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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Velórios - Rodrigo M. F. de Andrade


Único livro de ficção de Rodrigo M. F. de Andrade. São apenas oito contos, incensados por Manoel Bandeira, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Pedro Nava, que lamentaram que o autor não tenha prosseguido na literatura de ficção. Para mim, por essa amostra, ele fez bem em dedicar-se à defesa do Patrimônio Histórico Nacional.... mas quem sabe que com a prática poderia alcançar patamares mais elevados.

Destaco apenas dois contos, por sinal aqueles que são considerados autobiográficos por Pedro Nava: "Quando minha avó morreu" e "Iniciação". Eles abordam experiências de adolescentes descobrindo o mundo, sexo, morte, perda,vaidade, etc. que são comuns a todos que passam por essa faixa etária. Um terceiro conto merece a leitura - "Nortista" - que carece um pouco de foco.


D. Guiomar - Falho. Muita descrição sobre as atividades extraconjugais de um personagem, sem interesse para a ação. Final curto e seco. Em resumo, dois irmãos e um cadáver. 

Martiniano e a campesina - Muita volta para nada. Desfecho fraco: a carta guardada como trunfo pelo autor nada acrescenta ao conto.

Quando minha avó morreu - Conto curto, leve e preciso, autobiográfico segundo Pedro Nava. Muito bom, o autor acertou a mão. Narra a reação de um garoto à morte da avó e a demonstração do seu luto.

Seu Magalhães suicidou-se - Como é "um dos dez melhores contos da literatura brasileira", segundo Aníbal Machado, pulei a sequência e deixei para ler no final. Entretanto, o conto, na minha opinião, não é tudo isso que o Aníbal Machado diz. Trata-se de um mero caso de adultério familiar, que o autor não conduz com maestria, revelando a trama principal antes da hora, esvaziando o conto.

O enterro de Seu Ernesto - Gira em torno do enterro do Ernesto, com os dilemas da viúva, D. Amália, sobre beijar ou não o defunto e seus embates com as cunhadas.

Iniciação - Conto autobiográfico segundo Pedro Nava. Começa muito bem, aguça a curiosidade, a descoberta do sexo por um grupo de garotos, descoberta teórica, é claro. O leitor fica aguardando e .... nada! Nem com o padre sai transa!

O príncipe dos prozadores - O autor não foi feliz. Escreve, escreve mas não desenvolve o conto, não chega a lugar nenhum. Sorte do leitor que ele é curtíssimo.

O nortista - Mário de Andrade via nele "uma perfeição de psicologia". É um conto longo, que narra a saga de um jovem médico contratado pelo "nortista" - deputado federal nascido no Pará e que fez fortuna em Santa Catarina - para tratá-lo de tuberculose num sítio em Minas Gerais. O conto mostra o relacionamento entre os dois personagens, a relação do médico com os moradores das vizinhanças, o embate entre o paciente e o médico, até o desenlace final. Conto bom, mas um pouco dispersivo, seria bom ter um foco.


Rodrigo M. F. de Andrade in Velórios, Cosac & Naify, 2004


José FRID



Livre de vírus. www.avg.com.

domingo, 20 de novembro de 2016

Do Diário de alguém que não nasceu e outras histórias - Isaac Bashevis Singer



Esse é considerado o livro de contos mais famoso de Isaac Singer, Em inglês foi publicado em 1957 com o título "Gimpel the fool", que é o primeiro conto da coletânea, permitindo que os americanos pudessem conhecer os textos do autor, que só escrevia em ídiche, apesar de morar na América desde 1935. Ele alegava que a língua era a melhor para representar o mundo que conheceu na Polônia no início do século passado, a cultura judaica na qual foi criado.

Li esse livro depois de ter lido o seu livro de memórias "Amor e Exílio", que aborda a fase inicial da sua vida, da infância, adolescência e início da vida adulta na Polônia até os primeiros anos na Nova York nos primórdios da Segunda Guerra Mundial. Nesse livro ele fornece uma visão ampla de como os judeus viviam na Polônia, em Varsóvia e nas cidades pequenas do interior, a maioria levando uma vida muito regrada pela religião, com forte presença dos rabinos, quase à parte da vida cotidiana polonesa, Como mencionado em outro livro do autor, um povo tendo a vida imersa num 'esplendor medieval", com suas proibições e superstições ligadas às suas tradições milenares, povo eleito à espera do Messias, precavendo-se contra demônios, diabretes e outros seres malignos, tendo que lidar com a vida moderna, em bruscas transformações políticas, sociais, sexuais, tecnológicas, etc. Um povo e um mundo extinto com Hitler, Stálin e suas atrocidades.

Essa leitura anterior preparou-me para compreender as temáticas dos onze contos, todos com personagens vivendo exclusivamente conforme os ditames da religião judaica, obedecendo seu calendário de festas, rezas, proibições, etc. Como convivessem com os antepassados bíblicos, com demônios, diabretes e outros seres malignos, , Estavam na Polônia mas poderiam estar em qualquer outra cidadezinha européia, onde pudessem viver isolados com seus preceitos. Os textos são deliciosos, com muitas descrições das cidades, das casas, da vida local, dos cultos religiosos, do comportamento de cada personagem, de seus pensamentos, etc., levando o leitor a sair da sua vida cotidiana e emergir na comunidade judaica polonesa do início do século vinte. Uma grande ficção!

