É precisamente essa exigência de culto compartilhado que tem sido a principal fonte de sofrimento para o homem individual e para a raça humana desde o início da história. Em seus esforços para impor a adoração universal, os homens desembainharam suas espadas e mataram uns aos outros. Eles inventaram deuses e se desafiaram: 'Descarte seus deuses e adore os meus ou eu destruirei seus deuses e você!'
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2022
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
Da música
DA MÚSICA
Hoje de manhã, quando caminhava pelas ruas embranquecidas e geladas desta cidade medieval, vi deus sentado ao canto de uma esquina, chorando a sua própria inexistência.
e houve uma pessoa que perguntou: "o que é que se passa com ele? "
e houve outra que respondeu: "falta-lhe a música. "
Luís Costa in REVISTA TRIPLOV, junho/julho de 2013
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sexta-feira, 21 de agosto de 2020
quinta-feira, 16 de abril de 2020
quarta-feira, 25 de dezembro de 2019
Adepto do diabo....
[...] Assim que chegamos ao hotel, uma pregadora entrou atrás da gente e começou a nos converter sabe-se lá a que facção do judaico-cristianismo.
Eles nada entendiam do que ela dizia e eu me disse adepto do Diabo. Foi um erro terrível porque ela se interessou imediatamente pelo meu caso e só foi embora quando o alemãoguinho, distraído e inocentemente tirou as calças para remendá-las liberando - uma vez que não usa cuecas - sua formidável piroka, que badalou as bordas da cuca da adventista provocando uma zoada demi-epileptique, da qual ela jamais se recuperará.
Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.218
sábado, 21 de setembro de 2019
terça-feira, 28 de maio de 2019
quinta-feira, 4 de abril de 2019
domingo, 6 de janeiro de 2019
Alcorão constitucional.....
Não foi esse o único prodígio da quinzena. Além dessa e da companhia lírica (a 8:000$000 cada garganta), houve o projeto de constituição turca, dado pelo Jornal do Comércio. Não sei se tal constituição chegará a reger a Turquia; mas foi proposta, e tanto basta para deixar-me de boca aberta.
O art. 1º desse documento diz que o império otomano como Estado não tem religião: reconhece todos os cultos, protege-os e subvenciona-os.
Eu palpo-me, esfrego os olhos, dou murros no peito e na cabeça, agito os braços, passeio de um lado para outro, a fim de certificar-me que não estou sonhando. O Alcorão subvencionando o Evangelho! O janízaro do crê ou morre reconhecendo todos os cultos e dando a cada um os meios de subsistência! Se isto não é o fim do mundo, é pelo menos o penúltimo capítulo. Que abismo entre Omar e Mourad V!
Alegre-se quem quiser; eu fico triste. A tolerância dos cultos tira-me a cor local da Turquia, desnatura a história, estabelece certas acomodações entre o Alcorão e o céu. Substitui-se a Sublime Porta por uma trapeira constitucional.
Machado de Assis in História de Quinze dias, 1 de agosto de 1876
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quinta-feira, 18 de outubro de 2018
Sob a proteção de Nossa Senhora de Aparecida
Ele acordou bem cedo, apesar de ser feriado, dia de Nossa Senhora de Aparecida. Chegara ao final da noite com a família, mulher e três filhos, depois de enfrentar longo engarrafamento. Devoto da Padroeira, não haveria lugar melhor para comemorar a data que aquele sítio às margens do Paraíba do Sul.
Andou no escuro, tateou para achar o camisolão preto com apliques dourados. Vestiu-o e caminhou descalço pela casa, evitando barulhos, não podia ter companhia. Na sala, prostrou-se aos pés de majestosa imagem recoberta por manto preto e dourado, iluminada pela vela bruxuleante de sete dias. Fez suas preces, agradecimentos e pedidos. Levantou-se, fez uma reverência e pediu licença à santa. Com cuidado, retirou a estátua do nicho azul e dourado. Sentiu o peso do bronze e apoiou a imagem no ombro. Caminhou com dificuldade, lembrando-se de alguns romeiros da noite anterior, indo pela rodovia com pesadas cruzes. Cada um com a sua, conforme o pecado ou o pedido, pensou.
Descansou a estátua na mesa da varanda, que rangeu sob os quarenta quilos de bronze. Inspirou o ar frio, observando os primeiros raios de sol furando a noite, ultrapassando as montanhas e indo morrer nas águas sagradas. Aguardou o sol clarear minimamente a trilha à base de pedra na beira do rio.
Virou-se para a imagem, agora quase da sua altura. Olhos nos olhos, agradeceu-lhe pelo ano transcorrido, as alegrias, a ajuda lhe concedida, a proteção, coisas de mãe. Levantou a pesada estátua, escorou-a nos ombros e seguiu em peregrinação até o altar de pedra. Durante a caminhada, um pequeno barco a remo atraiu sua atenção, distraindo-lhe de suas preces.
