergunta era acompanhada por um riso maldoso e uma cara feia. De certo modo a pessoa já estava punida antes mesmo de saber que tinha feito algo errado. Eram provocadoras também as repreensões em que se era tratado na terceira pessoa, ou seja, como alguém indigno até da interpelação malévola, na qual você se dirigia formalmente à minha mãe, mas na realidade a mim; assim, por exemplo: "Naturalmente não se pode exigir isso do senhor meu filho" e coisas do gênero. (A contrapartida foi que eu, por exemplo, não ousava e mais tarde nem mesmo cogitava de lhe fazer perguntas diretas quando minha mãe estava presente. Era muito menos arriscado para o filho perguntar por você à mãe sentada ao seu lado; então se indagava: "Como vai o meu pai?" e assim se evitavam surpresas.) Evidentemente havia casos em que se estava muito de acordo com a ironia mais acerba, quando ela dizia respeito a outra pessoa, por exemplo Elli (irmã mais velha de Kafka), com quem estive em más relações durante anos. Para mim era uma festa da maldade e do júbilo pela infelicidade alheia quando, em quase todas as refeições, se falava dela assim: "A ampla mocinha precisa ficar sentada a dez metros de distância da mesa", lance em que você, então, maldoso na sua cadeira, sem o menor vestígio de amabilidade ou de humor, mas sim na postura de um inimigo encarniçado, procurava imitar, com exagero, a maneira como ela se sentava, extremamente repulsiva para o seu gosto. Com que freqüência essa e outras coisas parecidas tiveram de se repetir, quão pouco você alcançou na prática efetiva! Acredito que isso se devia ao fato de que o dispêndio de ira e malevolência não parecia estar numa proporção certa com a coisa propriamente dita; não havia o sentimento de que a ira tivesse sido provocada por aquela ninharia de sentar longe da mesa, mas que ela existia de antemão em toda a sua magnitude e que só casualmente fora tomada como pretexto para se desencadear. Uma vez que se estava convencido de que o pretexto seria encontrado de qualquer modo, não havia nenhuma preocupação especial com a conduta; além do que ficava-se insensibilizado com as constantes ameaças, pois aos poucos já se estava quase seguro de que ninguém iria apanhar. A criança se tornava rabugenta, desatenta, desobediente, sempre pensando numa fuga, a maioria das vezes numa fuga interior. Assim você sofria, assim sofríamos nós. Do seu ponto de vista você tinha toda razão quando, com os dentes cerrados e o riso gorgolejante, que haviam transmitido ao filho, pela primeira vez, as imagens do inferno, costumava dizer (como ainda recentemente a respeito de uma carta de Constantinopla): "Isto sim é que é companhia!".

......

É fato também que você nunca me bateu de verdade. Mas os gritos, o enrubescimento do seu rosto, o gesto de tirar a cinta e deixá-la pronta no espaldar da cadeira para mim eram quase piores. É como quando alguém deve ser enforcado. Se ele é realmente enforcado, então morre e acaba tudo. Mas se precisa presenciar todos os preparativos para o enforcamento e só fica sabendo do seu indulto quando o laço pende diante do seu rosto, então ele pode ter de sofrer a vida toda com isso. Além do mais, das muitas vezes em que, na sua opinião declarada, eu teria merecido uma surra, mas escapara por um triz por causa da sua clemência, se acumulava de novo um grande sentimento de culpa. De todos os lados eu desembocava na sua culpa.




Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 25/26 e 30, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.



Sobre o livro do Kafka e as coincidências leia "De Castello a Castelo, de Kafka a Kafka - mera coincidência?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Kafka e o pai (IV/IV)

 (Clique no número para ler as partes I, II ou III)

Querido Pai:

........

