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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os acasos da manhã


ERA DOMINGO e, depois de alguns dias cinzentos, vi pela janela da sala que a manhã estava clara e iluminada. Embora não tenha, aparentemente, qualquer motivo para cair na fossa, nada impede que, de repente, na manhã clara, a alma se acinzente. Por isso, antes que isso ocorresse, tratei de sair de casa e ir andar pela avenida Atlântica, a uma quadra e meia de onde moro.


Não faço cooper, mas andar é o recurso de que lanço mão quando, não sei por que, a vida perde sentido. Nessas horas, meus amigos, não há teoria que resolva, já que é a cabeça mesma que diz não.

Por isso a única alternativa é sair andando, andando à toa, já que também não há aonde ir, ou seja, nenhum destino interessa.

Andar, porém, se pode andar sem destino, deixando por conta das pernas o rumo a seguir. Hoje, no entanto, não foi esse o caso: decidira sair deliberadamente para andar ao sol, sentir no rosto a brisa do mar, gozar do prazer de estar vivo.

Pois bem, quem me lê e presta alguma atenção no que digo, já deve saber que, para mim, o acaso é um fator decisivo em nossa vida e em tudo, das menores às maiores coisas, da topada no meio-fio ao poema que se escreve.

Mas faço questão de dizer que o acaso não é tudo, uma vez que ele só contribui para nossa vida quando atende a alguma necessidade. Isso para os acasos sérios, o que não é o caso da topada no meio-fio, a menos que nos destronque o pé.

Já o amor verdadeiro pode ser fruto da conjugação feliz de acaso e necessidade. Por isso, você diz: "Estava escrito"; "Foi Deus quem a pôs no meu caminho".

De fato, a conjugação de acaso e necessidade parece ter algo de milagre. Só que não pensei em nada disso quando desci no elevador, saí pelo portão do edifício e cheguei à rua, batida de um vento matinal. E foi assim, quase flutuando, que alcancei a avenida Atlântica, onde banhistas e ciclistas animavam a paisagem.

E eis que, ao chegar ao calçadão, sou cumprimentado por um homem de bermudas e camisa desabotoada que me diz: "Senhor Gullar, levei sua crônica para Buenos Aires e o pessoal ficou muito feliz".

Falava com leve sotaque portenho; pergunto a que crônica se referia e ele disse que era uma sobre o apartamento em que eu morara em Buenos Aires durante o exílio. Ah, sei, disse eu, na avenida Honório Pueyrredón.

O acaso não é senão a ocorrência de alguma probabilidade. Aquele senhor, possivelmente argentino e que mora no Rio, saíra de casa, como eu, para andar à toa pela praia e se deparara, por acaso, comigo, autor de uma crônica que se referia à sua cidade, ou melhor, a algo que ocorrera eventualmente num dos prédios de uma de suas inumeráveis avenidas.

Se um de nós dois tivesse saído de casa para aquele passeio, alguns minutos antes ou depois, não nos teríamos encontrado e eu jamais saberia do que me contara. Nem esta crônica estaria sendo escrita.

"Recortei sua crônica e a levei para o síndico do edifício onde o senhor morou. Ele disse que já ouvira falar de um exilado brasileiro que residira ali."

Sempre me encanta essa magia dos acasos da vida. Veja você: uma editora argentina decidira lançar a tradução de meu "Poema Sujo", escrito naquele apartamento de Buenos Aires em 1975. Como não viajo de avião, meu amigo Roberto Viana convenceu-me a ir até lá de carro para o lançamento do livro e me levou, claro, até o edifício onde o poema nascera.

Filmou-me à porta de entrada, que estava fechada, sem que, lógico, o síndico nem nenhum dos moradores soubesse do que ali ocorria, naquela tarde de 10 de setembro, aliás, dia de meu aniversário. Agora, todos o sabem, porque a referida crônica foi emoldurada e posta no hall de entrada.

Despedi-me do simpático argentino e segui meu passeio sem rumo, quando fui abordado por três garotos e um deles me perguntou: "O senhor não é o Paulo Goulart?". Já habituado a esse tipo de confusão, apenas sorri. E o outro rapaz: "Nada disso, cara, ele é o João Goulart... Não, não, é o Goulart de Andrade. O senhor não é o Goulart de Andrade?".

