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terça-feira, 25 de maio de 2021

Freud e cocaína....

Tomei cocaína, a enxaqueca sumiu instantaneamente e trabalhei na minha comunicação, escrevi também uma carta para o professor Mendel, mas estava tão cheio de vivacidade que continuei trabalhando e escrevendo, e só consegui adormecer às quatro horas da manhã. (17/05/1885)

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente,  pág.176

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A sua maneira de escrever era a de um poeta, coisa que ele não era....


Precisa aprender a confiar nesses movimentos alternados de nuvens sombrias e de fulgurâncias luminosas que o animam. Por vezes, pensamentos interessantes zumbem-lhe na cabeça, depois esses ideias fogem-lhe de novo sem que ele faça qualquer  esforço para retê-las, pois sabe que o seu aparecimento no consciente e, em seguida, o seu desaparecimento não fornecem qualquer informação verdadeira sobre o seu destino. Não pode obrigar-se a trabalhar. "Sou forçado a esperar que alguma coisa se agite em mim e que eu me dê conta disso."

Às vezes, porém, os momentos de tropeço, de estagnação, de resistências, oprimem-no, fazem-no duvidar do seu talento, como se esses obstáculos lhe lembrassem com excessiva clareza que a sua maneira de escrever era a de um poeta, coisa que ele não era.

Lydia Flem sobre Freud in O Homem Freud - O romance do inconsciente -  pág.168/169  

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Urinar e escrever ....

Talvez lhe interesse saber (e ver) que a minha escrita voltou a ser o que era. Ela foi afetada durante semanas em consequência do meu último acesso de distúrbios urinários, os quais estão agora desaparecendo. Existe um vínculo interior entre o fato de urinar e o de escrever, e certamente isso não acontece somente comigo. Quando notei os primeiros sinais de hipertrofia prostática no funcionamento da minha bexiga em 1909, em Nova York, sofri ao mesmo tempo da cãibra dos escritores, coisa que jamais me ocorrera até então.

Freud in O Homem Freud - O romance do inconsciente - Lydia Flem, pág.161

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ler e escrever

Pertenço a essas criaturas humanas que podem ser encontradas a maior parte do dia entre dois móveis: um de estrutura vertical, a cadeira, o outro horizontal, a mesa, e dos quais toda a civilização provém... Como essa postura não envolve contribuições iguais de todas as partes do corpo, mas as mais nobres dentre elas ultrapassam notavelmente a horizontalidade da mesa, sou obrigado, para ocupá-las, a fazer duas coisas: ler e escrever.

Carta de Freud a Silberstein in O Homem Freud - O romance do inconsciente - Lydia Flem, pág.142

domingo, 4 de agosto de 2019

Sonhos e Freud

Uma pequena história judaica conta que Herzl procurou certa vez Freud e disse-lhe: "Doutor, tive um sonho..." Freud ter-lhe-ia respondido com as últimas frases de A Interpretação dos Sonhos: "Sem dúvida, a antiga crença em que os sonhos preveem o futuro não é inteiramente desprovida de verdade. Retratando os nossos desejos como realizados, os sonhos estão, afinal de contas, conduzindo-nos para o futuro; mas esse futuro, que é presente para o sonhante, é moldado pelo desejo indestrutível de uma perfeita semelhança com o passado."

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.107

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Palavras x imagens

Mesmo em sua vida onírica, ele privilegia mais as palavras do que as imagens. Em seus sonhos, não pinta, não esculpe, escreve e lê palavras: fórmula química, nomes de ruas ou tabuletas. No sonho que se seguiu ou precedeu o sepultamento de seu pai, ele encontrava-se numa loja onde se lia o seguinte aviso: "Solicita-se fechar um olho/os olhos".

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.89 

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Sonho....

"Guardo como uma das minhas primeiras recordações que, estando ainda em meu berço, um abutre desceu sobre mim, abriu-me a boca com sua cauda e com ela fustigou-me repetidas vezes os lábios."  Leonardo da Vinci, citado por Freud

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.55 

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Legado freudiano...

Para suportar as preocupações e os esforços cotidianos, imagina que, se alguns anos de trabalho lhe forem ainda concedidos, certamente deixará um legado, após sua morte, "de coisas adequadas para justificar as nossas existências", de novas verdades sobre a condição humana.