Desses onze contos destaco três: Os pequenos sapateiros, À luz das velas sagradas e Do Diário de alguém que não nasceu, que denomina a edição brasileira.

"Os pequenos sapateiros" é um conto delicioso e emocionante que revela a vida de uma família judia de sapateiros de muitas gerações, onde os primogênitos mantinham a tradição, exercendo a profissão familiar e permanecendo na cidade natal de seus antepassados. Tudo corria bem, estável, até que o primogênito da última geração polonesa contesta a tradição familiar, as tradições religiosas, a vida tacanha na pequena cidade, etc. comunicando ao pai que irá partir para a América, que acata a decisão do filho e põe na mão de Deus o destino de todos. Pouco a pouco os sete filhos vão abandonando a Polônia rumo à América, a mulher morre, a cidade é destruída - tempos de guerras - e o pai, já idoso e procurando manter suas crenças, cruza meio mundo para se encontrar com os filhos. Emocionante. Verti lágrimas...

Na "Á luz das velas sagradas" há um encontro noturno de mendigos, na "casa de estudos",  em volta de uma estufa para se aquecerem. Um deles, antigo coveiro, narra as desventuras de sua profissão, culminando com os fatos que o levaram a abandonar a profissão e a cidade, seguindo a vida de mendigo errante.

"Do Diário de alguém que não nasceu" narra as atividades de "alguém não nascido", resultado de uma homenagem a Onan feita por um estudante do Talmude, se é que vocês me entendem, criando um ser "meio espírito, meio demônio, meio ar, meio sombra", que "existe e não existe", um diabrete que perturba os vivos e os desvia do bom caminho, procurando evoluir na sua carreira de diabo. São dois casos de sua atuação, ambos com sucesso no arrebatamento de almas para Asmodeu e Lilith. Não queira ter um desses na sua vida!

"O Ancião" é o conto mais antigo da coletânea, publicado na Polônia em 1933. Ele aborda a saga de um nonagenário para sobreviver na Polônia invadida pelos alemães, primeiro em Varsóvia, onde vê morrer, na guerra e depois por doenças, toda a sua família,  e em seguida pelas cidadezinhas do interior até conseguir chegar numa pequena cidade da Áustria onde é recebido pela comunidade judia local, estabelecendo-se, casando-se e tendo filho como Abraão.

"Gimpel o Pateta", que denomina a edição original americana, conta a estória de uma pessoa que não se considera boba, mas assim é considerada por todos. Bobo, tolo, burro, imbecil, palerma, etc., todos o enganam e ele acredita em tudo que lhe dizem. A mulher o trai com todos e diz que os filhos são deles, só confessando a traição no leito de morte. Difícil 

"O fidalgo de Cracóvia" é a estória de uma cidade pobre e falida que se deixa envolver pelas riquezas de um forasteiro, concordando em quebrar as leis religiosas para alcançar benefícios, sossobrando em pecados, demônios, etc.

"O Mata-Mulheres" narra a vida de um homem que sobrevive às suas mulheres, ficando cada vez mais rico,  até que topa com uma que quase consegue enterrá-lo.

"O espelho" é uma estória de um diabrete que mora num espelho e consegue seduzir uma dama da sociedade e induzi-la à seguir com ele para um mundo desconhecido, o da perdição.

"Alegria" é sobre um rabino que perde a filha  e tem crise com sua fé.

"Fogo" conta a estória de um homem que briga com seu irmão bem sucedido e que resolve tocar fogo na casa dele, mas quando chega lá vê que ela já pega fogo. Ele salva a família do irmão, mas é acusado de provocar o incêndio.

"O homem invisível" é um conto sobre o amor, as tentações e o amor que a tudo resiste.

As curtas descrições acima não permitem mostrar o sabor da escrita de Singer, o entrelaçamento da vida cotidiana com os preceitos religiosos, o detalhe da vida em Varsóvia e nas pequenas cidades da Polônia no início do século passado. Um destaque: os correios funcionavam! As cartas e publicações cruzavam os continentes e oceanos, por trens, navios, charretes, superando distâncias e obstá-los.


Vale a pena a leitura! (Agora estou começando a ler "Sosha", que Singer considerava seu favorito)


José FRID

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Os Fingidores - Rodrigo Rosp


Também denominado de "Comédia em nove cenas", trás o texto de uma peça em nove atos, que o autor também quer que sejam considerados como contos. Caio é o personagem principal que interage, ao longo do texto, com amigos, sua mulher, seu dentista ..... Um personagem que tem medo do morte, temor que permeia sua vida.

Os capítulos vão num crescente, mas no último, que deveria ser o coroamento do texto, o autor perde-se um pouco, fazendo digressões sobre religião, que tiram o interesse ....

Existem muitas boas sacadas, muitas frases interessantes, que estão espalhadas aqui no blog, Cliquem em "Rodrigo Rosp" na lista da direita..

"Ora, gravidez deveria ser recebida de preto. Afinal, é mais uma pessoa que irá morrer. Vocês não veem que estão gerando mais e mais mortes?! (pág.53, Cena Três)

Recomendo muito a leitura d livro!

Boa diversão!

