A última vez que uma tatuagem me surpreendeu foi com um rapaz com a cara toda tatuada, inclusive a careca, que estava com o filhinho no parquinho infantil do Parque da Aclimação. Cena bucólica, o pai empurrando o filho no balanço, as crianças ao redor, cães, o lago, as árvores, etc., se não fossem os adereços corporais paternais. Essa criança teria pesadelo ao sonhar com o pai?
Achei que nada mais me espantaria. Ledo engano. Hoje fui surpreendido novamente. Por uma pequena tatuagem, simples, num local adequado, unicolor.
Uma jovem mulher parada na plataforma da estação Vila Mariana do Metrô exibia no seu braço esquerdo uma pequena tatuagem, constituída simplesmente pela palavra "gay" acompanhada de uma seta apontando para trás. Só. Cor preta, escrita fina. Simples e direta. Mais ou menos assim:
GAY →
Ela era mais ou menos alta, magra mas não muito, bonita mas não muito também. Entre dezesseis e vinte anos, mais ou menos. Sem maquiagem aparente. Estava com uma saia jeans simples, na altura dos joelhos, camiseta branca sem decote ou mangas, uma faixa de lenço dobrado segurando a franja, cabelos compridos, uma pequena revista na mão, parecendo uma daquelas com palavras cruzadas, o indefectível fone no ouvido, uma bolsa marrom de couro molengo. Calçava uma sandália aberta, solado não muito alto. Discreta, comportada, escutando seu ipod.
Para mim havia um total desencontro entre a pessoa e a tatuagem. O que significaria aquela tatuagem? Qual a mensagem a ser transmitida? A que tribo pertenceria a criatura?
Fiquei embatucado. Por que alguém tatuaria a palavra "gay" no braço? Seria gay de alegre ou gay de gay mesmo? Olhei para ela, de soslaio, na plataforma, e não vi sinais de tanta alegria assim. Imagino que uma pessoa que vá tatuar uma palavra alegre no seu braço, provavelmente usará roupas alegres, sapatos alegres, cabelos alegres, algo assim como um hippie das antigas, paz e amor, flores, etc.
Poderia expressar uma opção sexual, tipo orgulho gay? Observei a mulher, detida e discretamente, sem encontrar sinais de homossexualidade masculina. Percebi que isso era mero preconceito meu, pois gay poderia ser também uma mulher. Mas aí seria difícil detectar algum sinal, mulher disfarça melhor. Curioso, examinei detalhadamente a criatura, sorte a minha que ela estava entretida com a música e com a revista. Nem sinal de sapata ou sapatilha. Qual o mistério da tatuagem?
De qualquer jeito, por que uma pessoa tão discreta gravaria no braço, em local de ampla visibilidade, a sua opção sexual? E a seta, qual o sentido da seta? Uma seta apontando para trás. Para suas costas? Veio à minha cabeça um pensamento erótico, seria a seta de indicação de acesso ....... por que alguém indicaria publicamente isso?
Vasculhei meu arquivo mental de símbolos. Ali na plataforma só meu ocorreu a representação de caminho, de sentido obrigatório, qual placa de trânsito, ou o símbolo simplificado de Sagitário. Seria ela um/uma sagitariano(a) alegre? Epa, é o meu signo!
O trem chega com estrondo, retirando-me dos devaneios. Deixo a mulher entrar na minha frente para me permitir novas observações. Ela desloca-se como uma mulher se deslocaria, sem chamar qualquer atenção. Não usa perfume forte. O ipod está num volume adequado, as pessoas circundantes não conseguem discernir qual música embala a alegre criatura. Ela se dirige ao centro do vagão e se senta. O trem enche, perco-a de vista, sem chegar a alguma conclusão sobre a tatuagem.
Encosto na parede do trem e saco da bolsa o livro do dia. Abro na página marcada para continuar a leitura. Conto "Os sobreviventes", que o autor manda ler ao som de Ângela Ro-Ro. Trata da conversa entre um homem e uma mulher, amigos de anos, ele comunicando que está indo para o Sri Lanka, os dois revendo uma amizade nascida nos anos 60, os movimentos políticos, culturais, musicais, a frustrada relação sexual do casal, a descoberta da homossexualidade dos dois ..... próxima estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo, diz o motorneiro, tirando-me do fluxo da leitura.
Fecho o livro. Capa cheia de arranjos de frutinhas coloridas sobre folhinhas verdes, Caio Fernando Abreu, que morreu de Aids sem ser hemofílico .... se alguém me visse com aquele livro na mão poderia pensar que eu ... sei lá, esse povo é tão maledicente! O trem para na estação. Quem está bem na minha frente? A tatuagem. Sua dona está com uma caneta na mão e fecha a revista – Almanaque do Dr. ...... o trem abre as portas e ela sai. Caminha guardando a revista e a caneta na bolsa, pega a escada rolante e some de vista.
Por que fez aquela tatuagem? Qual o sentido dela? Alguém sabe?
Mais um mistério do povo da Sé!
José FRID
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Atualização em 2016: As tatuagens dominaram os corpos! A moda agora é fazer tatuagens forrando um braço, uma perna, as costas....