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sábado, 14 de dezembro de 2019

Ney-anjo

Ney foi o anjo enviado por Deus para que o brasileiro compreenda melhor sua louca identidade de homem-mulher unidos num só: pássaro e tigre, cobra e borboleta, miséria e esplendor. Muito além do bustiê, Ney Matogrosso parece uma tese de mestrado ao vivo sobre a ambiguidade deste país. Tê-lo entre nós nos deixa mais nítidos e felizes também, pois a clareza dele é bela e como ele é nós, épico e arquetípico, nos tronamos belos através dele e muito mais livres e muito mais nobres. Rosa de Hiroshima soropositiva, seria radioativa, something between Greta Garbo, Rodolfo Valentino e Antígona: saúde!

Caio Fernando Abreu in Ney Matogrosso, muito além do bustiê, O Estado de São Paulo, 3 de fevereiro de 1995

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Está tudo bem, tudo, tudo bem....

Corre, corre. O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. AH, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranoia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder. OK?

Caio Fernando Abreu in Anotações sobre um amor urbano, O essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.160     

terça-feira, 21 de maio de 2019

8 anos...

Despido e solitário, organizou o prazer no banheiro, enquanto o mundo não lhe entregava aquela mulher predestinada desde o início dos tempos. Uma sensação de estranheza de seu corpo múltiplo e concentrado em um único ponto rijo de fogo, as mãos atarefadas conduzindo os movimentos. Envolto em vidro numa atmosfera ao mesmo tempo quente e delicada, como as concavidades da mulher ignorada. E de repente assim, já não vendo as próprias coxas onde o líquido tecia desenhos, de repente tendo outra vez oito anos na surpresa de perceber a mente infantil  aprisionada num corpo adulto e satisfeito. 

Caio Fernando Abreu in Paixão segundo o entendimento, O essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.62  

sábado, 18 de maio de 2019

A cidade está louca, doente, podre....


A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como posso gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Urbanoides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras que não chego a decifrar em seus olhos semafóricos. Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como chamar agora a essa meia dúzia de toques aterrorizados pela possibilidade da peste? (Amor, amor certamente não.) Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça junto com o louco, o doente, o podre? Não evitaremos. Pois a cidade está podre, você sabe. Mas a cidade está louca, você sabe. Sim, a cidade está doente, você sabe. E o vírus caminha em nossas veias, companheiro.

Caio Fernando Abreu in Anotações sobre um amor urbano, O essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.161    

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A palavra e o tempo...

Meu corpo está morrendo. A cada palavra, o meu corpo está morrendo. Cada palavra é um fio de cabelo a menos, um imperceptível milímetro de ruga a mais - uma mínima extensão de tempo num acúmulo cada vez mais insuportável. Esta coisa terrível de não saber a minha idade, de não poder calcular o tempo que me resta, esta coisa terrível de não haver espelhos nem lagos, das águas do mar serem agitadas e não me permitirem ver a minha imagem.

Caio Fernando Abreu in O mar mais longe que eu vejo, O essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.49  

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O tempo...

[...]
No começo eu achava que não havia tempo. Só aos poucos fui percebendo que se formavam lentos sulcos nas minhas mãos, e que esses sulcos, pouco mais que linhas no princípio imperceptíveis, eram rugas. E que meus cabelos caíam. Meus dentes também caíam. E que minhas pernas já não eram suficientemente fortes para me levar até aquela elevação, de onde eu podia ver o mar e o mar que fica mais além do mar que eu via da praia.  Antes, eu ia e voltava da elevação no sol abrasador; depois eu só conseguia sair daqui no sol abrasador e voltar na chuva e, depois ainda, só nas estrelas e na lua. Agora são necessárias muitas chuvas, muitas estrelas, muitas luas e muitos sóis para ir e voltar. E isso é o tempo, muito mais tarde descobri que isso era o tempo.