José FRID


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Café com Lucian Freud - Um retrato do artista


Deliciosa biografia do famoso pintor germano-inglês, de origem judaica, neto do Freud. escrita por um jornalista que se tornou muito próximo do artista, participando de inúmeros cafés da manhã com ele, origem do título do livro.

O fato do autor ser amigo e, mais que isso, fã ardoroso, do pintor influi um pouco no texto do livro, a maioria das vezes positivamente. Ele não esconde os defeitos do Lucian Freud, sua dificuldade de relacionamento com os pais, principalmente sua mãe, com as pessoas em geral e, principalmente com as mulheres.

Ele faz uma boa análise dos principais quadros, contextualizando a sua execução, quem era o modelo pintado, quando, como, etc. O livro contém muitas fotos dos quadros citados, o que permite ao leitor verificar imediatamente o que está lendo. Outras obras necessitam do apoio da internet.

A obra de Lucian Freud foi muito influenciada pelo seu envolvimento com inúmeras mulheres, e até homens, que tornaram-se musas do pintor. O autor analisa cada um dos relacionamentos estáveis principais e sua relação com as obras produzidas em cada período, dissecando o estado psicológico do pintor, das musas, etc.

Obra imperdível! Leiam!!

(Publiquei aqui no blog alguns trechos do livro. Leia!)

José FRID

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Respiração Artificial - Ricardo Piglia




Português é uma língua difícil! Comprando livros pela internet, encontro oferta especial da minha livraria predileta. Clico na foto do livro: "Considerado um dos melhores romances da história da literatura argentina, recebeu o prêmio Boris Vian em 1981". O autor, Ricardo Piglia, eu já conhecia, tendo lido alguns contos e ensaios. Leio mais detalhes: "A ação começa em 1976, ano em que os militares tomam o poder na Argentina, dando início à ditadura  de sete anos que resultará em milhares de mortos e desaparecidos....uma carta de Marcelo Maggi, tio lendário que se afastou da família há anos sem deixar traços, envolve o jovem escritor Emilio Renzi numa investigação com elementos de trama policial...." Como a literatura argentina tem grandes nomes (Borges, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Bioy Casares, Ernesto Sabato, etc) e famosa no mundo inteiro, um livro considerado um "dos melhores romances da história da literatura argentina", deveria ser muito bom. Como envolvia, também, história, literatura e política, a oferta era irresistível. Comprei. 

Comecei a lê-lo e percebi o engano. Não do livro, que é bom, prende a atenção, tem partes ótimas, a trama é envolvente, faz algumas suposições interessantes sobre o encontro e a influência recíproca entre Hitler e Kafka, mas não pode ser considerado um dos melhores da literatura argentina. Será que o resenhista do livro queria enganar o futuro leitor? 

Não, o engano foi meu: Ele escreveu: "um dos melhores romances da história da literatura argentina". O que li: "um dos melhores romances da literatura argentina". Ou: um dos melhores romances da história da Argentina". Captaram? O que estava escrito realmente: "um dos melhores romances sobre a história da literatura argentina". O tema principal do livro é a literatura argentina, sua evolução ao longo da história. Ora, para um brasileiro, esse tema é hermético e, pode-se dizer, desinteressante. Os personagens principais do livro são escritores e/ou estudiosos da literatura argentina, discorrendo páginas e páginas sobre a literatura argentina, seu desenvolvimento, comparações com escritores europeus, norte-americanos, formas de escrever, etc. A história não anda, não evolui. Para mim, escrevinhador, a discussão é até interessante. Destaquei alguns trechos que estão no blog, só clicar em "Ricardo Píglia" na barra da direita. Mas para um leitor comum...


Outra resenha do livro: Respiração Artificial (Respiración artificial no original) – Publicado em 1980 por Ricardo Piglia, em plena ditadura militar, é um dos romances de maior êxito de seu tempo. Emilio Renzi, um jovem escritor, reencontra Marcelo Maggi, seu tio e homem envolto num escândalo familiar que, depois de sua passagem pela prisão, vive em províncias diferentes, dedicado a investigar a vida de Enrique Ossorio, um colaborador remoto/espião da era Rosas. Através dele, Renzi encontra com Don Luciano, um ex-senador que há anos está numa cadeira de rodas e é dono de um tesouro familiar: um baú cheio de papéis velhos que pertenceu a Osorio. Romance complexo, ensaístico e erudito, Respiração Artificial abre a década de oitenta para a narrativa dos hermanos e coloca Piglia no centro do sistema literário argentino.


Em resumo: bom livro, mas para poucos.


José FRID

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Diário do clima - Sônia Bridi




O livro é quase um "diário" sobre as filmagens realizadas pela jornalista e seu marido - encarregado das filmagens e fotografias - para uma séria de reportagens sobre as mudanças climáticas devidas ao aquecimento global, a serem apresentadas no Fantástico.

Ela narra as peripécias das viagens - Bolívia (La Paz e Salar de Uyuni), Peru (Cusco e Machu Picchu), Paris, Londres, Veneza, Colorado, Nova York, Green Belt, Groenlândia, Islândia, Tocantins, Tanzânia (Kilimanjaro), Butão, China, Vanuatu, Austrália e Amazônia - realizadas em 2010, detalhando os problemas e dificuldades para realizar as reportagens, culminando com a caminhada até o topo do Kilimanjaro, maior montanha da África e uma das maiores do mundo.

