Mostrando postagens com marcador Jack Kerouac. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jack Kerouac. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Mulheres.....

As mulheres e sua predileção por dar à luz para não suportar o estigma da esterilidade são esqueletos inventando esqueletos.

Jack Kerouac

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Carrascos....

AS JANELAS A MIL METROS DE ALTURA DA  noite de luzes amareladas de Tânger , - Começa com um oficial nazista me conduzindo por um morro, coberto de neve, acima para me executar com uma pistola Luger automática e fazendo piadas em alemão sob a neve que continua caindo, o que me leva a pensar: "Ah, por que será que esses chatérrimos carrascos sexuais sempre têm que ser tão xaropes, com essa mania de contar anedotas velhas e sem graça?" [...]

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.238 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Penhasco....

PELA PRIMEIRA VEZ SONHEI QUE FUI SUBINDO aos poucos num penhasco, de encosta a encosta, conseguindo chegar lá em cima e me sentando, mas de repente, ao olhar para baixo, vi que não era nenhum penhasco aonde a gente sobe aos poucos, mas abrupto - no sonho, nem pensar em descer pelo outro lado - como sempre, nos Sonhos com Lugares Altos, me preocupo em descer pelo mesmo caminho que me trouxe até ali, ou em corrigir meus próprios erros - e, muito embora saiba que se trata de sonho, enquanto perdura insisto que tenho que descer do alto do penhasco que galguei - o mesmo velho medo me agarra em convulsões mortais - "Mas, se é sonho, então o penhasco não é de verdade", digo comigo mesmo, "portanto simplesmente acorda & ele desaparecerá" - mal posso acreditar que seja possível e, trêmulo, abro os olhos & o sonho acabou, não tem mais penhasco, o terror passou. Esse, até que enfim, é o Sinal da Compaixão de Buda - noutras palavras, foi a primeira vez que sonhei que estava num lugar alto & e tinha medo de descer, mas sabia que era sonho & qualquer coisa me dizia para acordar & o lugar alto desapareceria, & abri os olhos & não havia mais nada 
Salvo!
Buda corrigiu meu erro por mim - 

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.213 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Tibetana....

SONHEI QUE ESTAVA ESPERANDO numa estranha estação terminal de ônibus, toda iluminada de branco, em New Jérsei, a hora de embarcar para New York - uma espera interminável - de repente vejo uma chinesa linda, mas esquisita, encostada na parede - me aproximo & aponto para dois garotos chineses & negros que também estão esperando - "Não acha que valia a pena tirar uma foto deles?" comento, brincando e apalpando a cinta, o que não lhe agrada - "Que idade você tem?" pergunto, contemplando a estranha e serena beleza do rosto oval & e ela responde: "Digamos que nasci em 1863" e deduzo, fazendo rapidamente a conta, que já está com quase 100 anos & digo: "Entendo, você é tibetana" e ela confirma com um leve piscar dos olhos amendoados. O ônibus só sai às 4 e são apenas 3 horas no tristíssimo domingo de Nova Jérsei

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág. 248
 

domingo, 11 de outubro de 2020

Solidão da morte....

DESASTRES AÉREOS (NESSA MESMA GUERRA) são registrados por um dispositivo fotográfico que tira fotos das pessoas a bordo enquanto o avião vai caindo - a gente vê a agonia delas, inclusive o instantâneo de um homem se debatendo no meio da fumaça - (na hora da queda) o dispositivo nunca falha. Estamos olhando uma série de fotos - fico completamente horrorizado, pois logo me identifico e esqueço que é um (sonho) dispositivo que tira as fotografias - Os passageiros civis aparecem em grupo, se retorcendo, atormentados, no bravo avião marrom, que se precipita céus abaixo para se espatifar em plena noite e matar todos eles - vêem-se homens que se entreolham com expressões de insuportável pesar - reparo num que contempla o soalho, tranquilo - enquanto outros gemem, rezam e se contorcem - vai deixar-se levar calmamente pela explosão - mas, à medida que a câmara documenta o progresso da queda, cada vez mais próxima do momento fatal do contato do avião com o solo, nosso herói dá um salto e começa a gritar - Seja lá quem se olhe, o semblante (mulheres, crianças, homens) mostra uma expressão jamais vista, antes ou depois - Um pesar insuportável e uma grande compreensão bestificada, com pálidas pinceladas de medo, tão enorme, que eu mesmo fico apavorado de ver. São flagrantes de moribundos envoltos pela fumaça e pelas chamas, famosos heróis convulsionados pela agonia, sozinhos, sem saber que posam para fotos e que alguém um dia vai ver tudo isso, que nunca mais há de se repetir - É a Solidão da Morte, a individualidade da morte - os frutos, finalmente, da existência, com toda a dor e o terror que contêm - seu poder foi tão grande que a perda causa um sofrimento enorme, aterrorizado - Ah, quem me dera poder descrever esses rostos, esses olhos que, por fim, enxergam algo novo, numa avaliação definitiva - o nó que sentem na garganta quando tentam conformar-se com o destino, alguns soluçando entre as mãos, enquanto o pobre mundo se despenca, aos gritos, para a destruição - Og -OM! Salva todos os seres conscientes com tua clava de diamantes!