Caio Fernando Abreu in O mar mais longe que eu vejo, O essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.50

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Clarice por Caio Fernando Abreu



Quem conheceu Clarice sabe: ela não era mesmo muito deste mundo. Até hoje lembro de um encontro que tivemos em Porto Alegre, em 1975. Ela – que quase não falava, fumava muito e suportava pouco as pessoas – me convidou para um café na Rua da Praia. Fomos. Silêncio denso, lispectoriano. No balcão do bar, por trás da fumaça do cigarro e com aquele sotaque estranhíssimo, de repente ela perguntou: "Como é mesmo o nome desta cidade?" E estava em Porto Alegre há três dias...
Caio Fernando Abreu in "Caderno 2 – OESP – Domingo, 7 de agosto de 1994, via Caio F Caio

domingo, 19 de julho de 2009

POEMA ANTIGO

Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair

(Caio Fernando Abreu) via Mario Bortolotto

sexta-feira, 20 de março de 2009

Se você viu ......

"Porque você não pode voltar atrás no que vê. Você pode se recusar a ver, o tempo que quiser: até o fim de sua maldita vida, você pode recusar, sem necessidade de rever seus mitos ou movimentar-se de seu lugarzinho confortável.
 
Mas a partir do momento em que você vê, mesmo involuntariamente, você está perdido: as coisas não voltarão a ser mais as mesmas e você próprio já não será o mesmo"
 
Caio Fernando Abreu

terça-feira, 10 de março de 2009

Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu




Acabei de ler o livro "Morangos Mofados", de Caio Fernando Abreu, já citado no post "Uma Estranha Tatuagem". Se a mulher da tatuagem conhecesse esse livro, iria pensar que eu também tinha uma tatuagem igual a dela.

Excelente livro de contos, mas tem que ser lido com mente aberta, sem preconceito, pois os melhores contos abordam relações homossexuais masculinas. Mas o livro não é um panfleto gay. Ele trata mais da impossibilidade das relações heterossexuais ou homossexuais, da solidão, do desconforto. Trás, também, um panorama de época, anos 70, início dos anos 80. Como o pessoal fumava!

"Terça-feira gorda" é um excelente conto que descreve um encontro num baile de Carnaval, que por acaso é entre dois homens. Um trechinho:

"Eu estava todo suado. Todos estavam suados, mas eu não via mais ninguém além dele. Eu já o tinha visto antes, não ali. fazia tempo, não sabia onde. Eu tinha andado por muitos lugares. Ele tinha um jeito de quem também tinha andado por muitos lugares. Num desses lugares, quem sabe. Aqui, ali. Mas não lembraríamos antes de falar, talvez também nem depois. Só que não havia palavras. Havia o movimento, a dança, o suor, os corpos meu e dele se aproximando mornos, sem querer mais nada além daquele chegar cada vez mais perto."

Lindo, não? Importa se eram dois homens, um homem e uma mulher, ou duas mulheres? Não!

"Sargento Garcia" mostra a descoberta da sexualidade na época da ditadura de uma forma engraçada e delicada.

"Aqueles dois" narra o relacionamento entre dois colegas de trabalho que, paulatinamente, vão se transformando em amigos, sob severa crítica da sociedade. Um bom ritmo, mostrando a descoberta de interesses comuns entre os dois homens.

"O dia que Urano entrou em Escorpião" aborda de forma divertida uma reunião entre amigos, sábado à noite, na casa de um deles. O trecho destacado no post "Cavalgada Medieval" é desse conto.

O conto "Os sobreviventes" já abordei em "Uma Estranha Tatuagem". "Além do ponto" narra o desespero de um homem caminhando na chuva ao encontro do amante.

"Fotografias" caracteriza duas mulheres bem diferentes entre si, mas que esperam o grande amor, o príncipe encantado.

"Caixinha de música" trás um casal na cama tentando analisar os sonhos do homem, com conclusão inesperada.

Existem, também, alguns contos que para mim são muito herméticos, talvez destinados apenas a entendidos.