Colocou a estátua sobre a pedra. Retirou, com todo o respeito, a coroa dourada e o manto da santa. Chegara a hora de banhá-la no rio, cerimônia mística para atrair as graças da Padroeira, como os padres faziam escondido com a imagem original no dia doze de outubro, segredo conhecido por poucos.
Antes que pudesse prosseguir com a cerimônia, o barco tocou na margem e um homem desceu. O remador fora atraído pelos reflexos do camisolão e da coroa. Puxou a embarcação para a terra, colocando-a próximo do barco azul do sítio. Caminhou em direção à estátua desejando bom dia. O devoto, contrariado com a interrupção, não respondeu. O curioso olhou a imagem.
- Ė Nossa Senhora e Aparecida?
- Sim.
- Desculpe minha franqueza, acho uma bobagem adorar estátuas. Certo estava aquele pastor que chutou uma imagem da Nossa Senhora na televisão.
- Aqui ele quebraria o pé, bronze puro.
- Acho religião uma invenção para enganar o povo e deixá-lo satisfeito na pobreza, enquanto poucos desfrutam da riqueza, como você. Invenção do homem que tem medo de morrer. Procura a vida eterna inventando deuses e paraísos. Acha que há vida depois da morte. Pra mim, morreu, morreu, acabou.
- Não acho.
- Noto. O que você vai fazer com a estátua?
- Uma cerimônia religiosa particular.
- Posso assistir? Não acredito nessas bobagens, mas gosto de ver rituais.
- Eu falei que é particular. Gostaria que você saísse do meu sítio.
- Tá bom, não precisa ser grosso, assisto da água. Vou filmar tudo.
O homem foi em direção ao seu barco. O devoto de Nossa Senhora desesperou-se. Como fazer a cerimônia com ele filmando? Ela só tinha efeito se sigilosa! E realizada hoje, dia da Padroeira. Do contrário, um ano inteiro sem proteção! Sem proteção!!!. Correu em direção aos barcos, pegou um remo do barco azul e acertou o visitante na cabeça, que caiu na sua embarcação. Ele bateu mais algumas vezes no outro, até passar o surto. Então viu o sangue, muito sangue, seu corpo tremeu todo, perdeu o equilíbrio e caiu. Ficou prostrado olhando a santa de longe. Fez umas preces e pediu conselhos para a Padroeira. Será que já tinha acabado a proteção conseguida com a cerimônia do ano passado? Não acreditando nisso, insistiu nas preces e no pedido de orientação, mãe me ajude!!! O sol conseguiu ultrapassar as montanhas e mostrar sua força, dourando as águas do Paraíba do Sul. Sua mente se iluminou: o milagre da santa, encontrada por pescadores naquele rio, que trouxera o homem e que também o levaria. Levantou-se, foi ao altar de pedra e pegou o manto. Voltou ao barco do invasor. Com cuidado, constatou que ele, mais que imóvel, morrera. "Morreu, morreu, acabou", recordou. Ajeitou-o no meio do barco, cobriu-o com o manto sagrado, tirou seu remo sujo de sangue e empurrou o barco para dentro do rio. Ficou alguns minutos vendo o barco ser levado lentamente pela correnteza. Calculou que em algumas horas ele passaria por Aparecida, com sorte poderia ser recolhido como a santa. Milagre!
Lavou o remo, banhou a santa, lavou-se nas águas do rio, purificados! Logo estaria mais um ano seguro, sob a proteção da Padroeira, da santa mãezinha dos brasileiros, da poderosa Nossa Senhora de Aparecida. Colocou a santa no altar de pedra e ia continuar com a cerimônia religiosa secreta quando...
- Pai, por que você bateu no moço?
José FRID
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domingo, 30 de setembro de 2018
A perda da fé....
Como foi que você perdeu a fé?, disse ela. Eu comecei a perder a minha fé muito cedo, disse João. A primeira crise que eu tive foi quando mataram o padre Joel, de Duas pontes, de que eu era coroinha. Mataram o padre como, João? Eram dois irmãos, Paulo e Pedro Leone, que o mataram e à irmã deles, surpreendendo-os nus no quarto dela, disse ele. Um crime bárbaro, aquilo abalou a cidade.. O povo da cidade e eu começamos a perder a fá. Eu sentia um engulho ao imaginar que aquela mão que me dava a hóstia consagrada estivera manipulando o sexo de Júlia Leone.
Autran Dourado inUm artista aprendiz, Rocco, pág.128
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sexta-feira, 29 de junho de 2018
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Santim
Nossa Senhora da minha guarda
santificada sejas no pomar
entre as laranjas da tarde
entre as luas derradeiras
santificada sempre sejas entre os homens
e entre as mulheres cheias de graça
sejas sempre entre os pecadores
esse olhar que se estende
manto de salvar o mundo
sejas sempre
Nossa Senhora de minha angústia
sejas sempre.