É estarrecedor o derretimento das geleiras em todo mundo, consequência do aquecimento global, o que, por sua vez, agrava ainda mais os problemas por deixar de refletir os raios solares e aquecer as rochas e terrenos. O futuro será quente e seco, na maioria das regiões, com variações extremas das condições climáticas.

A autora é boa jornalista, conseguindo prender a atenção do leitor ao longo de todos os textos, ora dando depoimento pessoal, ora fazendo o contexto social do local visitado, as dificuldades técnicas, etc.

Um defeito do livro é ter poucas fotos, mas é explicável porque  está ligado às imagens da série de reportagem, que a Globo deve vender em DVD. Outro é que acaba de repente: depois do longo texto com a subida do Kilimanjaro, as outras viagens são citadas de forma muito abreviada, como se tivesse sido imposto um limite de páginas para o livro.

Recomendo a leitura!

José FRID

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Cara da Mãe - Livia Garcia-Roza


O livro é uma coletânea de 19 contos de Livia Garcia-Roza, romancista conceituada, já indicada para o prêmio Jabuti.

Os contos, para mim, são bem escritos, mas fracos, sem tensão. Demorei para achar um que me surpreendesse: tive que ler doze contos até chegar a " O pai do Pedrinho". O conto trás a viagem de mãe e filho para ele conhecer seu pai. O texto é construído apenas com a fala da mãe, ora com o filho, ora consigo mesma. A escritora foi feliz na forma de narrar, acrescentando, pouco a pouco, os detalhes que permitem ao leitor conhecer os personagens, suas vidas, a situação atual, o motivo da viagem, etc. Delicioso!

Os outros contos não trazem a mesma maestria. Dois contos abordam relacionamentos de casais com a mesma técnica do "O pai do Pedrinho", mas o resultado não é bom. Os contos com crianças são desinteressantes. Outros apresentam temas mal desenvolvidos.

Em resumo: leia "O pai do Pedrinho" e vá ler um romance da autora!


José FRID

sábado, 2 de agosto de 2014

Lero-Lero - Cacaso


Livro de poesia reunindo toda a produção poética de Antônio  Carlos Ferreira de Brito, o Cacaso, mineiro de Uberaba (1944-1987). Um bom livro! Compre-o e leia-o!

Foram reunidos seis livros publicados e poemas inéditos ou não reunidos nos livros originais.

Os livros são: 

A palavra cerzida - 1967

Grupo escolar - 1974

Beijo na boca - 1975

Segunda classe - 1975

Na corda bamba - 1978

Mar de mineiro - 1982

Os livros são apresentados do mais recente - Mar de mineiro - para o mais antigo - A palavra cerzida. Os poemas inéditos são de 1962 a 1974, fora os não datados.

São 304 poemas com tamanhos diversos,de uma linha a muitas estrofes, com temas variados - Inegavelmente, a qualidade dos poemas é variável, não dá para manter o mesmo padrão durante tantos anos e em todos os formatos.

Os poemas que gostei mais estão aqui:


Compre o livro e obtenha muito prazer!

José FRID

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Com Clarice

Delicioso livro escrito a quatro mãos por Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna para recordar e homenagear Clarice Lispector, de quem foram amigos próximos e são grandes admiradores. Quatro mãos? Não! Duas a duas, pois eles escreveram os textos separadamente. Ou não, afinal são um casal.

O livro é dividido em cinco partes. Na primeira, separados, ARS e Marina escrevem sobre a Clarice, lembrando a convivência deles com ela. Na parte dele, destaco o trecho no qual transcreve a avaliação feita por Clarice de dois livros. Ela começa por demolir os livros, cheios de "lugares-comuns", para depois reconhecer que eles têm a capacidade de provocar emoção,  que é valioso para o leitor. (Leia acima em outro post)


A segunda parte é composta por dois textos de Marina Colasanti: um conto no qual a Clarice é personagem, escrito a partir de fatos narrados por ela; uma crônica sobre a Clarice, com lembranças de Marina. 

Na terceira parte são apresentados três ensaios (crítica literária) escritos por ARS sobre a obra de Clarice. Textos técnicos, mas muito gratificantes para quem se dispuser a ler (eu, por exemplo). O primeiro, escrito em 1962, quando ele ainda era um estudante de Letras, é sobre o livro "A maçã no escuro", publicado em 1961. O segundo ensaio analisa os contos de "Laços de família" e "Legião estrangeira", destrinchando todos os contos dos dois livros e revelando a estrutura que perpassa toda a obra. Muito bom! O terceiro ensaio, sobre "A paixão segundo G.H" é muito interessante, pois o escritor utiliza os recursos estilísticos da autora no seu texto, mostrando, na prática, os pontos que quer destacar.

A quarta parte é integrada por seis crônicas escritas por Affonso Romano De Sant'Anna com recordações da Clarice ou sobre os textos dela.

A quinta parte é constituída pela entrevista concedida pela Clarice Lispector no Museu da Imagem e do Som, em 1976, a Marina, ARS e João Salgueiro, que permite que se conheça mais um pouco da Clarice.


Boa leitura!