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.9 

quinta-feira, 25 de julho de 2019

A conferência de Freud....

Aos sábados, Freud profere uma conferência de duas horas na Universidade. Prepara-a fazendo um longo passeio, durante o qual medita sobre o seu tema e deixa-se guiar pelas associações do seu inconsciente. Gosta de iniciar suas exposições com afirmações que podem parecer insólitas ou inverossímeis a seus ouvintes. Defende-se em seguida citando uma cena do Hamlet e então anuncia:"Eu, do mesmo modo, pedir-lhes-ia que começassem por acolher favoravelmente as coisas que surgem aqui, de maneira tão estranha, da tumba do passado."

Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.8

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Jovens, Paris, na primavera

Lembro-me como, num dia primaveril no boulevard Saint-Michel, um grupo de jovens, moços e moças, caminhava na minha frente. De tempos em tempo, detinham-se e, espontaneamente, executavam alguns passos de dança, sem qualquer motivo aparente, apenas porque eram jovens, em Paris, e era a primavera."

Freud citado por Lydia Flem in O Homem Freud - O romance do inconsciente, pág.11

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Vivendo entre dois mundos....

Sentia-se também ele o mesmo: ansioso, impaciente, temeroso de não conseguir sustentar a conversação, de ser tido como intruso, como alguém que não deveria estar ali e que poderia ser descoberto em sua fraude, para, censurado, ser colocado porta afora. Recordou-se então de que aquela não era uma noite qualquer; era uma sexta-feira, noite de Schabat, o dia sagrado de descanso para os judeus como ele. Um calafrio correu-lhe a alma e assinalou um dos sentidos possíveis para aquela sua vivência da estranheza. Ele era mesmo diferente daqueles senhores de alta estirpe. Vivia, sem que pudessem suspeitar, entre dois mundos. Uma sombra tomou o coração do médico. Mas os pensamentos melancólicos foram cortados pela voz amistosa do anfitrião.

Noemi Moritz Kon in A viagem, da literatura à psicanálise, Companhia das Letras, 2003, pág.127


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Eu e Lênin nas terras de Morfeu


Fui dormir por volta das onze da noite. Como de costume, liguei a televisão e procurei um filme para provocar o sono. Abaixei o som, arrumei meus dois travesseiros, alteando minha cabeça, melhorando a visão da tevê para facilitar a leitura das legendas antes de eu sucumbir a Morfeu. Estava de pijama longo, cinza-escuro, sob um fino cobertor marrom-escuro. Fui adormecendo e, com frio, coloquei as mãos por dentro da calça, ao longo do corpo. (Atenção maldosos: mãos nos lados do corpo!)

Adormeço. Sonho. E no sonho vejo-me deitado na cama, meu corpo iluminado por uma suave luz. Minha cabeça, que se destaca no escuro, descansa no travesseiro, ligeiramente inclinada para a frente. Os braços estão retos ao longo do corpo, as mãos singelamente apoiadas no abdômen. Silêncio total. Ambiente de paz, calmaria. Meus dois "eus", o que vê e o que está deitado, estão tranqüilos, serenos. Um "eu" dorme e, talvez, até sonhe. O outro "eu"  o contempla e, depois de algum tempo, conclui que o "eu" adormecido parece um morto: quieto, deitado de bruços, corpo alinhado, todo de preto, sob uma luz mortiça. Morto, mas não num caixão. A imagem que vê parece-lhe familiar, O pensamento voa como um morcego, captando reverberações, e se ilumina: O corpo embalsamado de Lênin!  O "eu" vidente regozija-se com a lembrança da múmia do líder soviético no mausoléu da Praça Vermelha. Um morto fora do caixão. Recorda-se vagamente de que leu que as mãos de Lênin, uma espalmada e outra semi-aberta, estariam doentes, ou melhor, deterioradas. O "eu" que dorme toma consciência das mãos russas, mas não sente as suas próprias. Doentes? A múmia de Lênin, meu corpo, as mãos podres do líder, minhas mãos insensíveis, o mausoléu, meu quarto, morte, morte – meus dois "eus" se fundem e acordo desesperado!