A impossibilidade do intercâmbio tranquilo teve uma outra consequência na verdade muito natural: desaprendi a falar. Certamente eu não teria sido, em outro contexto, um grande orador, mas sem dúvida teria dominado a linguagem humana fluente e comum. No entanto, logo cedo você me interditou a palavra, sua ameaça: "Nenhuma palavra de contestação!" e a mão erguida no ato me acompanharam desde sempre. Na sua presença – quando se trata das suas coisas você é um excelente orador – adquiri um modo de falar entrecortado, gaguejante, para você também isso era demais, finalmente silenciei, a princípio talvez por teimosia, mais tarde porque já não podia pensar nem falar. E como você era meu verdadeiro educador, isso repercutiu em todos os aspectos da minha vida. No geral é um curioso equívoco você acreditar que nunca me submeti à sua vontade. "sempre do contra em tudo" não foi realmente meu princípio de vida diante de você, como acredita e me recrimina por isso. Pelo contrário: se eu tivesse obedecido menos, você na certa estaria muito mais satisfeito comigo. O fato é que as suas medidas educativas acertaram no alvo; não me esquivei a nenhuma investida sua; assim como sou (naturalmente pondo de lado os fundamentos e a influência da vida), sou o resultado da sua educação e da minha docilidade. Que esse resultado apesar disso lhe seja penoso, que você se recuse inconscientemente a reconhecê-lo como produto da sua educação, se deve justamente ao fato de que sua mão e o meu material eram tão estranhos um ao outro. Você dizia: "Nenhuma palavra de contestação!" e com isso queria silenciar em mim as forças contrárias que lhe eram tão desagradáveis, mas essa influência era muito forte para mim, eu era dócil demais, emudecia por completo, me escondia de você e só ousava me mexer quando estava tão distante que o seu poder não me alcançava mais, pelo menos diretamente. Mas você estava ali, diante de mim, e tudo lhe parecia ser novamente "do contra", quando era apenas a conseqüência natural da sua força e da minha fraqueza

Seus recursos oratórios extremamente eficazes e que nunca falhavam, pelo menos comigo, eram: insulto, ameaça, ironia, riso malévolo e – curiosamente – autoacusação.


Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 22/23, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Semana dos Pais: Kafka: Querido pai (III/IV)

Querido Pai:

........


Eu teria precisado de um pouco de estímulo, de um pouco de amabilidade, de um pouco de abertura para o meu caminho, mas ao invés disso você o obstruiu, certamente com a boa intenção de que eu devia seguir outro. Mas para isso eu não tinha condições. Você me estimulava, por exemplo, quando eu batia continência e marchava direito, no entanto eu não era um futuro soldado; ou me estimulava quando eu comia vigorosamente e além disso conseguia beber cerveja; ou quando sabia repetir canções que não compreendia, ou arremedar suas expressões prediletas; nada disso, entretanto, fazia parte do meu futuro.
.....

Era então, em tudo e por tudo, que eu teria precisado de estímulo. Já estava esmagado pela simples materialidade do seu corpo. Lembro-me por exemplo de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, você forte, grande, largo. Já na cabine me sentia miserável e na realidade não só diante de você, mas do mundo inteiro, pois para mim você era a medida de todas as coisas. Mas quando saíamos da cabine diante das pessoas, eu na sua mão, um pequeno esqueleto, inseguro, descalço sobre as pranchas de madeira, com medo da água, incapaz de imitar seus movimentos para nadar, que com boa intenção, mas de fato para minha profunda vergonha, você não parava de me mostrar – então nesses momentos eu ficava muito desesperado e todas as minhas más experiências em todas as áreas confluíam em grande estilo. Só me sentia melhor quando você algumas vezes se despia primeiro e eu ficava sozinho, podendo adiar a vergonha da aparição pública até o momento em que você vinha ver o que estava acontecendo e me tirava da cabine. Ficava grato porque você parecia não notar minha aflição e também tinha orgulho do corpo do meu pai. Aliás, essa diferença entre nós subsiste ainda hoje de forma parecida.

Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 15/16, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.

Leia as duas primeiras partes: clique na parte I e parte II


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Semana dos Pais: Kafka: Querido pai (II/IV)

(Veja parte I aqui)

Pai:

........

Eu era uma criança medrosa: é claro que apesar disso também era teimoso como o são as crianças; certamente também minha mãe me mimou, mas não posso crer que fosse um menino difícil de lidar, nem que uma palavra amável, um silencioso levar pela mão, um olhar bondoso não pudessem conseguir de mim tudo o que se quisesse. Ora, no fundo você é um homem bom e brando (o que se segue não vai contradizer isso, estou falando apenas da aparência na qual você influenciava o menino), mas nem toda criança tem a resistência e o destemor de ficar procurando até chegar à bondade. Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia, ruído e cólera, e neste caso isso lhe parecia, além do mais, muito adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso.

Naturalmente, hoje não posso descrever sem mediações seus métodos pedagógicos nos primeiros anos, mas posso talvez imaginá-los por dedução dos anos posteriores e a partir da maneira como você trata Félix. Neste caso entra em consideração, como agravante, o fato de que naquele tempo você era mais jovem, portanto mais disposto, mais genuíno, mais despreocupado do que hoje, e de que, além disso, inteiramente ligado aos negócios, mal podia se mostrar uma vez ao dia para mim, e por isso a impressão que me causava era mais profunda ainda, tanto que jamais se banalizou em hábito.