Com Clarice - Marina Colasanti e Affonso Romano De Sant'Anna, Editora Unesp, 2013

José FRID

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Brilho dos olhos mortos e outras histórias



Uma coletânea de 10 contos publicados na Revista E do SESC São Paulo, entre os anos de 1994 a 2001, por grandes escritores da "Geração 70": Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Ângelo, Márcio Souza, Moacyr Scliar, Álvaro Cardoso Gomes, Silviano Santiago, Renata Pallottini, João Silvério Trevisan, Luiz Vilela e Sílvio Fiorani, sendo que esses dois últimos eu não conhecia por exclusiva ignorância minha. Foi publicada em 2004 pela Lazuli Editora em conjunto com o SESC São Paulo.

Como em toda coletânea, os textos apresentam temáticas diversas, estilos diferentes e tamanhos variados.Compará-los é uma atitude insana, mas sem dúvida nenhuma, para mim, o melhor conto é o do Márcio Souza,no qual uma jovem índia conta para a sua avó sua iniciação sexual, muito lírica e poética.

O conto do Ignácio Loyola Brandão é muito bom, mostrando o domínio do autor sobre o tema e a escrita. Ele imagina uma jogadora de sinuca cega que ganha (?) do narrador. Muito imaginativo. O conto do Álvaro Cardoso Gomes é sobre um labirinto que um rei criou para prender/matar seus adversários, sendo o próprio texto labiríntico. Muito criativo.

Ivan Ângelo marra a relação especial entre um vendedor e sua cliente, com final surpreendente. Renata Pallottini escreveu um delicioso texto sobre uma ave trazida para a cidade e que fica alegre em ouvir, tempos depois, o canto de outros da sua espécie. 

Moacyr Scliar apresenta homem que enriqueceu aplicando um golpe financeiro na população e que, para se redimir, procura ajudar um antigo amigo que passa necessidades. Final surpreendente e irônico.Luiz Vilela narra a conversa entre dois homens que se conhecem, mas um deles está desconfortável com a presença do outro, que o coage. Final aberto para o leitor imaginar a continuação da estória....

Silviano Santiago traz um conto de uma viúva rememorando a construção de uma casa de campo, desejo do marido a que se submeteu. O conto do Sílvio Fiorani começa bem, com uma coleção de cartões postais enviados por um amigo em viagem pela Itália, mas, para mim, o escritor se perde no meio do texto. O conto do João Silvério Trevisan começa enrolado, continua enrolado, parei de ler.

Recomendo  leitura do livrinho (105 páginas), uma boa amostra da produção de nossos grandes escritores.

José FRID

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O desastronauta - Flávio Moreira da Costa



É um livro de 1971, provavelmente escrito no fim dos anos sessenta, época nele retratada. O personagem principal escreve, traduz livros, faz faculdade, participa do movimento estudantil, fuma à beça, namora, tem mil dúvidas existenciais, .... talvez como o próprio autor, que tinha menos de 30 anos quando da publicação do livro.

Como Rubem Fonseca destaca na orelha do livro, ele "não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica", ..., "não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos de cultura de massa ou a superficialidade interpretativa  do 'midcult'. Sua linguagem polissêmica força a participação ativa do leitor, afinal premiado com a revelação de uma experiência emocional, estética e intelectual das mias ricas", ou seja, poderíamos classificar como um romance experimental. E como tal, tem algumas sacadas geniais, desafiadoras, e algumas partes mornas, cansativas, prolixas, ...

Li este livro após "Os subúrbios da criação", de crítica literária, do mesmo autor, que mostra suas influências literárias, autores prediletos, etc., o que resultou num preparo para o llivro em pauta. Li e reli, realmente este não é um livro fácil, mas interessante. Como o autor (ou o narrador) menciona no texto, depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ambos os livros citados e elogiados no "Os subúrbios da criação", temos agora as "Memórias falsas ou Desmemórias de Cláudio Crasso", o personagem do livro. Transcrevendo:

"Se você é do tipo que quer as coisas explicadinhas e tá-tá-tá-e-coisa, o problema é seu, porque eu sou o caos. E depois daquelas Memórias Póstumas e das outras, das Memórias Sentimentais, só poderiam surgir agora essas memórias falsas - porque escritas com o devido distanciamento: a Geografia, a história e a Economia nesse livro pertencem ao domínio da Imaginação - ainda que às vezes "real"; porque a ficção é fixação. Vou me colocando desde o início em boa companhia, depois de Machado e Oswald - eu. Eu, a terceira etapa de um processo desideológico brasileiro - como pedem os tempos - visto através da lupa de sua literatura. Pois é o que eu faço - Literatura - ainda que me desepere. É o que me resta e o que me falta; o excesso e a escassez." (1. Começo de Conversa, pág.19)

Destacarei algumas partes em outros posts mais adiante.

É o primeiro livro do autor, que depois teve várias obras premiadas: Prêmio Jabuti para, Prêmio Machado de Assis, Prêmio da União Brasileira de Escritôres e Prêmio Nestlé de Literatura para "O equilibrista do arame farpado", de 1997; Prêmio Jabuti para "Nem todo canário é belga", de 1998; Prêmio nacional de Contos do Estado do Paraná para "Malvadez Durão", de 1982.

A leitura de "O desastronauta" provoca a vontade de ler os outros livros do autor, para acompanhar sua evolução literária: onde foi dar todo o experimentalismo de "O desastronauta"?

