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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Arrependimento




Não me arrependo de nada. Só matei os guardas que o acaso dispôs no meu caminho. A pressa me impediu de suborná-los. Eu vivi urgentemente. O que me desgosta é ser obrigado a admitir que fui um criminoso malsucedido, desses que servem para manter no programa a abstração do crime e do castigo.



Mafra Carbonieri in "Tônio Olivares", Contos da Repressão - Editora Record, 1987

domingo, 11 de novembro de 2012

As tripas podem ser celestiais



Seja por hipótese um violino. Pelo que pode ser celestial o som da tripa.


Mafra Carbonieri in "Tônio Olivares", Contos da Repressão - Editora Record, 1987

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O perdão



Recordo as ocasiões  em que, menino contrito, eu me submetia ao exame de consciência antes de me deitar. Eu ia catalogando no meio do sono os pecados mais recentes. Quando chegava o perdão eu já dormia. Nunca vi o perdão. Mas ele vinha, certamente, senão eu não teria motivo, pela manhã, para me atolar outra vez nos mesmos pecados. Era bom acordar absolvido e escovar os dentes diante do espelho, cuspindo na pia o resto fermentado da noite.


Mafra Carbonieri in "Tônio Olivares", Contos da Repressão - Editora Record, 1987

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Álvaro de Campos Revisitado



A vida me foi dada de presente
numa indecisa noite de dezembro.
O vício de viver veio depois
como o cigarro, o ópio e a mulher.


Eu estava inexistente, ignorado,
perdido no fundo de qualquer coisa
sem fundo, quando assim sem mais nem menos
fui expulso, fui nascido e aqui estou.


Que farei? A pele, papel de embrulho,
mal esconde que minha vida é vício.
A vida me foi dada de presente


e todo o meu problema existe nisto:
na loja em que a venderam erraram o número.
Preciso ir lá, um dia, e devolver.


Mafra Carbonieri in Cantoria de Conrado Honório, 1998

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Contos da repressão


Contos da Repressão - Seleção de Fabio Lucas - Editora Record - 1987


A capa induz ao erro: seriam contos com estórias/histórias ligadas à repressão política. Ledo engano. São contos enfocando a violência em suas diversas formas, inclusive a política.


Os contos são desiguais na qualidade. Alguns envelheceram mal. Outros continuam potentes, deslumbrando os leitores atuais.


Recomendo começar a leitura do livro por ordem distinta daquela organizada pelo selecionador dos contos. A maioria das pessoas que começarem a ler o livro pelo primeiro conto - A casa de vidro, do Ivan Ângelo - é capaz de largá-lo logo, pois este conto é muito longo (24 páginas) e tedioso, O autor  desenvolve a tese de interiorização da violência, sendo muito repetitivo e didático. Hoje, o autor reduziria o texto a menos da metade, indo direto ao ponto.


Melhor começar pelos contos de Rubem Fonseca - Feliz Ano Novo e O Cobrador - que continuam com todo o vigor e frescor, apesar dos mais de 30 anos já passados. A violência e o comportamento social tanto dos meliantes quanto das vítimas de Feliz Ano Novo são atualíssimos, estão nas páginas dos jornais. O personagem do outro conto também anda pelas nossas calçadas cobrando suas dívidas.

O conto de Júlio  Borges Gomide - Um tiro numa melancia - é porrada pura, comportamento comum de menores infratores, principalmente viciados em crack e outras drogas. O outro conto dele - Outra vez a mesma história - também é pau puro, com um belo início. Os dois são curtos como dinamite. 

Voltando para o início do livro, o segundo conto - Intransitivo, de Mafra Carbonieri, é muito bom, mostra a violência urbana das pessoas ditas de bem, mancomunadas com as "otoridades", coisa muito comum ainda hoje. O outro conto do mesmo autor, agora membro da Academia Paulista de Letras, - Tônio Olivares - também é bom, retratando os últimos momentos de um assaltante cercado pela polícia.

Indo para o final do livro, encontramos o ótimo conto de Deonísio da Silva - Investigações sem nenhuma suspeita - sobre um método policial muito especial de investigação, pelo qual qualquer um pode ser culpado. Hoje, em tempos de internet, esse método pode ser mais perigoso. O outro conto do mesmo autor é mediano, deixe para o fim já que ele está no fim do livro.

Agora retornando para o meio do livro, temos o conto "Manobras de um soldado", de Flávio Moreira da Costa, deliciosa e hilariante história sobre um soldado de Petrópolis que deveria combater os militares revoltosos de 1964 que viriam de Minas Gerais. Lógico que dá tudo errado e a ditadura se instala no Brasil.

Podemos, ainda, destacar os contos "Medo", de Manoel Lobato, sobre os perigos de andar de táxi na madrugada, "Os camaradas", de Wander Pirolli, ambientado na época da ditadura, onde o personagem leva uma comida para uma pessoa presa e se enrosca na burocracia policial, "Cão", de Moacyr Scliar, sobre um cãozinho que dá conta de marginais.


Caso você tenha tempo e paciência, leia os outros contos. Depois me conte!



José FRID