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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

CROQUI NA AREIA


A manhã sai a passeio na praia polvilhada de sol.
Braços.
Pernas amputadas.
Corpos que se reintegram.
Cabeças flutuantes de borracha.
Ao tornear os corpos das banhistas, as ondas espalham seus cavacos sobre a
serragem da praia.
Tudo é ouro e azul!
A sombra dos guarda-sóis. Os olhos das moças que se injetam romances e
horizontes. Minha alegria de sapatos de borracha que me faz pular na areia.
Por oitenta centavos, os fotógrafos vendem os corpos das mulheres que se
banham.
Há quiosques que exploram a dramaticidade da arrebentação. Criadas chocas.
Sifões irascíveis, com extrato de mar. Rochas com peitos algosos de marinheiro e
corações pintados de esgrimista. Bandos de gaivotas, que fingem o voo
destroçado de um pedaço branco de papel.
E diante de tudo está o mar!
O mar! ritmo de divagações. O mar! Com sua baba e sua epilepsia.
O mar! até gritar
basta!
como no circo.

Mar del Plata, outubro, 1920

OLIVERIO GIRONDO. tradução FABRÍCIO CORSALETTI E SAMUEL TITAN JR.
(O poema faz parte da antologia bilíngue "20 Poemas para Ler no Bonde" (Coleção Fábula, Editora 34)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

RIO DE JANEIRO

A cidade imita em papelão uma cidade de pórfiro.

Caravanas de montanhas acampam nos arredores.

O Pão de Açúcar basta para adoçar a baía inteira O Pão de Açúcar e seu
teleférico que há de perder o equilíbrio por não usar uma sombrinha de papel.

De cara maquiada, os edifícios trepam uns por cima dos outros e, quando chegam ao alto, viram o lombo para que as palmeiras lhes deem com o espanador na laje.

O sol amolece o asfalto e o traseiro das mulheres, amadurece as lâmpadas
elétricas, sofre um crepúsculo nos botões de opala que os homens usam até para fechar a braguilha.

Sete vezes ao dia regam-se as ruas com água de jasmim!

Há velhas árvores pederastas, desabrochadas em rosas-chá, e velhas árvores
que engolem as crianças que jogam bola no passeio público. Frutas que, ao cair, fazem um buraco enorme na calçada; negros que têm cútis de tabaco, a palma das mãos feita de coral e sorrisos sem-vergonha de melancia.

Por apenas quatrocentos mil-réis se toma um café, que perfuma todo um bairro da cidade durante dez minutos.

Rio de Janeiro, novembro, 1920

OLIVERIO GIRONDO. tradução FABRÍCIO CORSALETTI E SAMUEL TITAN JR.

(O poema faz parte da antologia bilíngue "20 Poemas para Ler no Bonde" (Coleção Fábula, Editora 34)

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

RIO DE JANEIRO

A cidade imita em papelão uma cidade de pórfiro.
Caravanas de montanhas acampam nos arredores.
O Pão de Açúcar basta para adoçar a baía inteira O Pão de Açúcar e seu
teleférico que há de perder o equilíbrio por não usar uma sombrinha de papel.
De cara maquiada, os edifícios trepam uns por cima dos outros e, quando chegam ao alto, viram o lombo para que as palmeiras lhes deem com o espanador na laje.
O sol amolece o asfalto e o traseiro das mulheres, amadurece as lâmpadas
elétricas, sofre um crepúsculo nos botões de opala que os homens usam até para fechar a braguilha.
Sete vezes ao dia regam-se as ruas com água de jasmim!
Há velhas árvores pederastas, desabrochadas em rosas-chá, e velhas árvores
que engolem as crianças que jogam bola no passeio público. Frutas que, ao cair, fazem um buraco enorme na calçada; negros que têm cútis de tabaco, a palma das mãos feita de coral e sorrisos sem-vergonha de melancia.
Por apenas quatrocentos mil-réis se toma um café, que perfuma todo um bairro da cidade durante dez minutos.


Rio de Janeiro, novembro, 1920



Oliverio Girondo in 2 Poemas para ler no bonde, Coleção Fábula, Editora 34,  traduçao Fabrício Corsaletti e Samuel Titan Jr.


quarta-feira, 17 de setembro de 2014

CROQUI NA AREIA

A manhã sai a passeio na praia polvilhada de sol.
Braços.
Pernas amputadas.
Corpos que se reintegram.
Cabeças flutuantes de borracha.
Ao tornear os corpos das banhistas, as ondas espalham seus cavacos sobre a
serragem da praia.
Tudo é ouro e azul!
A sombra dos guarda-sóis. Os olhos das moças que se injetam romances e
horizontes. Minha alegria de sapatos de borracha que me faz pular na areia.
Por oitenta centavos, os fotógrafos vendem os corpos das mulheres que se
banham.
Há quiosques que exploram a dramaticidade da arrebentação. Criadas chocas.
Sifões irascíveis, com extrato de mar. Rochas com peitos algosos de marinheiro e
corações pintados de esgrimista. Bandos de gaivotas, que fingem o voo
destroçado de um pedaço branco de papel.
E diante de tudo está o mar!
O mar! ritmo de divagações. O mar! Com sua baba e sua epilepsia.
O mar! até gritar
basta!
como no circo.

Mar del Plata, outubro, 1920

Oliverio Girondo in 20 Poemas para ler no bonde, Coleção Fabula. Editora 34.