José FRID

ps: o livro tem como subtítulo "ok, Jack Kerouac, nós estamos  te esperando em Copacabana". Exceto pelo personagem ter lido alguns livros do Kerouac, não percebi o sentido da citação. Falha minha?



terça-feira, 30 de outubro de 2012

Contos da repressão


Contos da Repressão - Seleção de Fabio Lucas - Editora Record - 1987


A capa induz ao erro: seriam contos com estórias/histórias ligadas à repressão política. Ledo engano. São contos enfocando a violência em suas diversas formas, inclusive a política.


Os contos são desiguais na qualidade. Alguns envelheceram mal. Outros continuam potentes, deslumbrando os leitores atuais.


Recomendo começar a leitura do livro por ordem distinta daquela organizada pelo selecionador dos contos. A maioria das pessoas que começarem a ler o livro pelo primeiro conto - A casa de vidro, do Ivan Ângelo - é capaz de largá-lo logo, pois este conto é muito longo (24 páginas) e tedioso, O autor  desenvolve a tese de interiorização da violência, sendo muito repetitivo e didático. Hoje, o autor reduziria o texto a menos da metade, indo direto ao ponto.


Melhor começar pelos contos de Rubem Fonseca - Feliz Ano Novo e O Cobrador - que continuam com todo o vigor e frescor, apesar dos mais de 30 anos já passados. A violência e o comportamento social tanto dos meliantes quanto das vítimas de Feliz Ano Novo são atualíssimos, estão nas páginas dos jornais. O personagem do outro conto também anda pelas nossas calçadas cobrando suas dívidas.

O conto de Júlio  Borges Gomide - Um tiro numa melancia - é porrada pura, comportamento comum de menores infratores, principalmente viciados em crack e outras drogas. O outro conto dele - Outra vez a mesma história - também é pau puro, com um belo início. Os dois são curtos como dinamite. 

Voltando para o início do livro, o segundo conto - Intransitivo, de Mafra Carbonieri, é muito bom, mostra a violência urbana das pessoas ditas de bem, mancomunadas com as "otoridades", coisa muito comum ainda hoje. O outro conto do mesmo autor, agora membro da Academia Paulista de Letras, - Tônio Olivares - também é bom, retratando os últimos momentos de um assaltante cercado pela polícia.

Indo para o final do livro, encontramos o ótimo conto de Deonísio da Silva - Investigações sem nenhuma suspeita - sobre um método policial muito especial de investigação, pelo qual qualquer um pode ser culpado. Hoje, em tempos de internet, esse método pode ser mais perigoso. O outro conto do mesmo autor é mediano, deixe para o fim já que ele está no fim do livro.

Agora retornando para o meio do livro, temos o conto "Manobras de um soldado", de Flávio Moreira da Costa, deliciosa e hilariante história sobre um soldado de Petrópolis que deveria combater os militares revoltosos de 1964 que viriam de Minas Gerais. Lógico que dá tudo errado e a ditadura se instala no Brasil.

Podemos, ainda, destacar os contos "Medo", de Manoel Lobato, sobre os perigos de andar de táxi na madrugada, "Os camaradas", de Wander Pirolli, ambientado na época da ditadura, onde o personagem leva uma comida para uma pessoa presa e se enrosca na burocracia policial, "Cão", de Moacyr Scliar, sobre um cãozinho que dá conta de marginais.


Caso você tenha tempo e paciência, leia os outros contos. Depois me conte!



José FRID

domingo, 7 de outubro de 2012

A incrível viagem de Shackleton - Alfred Lansing



Livro muito gostoso e emocionante. Narra a expedição de Sir Ernest Shackleton em 1914 para realizar um feito inédito: cruzar a Antártica passando pelo Pólo Sul. Motivação dele: fama, riqueza e incompatibilidade com a vida cotidiana.


A viagem não dá certo, pois o navio fica preso num banco de gelo, antes deles desembarcarem no Continente Antártico. Passam o inverno no navio, que depois é destruído pela pressão do gelo. Eles seguem viagem pelas geleiras procurando retornar à civilização, primeiro puxando três pequenos barcos pelas banquisas de gelo, depois navegando em mares traiçoeiros, com ondas enormes, ventos fortíssimos, icebergs, etc.

Vida difícil!!! Só gelo, frio, neve, água gelada, ventos gelados, carne de foca, pinguins, leopardos e elefantes marinhos, gordura de baleia, carne dos cachorros que puxavam os trenós, ração de cachorro, etc. E leite quente!!! Com chocolate até acabar, depois puro! Nada melhor para levantar a moral da equipe.


Sir Ernest Shackleton é um comandante de expedição e de navio à moda antiga, preocupa-se com sua tripulação e é o último a abandonar o navio (os comandantes italianos deviam ler este livro). Mesmo não tendo culpa do acidente, ele assume como sua exclusiva responsabilidade levar seus comandados sãos e salvos de volta à Inglaterra. Um exemplo de liderança e motivação, mantendo unida e eficaz uma equipe de 27 homens sob as piores condições do planeta.

Interessante que o livro foi parcialmente baseado nos diários dos tripulantes. No meio do nada, num frio desgraçado, os camaradas ainda tinham tempo e desejo de registrar os acontecimentos, seus pensamentos e sentimentos! Coisas de navegadores?