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.187/188

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Merda...

[...] mas o Espírito se descontrola numa cena no toalete que fica do outro lado da rua, em frente à casa de Cody, onde ele e eu estamos cagando lado a lado numa latrina dupla - enquanto me limpo com papel, Cody fala mal de um ator, dizendo: "Mas você sabe, ele é veado, vive chupando reis" e como ao me limpar continuo sentado, de pau de fora, a referência a esses detalhes eróticos faz com que comece a endurecer; me apresso a me levantar antes que fique duro por completo, mas me atrapalho todo e, quando vejo, estou com um pedaço de merda na boca, por algum motivo a ver com o papel, com o movimento desordenado dos braços, com os restos de comida que entram no meio dos dentes - eis-me ali, procurando tirar aquele naco de merda do sonho colado na boca, também cheia de papel higiênico (em vez de passá-lo no rabo, acabei passando nos lábios) e o papo de Cody a respeito das chupadas, enquanto me levanto e tento ser rápido, é uma verdadeira Comédia - cheguei até a sonhar com o gosto imaginário da merda, sensação só possível de ser associada à lembrança de uma pasta de amendoim insossa, como aquele "pedaço de pêssego" que o inseto do barril  arrastava na semana passada - a todas essas, Cody nem nota minha situação e, como não estou trabalhando na ferrovia, não me preocupo com hora - 

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.165

terça-feira, 22 de setembro de 2020

"Bang"!

GUERRA - UM HORRÍVEL CONFLITO DE INFANTARIA, que me fez acordar no meio da noite e sentir vontade de me refugiar no mato feito Thoreau - estou sozinho numa espécie de colégio, cercado de todos os lados por orientais que disparam de uma distância de 100 metros, pelos campos e matagais, com trabucos e espingardas, numa barulhada ensurdecedora, ou que todos fazem pontaria contra mim, tão inocente e infantil no sonho, e a única "arma" de que disponho é fazer "pum" com a boca, merda, pelas janelas e mesmo quando as vidraças se quebram e o inimigo aponta as espingardas ali dentro para mim, levanto o revólver de brinquedo e grito "bang"! - Não paro de imaginar a chuva de balas penetrando no meu corpo, a dor, mas por enquanto nada disso acontece - no entanto são tantos os tiros desfechados contra a escolinha, que é, em parte, a Secundária de Bartlett, mas só no andar térreo, e parecida com a Casa Mal-assombrada em frente ao Joe e qualquer coisa anterior, mais estranha ainda - as balas são tantas que não é possível que não seja atingido. Finalmente o dia nasce enluarado e nem sei bem como vou me livrar dessa situação, pois de repente encontro balas de verdade e uma espingarda que funciona e coloco uma cápsula dentro dela, só que não consigo achar o gatilho, um inimigo assesta a arma na janela para me matar e a única coisa que faço é levantar a espingarda de verdade e fazer "pum"! - Tinha esperança de sair furtivamente no meio da escuridão, mas no luar, que já vai clareando com o romper do dia, dá para enxergar nitidamente vultos de índios que se aproximam em rápidas corridas entre as árvores - e não posso sair sem risco, rumo à segurança, ao esquecimento, do outro lado dos matagais. Acordo percebendo que gostaria de estar morto, e pensando na próxima guerra, que não conseguirei sobreviver, me lembrando dos nossos soldados que estão na Coréia, de mãos atadas nas costas, caídos no chão, fulminados por baionetas, vítimas de armas que nada têm de brinquedo, uma morte lúgubre sob a geada de inverno. Não vejo por que o Ocidente deva sofrer a indignidade de viver no mesmo planeta com esses Mongóis Idiotas do Oriente, que investiram aos milhares de suicidas em ataques ao luar  e adoraram a experiência - Pearl Harbor foi só o começo - Ganharam couraçados dignos de Átila - acho que deve haver outros mortos junto comigo na sala de aulas - não vejo nem percebo nenhum no meio das cores douradas, estranhas e gerais deste sonho horrível e definitivamente desesperado.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.147/148