Em resumo, uma boa leitura. dá vontade de procurar outro livro do autor: Triângulo das águas", "Os dragões não conhecem o paraíso", ambos livros de contos premiados com o "Jaboti", e o romance "Onde andará Dulce Veiga?"


José FRID


Leia mais contos e crônicas selecionadas clicando aqui!

Frutos da escrita

"Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha que de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres,  e até envenenados."

Osman Lins, "Guerra sem testemunhas" (citado por Caio Fernando Abreu, in "Morangos Mofados")

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cavalgada medieval

"Aquele que tinha saído da janela fez assim como se estivesse prestando muita atenção na música, e falou que gostava demais daquele trechinho com órgão e violinos, que parecia uma cavalgada medieval. O rapaz de camisa vermelha percebeu que ele estava tentando mudar de assunto e perguntou se por acaso ele já tinha visto alguma vez na vida alguma cavalgada medieval. Ele disse que não, mas que com o órgão e todos aqueles violinos ao fundo ficava imaginando um guerreiro de armadura montado num cavalo branco, correndo contra o vento, assim tipo Távola Redonda, a silhueta de um castelo no alto da colina ao fundo - e o guerreiro era medieval, acentuou, disso tinha certeza. Ia continuar descrevendo a cena, pensou em acrescentar pinheiros, um crepúsculo, talvez um quarto crescente mourisco, quem sabe um lago até, quando a moça com o livro nas mãos tornou a baixar os óculos que erguera para a testa no momento em que o rapaz de camisa vermelha entrou, e leu ....."
Caio Fernando Abreu in "O Dia que Urano Entrou em Escorpião" - Morangos Mofados

Uma estranha tatuagem


A moda entre os jovens – e também entre os não tão jovens assim - é tatuar o corpo. Vale em qualquer parte do corpo, pode ser de qualquer tipo, tamanho, cor ou forma. O importante é ela estar lá, visível ou não, e expressar a mensagem, o sentimento (ou a falta do que fazer) do(a) dono(a).


Nomes, flores, borboletas, golfinhos, dragões, corações, fotos, paisagens, ideogramas chineses ou japoneses, números, facas, machados, revólveres, caveiras, até pequenos textos, frases. Pretas, azuis, verdes, vermelhas, coloridíssimas. Simples ou complexas, pequeninas, medianas, grandes, enormes. No braço, no antebraço, na mão, nos dedos. No ombro, nas costas, no rego, nas coxas, nas pernas, nos pés. No rosto, na barriga, e lá onde não vemos, na frente e/ou atrás. Atrás da orelha, debaixo do cabelo.


Algumas delas são tão bem localizadas e suas donas tão formosas, que chego a sentir inveja do tatuador, o livre acesso que teve, conversa vem, conversa vai, os dois ali, ela sente uma dorzinha, ele consola ......

A última vez que uma tatuagem me surpreendeu foi com um rapaz com a cara toda tatuada, inclusive a careca, que estava com o filhinho no parquinho infantil do Parque da Aclimação. Cena bucólica, o pai empurrando o filho no balanço, as crianças ao redor, cães, o lago, as árvores, etc., se não fossem os adereços corporais paternais. Essa criança teria pesadelo ao sonhar com o pai?

Achei que nada mais me espantaria. Ledo engano. Hoje fui surpreendido novamente. Por uma pequena tatuagem, simples, num local adequado, unicolor.

Uma jovem mulher parada na plataforma da estação Vila Mariana do Metrô exibia no seu braço esquerdo uma pequena tatuagem, constituída simplesmente pela palavra "gay" acompanhada de uma seta apontando para trás. Só. Cor preta, escrita fina. Simples e direta. Mais ou menos assim:


GAY →


Ela era mais ou menos alta, magra mas não muito, bonita mas não muito também. Entre dezesseis e vinte anos, mais ou menos. Sem maquiagem aparente. Estava com uma saia jeans simples, na altura dos joelhos, camiseta branca sem decote ou mangas, uma faixa de lenço dobrado segurando a franja, cabelos compridos, uma pequena revista na mão, parecendo uma daquelas com palavras cruzadas, o indefectível fone no ouvido, uma bolsa marrom de couro molengo. Calçava uma sandália aberta, solado não muito alto. Discreta, comportada, escutando seu ipod.

