sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Por que escrevo....

Escrevo inteiramente para descobrir o que estou pensando, o que estou olhando, o que vejo e o que isso significa.

Joan Didion



quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Deixar de escrever....

Escrevo simplesmente. Como quem vive. Por isso todas as vezes que fui tentada a deixar de escrever, não consegui. Não tenho vocação para o suicídio.

Clarice Lispector  em depoimento para "Esboço para um Possível Retrato", de Olga Borelli

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Sem mudança....

Não muda nada. Escrevo sem esperança de que alguma coisa que eu escreva possa mudar o que quer que seja. Não muda nada.

Clarice Lispector em entrevista ao programa "Panorama"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

Verdade inventada....

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.

Clarice Lispector in Água Viva

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Obstáculo.....

Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma.

Clarice Lispector in Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

A escrita salvadora....

Escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.

Clarice Lispector in  Um Sopro de Vida

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Mariza, Mariza....

Uma ondinha marota tomou um impulso inesperado e lambeu seus tênis novos azuis. Surpreso, recuou e caiu sentado, cravando a garrafa de champagne na areia. "Ano vinte e um, século vinte e um. Fui longe, porra! Setenta anos! Setenta! Venci, Mariza não, Mariza, meu amor!!!" Chora, soluça, deixa-se cair de costas na areia, sem largar a garrafa. A Viúva Clicquot espera para consolar o novo viúvo. Ela entende disso há duzentos anos.

Ele fecha os olhos, pensamentos desconexos cruzam sua mente. Deixa-se envolver por lembranças de momentos felizes, tristes, alegres, angustiantes, o álcool não permite que controle, ordene suas memórias. Quanto tempo deitado? Qual o tempo do desesperado?

"Será que já podemos pular as sete ondas?" "Melhor esperar a meia-noite, amor. Vem cá, abaixa a máscara e me dá um beijinho." A conversa do jovem casal penetra no cérebro de Eduardo e freia a rotação da sua mente que, como uma roleta, vai girando devagar, mais devagar, parando, até que a bolinha branca caia na casinha da palavra "meia-noite".

"Porra, é réveillon!" berra Eduardo, sentando-se e assustando os namorados. Os olhos e ouvidos dele procuram luzes e o espoucar de fogos, mas apenas captam o marulhar e os reflexos da lua cheia. As máscaras nos queixos do casal mostram a realidade: não haverá fogos nem dois milhões de pessoas em Copacabana. Está completamente sozinho nesta noite, sem Mariza, filhos e netos. Toma um gole de champagne, surgem lembranças do réveillon passado, todos juntos, abraçados, felizes, irmanados na multidão maravilhada pelas mil cores que iluminam o céu. "Quem imaginaria o ano confuso que atravessariam?"

Uma onda desgarrada quebra com violência e suas águas correm ligeiras areia acima, encharcando seus tênis azuis, a bermuda branca e a cueca amarela, cores da sorte, escolhidas pela mulher. "Puta que pariu! Porra! Que merda!" A revolta logo passa, não tem para onde ir, ali é seu lugar, diante do mar, das cinzas de Mariza. Um gole longo de tirar o fôlego traz lembranças dos últimos dias. "Mariza, Mariza", ele berra para o mar. O casal se afasta, intimidado por tanta tristeza. São jovens, precisam acreditar no futuro. Eduardo, ainda sentado, encharcado, chora copiosamente. "Mariza, meu amor!" murmura para o oceano. O velório rápido, sem abraços, sem consolo, todos temendo-o, possivelmente contaminado, o corpo de Mariza lacrado num caixão sem flores, seus filhos olhando-o de longe, talvez pensando em estar de volta àquela capela, com Eduardo no lugar de Mariza. Na hora da dispersão das cinzas de Mariza naquele mar, a dura conclusão: Letícia matara a avó ao buscar consolo para a traição de Gustavo, quebrando um isolamento de meses.

"Por que ele escapara? Por que o vírus não o quis? Mariza mais saudável do que ele…" A cabeça dói com esses pensamentos. Tanto tempo isolado com a mulher, todos os cuidados, tudo perdido com a visita da neta, desesperada com a traição do namorado. Mariza não pode negar consolo e perdera a vida. Amor e morte. Como viver sozinho depois de mais de quarenta anos juntos? Como sobreviver sozinho na pandemia?