Dou um adeusinho a eles e cruzo a pista da avenida em direção ao mar. Sou mesmo aquele cara famoso que não se sabe quem é.


FERREIRA GULLAR  (Folha de São Paulo, 24/10/10)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

De Castello a Castelo, de Kafka a Kafka - Mera coincidência?



O Estadão trouxe no domingo passado uma entrevista com o escritor José Castello, que está lançando um novo livro, "Ribamar", no qual ele revê a figura paterna. Pelo texto fiquei sabendo que o livro foi inspirado, ou melhor, provocado, pelo retorno às suas mãos de um exemplar do "Carta ao pai", escrito pelo Kafka.



José Castello tinha dado o livro ao pai em 1973. Trinta e três anos depois, um amigo encontrou o exemplar em um sebo carioca, reconhecendo a dedicatória de Castello ao pai. Adquiriu o livro e deu de presente ao amigo.



Após acabar a leitura da entrevista, resolvi pegar na estante meu exemplar da "Carta ao pai", livro fininho, afinal é uma carta, para ler algum trecho que teria marcado em leitura anterior. Pego o livro e ele se abre quase no meio, onde está um recorte dobrado e amarelado de jornal, destacando a palavra "O Castelo", outro livro de Kafka.



Abro o recorte e constato que aquilo é uma resenha sobre uma nova edição do livro de Kafka. Assinada por quem? José Castello!



De Castello a Castelo, via Kafka, o círculo se fecha. Coincidência?



Sou obrigado a reler a "Carta ao pai". O que querem me dizer Kafka e Castello?



José FRID


Atualizando em 18 de outubro de 2011: o livro "Ribamar" ganhou o Prêmio Jabuti de melhor romance. Parabéns!!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Loteria ferroviária


Leia e veja o filme ou veja o filme e leia!

- Quer entrar no bolão?
- Não, obrigado.
- Olha que você vai ficar sozinho na empresa. São cinqüenta milhões!
Pedro Paulo dá de ombros e volta sua atenção para o trabalho. Cláudio insiste:
- Está sabendo que todos vão entrar no bolão? Do diretor ao porteiro?
- Pode ser. Tudo bem. Eu fecho as portas e apago a luz. Ou sou promovido, já que todos vão largar a empresa..
- Deixe de bobagem e passe logo o cincão para mim ....
- Não jogo.
- Religião?
- Não. É que já gastei toda a minha sorte.
- Jogou muito e perdeu?
- Ganhei.
- Você já ganhou na loteria?
- Não, mas valeu mais que a Mega-Sena.
- Você mas não parece que tenha ganho alguma coisa na vida.
- Por que você diz isso?
- Está na cara. Você aí, sentado nessa mesinha, de frente para a parede, mexendo nestes papéis velhos, um empreguinho de bosta ....
- Igual ao seu ....
- Por isso estou fazendo o bolão, para fugir disso tudo ...
- Para mim está bom.
- Bom? São cinqüenta milhões!
- Eu como, bebo, falo, ando ...
- Porra, isso é o de menos. Queria ficar jogado na cama, em coma?
- Quem sabe .... pode acontecer com qualquer um ... até com você.
- Vira a boca para lá, seu bosta. Não azara não. Se não quer ganhar dinheiro, fala logo, mas não fica rogando praga.
Cláudio vira-se e berra:
- Júnior, o Pedro Paulo está fora do bolão.
- Por que, está sem dinheiro?
- Não, disse que já ganhou!
- Ele? O cara que mora longe e vem trabalhar de trem?


A turma da sala, que tinha sido atraída para a conversa em função da voz alterada de Cláudio, caiu na gargalhada. Começaram a fazer gracinhas com a sorte de Pedro Paulo, o milionário que mora lá longe e anda de trem.


Ele, a princípio, ignorou os comentários e continuou seu monótono trabalho de conferir notas fiscais e lançamentos contábeis. Não podia se atrasar, senão perderia o trem de volta e, com isso, as primeiras aulas do curso noturno. Pelo som, percebeu que a galhofa já se espalhara para as outras salas do andar, conforme Cláudio cobrava as apostas no bolão. Breve toda a empresa ia ficar sabendo da sua sorte.