Álvaro Alves de Faria in Vagas Lembranças, um ensaio gráfico-poético:
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segunda-feira, 7 de maio de 2018
Deus relojoeiro...
{...} Os séculos XVII e XVIII foram, na Europa, um período de grande desenvolvimento da matemática e da teoria física; na literatura do período chamado clássico; Descartes e Newton constituíram influência tão importante quanto a dos próprios clássicos. Os poetas, a exemplo dos astrônomos e dos matemáticos, haviam chegado a encarar o universo como uma máquina obediente às leis da lógica e suscetível de explicação racional; Deus figurava meramente como o fabricante de relógios que deveria ter existido para manufaturar o relógio.
Edmund Wilson in O Castelo de Axel, Cia das Letras, pág.29
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segunda-feira, 30 de abril de 2018
domingo, 29 de abril de 2018
História dos dois que sonharam
O historiador árabe El Ixaqui narra este acontecimento:
Contam os homens dignos de fé (porém somente Alá é onisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que existiu no Cairo um homem possuidor de riquezas, porém tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas, menos a casa de seu pai. Diante disso, viu-se forçado a trabalhar para ganhar seu pão. Trabalhou tanto, que o sono venceu-o uma noite sob uma figueira de seu jardim, e ele viu no sonho um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: "Tua fortuna está na Pérsia, em Ispahan; vai buscá-la". Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Ispahan, e no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Junto à mesquita havia uma casa, e, por vontade de Deus Todo-Poderoso, um bando de ladrões atravessou a mesquita, e meteu-se na casa, e as pessoas que aí dormiam, despertando com o barulho, pediram socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas noturnos daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo; açoitaram-no de tal maneira com varas de bambu que ele quase morreu. Dois dias depois recobrou os sentidos na cadeia. O capitão mandou buscá-lo e disse:"Quem és tu e qual é a tua pátria?" O outro declarou: "Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed el Magrebi". O capitão perguntou-lhe: "O que te trouxe à Pérsia?" O outro optou pela verdade e disse: "Um homem ordenou-me, em sonho, que eu viesse a Ispahan porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Ispahan e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser as vergastadas que tão generosamente me deste".
Diante de tais palavras o capitão riu tanto que se viam seus dentes do siso e, finalmente, lhe disse: "Homem desajuizado e crédulo, eu já sonhei três vezes com uma casa no Cairo no fundo da qual há um jardim, e nesse jardim um relógio de sol, e depois do relógio, uma figueira, e logo depois da figueira, uma fonte, e sob a fonte, um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira e tu, produto de uma mula com um demônio, não obstante, vens errando de cidade em cidade baseado unicamente na fé no teu sonho. Que eu não volte a ver-te em Ispahan. Toma estas moedas e desaparece".
O homem pegou as moedas e regressou a sua pátria. Sob a fonte de seu jardim (que era a mesma do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu sua benção, recompensou-o e enalteceu-o. Deus é o Generoso, o Oculto.
Do "Livro das mil e uma noites (noite 351), transcrito por Jorge Luis Borges in Livro dos Sonhos, págs.154/156
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terça-feira, 10 de abril de 2018
sábado, 7 de abril de 2018
Som do Machado - Denise Levertov
Os pássaros ficaram silentes. Por quê? ela disse.
Trovão, eles falaram para ela,
o trovão está chegando.
Ela caminhou, e as árvores estavam escuras
e farfalhando suas folhas. Por quê? ela disse.
A grande tempestade, elas falaram a ela,
a grande tempestade está chegando.
Ela foi ao rio, ele impeliu-se
sem responder, ela atravessou a ponte,
começou a subir
até a cordilheira, onde as rochas cinzentas
se branqueavam, aguardando
pelo Juízo Final,
e o eremita
tinha sua cabana, o homem sábio
que vivia desde o início do tempo.
Quando ela chegou à cabana,
não havia ninguém.
Mas ela escutou seu machado.
Ela ouviu
a floresta atenta.
Ela não ousou seguir o som
do machado. Era ela
a Árvore do Mundo que ele estava derrubando?
Era esse o dia?
Tradução de José FRID (O dia do Juízo Final)
Sound of the Axe - Denise Levertov
Once a woman went into the woods.
The birds were silent. Why? she said.
Thunder, they told her,
thunder is coming.
She walked on, and the trees were dark
and rustled their leaves. Why? she said.
The great storm, they told her,
the great storm is coming.
She came to the river, it rushed by
without reply, she crossed the bridge,
she began to climb
up to the ridge where grey rocks
bleached themselves, waiting
for crack of doom,
and the hermit
had his hut, the wise man
who had lived since time began.
When she came to the hut
there was no one.
But she heard his axe.
She heard
the listening forest.
She dared not follow the sound
of the axe. Was it
the world-tree he was felling?
Was this the day?
The Paris Review
ISSUE 79, SPRING 1981
quarta-feira, 4 de abril de 2018
segunda-feira, 2 de abril de 2018
A fé remove montanha....
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