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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Do abstrato ao .....

Tenta ir do abstrato ao concreto.

O abstrato é a dor dos outros.

O concreto é a dor dos outros incidindo sobre seu corpo até invadi-lo por inteiro.

O concreto é algo que não pode fazer nada além de crescer.

Algo como um tumor ou o contrário de um tumor: um filho.

No seu caso é um tumor.


Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.32 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como os cachorros....

Quando era criança você adorava o silêncio. Depois quis que as palavras te inundassem e te submergissem. Mas você sabia nadar, ninguém precisou te ensinar. Com a gente, você pensa, fizeram que nem fazem com os cachorros: simplesmente nos jogaram na água e aprendemos a nadar ali, na hora.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.31  

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Emagrecer.....

A balança marca 92,1 quilos. Você sintoniza o rádio na 92,1 FM. Detesta essa rádio e todos os programas dela. Precisa emagrecer.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.31

sábado, 1 de dezembro de 2018

Consequências do toque de recolher....

O toque de recolher consiste na proibição de circular livremente pelas ruas de determinado território.

Costuma ser decretado em tempos de guerra ou de revoltas populares.

No Chile, a ditadura o impôs de 11 de setembro de 1973 até 2 de janeiro de 1987.

Numa noite de verão, meu pai saiu para caminhar sem rumo certo. Acabou ficando tarde, teve de dormir na casa de uma amiga.

Fizeram amor, ela engravidou, eu nasci.


Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.45

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Filhos, cães e gatos

[...]

Outra coisa, aproveitando o espaço, sobre cachorros e gatos: os pais querem que os filhos sejam cachorros, mas os filhos sempre são gatos. Os pais querem domesticar os filhos, mas os filhos, como os gatos, não são domesticáveis.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.105 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Perdido

Uma vez me perdi. Tinha seis ou sete anos.Vinha distraído e de repente não vi mais meus pais. Me assustei, mas logo retomei o caminho e cheguei em casa antes deles - continuavam me procurando, desesperados, mas naquela tarde achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar para casa e eles não.

Você tomou outro caminho, dizia minha mãe, depois, com os olhos ainda chorosos.
Foram vocês que tomaram outro caminho, pensava eu, mas não dizia.

Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.11

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Saqueei a memória....

Tentei depois continuar escrevendo. Não sei muito bem por onde avançar. Não quero falar de inocência nem de culpa: não quero mais do que iluminar alguns recantos, os recantos onde estávamos. Mas não estou seguro de fazer isso bem. Sinto-me próximo demais daquilo que conto. Abusei de algumas lembranças, saqueei a memória, e também, de certo modo, inventei demais. Estou de novo em branco, como uma caricatura do escritor que contempla impotente a tela do computador.

Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.61

sábado, 2 de dezembro de 2017

Ser mau....

O colégio mudou muito quando a democracia voltou. Na época eu acabava de fazer treze anos e começava tardiamente a conhecer meus companheiros: filhos de gente assassinada, torturada e desaparecida. Filhos de homicidas também. Meninos ricos, pobres, bons, maus. Ricos bons, ricos maus, pobres bons, pobres maus. É absurdo descrever as coisas assim, mas me lembro de ter pensado mais ou menos dessa maneira. Lembro de ter pensado, sem orgulho e sem autocompaixão, que eu não era nem rico nem pobre, que não era bom nem mau. Mas era difícil ser isso: nem bom nem mau. Me parecia que isso, no fundo era ser mau.



Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.64/65

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Carro antigo...

Observo os carros, conto os carros. Me parece triste pensar que nos assentos traseiros vão meninos dormindo, e que cada um desses meninos recordará, alguma vez, o antigo carro em que anos atrás viajava com seus pais.


Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.157

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

As camisas de meu pai

Guardei as camisas de meu pai numa gaveta durante meses. Desde então aconteceram muitas coisas. Desde então Cláudia se foi e eu comecei a escrever este livro.

Olho agora essas camisas, estendo-as sobre a cama. Gosto de uma especial, cor azul petróleo. Acabo de prová-la, definitivamente fica pequena em mim. Olho-me no espelho e penso que a roupa dos pais deveria sempre ficar grande em nós. Mas penso também que precisava disso; que às vezes precisamos nos vestir com a roupa dos pais e nos olhar demoradamente no espelho.


Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.133

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

De que é feito a memória....

Hoje telefonou meu amigo Pablo para me ler esta frase que encontrou num livro de Tim O'Brien: "O que adere à memória são esses pequenos fragmentos estranhos que não têm princípio nem fim".


Alejandro Zambra in Formas de voltar para casa, Cosac Naify, 2014, pág.144

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Bonsai - Alejandro Zambra



O pequeno livro - menos de oitenta páginas de texto, com no máximo vinte linhas por página - ganhou no Chile o Prêmio da Crítica e o Prêmio do Conselho Nacional do Livro como melhor romance de 2006. Já foi traduzido na França, Itália, Holanda, China, Israel, Brasil, etc. Será que faz jus a tanto sucesso? Será que as premiações foram merecidas?


O livro é bom, bem escrito, inovador e relata a relação de Julio e Emilia, do começo ao fim e mais um pouco, ou seja, a vida dos dois após o término do relacionamento. O estilo do escritor pega o leitor logo nas primeiras linhas e vai prendendo sua atenção até a última página.


O escritor conta todo o enredo logo no começo do livro: "No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. (...) No final, Emilia morre e Julio não morre.O resto é literatura." Mesmo sabendo a estória toda, o leitor não larga o livrinho, quer saber como as coisas aconteceram. Detalhes, detalhes, que o autor não sonega.


Os dois são estudantes de Letras em Santiago, Chile, e o romance passa pela leitura e/ou citação de muitos livros. Os dois, como é previsível, mentem que leram todo o Proust, fingindo ser uma releitura a leitura conjunta inicial. São meio perdidos, talvez pela confusão de leituras?


Julio chega a escrever um livro só para encantar uma namorada, dizendo que o manuscrito que escreve seria o livro de um autor que ela admira, que ele estaria digitando. Amor ou sexo?


O livro vale a pena ser lido e traduzido para as diversas línguas. Quanto a merecer prêmios ... quais eram os outros romances concorrentes??


José FRID