Serviço adiantado, levantou para ir ao banheiro, sendo alvo de sorrisos irônicos à medida que passava pelas mesas. Fez o que precisava, abriu a torneira para lavar as mãos. Olhou-se no espelho e viu o rosto de um sobrevivente. Como um daqueles que conseguira escapar de um campo de concentração nazista. O que mais restava querer da vida, senão a própria vida? Ser, existir. Respirar, andar. Só quem escapa da morte sabe o valor que a vida tem.


Ao voltar para sua mesa, encontrou sobre ela vários bilhetes dobrados, com seu nome por cima. Abriu um deles: "Caro amigo. Estou precisando trocar o carro. Dá para emprestar cinqüenta mil? Pagarei logo que possível". Ele sorriu e abriu outro: "Colega. Não tive a sorte de ganhar na loteria. Você pode adiantar um dinheiro para eu viajar no fim de semana para Paris? Na segunda eu pago com o prêmio da Mega-Sena". "O trem é seu? Ou é mera pão-duragem de milionário?"


Cláudio se aproxima sorrindo e carregando mais bilhetes. Joga-os na mesa de Pedro Paulo e fala:


- O pessoal não pode ver um milionário que já vai pedindo dinheiro emprestado. É bom para me preparar para quando ganhar no domingo. Vou sumir!
- Eu não ganhei dinheiro, ganhei vida.
- Vida a gente ganha quando nasce ...
- Escapei de um acidente ...
- Eu também! Lembra quando o elevador despencou? Eu estava dentro!
- É diferente. Tem freios no elevador.
- O que acontece com a gente é sempre mais importante ....
- Não é isso, eu senti o frio da morte. Foi por milímetros.
- Eu também, o frio da morte no elevador.


Pedro Paulo descalça o sapato e a meia do pé direito. "Olha aqui a marca da foice da morte", diz mostrando uma cicatriz horrível no tornozelo, indo até o calcanhar.


- Que foi isso?
- Um trem quase me pegou. Ou melhor dizendo, me pegou e soltou.
- Como foi? Gente, vem escutar a história do cara.


Pedro Paulo se levantou da cadeira e colocou o pé em cima da mesa. Todos olharam com atenção. Alguns tamparam o nariz, evitando um provável chulé vespertino. Um ousou tocar na ferida e perguntou se doía.


- Agora não. Na hora agá também não, deu até para sair correndo. Mas depois, quando o corpo esfriou, doeu muito! Tive vontade de amputar o pé.
- Mas como aconteceu?
- Eu estava atrasado, tinha prova, a cancela fechou, luzes piscando, sirene. Estava preocupado com a prova, pensando na matéria que ia cair. Parei porque todos pararam. De repente, um cara de terno passou pela cancela e foi atravessando. Quando vi, eu estava atravessando também ...
- O trem pegou o cara?
- Ele passou bem, seguiu em frente para o outro lado. Fui na água dele e de repente o trem apareceu, cresceu, cresceu e me pegou!
- Estais brincando! Um trem pega o cara e joga longe, não deixa uma cicatrizinha dessas! Mata e esfola!
- Aí é que está a loteria, a sorte. Tinha tudo para morrer e escapei!
- Como?
- O trem pegou na pontinha do meu tênis, bem no finalzinho do calcanhar. Mas bem de leve, só arrancou o tênis. Nem cheguei a cair.
- Trem bater de levezinho? Estava parando?
- Não, correndo muito. É que pegou na ponta. Raspou a borracha.
- Tirou o tênis?
- Arrancou o tênis do pé! Fiquei só de meia. A cicatriz é da queimadura que o tênis fez ao ser arrancado violentamente.
- Bobagem. Você estava é longe do trem. O tênis caiu porque estava frouxo.
- Nada disso, escapei por pouco. Muito pouco. O tênis está lá em casa, na estante, mandei metalizar como fazem com sapatinho de bebê. É para nunca esquecer do que poderia ter acontecido.
- Como você sabe disso tudo? Olhou para trás e mediu?
- Não. Dias depois fui com a polícia ver a fita da câmera de segurança. Desmaiei.
- Viadagem ....
- É que não foi com você. Veja o filme e depois diga se não tenho razão. Está no YouTube.
- E depois?
- Fui pulando num pé só até a escola, o professor encrencou com a meia, mas os colegas contaram do acidente, ele deixou passar. Depois, quando o corpo esfriou, quando eu percebi o que tinha acontecido, o que poderia ter acontecido, tiveram que me levar para o hospital. Tremia, suava frio, o pé doía loucamente. Fiquei internado uns dias, com sedativos, sem poder andar até cicatrizar.
- Está tudo muito bom, mas o que tem haver o acidente com a loteria?
- Depois que vi o filme, percebi que tinha renascido, escapado da morte certa. Ou seja, gastei toda a sorte ali, naqueles milímetros do trem. Negociei com a morte. Tal como aqueles que seriam incinerados no dia que os americanos ou russos chegaram nos campos de concentração nazistas. O que mais querer da vida? Já ganhei minha cota. Apostar é jogar dinheiro fora. Será que alguém ganha duas vezes na loteria sem ser político?