No silêncio da noite, sua mente volta a girar rapidamente, recuperando cenas: o dia que a conheceu na praia, aquela mesma que recebeu suas cinzas; a paquera ao longo do verão, a base de mate com limão e biscoito Globo; o réveillon no centro espírita armado à beira-mar, a mãe de santo profetizando um casamento longo; eles e as crianças acompanhando os fogos sendo lançados da areia, bem pertinho deles, cada morteiro lançado paralisando os corações por breves segundos; os fogos vistos do navio na comemoração das bodas de prata; o deslumbramento dos netos com as luzes no céu...

"Mariza, Mariza, meu amor" grita ele correndo em direção ao mar, que o acolhe por inteiro em suas águas escuras, no exato momento em que tímidos fogos avisam que já é dois mil e vinte e um.Uma ondinha marota tomou um impulso inesperado e lambeu seus tênis novos azuis. Surpreso, recuou e caiu sentado, cravando a garrafa de champagne na areia. "Ano vinte e um, século vinte e um. Fui longe, porra! Setenta anos! Setenta! Venci, Mariza não, Mariza, meu amor!!!" Chora, soluça, deixa-se cair de costas na areia, sem largar a garrafa. A Viúva Clicquot espera para consolar o novo viúvo. Ela entende disso há duzentos anos.

Ele fecha os olhos, pensamentos desconexos cruzam sua mente. Deixa-se envolver por lembranças de momentos felizes, tristes, alegres, angustiantes, o álcool não permite que controle, ordene suas memórias. Quanto tempo deitado? Qual o tempo do desesperado?

"Será que já podemos pular as sete ondas?" "Melhor esperar a meia-noite, amor. Vem cá, abaixa a máscara e me dá um beijinho." A conversa do jovem casal penetra no cérebro de Eduardo e freia a rotação da sua mente que, como uma roleta, vai girando devagar, mais devagar, parando, até que a bolinha branca caia na casinha da palavra "meia-noite".

"Porra, é réveillon!" berra Eduardo, sentando-se e assustando os namorados. Os olhos e ouvidos dele procuram luzes e o espoucar de fogos, mas apenas captam o marulhar e os reflexos da lua cheia. As máscaras nos queixos do casal mostram a realidade: não haverá fogos nem dois milhões de pessoas em Copacabana. Está completamente sozinho nesta noite, sem Mariza, filhos e netos. Toma um gole de champagne, surgem lembranças do réveillon passado, todos juntos, abraçados, felizes, irmanados na multidão maravilhada pelas mil cores que iluminam o céu. "Quem imaginaria o ano confuso que atravessariam?"

Uma onda desgarrada quebra com violência e suas águas correm ligeiras areia acima, encharcando seus tênis azuis, a bermuda branca e a cueca amarela, cores da sorte, escolhidas pela mulher. "Puta que pariu! Porra! Que merda!" A revolta logo passa, não tem para onde ir, ali é seu lugar, diante do mar, das cinzas de Mariza. Um gole longo de tirar o fôlego traz lembranças dos últimos dias. "Mariza, Mariza", ele berra para o mar. O casal se afasta, intimidado por tanta tristeza. São jovens, precisam acreditar no futuro. Eduardo, ainda sentado, encharcado, chora copiosamente. "Mariza, meu amor!" murmura para o oceano. O velório rápido, sem abraços, sem consolo, todos temendo-o, possivelmente contaminado, o corpo de Mariza lacrado num caixão sem flores, seus filhos olhando-o de longe, talvez pensando em estar de volta àquela capela, com Eduardo no lugar de Mariza. Na hora da dispersão das cinzas de Mariza naquele mar, a dura conclusão: Letícia matara a avó ao buscar consolo para a traição de Gustavo, quebrando um isolamento de meses.

"Por que ele escapara? Por que o vírus não o quis? Mariza mais saudável do que ele…" A cabeça dói com esses pensamentos. Tanto tempo isolado com a mulher, todos os cuidados, tudo perdido com a visita da neta, desesperada com a traição do namorado. Mariza não pode negar consolo e perdera a vida. Amor e morte. Como viver sozinho depois de mais de quarenta anos juntos? Como sobreviver sozinho na pandemia?

No silêncio da noite, sua mente volta a girar rapidamente, recuperando cenas: o dia que a conheceu na praia, aquela mesma que recebeu suas cinzas; a paquera ao longo do verão, a base de mate com limão e biscoito Globo; o réveillon no centro espírita armado à beira-mar, a mãe de santo profetizando um casamento longo; eles e as crianças acompanhando os fogos sendo lançados da areia, bem pertinho deles, cada morteiro lançado paralisando os corações por breves segundos; os fogos vistos do navio na comemoração das bodas de prata; o deslumbramento dos netos com as luzes no céu...