E sofrem!!! Quase sempre com as roupas encharcadas, sacos de dormir molhados, muito frio, gelo, neve, etc., mas eles não esmorecem, chegam a ficam 3 dias sem dormir navegando mares bravios. Turma de dar orgulho a qualquer um!


Vale a pena a ler! Você não desgruda do livro!! Quer saber como acaba todo o sofrimento! 


Todos conseguem sobreviver? Retornam a Londres? Leia!! Empresto o meu!!


José FRID

sábado, 15 de setembro de 2012

Como a geração sexo, drogas e rock'n'roll salvou Hollywood



Li, durante parte dos meses de janeiro e fevereiro de 2011, o livro "Como a geração sexo-drogas-e-rock'n'roll salvou Hollywood: Easy Riders, Raging Bulls", de Peter Biskind (Editora Intrínseca, 2009, tradução de Ana Maria Bahiana).


Leitura deliciosa, apesar de cansativa: quase 500 páginas em letras miúdas. Muita informação valiosa, mas um pouco de fofoca também (quem dormiu com quem, quem cheirou/fumou/injetou o quê, etc.)


O autor relata a ascensão de uma turma de novos diretores ( Francis Coppola, Martin Scorsese, George de Lucas, Steven Spielberg, Dennis Hopper, Peter Bogdanovich, Robert Altman, Hal Ashby, Michael Cimino, William Friedkin, Roman Polanski, etc.), que vieram mudar a forma de fazer cinema em Hollywood, questionando os métodos tradicionais dos grandes estúdios (Warner, Fox, Universal, Columbia, Paramount, United Artists, etc.).


Ascensão e queda, pois em pouco mais de dez anos os estúdios retomam o poder, graças à inabilidade empresarial dos diretores e muita, mais muita droga! Só se salvaram George de Lucas, que parou de dirigir pra ficar só na produção, e Steven Spielberg, o mais careta deles, diretor novo mas com alma de "estúdio'.


O período começa com o filme "Sem Destino" (Easy Riders, de Dennis Hopper) e vai até o lançamento de "Touro Indomável" (Raging Bulls, de Martin Scorsese), passando por outros filmes memoráveis: Bonnie e Clyde, O Poderoso Chefão, A Última Sessão de Cinema, Taxi Driver, MASH, Nashville, Ensina-me a viver, Amargo regresso, Muito Além do Jardim, Reds, Lua de Papel, O Franco Atirador, Apocalypse Now, Operação França, O Exorcista, Loucuras de Verão, Star Wars, Alice não mora mais aqui, New York, New York, O Último concerto de Rock, Encurralado, Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, ET, Chinatown, etc.


O livro conta como cada filme foi feito, as escolhas dos atores, as dificuldades com os roteiros e os financiamentos, os problemas de realização, finalização e distribuição, as dificuldades enfrentadas, os resultados obtidos e as implicações de cada filme no progresso (ou não) de Hollywood, e o impacto nas carreiras dos seus diretores, roteiristas, atores e produtores.


O autor relata, no seu entendimento, como a cocaína veio a se tornar popular, graças ao filme "Sem Destino". Segundo ele, a cocaína era um produto caríssimo, denominada a "droga dos reis", de difícil obtenção e relativamente desconhecida. Os poucos e elitizados usuários achavam que ela não viciava. O pessoal preferia outras drogas tipo maconha, anfetaminas, LSD, heroína, etc.


No filme "Sem Destino" os motoqueiros planejam transportar drogas para obter sua independência financeira. Maconha não poderia ser, pois era barata e volumosa. heroína tinha uma conotação ruim. Optaram pela cocaína, da qual um pequeno volume valeria uma fortuna. Com o sucesso do filme, a cocaína foi para as ruas e virou um sucesso. Muitos dos diretores do período estudado arruinaram suas vidas com a cocaína. A vida imitando a arte ou ao contrário?


O livro mostra a revolução na forma de lançar os filmes, de poucos cinemas em locais selecionados para lançamentos monstruosos, em mais de mil salas ao mesmo tempo. A forma antiga condenava muitos filmes ao insucesso só por não serem lançados adequadamente.


E a traduçao da Ana Maria Bahiana é muito boa, de quem conhece o tema tratado.


Leia o livro e divirta-se!!




José FRID





quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Festa no Covil - Juan Pablo Villalobos



Livro muito interessante pelo tema abordado - narcotráfico no México - e pela forma da narrativa: monólogo de um garoto, filho de um narcotraficante chefe de cartel, que está retido no palácio da família por questões de segurança.


O garoto tem pouco contato com o mundo exterior o que, aliado à pouca idade e experiência de vida, faz com que ele relate sua vida de forma muito peculiar, filtrando a violência externa pelos meios que dispõe. Violência cotidiana, para a qual é preparado pelo pai, que quer forjar um herdeiro preparado para assumir o cartel. Além de prepará-lo para a violência dos negócios, o pai tenta prepará-lo para a vida, por meio de professor particular muito culto, escritor, militante esquerdista e ex-dono de agência de publicidade.


Ele adora chapéus  - tem uma coleção imensa - e usa um para cada ocasião. Como quase tudo é mistério na sua vida, o chapéu de detetive é muito usado, quando ele caminha pela mansão atrás de respostas. A mansão possui um zoológico com várias espécies de animais, inclusive leões e tigres, que ajudam a sumir com os inimigos...