José FRID


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Belo chute, não?



Na corrida de ontem - 25 km da Corpore - meu amigo, corredor de primeira viagem, impressionado com tantos automóveis e corredores na USP, estimou que cerca de 30.000 pessoas teriam corrido.


Eu disse que não, muito menos, uns 5.000 no máximo, quem sabe 4.000 pessoas. Cálculo mental!


Depois fui verificar no site da Corpore:


Completaram a corrida de ontem 1836 pessoas nos 25Km e 2.176 nos 12,5 Km, o que totaliza 4.012 corredores!!!



Belo chute, não?



Liguei para o cidadão e comuniquei o resultado. Ele disse:


"CARAMBA! REALMENTE! TEM QUE JOGAR NA MEGASENA ESSA SEMANA!"


É o que farei!!!


Breve darei notícias de Paris ou Londres!


José FRID




Atualização em 2012: Paris e Londres ainda aguardam a Megasena!!!

domingo, 5 de abril de 2009

O mundo é pequenininho! Go tigers!











































Hoje, domingão, fui correr a Meia Maratona Internacional de São Paulo. Eu e uns doze mil malucos e malucas!!

Como é sagrado, depois enviarei aos milhares de fãs do "Filho do Vento" o relato completo da prova, inclusive com belas fotos do seu atleta preferido. Agora quero destacar o fato do mundo ser muito pequeno!

Fui correr com a camisa do time de futebol de Clemson, universidade onde estuda minha sobrinha Danielle. O símbolo do time é um tigre alaranjado, e a pata dele está espalhada por toda a cidade, no asfalto, nos ônibus, na caixa d'água municipal, etc. A minha camiseta é branca com a pata estampada tomando toda a frente.

Resolvi correr com ela em homenagem à sobrinha, que no sábado foi correr uma prova de 10 milhas em Charleston, no litoral da Carolina do Sul.

Acabei de correr, peguei a medalha, a sacola com o lanche e fui procurar meu carro perdido em algum lugar da USP. No caminho uma bela mulher aponta para mim e fala algo que não entendo da primeiravez. Olho para baixo para ver se tem algo errado comigo, o calção caiu, sei lá. Ela repete e agora entendo: ela estava perguntando se a camiseta era de Clemson. "Yes", eu disse e engatamos um papo meio portugês, meio inglês.

Em resumo: a moça é de Clemson, estuda na UCLA e está na USP fazendo pesquisa. Sua mãe foi correr no sábado a prova de Charleston! Disse que a corrida é emocionante, à beira-mar, com mais de 30.000 pessoas. Ficou muito emocionada em ver "alguém" de Clemson ali pertinho dela, saudosa de casa.


Eu correndo aqui com ela e a mãe dela correndo com minha sobrinha nos States!


O mundo não é pequenininho????


José FRID

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

A vida como ela é!

Se fosse novela, ninguém acreditava!!!


