Mostrando postagens com marcador Dora Ferreira da Silva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dora Ferreira da Silva. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Pássaro e mulher


Quem me prende
mais do que a terra?
Impossível o vôo
agora.
Quente fremente
a intenção de alguém.
Desfez-se a palidez
perdi meu vôo
nas grades de seu peito.
Aprísiona-me - grilhão -
o seio suave e
no calor do instante
a união.  


Dora Ferreira da Silva

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Murmúrios


Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?  


Dora Ferreira da Silva

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Mulher e pássaro


Linha invisível
liga-me àquela andorinha:
tato percorrendo
um trajeto
de comunhão. O pássaro
debate-se em meu peito.
Ou coração? A andorinha
se esvai na tarde. Leva consigo
o que não sei de mim.  


Dora Ferreira da Silva

sexta-feira, 22 de março de 2019

Valsas de Esquina de Mignone


Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.


Dora Ferreira da Silva 

quarta-feira, 20 de março de 2019

Chamar pássaros




Chamar pássaros com o alpiste
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem
sombra de medo nessa aproximação.
Quase me sinto gêmea do que são parados
à beira da janela ou saltando no telhado
recém-chegados.

A cordialidade dos pássaros é

sutil:
afloram o coração de quem os ama.


Dora Ferreira da Silva

segunda-feira, 18 de março de 2019

Boneca


A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.


Dora Ferreira da Silva