"Mariza, Mariza, meu amor" grita ele correndo em direção ao mar, que o acolhe por inteiro em suas águas escuras, no exato momento em que tímidos fogos avisam que já é dois mil e vinte e um


José FRID

domingo, 3 de janeiro de 2021

Montando um romance....

Quando estou montando um romance, deixo todas as portas e janelas abertas para que os personagens possam entrar e sair com a mesma facilidade. Eu não faço anotações. Assim que começo a escrever as coisas, sinto que estou pregando a história no lugar certo. Quando confio na minha memória defeituosa, as peças ficam livres para se mover. O personagem principal de que eu tinha certeza começa a se perder, e alguém que eu mal percebi se move para preencher o espaço. A estrada se bifurca e bifurca novamente. Torna-se um caminho para a floresta. Torna-se a floresta. Encontro um riacho e o sigo, o riacho seca e fico procurando musgo nas laterais das árvores.  



terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Escrever....

Escrever sempre me foi difícil, embora tivesse partido do que se chama vocação. Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.

Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo

domingo, 20 de dezembro de 2020

Inaugurações....

Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.

Clarice Lispector in "Perto do Coração Selvagem"

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Uma maneira estranha de pensar sobre poesia...

Às vezes eu imagino que um poema, como uma obra de arte, está sempre lá / meio que pré-existe, e nosso trabalho, ou meu trabalho, como artista é desenterrá-lo / executar as etapas para ajudá-lo a nascer ou executar os rituais para revelá-lo. Eu sei que pode ser uma maneira estranha de pensar sobre poesia, já que sempre somos os criadores / moldando-a, mas quando ela surge às vezes tão linda e perfeita que eu não consigo imaginar que nunca tenha nascido / então eu acho estranhamente que está sempre lá. Isso está de acordo com a forma como ensino poesia, no sentido de que a descrevo como um ato de ouvir / como um músico, você está treinando seus ouvidos para ouvi-la.  

Pamela Sneed

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Melão com presunto

Melão com presunto. Ou seria presunto com melão? Toda vez que como melão em fatias, penso que ele deveria ser servido com presunto, trazendo-me à lembrança um dia específico no fim da infância, início da minha adolescência. O melão seria a minha "madeleine", mas como não sou Proust, essa constante lembrança não consegue inspirar-me sete volumes e duas mil e quinhentas páginas, mas apenas esta pequena crônica.

O curioso é que a lembrança é sempre a mesma: eu e meu pai sentados à mesa da cozinha do apartamento de Botafogo, um melão entre nós. Sem mãe, irmã, empregada. Onde estariam? Devia ser um sábado ou domingo, por meu pai estar em casa de tarde. O melão seria a entrada do almoço? O lanche da tarde? Detalhes perdidos no tempo.

Meu pai colocou dois pratos na mesa, com presunto, e uma travessa larga vazia. Ele trouxe da geladeira a fruta amarela, colocou-a na travessa e disse: "melão espanhol, você vai gostar". Eu já conhecia algumas coisas da Espanha: toureiros, Dom Quixote, castanholas, azeite, flamenco, vinho, o dono da quitanda perto de onde morara, agora iria conhecer o melão. Parecia-me uma melancia pequena ou uma laranja bem grande.

Papai pegou um facão, espetou-o, com uma certa dificuldade, numa das pontas do melão. Segurando a fruta com a mão esquerda, fez o facão deslizar pela casca até a outra ponta. O corte pareceu-me um sorriso, um sorriso "melãocólico". Sacou a lâmina, rodou a fruta, cravou-a e deslizou-a com maestria até encontrar com o primeiro corte exatamente na outra ponta. Cortes precisos, cirúrgicos, permitindo a extração de um bonito pedaço da fruta. Levantou uma ponta do pedaço com o facão, o suficiente para retirá-lo e colocá-lo no prato. Fiquei surpreso: o tal melão não se parecia, por dentro, nem com melancia nem com laranja. Tinha uma poupa amarelo-esverdeada, com muitas sementes quase brancas na parte superior, achatadas e alongadas, presas por uma gosma amarelada. Nada daquelas sementes pretas pequenas da melancia, encrustadas em toda a fruta, que a gente tinha que cuspir para não ter apendicite ou morrer, como minha mãe alertava. Engolindo um daqueles caroços pretos e brilhantes, nem dormia de tanta preocupação.