Notícia publicada na Folha de São Paulo de 29/01/09:



Colegas de trabalho viram amigos, abrem negócio e descobrem que são irmãos

GRACILIANO ROCHA DA AGÊNCIA FOLHA, EM PORTO ALEGRE

Amigos desde que se conheceram em uma cooperativa agrícola no interior do Rio Grande do Sul, onde trabalharam há cerca de três anos, André Ricardo Baal, 23, e Tiago Pinto, 28, resolveram montar, no ano passado, uma distribuidora de bebidas. Ao juntar os documentos para formalizar o negócio, veio a surpresa: descobriram que são irmãos.
André foi entregue para a adoção dois dias depois de nascer, em Panambi, uma cidade de 36 mil habitantes no noroeste do Estado. Ele conta que nunca teve a curiosidade de saber quem eram seus pais biológicos. Mas a mãe adotiva, Eva Baal, passou a desconfiar do sobrenome do sócio e amigo do filho em outubro do ano passado.
Ela, então, entregou ao filho uma cópia da primeira certidão de nascimento dele, ainda com o sobrenome Pinto e a identificação dos pais biológicos. André Baal empreendeu uma investigação para certificar-se do parentesco e, depois de três dias, confirmou ser filho dos mesmos pais do amigo.
"Depois disso, não tem como não acreditar em destino. Porque além de amigão, ele agora é meu irmão", conta André, empolgado. "Foi a coisa mais emocionante da minha vida", diz.
Tiago Pinto jamais soube, até outubro do ano passado, que tinha tido um irmão adotado por outra família. Só tomou conhecimento, quando André pediu para ter uma "conversa séria" na distribuidora de bebidas. Afirma ter pensado que a "conversa" fosse referente a algum problema com a sociedade.
"Foi muito show de bola, ninguém poderia imaginar que uma coisa dessas acontecesse. Agora somos muito mais unidos do que já éramos", comemora Tiago.
Desde então, André conheceu a mãe biológica e os churrascos de família, um hábito tradicional dos gaúchos, passaram a ser mais frequentes. Numa dessas conversas, a mãe biológica tentou explicar por que entregou o filho para a adoção, mas não conseguiu.
"Não deixamos, não era necessário, passado é passado", conta André, que se considera um sujeito "de sorte" depois que o acaso reuniu aquilo que a vida separou.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Das coincidências, das bruxas e algo mais!



Fernando Meirelles comentando como foi escolhido para dirigir o filme "Ensaio sobre a cegueira":


"O Ensaio Sobre a Cegueira foi publicado no Brasil em 97 ou 98. Li o livro quase numa sentada e por uma semana aquelas imagens e a idéia de que tudo está por um triz me fizeram companhia. Naquele ano, minha vida andava estável demais, então pensei que filmar tal história seria o antídoto perfeito contra a incômoda sensação de segurança que eu sentia.

Num impulso, sem ter a mínima idéia de como adaptaria aquele romance, liguei para o Luis Schwarcz, o editor brasileiro do José Saramago, e pedi que ele consultasse o autor sobre seu interesse em vender os direitos para uma adaptação cinematográfica. A resposta veio rápida: nenhum interesse. Absorvi o tranco, comprei os direitos de
Cidade de Deus do mesmo editor e esqueci o assunto.

Sobre as bruxas: como 2005 havia sido um dos piores anos da minha vida, decidi fazer de 2006 o meu período sabático: não assumiria nenhum compromisso. E foi assim por cinco meses. Em junho recebi um e-mail de um produtor canadense, que eu não conhecia, me perguntando se eu já havia lido José Saramago e se teria interesse em uma adaptação de um dos seus romances. Para ser simpático respondi: manda. Três dias depois, chegou em um envelope com um roteiro em inglês. Era
Blindness, o Ensaio Sobre a Cegueira.

Devem existir milhares de diretores no mundo. O que fez com que aquele texto viesse cair justamente em minhas mãos? Essas coincidências são assustadoras. Talvez mais impressionado pela magia da coincidência do que motivado pela possibilidade de mergulhar naquele universo tão negro, dei um sinal verde: disse ao produtor Niv Fichman que havia gostado da adaptação, o que bastou para que mais três dias depois ele e o roteirista Don McKellar estivessem almoçando comigo em São Paulo.