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Henry Fonda

UM FILME COM HENRY FONDA sobre piratas de alto-mar, só que ele interpreta uma espécie de mulher que aparece arrumando as malas, histericamente, para abandonar o navio; tira tudo do armário, inclusive echarpes de seda esvoaçantes, lindas, algumas azuis como a noite, e o mulherio na plateia comenta: "Ah, não disse que ele andava roubando?" - e no final (como se o filme já não fosse suficientemente esquisito) o Henry aparece sem maquiagem, descendo a escada externa de bordo bem sério, sisudo, e é óbvio que a história vai de novo tomar um cunho de aventuras de pirataria romântica quando o "verdadeiro" Henry volta da capitania do navio todo caracterizado, bem penteado, para depois surgir perfilado, bonito e indignado no meio do camarote da mulher, protestando contra o outro Henry - o pessoal que passa esse filme na televisão já está recebendo cartas de telespectadores de Greenwich Village dizendo que jamais tinham ouvido falar desse espetáculo, um filme velho, de 15 ou 12 anos atrás - querem saber o nome de todo o elenco - uma antiga obra-prima cinematográfica, repudiada e esquecida, do início da carreira de Henry Fonda.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.145/146

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Escadas....

PARA DESCER DO NOSSO APARTAMENTO PARA a rua  tem que se ir  por uma escada que sai lá do alto do Empire State Building. Já ando farto de toda essa porra e me recuso a descer por ali, mas Jesse desce. Antes dela, um homem quis experimentar (ia para o trabalho com o jornal da tarde no bolso), escorregou sem querer e caiu silenciosa e discretamente, morrendo na hora - isso acontece a cada instante -, mas eu desço de maneira segura, que o sonho não indica qual é, e saio caminhando pela rua escura, me perguntando se Jesse conseguiu fazer o mesmo - me viro e vejo ela andando devagar, a uma quadra de distância na minha frente, pela calçada do lado oposto - parece que mamãe não teve sorte e morreu, mas não acredito - (nesse mesmo dia, mamãe ficou com medo de descer pela escada do sótão, o sonho foi uma carinhosa e estranha antecipação) - Jesse caminha tristonha no escuro, sem saber mais onde estou

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.240/241 

domingo, 6 de setembro de 2020

Gato no colo

O PILOTO DE BOMBARDEIO EM MERGULHO lá no alto, no céu, está pronto para se atirar e abrir o paraquedas - sou eu - caio durante um tempo enorme, mas não sinto medo e ainda falta muito para chegar ao solo, a julgar pela paisagem, de modo que, quando o paraquedas finalmente abre, me dá sensação de ter cometido um erro e vou passar a tarde inteira flutuando antes de bater no chão - levo meu gato no colo - 

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.134

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Sexo e morte....

[...] fui me deitar com a primeira visão nítida e a mensagem definitiva da necessidade da minha morte - estou caminhando em cima de um banco, no meio de multidões, não tem importância que o homem carrancudo, atarracado e musculoso de 30 anos vá morrer - um entre dois bilhões deste mundo morto e bilioso - com sua carga de tempo e tédio - me acordo e compreendo que sexo é vida - o sexo e a arte - é escolher entre ele a morte - 

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.83 

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Uísque....

MINHA MÃE ESTÁ TODA CHEIA DE DORES E achaques - mando que tome um pouco de uísque para melhorar - um minuto depois, vejo o meu velho escapulindo de casa para dar um pulo na drogaria - comprar aspirinas, aqueles mesmos comprimidos de antigamente - fico danado, mando mamãe tomar outro gole - finge se reanimar: "Ah, uísque? E aí, o que é que eu faço?" - "Toma com aspirina e vá se deitar" - A cena se passa num lugar qualquer do leste e é triste - [...] 

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.82

domingo, 23 de agosto de 2020

Eternidade.....