A banalidade do mal é revelada pelos olhos do menino. Cabeças cortadas, corpos varados por balas, facadas, etc. nada emociona o garoto, que considera essas coisas meros fatos da vida. Por falar nisso, o menino admira os franceses pela forma que eles cortam as cabeças dos reis e rainhas...

O pequeno livro - pouco mais de setenta páginas de texto, com no máximo trinta linhas por página - foi publicado originalmente na Espanha e já traduzido na Alemanha, Reino Unido, França, Holanda e Brasil, etc. Será que faz jus a tanto sucesso? 


Sim!! O livro vale a pena ser lido e traduzido para as diversas línguas. Leia!!!


O livro é bom, bem escrito, inovador e relata a relação de Julio e Emilia, do começo ao fim e mais um pouco, ou seja, a vida dos dois após o término do relacionamento. O estilo do escritor pega o leitor logo nas primeiras linhas e vai prendendo sua atenção até a última página.


O escritor conta todo o enredo logo no começo do livro: "No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. (...) No final, Emilia morre e Julio não morre.O resto é literatura." Mesmo sabendo a estória toda, o leitor não larga o livrinho, quer saber como as coisas aconteceram. Detalhes, detalhes, que o autor não sonega.


Leia!!


José FRID



terça-feira, 7 de agosto de 2012

Pássaros na Boca - Samanta Schweblin


Pássaros na boca – Samanta Schweblin, Benvirá, tradução de Joca Reiners Terron

Comprei este livro após ler duas resenhas  sobre ele no Sabático (Estadão) e no Prosa & Verso (O Globo). Elas foram muito favoráveis, exaltando a maestria da autora, considerada "herdeira da literatura de realismo fantástico" de Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortazar",  elogiada por Mario Vargas Llosa e considerada pela Granta como uma dos 22 melhores escritores de língua espanhola da nova geração. Além disso, o livro em questão recebeu o prêmio "Casa de Las Américas" e já foi traduzido para 12 línguas!! E ela já ganhou duas bolsas literárias, indo agora passar um ano na Alemanha para escrever.

Com todos  esses elogios, esperava um "livraço" extasiante!!! A frustração foi grande: apenas um livro médio, bom, nada de mais, nem de menos. Quem sabe no futuro ela atinja o nível dos escritores  com os quais é comparada.

Os melhores contos têm temáticas surpreendentes ou surrealistas, com finais inesperados ou não conclusivos. Os piores são pura perda de tempo! A crítica menciona a "velocidade" do texto, mas não a detectei. A escritora, para mim, sai-se melhor nos contos mais longos.

Irman –  Algumas sacadas interessantes, principalmente pela altura do garçom e as dificuldades dela decorrentes. Surpreende, de forma negativa, a reação de um dos protagonistas, completamente sem sentido no contexto do conto. O desenlace não tem qualquer interesse.

Mulheres desesperadas –  Se o livro começou mal, agora melhora com esse segundo conto. Temática surpreendente e desenlace apropriado. Desespero puro!

Na estepe –  Bom conto com final em aberto. O que seria que eles procuravam com rituais de fertilidade? Maestria no manejo do diversionismo puro!

Pássaros na boca –  Ótimo conto. Como lidar com normalidade uma situação anormal. "Um homem comum e atual, um sujeito puro e organizado".

Perdendo velocidade –  Homem-bala aposentado diz que está perdendo velocidade e morre. Nós é que perdemos tempo com esse conto ruim.

Cabeças contra o asfalto –  Apenas curioso. Um homem nervoso e simples.

Rumo à alegre civilização –  Muito bom. Parte de uma questão simples – falta de troco – para criar uma história muito interessante, com desdobramentos surpreendentes. Arrependidos? Bom controle do texto, mantendo o interesse do leitor até o fim.
  
O cavador –  Coisa de doido. Inquilino encontra cavador que pensa que ele é quem encomendou o poço para um plano. Que plano? Que chefe? Que cavador? Tem que lidar com uma situação de puro "nonsense"!

A fúria das pestes –  Conto ininteligível para mim. Que peste? Que fúria?

Sonho de revolução –  Sonhada revolução alcoólatra. Conto fraco.  

Matar um cão –  Versa sobre o ritual de iniciação numa quadrilha violenta. Poderia ser ainda mais curto.

A medida das coisas – Conto bobo, mostrando um filho em conflito com a mãe dominadora, que se esconde em loja de brinquedo.

A verdade sobre o futuro –  Bem construído. É o que acontece quando se acredita em ciganas. Todos menos ele acreditam, mas ele é quem sofre as conseqüências das previsões. Sinais, onde estão, o que significam?

A mala pesada de Benavides –  Ótimo conto. Grande, mas todas as páginas são necessárias, pois precisa ser construída a troca da violência pela arte. Nonsense puro!

Conservas –   Bom conto. Um aborto sui generes!

Meu irmão Walter –  Um ser deprimido que faz com que as pessoas à sua volta se sintam felizes. E o leitor com isso?

Papai Noel dorme em casa – Ótimo! Surpreendente a presença do Papai Noel. Texto na visão de uma criança que espera um presente do Papai Noel.

Debaixo da terra – A ideia é boa, mas o conto fica sem desenlace.

José FRID