Nunca fui um bom surfista, mas ondas do entusiasmo sempre me levam de arrasto, e eles estavam muito animados. Não consegui evitar. Dois meses e meio após esse encontro, lá estava eu no Festival de Toronto anunciando oficialmente o projeto."


Mais coincidências? Clique aqui, ali, aqui e acolá.

Mais do filme? Clique Aqui

José FRID

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Mera coincidência?






Um acidente envolvendo dois veículos na Estrada Francisco da Cruz Nunes, próximo à Padaria Glamour no Cantagalo, resultou na morte de três pessoas.


A estilista Daniele Galvão Ornellas, gerente da griffe Armadillo, que fez 30 anos na semana passada, dirigia o Fiat Palio preto KPC 8465, no sentido das praias oceânicas. Ao tentar desviar de um gato malhado que atravessava a pista, capotou e ultrapassou a pequena mureta que divide a estrada, atingindo do outro lado o Peugeot MAI 6751, dirigido por Wilton Galdino da Rocha Filho, capitão PM reformado, de 65 anos, que estava com sua mulher Daise Galdino Rocha, de 63 anos.

Uma coincidência na tragédia: a estilista tinha rompido um namoro de oito anos com o filho do casal. O gato também morreu atropelado no acidente que aconteceu por volta das 19h30m de sábado e causou enorme engarrafamento, principalmente para quem voltava da praia.

"Não creio em bruxas, mas que elas existem, existem ....."

Mera coincidência? Influência do gato malhado? Quem saberá a resposta??

José FRID

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Coincidência?



Miguel de Cervantes e Shakespeare morreram no dia 23 de abril de 1616.


Mera coincidência?


E não devemos esquecer que também é dia de São Jorge!!


""Que vamos morrer todos sabemos; o tempo e a sucessão dos dias é que deixam os homens mais aflitos." A citação é de Júlio César, peça de William Shakespeare. Quis o destino que a sucessão de jornadas na vida do inglês Shakespeare e na do espanhol Miguel de Cervantes Saavedra terminasse numa coincidência: o criador de Hamlet e Macbeth morreu no mesmo 23 de abril de 1616 do pai de Dom Quixote e Sancho Pança. No caso de Shakespeare, ocorreu outra curiosidade. O bardo de Stratford-upon-Avon nasceu e morreu na mesma data. "Sendo o fim doce, que importa que o começo amargo fosse", diz o rei em Bem Está o Que Bem Acaba."

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Acredite se quiser!! Diário sobrevive à explosão do ônibus espacial Colúmbia.





Cerca de dois meses depois da explosão do ônibus espacial Colúmbia, a NASA encontrou 37 páginas do diário de Ilan Ramon, astronauta israelense, molhadas e amassadas, em um campo próximo à cidade de Palestina, Texas.

O diário sobreviveu ao extremo calor da explosão, ao frio extremo da atmosfera e, em seguida, aos microorganismos e insetos do terreno onde ele caiu.

"É quase um milagre que sobreviveram - é incrível," disse Yigal Zalmona, curador do museu de Jerusalém onde serão exibidas páginas do diário. Não existe "nenhuma explicação racional" para a forma como ele foi recuperado, quando a maior parte do ônibus espacial se perdeu, disse ele.

Demorou cerca de um ano para o diário ser restaurado. Os peritos forenses levaram mais quatro anos para decifrar as páginas. Cerca de 80 por cento do texto foi decifrado.

Duas páginas são exibidas. Uma contém notas escritas por Ramon, e a outra é uma cópia da oração Kiddush, uma bênção que os judeus recitam no Sabbath, sobre o vinho.

Zalmona disse que Ramon copiou a oração em seu diário para que pudesse recitá-la sobre o ônibus espacial e ter a bênção transmitida para a Terra.

O diário não fornece nenhuma indicação de que Ramon sabia alguma coisa sobre os problemas potenciais do ônibus espacial. A asa do Columbia foi machucada por um pedaço de espuma isolante do tanque de combustível na ocasião da decolagem decolagem. O ônibus explidiu em chamas apenas 16 minutos antes de desembarcar no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Todos os sete astronautas a bordo foram mortos.
Comentários do escritor Sérgio Rodrigues:

Entraram em exposição há poucos dias num museu de Jerusalém 37 páginas saídas diretamente do inferno – tudo o que restou do diário do astronauta israelense Ilan Ramon, morto na explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003. Ninguém sabe explicar como o caderno, encontrado em campo aberto no Texas, não virou fumaça como o resto da nave.

