Mostrando postagens com marcador Centro de São Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Centro de São Paulo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Doce gota em vida amarga

Tarde paulistana
gélida e garoenta

O homeless vasculha a lixeira
em frente ao shopping 

Latinhas? 

um copo mesclado de branco e marrom
colherzinha branca grudada 

Ele caminha devagar pela avenida
lábios sujos de sundae de chocolate

Dez dedos felizes ignoram
as poças da calçada

José FRID

sábado, 7 de julho de 2018

CARA DE LADRÃO

Manhã de segunda-feira. Cidade funcionando à meia-carga, metrô vazio: jogo da seleção às 11 horas. O trem para na estação São Bento. Dirijo-me rápido às escadas rolantes de acesso ao Vale do Anhangabaú, lugar cheio de ladrões...
Escolho uma delas, pego o lado esquerdo, o lado direito está ocupado por lerdos e cansados. Vou escalando rápido os degraus móveis, tenho pressa, estou atrasado, como sempre.
Uma mulher segurando uma criança no colo sai da direita e interrompe  bruscamente minha ascensão. Paro e levanto a cabeça: uma mocinha de seus dois anos olha para mim com curiosidade. Olhos grandes, boquinha de desenho animado, duas chuquinhas nos cabelos.
Adoro criança. Sorrio para ela, que não retribui. Faço uma careta divertida mexendo olhos e boca, mas ela só olha, atenta. Outra careta, agora incluindo sobrancelhas e testa: ganho um largo sorriso. Sorrimo-nos. Ela, interessada, tenta se acomodar melhor sobre o ombro da mãe. A até agora imóvel senhora também se ajeita à filha, e no movimento percebe que tem alguém atrás delas. Ela olha de esguelha para mim e imediatamente apalpa o celular no bolso traseiro da calça. Fica aliviada, mas sobe um degrau. Tenho cara de ladrão!
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta.....
José FRID

quarta-feira, 23 de maio de 2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Na hora do chá....

Manhã, ela sai do Metrô  a caminho do trabalho, desviando de corpos dispersos pelo Vale do Anhangabaú. Mortos? Espera que apenas durmam, mesmo aquele enrolado em mortalha branca e o outro que parece um monte de lixo. Rente à banca de jornal, um corpo sobre papelão emula a Estátua da Liberdade, uma mão junto ao tórax, a outra esticada, da qual roubaram a tocha que guia os desvalidos do mundo, muitos daqueles que se espalham ali pelas calçadas, pelos canteiros dos jardins, sob as marquises, à porta das lojas.
Ela sobe a rua Capitão Salomão pensando como as pessoas conseguem dormir serenos em suas casas, sabendo de tantos ao relento. O coração é seletivo: emociona-se com os desabrigados pela guerra na Síria, pelas enchentes  no México e por terremoto na Índia, vistos pela tevê ou na internet, mas apenas provoca desvio, num passo duro, daqueles caídos aqui, ali, no Largo do Paissandú, tão próximos, tão reais, que ferem nossas narinas e nossos olhos.
A rotina de trabalho a absorve, os desvalidos caem num desvão mental. Na hora do almoço, passeia tranquila, os corpos já retomaram suas atividades, batalham pela sobrevivência, para existirem por mais um dia, por uma noite mais.
Cinco horas da tarde, ainda claro. Hora do chá em Londres, hora dela voltar ao lar. Ela repisa o caminho da manhã, agora sem corpos, os desvalidos ainda transitam pelas ruas e praças, a batalha continua, a dura noite é próxima.
Ela cruza o Largo, entra na Salomão, vê ao longe um furgão estacionado. Aproxima-se do veículo, ao lado dele, um saco preto, dentro dele um corpo, este imóvel, olhos fechados, rosto crispado num esgar de despedida. O coração aperta, lágrimas não saem, ela segue para o Metrô, o importante é existir, ao menos mais um dia, por mais uma noite.
Outra semana, mesmo horário vespertino, mesmo local, outro saco escuro, outro corpo, também imóvel, olhos esbugalhados, surpresos com a saída antecipada.
Cinco horas no centro de São Paulo não é hora do chá, mas hora do rabecão.
Ela não anda mais de Metrô, prefere o ônibus à porta de casa, à porta do escritório. (Os corpos, vivos ou mortos, estão lá, mesmo que ela não os veja....)
José FRID