Abro os olhos, está escuro, reconheço meu quarto pela lâmpada do stand-by da televisão. Sinto meus punhos forçados pelo elástico do pijama. Retiro as mãos dormentes e movimento os dedos. Há sangue nestas mãos, elas renascem. Mexo as pernas, viro-me de lado, morto não estou. Ainda estou com sono, mas temo dormir e sonhar com a múmia das mãos podres. Como Lênin, ou melhor, sua múmia, entrara no meu sonho? O que significaria eu sonhar em me ver dormindo? Saí do meu corpo? Viagem astral? Por que a múmia de Lênin? Minhas mãos dormentes motivaram sonho com as mãos doentes do Lênin? São tantas questões que perco o sono, temeroso em topar com a múmia soviética. Insone, perambulo como um fantasma pela casa adormecida, quem sabe o de Trosky, que Lênin mandou matar no México. Acordado, não me recordo de ter visto a imagem da múmia de Lênin, face e mãos sobre corpo negro. Vasculho a internet e acho a foto do mausoléu, exatamente como sonhei. A memória é engraçada, esquece coisas que queremos recordar e guarda informações sem nenhuma relevância aparente.

Shakespeare escreveu que "somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos". Nietzche disse que "nada é tão nosso quanto os nossos sonhos". Se o sonho era meu, como o criei? Para quê? Não sou marxista-leninista, nem tenho especial apreço por soviéticos e/ou comunistas. Dos russos gosto, principalmente, das obras de Dostoievisk, Tolstoi, Tchekov, Gogol, Pushkin, de poucos poemas de Maiakovisk, alguns cartazes da revolução russa e das cúpulas "carnavalescas" da igreja de São Basílio. Seria influência de algum filme que assist.ira dormindo? Para evocar Lênin poderia ser "Reds (10 dias que abalaram o mundo)", "Doutor Givago", "Encouraçado Potenkin", "Frida", "Budapeste", "Adeus, Lênin" .

Acordado, meu espírito racional foi procurar as respostas nos possíveis significados do sonho. (Procurar significado para sonho é ser racional? Digamos que é o racional possível depois de acordar de um pesadelo na alta madrugada) Achei uma frase de Freud: "os sonhos não seriam produtos do acaso, mas estariam associados a pensamentos e problemas conscientes". Ele apontava duas fontes para eles: uma relativa ao mundo exterior e a outra relativa ao material interno guardado na memória. Aguçado pelas palavras do mestre, fui atrás das quatro coisas que tinham chamado a minha atenção no sonho. A primeira foi sonhar em me ver dormindo: "sonhar que está dormindo significa ilusão, que pode estar relacionada a fuga de um problema que você esteja passando na vida real". Não ajudou, quem não estaria passando por problemas na vida de hoje? Segui para o segundo aspecto e o mais exótico: sonhar com Lênin. Só achei isso: "quem sonha com alguém que lhe é conhecido, poderá vê-lo ou ouvir notícias dessa pessoa". Certamente Lênin é meu conhecido. Ver não posso mais vê-lo, só viajando para Moscou visitar a múmia. Ouvir notícias? Da múmia e da sua história. Ler seus livros? Continuava complicado. Seria hora de procurar um analista, um psicólogo? Terceiro item: sonhar com mãos. "Sonhar com suas mãos representa a relação entre você, as pessoas que te rodeiam e o mundo. Elas simbolizam a comunicação". Mãos podres seriam sinais de dificuldade em relacionar-me com o mundo? Uma boa hipótese, tem gente que não me entende. Fui mais a fundo: "Um sonho com as mãos deve relacionar-se com o trabalho. O que faças com as mãos deverás relacioná-lo com temas profissionais ou trabalhistas." Trabalho ou comunicação? Comunicação no trabalho? Trabalho de comunicação? Só Freud explica! Como ele não estava por perto, confuso, fui navegar por outra praia: sonhar com múmia comunista o que significaria? Procurei até o sol raiar e nada. Parece que ninguém sonha com comunista (Será que comunista não deita em divãs de analistas e psicólogos?) O sol encharcou  minha janela, indicando que era hora de trabalhar. Saindo de casa, mal pus os pés na calçada, depois de desejar um bom dia para o porteiro, tive uma epifania: Lênin convocava-me para ir às ruas agitar as massas! Eu com bandeira vermelha, marchando pela Paulista, à frente do povo revolucionário!

Este sonho não me representa!

José FRID