Agora experimente pôr uma história como essa num romance, em chave realista, para ver o que acontece. Como disse o sábio Mark Twain: "Por que a verdade não seria mais estranha que a ficção? A ficção, afinal, tem que fazer sentido".


Comentários do FRID:


A benção não salvou nem o ônibus espacial nem o astronauta, salvando apenas a si própria, para intrigar a gente. Seria essa a mensagem oculta?


E foram achar o diário do israelense na cidade da Palestina no Texas. Muita coincidência, não?

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sábado em Copacabana



Caymmi compôs a música "Sábado em Copacabana", que fez muito sucesso.


Quando e onde morreu Caymmi?


Sábado em Copacabana!


Mera coincidência???


Atualização em 2013:


E onde colocaram uma estátua de corpo inteiro de Dorival Caymmi?


Em Copacabana!


José FRID


quarta-feira, 28 de maio de 2008

O arquiteto sem sorte!


Foi publicado, recentemente, o livro "O Arquiteto" (Editora Martins Fontes) contendo a peça escrita por Rui Tavares, que conta a história do arquiteto Minoru Yamasaki (1912-1986).


Minoru foi responsável pelos projetos de duas obras marcantes na arquitetura mundial: o conjunto habitacional chamado Pruitt-Ingoe, na cidade de St.Louis, Estados Unidos, considerado uma obra prima de planejamento urbano nos anos 50; e o World Trade Center, que suportaria até o choque de um Boeing 707, o maior avião de passageiros da época (1973).


As duas obras vieram ao chão!


O conjunto habitacional foi demolido em 16 de março de 1972, dia considerado pelos historiadores da arte e do urbanismo do século 20 como a "data da morte da arquitetura moderna."


Trechos extraídos de artigo do Marcelo Coelho, da Folha de São Paulo:


"Ele desenhou 33 prédios de 11 andares, retinhos e iguais, prevendo tudo quanto é tipo de área comunitária, parque infantil, espaço de circulação... Uma típica superquadra, em resumo. Em poucos anos, aquilo virou uma favela irrecuperável, e depois de décadas de assassinatos, estupros, tráfico de drogas, miséria e degradação, as autoridades resolveram deitá-la abaixo."

"Os pós-modernistas vibram diante do fracasso daquela arquitetura racionalista, uniforme, retangular e autoritária. Na peça de Rui Tavares, Minoru Yamasaki se defende. Tinha planejado as coisas do melhor jeito possível."

"O conjunto residencial era dividido em duas partes: uma para brancos, outra para negros. Acontece que, alguns anos depois, foi votada uma lei antidiscriminação no Estado do Missouri. Os brancos não quiseram se misturar nos mesmos prédios. Todo o conjunto desvalorizou. A falta de manutenção era total."

"No calor, as janelas não se abriam; o jeito era quebrá-las. O sistema de elevadores, que funcionava mal desde o primeiro dia, parou de vez. Mas as mulheres tinham medo de usar as escadas, porque podiam ser estupradas. No fim, os empregados das empresas de água e gás não se arriscavam mais a entrar nos edifícios. Culpa da arquitetura moderna?

Talvez não. Ingenuidade autoritária, certamente: como pensar em construir prédios imaculados e perfeitos numa sociedade segregada e violenta?"

O caso do World Trade Center todo mundo conhece: graças a um sistema de estruturas tubulares, os edifícios construídos são capazes de resistir ao impacto até de um Boeing 707. Em 2001 eram 747, Airbus, ....


Você compraria, moraria ou trabalharia em um prédio projetado pelo Minoru Yamasaki?


José Frid

quinta-feira, 10 de abril de 2008

MERA COINCIDÊNCIA? OU O CORAÇÃO COMANDA A RAZÃO??



