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domingo, 14 de janeiro de 2018

CARTAS:



Meu marido nunca usou aliança, desde que nos casamos. (Vladmira — Florianópolis)

RESPOSTA:
0 importante no casamento, Vladmira, não é que o homem use a aliança — é que use a mulher.


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Acordei sobressaltado com os gritos da minha mulher gritando "fogo! fogo". Quando abri os olhos, havia um homem saindo pela janela. (Adalberto Barbacena)

RESPOSTA:
Então, meu caro, é fogo mesmo.

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Em frente à minha casa, todas as noites, fica um homem de terno cinza acenando para a minha mulher. Ela insiste em dizer que se trata de uma estátua e não posso conferir, pois sou paralítico e ela não me leva até lá. (Zé Eduardo - Volta Redonda)

RESPOSTA:
Sua mulher é muito sensata. Já imaginou se ela o leva até lá e a estátua sai correndo? Além de paralítico, você acabaria débil mental.

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Tenho medo de dormir sozinha e meu marido trabalha de noite. (Maria Clara - Copacabana)

RESPOSTA:
Ligue para uma dessas agências de empregados e peça um acompanhante. Eles têm de tudo. Se um dia o seu marido passar a trabalhar de dia, vai ser o diabo pra se livrar do acompanhante.

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CARTA:
Meu farmacêutico é anão e toda vez que vem me dar injeção, meu marido proíbe. Acha que eu seria capaz de simpatizar com um anão? (Florilda - Recife)

RESPOSTA:
Não acredito que seu marido tenha alguma coisa contra o anão. Talvez seja porque ele, ao aplicar a injeção, não alcance o seu braço.

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Os vestidos de minha mulher encolheram e ela não manda fazer outros, fica com o busto de fora e não pode sentar sem mostrar os joelhos. E quer me convencer que está na moda. (Pedrinho - Brasília)

RESPOSTA:
De uma certa forma, sua mulher está com a razão: busto e joelho de mulher não caem nunca da moda, pelo menos enquanto não completam cinqüenta anos.

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CARTA:
Sempre que vou ao cinema com minha mulher, ela senta em cima e eu embaixo. O senhor acha isso normal? (Alfredo - São Paulo)

RESPOSTA:
Absolutamente, acho isso ridículo. E os vaga-lumes, não dizem nada? Se sua mulher é muita pesada, o lógico seria você sentar em cima.

Leon Eliachar in O Homem ao Cubo, José Álvaro, Editor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 96.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Carta:

— Sou branca, meu marido é branco e tivemos um filho preto. Como o senhor explica isso?
(Jandira - Ceará)

— Lamento muito, mas quem tem de se explicar é a senhora. Vocês que são brancos que se entendam. 


Leon Eliachar in O homem ao quadrado, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1963

sábado, 30 de dezembro de 2017

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Humorismo

Definição de Humorismo:

- Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico de se fazer.

Leon Eliachar in O homem ao quadrado, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1963, pág. 15

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

As flores


Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras, vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria:

— Deixe de brincadeira, Epitácio.

Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia:

— Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho mais onde colocar.

Foi aí que ele compreendeu tudo:

— O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas flores?

Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia convencê-la de que não era ele.

— Um de nós dois está mentindo — gritou, furioso. 

— Então é você — rebateu ela.

No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio ninguém:

— Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram, Epitácio. É muita coincidência. 
Vai me dizer que não era você. 

Ele não tinha por onde escapar. Insinuou muito de leve que a mulher devia ter conhecido alguém na sua ausência. Ela chegou a chorar e se trancou no quarto. A discussão entrou pela noite até o dia seguinte. Epitácio saiu cedo, sem mesmo tomar café. Bateu a porta com força e levou o mistério para o trabalho. 

Meia hora depois, a mulher saiu e foi ao florista.

— Como vai, Dona Iracema? A senhora ontem não veio, heim? Aconteceu alguma coisa?

À noite, Epitácio viu as flores e não disse uma palavra, mas a mulher não parou:

— Seu cínico. Bastou você sair para as flores aparecerem e ainda tem coragem de dizer que não foi você.

Nessa noite ele teve insônia.



Leon Eliachar in "O homem ao zero", Editora Expressão e Cultura – Rio de Janeiro, 1968, pág. 275.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Um Nome Qualquer

Encontraram-se depois de mais de dez anos:


-- Afonso!

-- Hermenegildo!

Abraçaram-se três vezes seguidas, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- Lembra-se do Rogério?

-- Lembro.

-- Morreu a semana passada.

-- Coitado.

Conversaram a mesma conversa que conversam os que não se vêem há muito tempo:

-- Que tens feito?

-- Lutando.  E você?

-- Levando a vida.

Quando deram por si, estavam tomando cafezinho em pé, como fazem sempre os que não se vêem há muito tempo:

-- Você está mais gordo.

-- E você, mais magro.

Foram andando, parando, relembrando incidentes pitorescos, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- E aquele mergulho no rio, atrás do internato, lembra-se?

-- Se me lembro, quase você morre afogado.

-- E foi você quem me salvou, nunca esqueci.

Pararam num ponto de ônibus pra se despedir, ficaram batendo papo mais de meia-hora, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- Você casou?

-- Casei. E você?

-- Mais ou menos. Estou com uma zinha aí mas ela é casada.

-- Você nunca quis nada com o casamento, hein, malandro?

-- Com essa até que eu casava.

-- Como ela é?

-- Baixotinha, gordota, tem um sinalzinho no rosto, mas eu gosto dela assim mesmo.

Afonso ficou apreensivo:

-- Como é o nome dela?

-- Cláudia.

Afonso ficou mais curioso:

-- Ela tem filhos?

-- Dois. Um menino de quatro e uma menina de três.

Afonso só faltou pedir o retrato pra ver, mas não teve coragem. Apressou a despedida:

-- Bem, tenho de ir andando, estou atrasadíssimo.

Tomou o ônibus, foi direto para casa. No caminho, foi pensando: "Cláudia... dois filhos... um menino de quatro... uma menina de três... baixotinha... gordota... um sinalzinho no rosto..." era muita coincidência. Quando entrou em casa, só faltou arrancar a porta. Lá estava a mulher no meio da sala, com os dois filhos, baixotinha, gordota, com um sorriso na cara deste tamanho:

-- Chegou cedo hoje, hein, Afonso?

Ele estava tremendo de ponta a ponta, quando perguntou:

-- Diz depressa o nome de um homem.

-- Como?

-- Depressa, diz um nome de homem. Um nome qualquer.

Ela nem teve tempo de pensar:

-- Hermenegildo.

Ele chegou a cambalear, foi preciso segurar no vão da porta:

-- Quem diria, hein?

Sua mulher não entendia nada:

-- Mas o que foi, Afonso?  Está sentindo alguma coisa?

Ele foi categórico:

-- Estou sim.

-- Está sentindo o quê?

Ele arreganhou os dentes:

-- Estou sentindo ódio de mim mesmo, por ter salvo aquele desgraçado. Devia ter deixado ele morrer afogado.

Cláudia caiu de bruços e como caiu, ficou, inteiramente desacordada.

O médico disse que era normal.

Estava esperando o terceiro filho.


Leon Eliachar in A mulher em flagrante, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1969, pág. 54