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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Poeta da Roça (Patativa do Assaré)

Eu quero lhe dizer desta poesia cabloca, ou vamos chamar, poesia matuta, o que é que sou e o que é que eu canto.

Sou filho da mata, cantor da mangrossa, trabalho na roça, tenho verme e destio.

A minha choupana é tapada de barro, só fumo cigarro de palha de milho.

Sou poeta da brenha, não faço patê, se algum menestré, errante cantor, que vive vagando com sua viola, cantando pachola para cura de amor.

Não tenho sapiência, pois nunca estudei, apenas sei o meu nome assinar.

O meu pai, coitadinho, vivia-se em pobre, e o filho do pobre não pode estudar.

Meu verso rasteiro, singelo e sem graça, não entra na praça no rico salão.

Meu gado só entra no campo e na roça, na pobre palhoça, da serra ao sertão.

Só canto o bulício, da vida apertada, da vida pesada da roça.

E, às vezes, recordando a minha mocidade, canto uma saudade que mora em meu peito.

Eu canto o cabloco com suas caçadas, na noite assombrada, que tanto apavora.

Por dentro da mata, com tanta coragem, topando com a chamada caipora.

Eu canto o vaqueiro, vestido de couro, brigando com o touro no mato fechado.

Que pega na ponta, do bravo navio, ganhando elogio do dono do gado.

Eu canto mendigo, de sujo farrapo, com peça de trapo e mochila na mão, que chora pedindo "socorro, doutor!, e tomba de fome, sentado e sem pão.

E assim, sem cobiça, eu vivo contente, feliz com a sorte.

Morando no campo, sem ver a cidade, cantando as verdades das coisas do Norte.

Patativa do Assaré in Revista Brasileiros, março de 2009

sábado, 19 de setembro de 2009

Aos poetas clássicos - PATATIVA DO ASSARÉ

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;

Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.


Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

PATATIVA DO ASSARÉ