Voltando ao melão, meu pai deslizou o facão pela parte superior daquele pedaço, separando as sementes. Depois, deixou o facão percorrer a fatia da fruta em paralelo à casca, mas com pressão exata, de forma que a parte cortada ficasse sobre a casca. Parecia um toureiro espanhol manejando espada. Agora o facão vai de cima para baixo cortando a meia lua em pequenos pedaços geométricos. O pedaço ficou parecendo o sorriso do gato da Alice, brilhando no escuro. Uma simpatia, esse tal de melão espanhol.

Meu pai repetiu a operação, colocando um sorriso no seu prato. Uma coca para mim, uma cerveja para ele, não é que o melão com presunto era bom mesmo? O doce da fruta contrastava e completava o salgado do presunto. "Quer mais?" Repetimos. Ficou na lembrança o melão espanhol, como meu pai frisava. Do presunto não guardei a nacionalidade, poderia ser um parma, um brasileirinho, mas era coisa do dia a dia. 

A Martina, apesar da tenra idade, já conheceu melão e adorou. Entretanto, a fruta já chega para ela em pequenos pedaços que possa pegar com a mão. Um dia, quem sabe, ela já grandinha, podendo comer com garfo e faca, repetirei o balé do corte da fruta, farei o sorriso do gato da Alice para ela, apesar de não ter a precisão geométrica de papai.

Outro dia fiquei pensando porque aquele melão seria espanhol. Pesquisando, constatei que, por muito tempo, o melão comercializado vinha da Espanha, no Brasil só era encontrado em pomares caseiros. Depois, com o aumento da demanda, as plantações comerciais transformaram o Brasil em grande exportador de melão, não só do tipo espanhol, como de outros tipos, com cores e sabores variados. Ao Mercadão!

Na Espanha existe um ditado popular que diz que o "melão pela manhã é ouro, ao meio dia é prata e pela tarde mata", querendo mostrar que o melão sendo um fruto alcalizante, cai melhor no desjejum. Papai dera-me prata ou queria matar-nos? Aqui estou, foi prata!

Passei por uma fase de problemas com uma hérnia de hiato. O médico suspendeu tudo que eu gostava de beber: bebidas alcoólicas, refrigerantes, chocolates, mates, etc. No dia a dia, a proibição que mais me incomodou foi o mate, que tomava toda tarde nas lojinhas em volta do trabalho. Tive que trocar por suco de melão. Uma vez o empregado da lanchonete fez o suco na minha frente e, quando colocou os pedaços da fruta no copo do liquidificador, quase perguntei se não dava para bater com umas fatias de presunto…..

Nesses anos, comi muitos melões, no Brasil e no exterior, com ou sem presunto, de diversos tipos, mas aquele primeiro é incomparável, o único memorável. Não se tem mais melão espanhol como aquele? Ou aos outros faltou o ingrediente especial, meu pai?


José FRID

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Escrava....

Também sem voz está a mulher a que Frederick Douglass se refere em sua autobiografia:

Não obstante, ela foi deixada escrava - escrava para o resto da vida - escrava nas mãos de estranhos; e nas mãos deles ela viu seus filhos, seus netos e seus bisnetos, divididos, como tantas ovelhas, sem se gratificar com o pequeno privilégio de uma única palavra, quanto ao seu próprio destino.

Douglass escreve três vezes como escrava, primeiro simplesmente e depois acrescentando palavras para ter certeza de que o leitor entende o horror de seu estado: uma escrava para a vida e uma escrava nas mãos de estranhos. Ele também repete os filhos, estendendo a palavra através das gerações, da mãe aos bisnetos. Ela não pode proteger ninguém, incluindo ela mesma. Cada repetição é um passo no caminho para mais agonia.

Also voiceless is the woman Frederick Douglass refers to in his autobiography:

She was nevertheless left a slave—a slave for life—a slave in the hands of strangers; and in their hands she saw her children, her grandchildren, and her great-grandchildren, divided, like so many sheep, without being gratified with the small privilege of a single word, as to their or her own destiny.

Three times Douglass writes slave, first simply and then adding words to be sure that the reader understands the horror of her state: a slave for life and a slave in the hands of strangers. He also repeats children, extending the word through generations, from the mother to her great-grandchildren. She can protect no one, including herself. Each repetition is a step on the path to more agony.