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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poética I


De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando.

Vinícius de Moraes

(Por indicação de Antonio Cícero)

sábado, 24 de novembro de 2012

Guardar



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.


Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.


Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.


Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.


Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.




Antonio Cicero in "Guardar - Poemas escolhidos", Editora Record, 1996.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

This is just to say - Isto é só para dizer



Isto é só para dizer


Eu comi
as ameixas
que estavam
na geladeira

as quais
você decerto
guardara
para o desjejum

Desculpe-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frias



This is just to say


I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold



William Carlos
WILLIAMS, in "The collected poems of, v.1.", tradução de Antonio Cicero

quinta-feira, 18 de março de 2010

Guardar uma coisa



Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la
Em cofre não se guarda coisa alguma
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-l, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
para guardá-lo:
para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarda o que quer que guarda um poema:
por isso o lance de um poema:
por guardar-se o que se quer guardar.




Antonio Cícero

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Ato


Lá estavam as rosas, na chuva.

Não as corte, implorei.

Não vão durar, ela disse.

Mas estão tão bonitas

onde estão.

Ah, todos nós fomos bonitos um dia, ela

disse,

e as cortou e as deu para mim

na minha mão.

William Carlos WILLIAMS, in "The collected poems of, v.1.", tradução de Antonio Cicero

segunda-feira, 16 de março de 2009

Prova - Antônio Cícero

Prova

                                   Para José Miguel Wisnik


Traçada em vermelho sangue, a nota, sob
o triângulo retângulo formado
por uma dobra ao canto superior
direito da folha de papel almaço
pautado que suportara aquela prova
final de matemática, reprovava-o.
Justa recompensa para quem em toda
aula refolhando-se em si mesmo, sáfaro,
ensimesmado e contudo alienado
de si, não reconhece jamais a imagem
pura que dele o duro espelho cifrado
da matemática, ao refletir, refrange.
Distrai-se a ouvir sirenes, risos de moças
lá longe, lotações, bondes, bicicletas
a fugir da escola rumo a nebulosas
destinações. Vê que esqueceu a caneta.
Acha um toco de lápis que com os dentes
e as unhas aponta e, surdo para leis
que alguém que não ele mesmo delibere –
gênio, deus, demônio, anjo, monstro ou rei –,
debruça-se em seu caderno a rabiscar
quiçá uma gramática especulativa
ou uma característica universal
excogitada por via negativa
e abstrusa, e acintosamente descura
das matérias do curso e dos professores
e alunos que o cercam e jamais capturam.


A sineta toca. Pelos corredores
pensa no pai, na mãe, na avó, no vexame
e na decepção de todos. Seu fastio
é enorme: despreza a vida e a gravidade
com que a encaram. Pondera o suicídio
e se sente mais leve. Pode atirar-se
do terraço do prédio do consultório
do seu dentista, alto sobre a cidade.
Fora da escola toma um sorvete e um ônibus
até o ponto final, no centro. Caminha
até o edifício, pega o elevador
até o último andar, depois ainda
galga um lance de escadas e alcança ao pôr-
do-sol a cidade alâmbar a seus pés.
Decide escrever uma carta ou uma nota
no próprio papel da prova, mas cadê
o toco de lápis? Largara-o na escola.
Resolve deixar para alguma outra hora
o suicídio. Dobra o papel, desdobra,
dobra e o solta a dar voltas, revoltas, voltas
acima de todas as coisas, gaivota.

Antônio Cícero

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

João Cabral e o verso livre



Por trás de uma mudança superficial, encontra-se a profunda coerência da sua concepção de poesia


EM 1953, o poeta João Cabral de Melo Neto declarou em entrevista a seu colega Vinicius de Moraes: "Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria, para mim, como banir a poesia do mundo moderno".


Trinta e cinco anos depois, em 1988, ele afirmava a Mário César Carvalho que "uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil".


Como se explica tal inconsistência? Teria João Cabral mudado radicalmente de idéia sobre esse assunto? Certamente houve uma mudança. Creio, porém, que, por trás de uma mudança apenas superficial, encontra-se a profunda coerência da sua concepção de poesia.


Cabral costumava dividir os poetas em dois grupos. O primeiro é o daqueles para quem tudo o que não é espontâneo -logo, tudo o que dá trabalho, tudo o que é difícil- é falso. O segundo, no qual ele mesmo se colocava, é o daqueles para quem tudo o que é espontâneo -logo, tudo o que dispensa o trabalho, tudo o que é fácil- é falso. Para ele, o fácil e espontâneo jamais passava de eco ou repetição inconsciente de vozes alheias. Como se verá, tanto ao defender o verso livre em 1953 quanto ao atacá-lo, em 1988, ele estava tomando posição contra o fácil, espontâneo e repetitivo, e a favor do difícil, trabalhoso e único em poesia.


"O poeta", disse Cabral uma vez em entrevista a Arnaldo Jabor, "é aquele que nunca aprende a escrever". Poderíamos também dizer que o poeta é aquele que está sempre aprendendo a escrever. Nas palavras do famoso "O Lutador", de Drummond: "Lutar com palavras / É a luta mais vã. / Entanto lutamos / Mal rompe a manhã". O poeta luta para dar forma a um poema, isto é, a um objeto estético memorável -ou seja, a um objeto que mereça existir em virtude de seus próprios méritos, mesmo que não sirva para nada ulterior- feito de palavras.


A predileção pelo fácil e espontâneo pode manifestar-se de dois modos. Em primeiro lugar, ela pode manifestar-se como o desprezo por todo trabalho e toda técnica. A "poesia" fica assim reduzida a uma expressão pessoal em que a língua é usada, não para dar forma a um objeto de palavras, mas para dizer alguma coisa, como na vida cotidiana. Não ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.


Em segundo lugar, a predileção pelo fácil, espontâneo e repetitivo também se manifesta como o artesanato de escrever versos em formas tradicionais. Através de estudo e exercício, o versejador adquire destreza em, entre outras coisas, escrever redondilhas ou decassílabos, rimar versos, compor em formas fixas etc. Com a prática, ele aprende, por exemplo, a improvisar sonetos adequados às mais diversas ocasiões. Para o versejador que atingiu mestria em determinadas técnicas, nada parece mais fácil ou espontâneo do que fazer um "poema", através da repetição do que é convencionalmente "poético". Tampouco nesse caso ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.


Cabral achou um modo próprio de evitar tanto a facilidade dos versos livres e sem rimas quanto a facilidade do uso convencional das técnicas tradicionais. Entre outras coisas, ele usava métrica, mas procurava evitar os ritmos associados a ela; e usava rimas, mas não perfeitas, e sim toantes. Naturalmente, essas soluções foram úteis para ele, e não são universalizáveis. Elas indicam, entretanto, que, na prática, ele não estava tão preocupado em rejeitar os procedimentos tradicionais quanto em usá-los na medida em que aumentassem, e não, como o versejador, na medida em que aliviassem, a dificuldade do seu trabalho.


Frente às tendências contemporâneas de dissolver e diluir a poesia e a arte, talvez os poetas -e os artistas em geral- devam refletir sobre essas idéias de Cabral. Longe de rejeitar toda regra ou de apelar a regras que facilitem a elaboração ou a recepção da obra, será talvez mais produtivo que o artista imponha a si mesmo determinadas condições -pouco importa se por ele inventadas ou se tomadas de empréstimo à tradição- que, dificultando o seu trabalho, tomem-lhe mais tempo e exijam dele um maior esforço de pensamento e elaboração.


ANTONIO CICERO

(Folha de São Paulo, 15/11/08)