De imediato eu só me recordo de um incidente dos primeiros anos. Talvez você também se lembre dele. Uma noite eu choramingava sem parar pedindo água, com certeza não de sede, mas provavelmente em parte para aborrecer, em parte para me distrair. Depois que algumas ameaças severas não tinham adiantado, você me tirou da cama, me levou para a pawlatsche (varanda) e me deixou ali sozinho, por um momento, de camisola de dormir, diante da porta fechada. Não quero dizer que isso não estava certo, talvez então não fosse realmente possível conseguir o sossego noturno de outra maneira; mas quero caracterizar com isso seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado. Segundo a minha índole, nunca pude relacionar direito a naturalidade daquele ato inconseqüente de pedir água, com o terror extraordinário de ser arrastado para fora. Anos depois eu ainda sofria com a torturante idéia de que o homem gigantesco, meu pai, a última instância, podia vir quase sem motivo me tirar da cama à noite para me levar à pawlatsche (varanda) e de que, portanto, eu era para ele um nada dessa espécie.

Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 13/14, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.

domingo, 7 de agosto de 2011

Semana dos Pais: Do mal que os pais fazem aos filhos, mesmo procurando fazer o melhor para eles (I/IV)


Querido Pai:


Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.


Para você a questão sempre se apresentou em termos muito simples, pelo menos considerando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente, na de muitos outros. Para você as coisas pareciam ser mais ou menos assim: trabalhou duro a vida toda, sacrificou tudo pelos filhos, especialmente por mim, e graças a isso eu vivi "à larga", desfrutei de inteira liberdade para estudar o que queria, não precisei ter qualquer preocupação com o meu sustento e portanto nenhuma preocupação; em troca você não exigiu gratidão – você conhece a "gratidão dos filhos" – mas pelo menos alguma coisa de volta, algum sinal de simpatia; ao invés disso sempre me escondi de  você, no meu quarto, com meus livros, com amigos malucos, com idéias extravagantes, nunca falei abertamente com você, no templo não ficava a seu lado, nunca o visitei em Franzensbad, aliás nunca tive sentido de família, não dei atenção à loja nem aos seus outros negócios, a fábrica eu deixei nas suas costas e depois o abandonei, apoiei a obstinação de Ottla e, se por um lado não movo um dedo por você (nem uma entrada  de teatro eu lhe trago), pelos meus amigos eu faço tudo. Se você fizesse um resumo do que pensa de mim, o resultado seria que na verdade não me censura de nada abertamente indecoroso ou mau (exceto talvez meu último projeto de casamento), mas sim de frieza, estranheza, ingratidão. E de fato você me recrimina por isso como se fosse culpa minha, como se por acaso eu tivesse podido, com uma virada do volante, conduzir tudo para outra direção, ao passo que você não tem a mínima culpa, a não ser talvez o fato de ter sido bom demais para mim.


Esse seu modo usual de ver as coisas eu só considero justo na medida em que também acredito que você não tem a menor culpa pelo nosso distanciamento. Mas eu também não tenho  a menor culpa. Se pudesse levá-lo a reconhecer isso, então seria possível, não uma nova vida – para tanto nós dois estamos velhos demais – mas sem dúvida uma espécie de paz; não a cessação, mas certamente um abrandamento das suas intermináveis recriminações.



Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 9/10, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.

(continuação acima!)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

De Castello a Castelo, de Kafka a Kafka - Mera coincidência?



O Estadão trouxe no domingo passado uma entrevista com o escritor José Castello, que está lançando um novo livro, "Ribamar", no qual ele revê a figura paterna. Pelo texto fiquei sabendo que o livro foi inspirado, ou melhor, provocado, pelo retorno às suas mãos de um exemplar do "Carta ao pai", escrito pelo Kafka.



José Castello tinha dado o livro ao pai em 1973. Trinta e três anos depois, um amigo encontrou o exemplar em um sebo carioca, reconhecendo a dedicatória de Castello ao pai. Adquiriu o livro e deu de presente ao amigo.



Após acabar a leitura da entrevista, resolvi pegar na estante meu exemplar da "Carta ao pai", livro fininho, afinal é uma carta, para ler algum trecho que teria marcado em leitura anterior. Pego o livro e ele se abre quase no meio, onde está um recorte dobrado e amarelado de jornal, destacando a palavra "O Castelo", outro livro de Kafka.



Abro o recorte e constato que aquilo é uma resenha sobre uma nova edição do livro de Kafka. Assinada por quem? José Castello!



De Castello a Castelo, via Kafka, o círculo se fecha. Coincidência?



Sou obrigado a reler a "Carta ao pai". O que querem me dizer Kafka e Castello?



José FRID


Atualizando em 18 de outubro de 2011: o livro "Ribamar" ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance. Parabéns!!