ANDO COM JOE NA SUA MOTO, SENTADO DE  costas para ele, arrastando os saltos dos meus novos crepe-solas pela rua da cidadezinha sulista - sinto vontade de pedir para que ande mais devagar e possa me virar de frente, mas ele não ouve ou não liga, é em Rocky Mount ou Kinston, atravessamos os trilhos da estrada de ferro e saímos a toda a velocidade campo afora, mas de repente o chão foge dos nossos pés  e um grande precipicio, com areia lá embaixo, numa garganta de trezentos metros de altitude, se escancara para nós e não nos resta mais nada senão despencar, mas Joe mantém a esperança louca, desvairada, de que as rodas vão cair na posição certa, o que mais ou menos acontece, e saímos rodando como se fosse um cavalete; no fundo há um riacho seco, outra subida por uma encosta íngreme e arenosa como aquelas em que dávamos saltos mortais no Lawrence Boulevard - vasta e aterradora espera - um casebre ocupa a ladeira oposta, nós entramos, uma garota bonita chamada, se não me engano, Ann Buee, mora ali com a mãe - tem gravador, livros, se sente solitária - entro nu, de pau mole, começo a conversar, Joe desaparece, tenho que ir embora para conseguir dinheiro ou trabalho, mas quero voltar pra casar com ela - é da cor do mel, inocente, em seus doces dezesseis anos - quarto de dormir atulhado de coisas - a melancólica luz do sol da encosta orenosa enche de eternidade as janelas do casebre.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.59/60

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Irene

[...] Passo pelo meio dessa desordem, entro numa loja, uma morena linda e provocante se vira para o pai e diz: "Está vendo? Tudo quanto é homem fica caidinho por mim" - isso depois que lhe lanço um olhar de apreciação e comento qualquer coisa.

- Está  .bem, Irene - retruca o pai, magro, com ar de agricultor resignado.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.39

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Crianças....

[...] Todas as crianças brincam no telhado em frente, existem redes estendidas sobre o pátio para pegar as que caem, e quando isso acontece as outras se limitam a sorrir - a que cai fica chorando na rede - "eu avisei que era cruel" - as mães nem dão bola - "por que não vão brincar na calçada?" pergunto - "não tem lugar, a civilização agora está muito espalhada". A culpa não passa de sonho, a compaixão é a única realidade...[...]


Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.27/28  

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Pauzinhos....

[...] A mulher de Waldo Walters está junto comigo no vagão de alojamento, que coisa mais louca, conversamos animados e íntimos e de repente, exatamente quando vai me mostrar o que realmente interessa, entra Waldo e, no mesmo instante, a saia dela se abre para revelar um pauzinho minúsculo que, no entanto, insisto, é "de mulher" - uma mulher com pau, que mal tem? - e Waldo interpreta o que estávamos fazendo "de maneira errada", não tínhamos "nenhuma intenção sexual" - do mesmo modo, o meu pauzinho aparece e encabulo, procuro esconder minhas coxas leitosas e glabras [...]



Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, págs.25/26  

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Calças.....

IMENSAS EPOPEIAS A NOITE INTEIRA, pesadelos fantásticos, pormenorizados, em que perco duas vezes as calças e sou procurado pela polícia como tarado sexual por andar fazendo tantas coisas com rapazes e moças do curso secundário a ponto de perder as calças. Falo todo nervoso com eles, usando uma echarpe diáfana na coxa - que horror, virei uma estranha bicha santa e exuberante, sem a menor explicação.

Jack Kerouac in O Livro dos sonhos, L&PM Pocket, tradução de Milton Persson, pág.25

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O desastronauta - Flávio Moreira da Costa



É um livro de 1971, provavelmente escrito no fim dos anos sessenta, época nele retratada. O personagem principal escreve, traduz livros, faz faculdade, participa do movimento estudantil, fuma à beça, namora, tem mil dúvidas existenciais, .... talvez como o próprio autor, que tinha menos de 30 anos quando da publicação do livro.

Como Rubem Fonseca destaca na orelha do livro, ele "não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica", ..., "não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos de cultura de massa ou a superficialidade interpretativa  do 'midcult'. Sua linguagem polissêmica força a participação ativa do leitor, afinal premiado com a revelação de uma experiência emocional, estética e intelectual das mias ricas", ou seja, poderíamos classificar como um romance experimental. E como tal, tem algumas sacadas geniais, desafiadoras, e algumas partes mornas, cansativas, prolixas, ...