Para mim havia um total desencontro entre a pessoa e a tatuagem. O que significaria aquela tatuagem? Qual a mensagem a ser transmitida? A que tribo pertenceria a criatura?

Fiquei embatucado. Por que alguém tatuaria a palavra "gay" no braço? Seria gay de alegre ou gay de gay mesmo? Olhei para ela, de soslaio, na plataforma, e não vi sinais de tanta alegria assim. Imagino que uma pessoa que vá tatuar uma palavra alegre no seu braço, provavelmente usará roupas alegres, sapatos alegres, cabelos alegres, algo assim como um hippie das antigas, paz e amor, flores, etc.

Poderia expressar uma opção sexual, tipo orgulho gay? Observei a mulher, detida e discretamente, sem encontrar sinais de homossexualidade masculina. Percebi que isso era mero preconceito meu, pois gay poderia ser também uma mulher. Mas aí seria difícil detectar algum sinal, mulher disfarça melhor. Curioso, examinei detalhadamente a criatura, sorte a minha que ela estava entretida com a música e com a revista. Nem sinal de sapata ou sapatilha. Qual o mistério da tatuagem?

De qualquer jeito, por que uma pessoa tão discreta gravaria no braço, em local de ampla visibilidade, a sua opção sexual? E a seta, qual o sentido da seta? Uma seta apontando para trás. Para suas costas? Veio à minha cabeça um pensamento erótico, seria a seta de indicação de acesso ....... por que alguém indicaria publicamente isso?

Vasculhei meu arquivo mental de símbolos. Ali na plataforma só meu ocorreu a representação de caminho, de sentido obrigatório, qual placa de trânsito, ou o símbolo simplificado de Sagitário. Seria ela um/uma sagitariano(a) alegre? Epa, é o meu signo!

O trem chega com estrondo, retirando-me dos devaneios. Deixo a mulher entrar na minha frente para me permitir novas observações. Ela desloca-se como uma mulher se deslocaria, sem chamar qualquer atenção. Não usa perfume forte. O ipod está num volume adequado, as pessoas circundantes não conseguem discernir qual música embala a alegre criatura. Ela se dirige ao centro do vagão e se senta. O trem enche, perco-a de vista, sem chegar a alguma conclusão sobre a tatuagem.

Encosto na parede do trem e saco da bolsa o livro do dia. Abro na página marcada para continuar a leitura. Conto "Os sobreviventes", que o autor manda ler ao som de Ângela Ro-Ro. Trata da conversa entre um homem e uma mulher, amigos de anos, ele comunicando que está indo para o Sri Lanka, os dois revendo uma amizade nascida nos anos 60, os movimentos políticos, culturais, musicais, a frustrada relação sexual do casal, a descoberta da homossexualidade dos dois ..... próxima estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo, diz o motorneiro, tirando-me do fluxo da leitura.

Fecho o livro. Capa cheia de arranjos de frutinhas coloridas sobre folhinhas verdes, Caio Fernando Abreu, que morreu de Aids sem ser hemofílico .... se alguém me visse com aquele livro na mão poderia pensar que eu ... sei lá, esse povo é tão maledicente! O trem para na estação. Quem está bem na minha frente? A tatuagem. Sua dona está com uma caneta na mão e fecha a revista – Almanaque do Dr. ...... o trem abre as portas e ela sai. Caminha guardando a revista e a caneta na bolsa, pega a escada rolante e some de vista.

Por que fez aquela tatuagem? Qual o sentido dela? Alguém sabe?

Mais um mistério do povo da Sé!


José FRID


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Atualização em 2016:  As tatuagens dominaram os corpos! A moda agora é fazer tatuagens forrando um braço, uma perna, as costas....