Li este livro após "Os subúrbios da criação", de crítica literária, do mesmo autor, que mostra suas influências literárias, autores prediletos, etc., o que resultou num preparo para o llivro em pauta. Li e reli, realmente este não é um livro fácil, mas interessante. Como o autor (ou o narrador) menciona no texto, depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ambos os livros citados e elogiados no "Os subúrbios da criação", temos agora as "Memórias falsas ou Desmemórias de Cláudio Crasso", o personagem do livro. Transcrevendo:

"Se você é do tipo que quer as coisas explicadinhas e tá-tá-tá-e-coisa, o problema é seu, porque eu sou o caos. E depois daquelas Memórias Póstumas e das outras, das Memórias Sentimentais, só poderiam surgir agora essas memórias falsas - porque escritas com o devido distanciamento: a Geografia, a história e a Economia nesse livro pertencem ao domínio da Imaginação - ainda que às vezes "real"; porque a ficção é fixação. Vou me colocando desde o início em boa companhia, depois de Machado e Oswald - eu. Eu, a terceira etapa de um processo desideológico brasileiro - como pedem os tempos - visto através da lupa de sua literatura. Pois é o que eu faço - Literatura - ainda que me desepere. É o que me resta e o que me falta; o excesso e a escassez." (1. Começo de Conversa, pág.19)

Destacarei algumas partes em outros posts mais adiante.

É o primeiro livro do autor, que depois teve várias obras premiadas: Prêmio Jabuti para, Prêmio Machado de Assis, Prêmio da União Brasileira de Escritôres e Prêmio Nestlé de Literatura para "O equilibrista do arame farpado", de 1997; Prêmio Jabuti para "Nem todo canário é belga", de 1998; Prêmio nacional de Contos do Estado do Paraná para "Malvadez Durão", de 1982.

A leitura de "O desastronauta" provoca a vontade de ler os outros livros do autor, para acompanhar sua evolução literária: onde foi dar todo o experimentalismo de "O desastronauta"?

José FRID

ps: o livro tem como subtítulo "ok, Jack Kerouac, nós estamos  te esperando em Copacabana". Exceto pelo personagem ter lido alguns livros do Kerouac, não percebi o sentido da citação. Falha minha?



segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

3 Hai-Kais de Jack Kerouac



O dia todo usando
um chapéu que não estava
Na minha cabeça


A árvore se parece
a um cão
Latindo ao Céu


Inútil! Inútil!
- chuva forte a escorrer
Para o mar

(tradução de Cláudio Willer)

sábado, 29 de setembro de 2012

Como escrever um Haikai, por Jack Kerouac



KTED BERRIGAN — Como você escreve haikai?


KEROUAC — Haikai? Você quer ouvir haikai? Veja, você tem que comprimir em três linhas uma história enorme. Primeiro você começa com uma situação haikai — então você vê uma folha, como eu tinha dito a ela (Stella) outra noite, caindo nas costas de um pardal durante uma forte tempestade de inverno em Outubro. Uma grande folha cai nas costas de um pequeno pardal. Como você pode comprimir isso em três linhas? Agora, em japonês você tem que comprimir em 17 sílabas. Não precisamos fazer isso em inglês, pois não temos o mesmo sistema silábico que o Japonês. Então você diz: "Pequeno pardal" — você não tem que dizer "pequeno" todo mundo sabe que um pardal é pequeno, então você diz:



Pardal

Com grande folha em suas costas —
tempestade


Não está bom, não funciona, esqueça.



Um pequeno pardal

Quando repentinamente uma folha toca suas costas
Do vento.

Hah, assim que se faz. Não, está um pouco longo. Viu? Já está um pouco longo, Berrigan, entende o que quero dizer?



TED BERRIGAN — Parece haver uma palavra extra. Que tal tirar o "quando"? Ficaria:



Um pardal

Uma folha de outono repentinamente toca suas costas —
Do vento!

Hey, isso está bom. Acho que "quando" era a palavra extra. Você pegou a ideia aqui, "Um pardal, uma folha de outono de repente"— não temos que dizer "de repente" não é?


Um pardal

Uma folha de outono toca suas costas —
Do vento!


[Kerouac escreve a versão final em um caderno de espiral]




(via Cláudio Willer)