Homem recebe coração de suicida e se mata da mesma forma que doador

(Chequei a história e é verídica: saiu em diversos jornais americanos da região (Geórgia, Carolina do Sul) – o texto abaixo é de Fernando Moreira, do Globo On Line, com base em jornais internacionais)


"Esta história é de arrepiar. Digna de uma história contada com a maestria sinistra de um Stephen King. O cenário é o estado americano da Carolina do Sul. Tudo começa quando Terry Cottle se mata, em 1995. O coração de Terry é doado a Sonny Graham, a quem os médicos davam apenas seis meses de vida.

Um ano após a bem-sucedida cirurgia, Sonny começa a se corresponder com Cheryl, a esposa do doador. Os dois se aproximam e se casam. Decidem recomeçar a vida e se mudam para a Geórgia.

Só que 12 anos após se casar com Cheryl, Sonny se suicida da mesma forma que Terry: com um tiro. O corpo é encontrado na garagem, sem qualquer explicação para o ato extremo. A mulher fica viúva pela segunda vez e decide que o coração não será mais transplantado.

Amigos disseram, segundo a história relatada pelo "Daily Mail", que Sonny não apresentava qualquer sinal de depressão.

Só que cientistas afirmam que há mais de 70 casos de transplantes documentados em que os pacientes mudam sua personalidade e passam a ter características do doador do órgão.

Mês passado, uma mulher de Lancashire, na Inglaterra, comentou que o seu gosto literário havia mudado radicalmente após um transplante de rim. Antes costumava ler best sellers como "O Código Da Vinci", e agora só se interessa por clássicos como "Crime e Castigo", de Dostoevsky."

Meus comentários:

Será que o órgão "coração" comanda a razão, como os antigos pensavam? Ou foi mera coincidência? Ou ele queria suicidar-se por razões de foro íntimo e quis imitar (ou homenagear) o doador, morrendo da mesma forma? A viúva agiu certo proibindo nova doação?

Mistérios .....

Por outro lado, consultei um colega que fez transplante de rim e nada mudou para ele. Seus interesses artísticos continuaram os mesmos. Mas rim não é coração....

José FRID

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Coincidências??



Resolvi ler por esses dias uma "Antologia Poética" do Carlos Drummond de Andrade, da qual já tinha lido algumas poesias esparsas. Dessa vez, propus-me a ler "de cabo a rabo", começando na página um e acabando na duzentos e setenta e um. No início nem percebi o alcance da proposta: as poesias são emendadas uma nas outras, a letra miúda e num tipo gráfico feio, sem refresco para o leitor. Só para comparar, um livro de poesias tem em média oitenta páginas, bem diagramadas, valorizando os poemas.


A leitura tinha um interesse especial para mim: a antologia foi organizada pelo próprio Drummond, logo os poemas que dela constam são aqueles que ele achou que eram os seus melhores, ou os mais interessantes, ou que eram dotados de alguma particularidade histórica, sentimental, etc. Assim, se eu não gosto de um poema, surge a questão: por que o poeta o escolheu, o que tem de especial esse poema? Releitura obrigatória. (De muitos eu concluí que: ou o poeta se equivocou na seleção, ou o poema tem uma particularidade tão particular que um simples mortal não alcança, ou eu não entendo nada de poema, não sei identificar o "bom" poema!)


Como o carioca é, antes de tudo, um forte, mantive firme minha leitura até a última página, mesmo tendo de enfrentar poemas de mais de dez páginas, como um em homenagem ao Chaplin (que é um poema delicioso, apesar de grande), ou poemas tão herméticos que nem descobri a intenção do autor. Mas não foram só pedras (tinha uma pedra no meio do caminho,  no meio do caminho tinha uma pedra ..... ), muito pelo contrário, a maioria dos poemas são preciosidades deliciosas, foi muito bom aplicar meu escasso tempo em degustar a antologia do Drummond.


Entre os bons, na minha modesta e leiga opinião, cito Poema Patético, A Bruxa, José, Consolo na Praia, Estrambote Melancólico, Cidadezinha Qualquer, Romaria, Desaparecimento de Luísa Porto, Morte do Leiteiro, Quadrilha, Necrológio dos Desiludidos do Amor, Caso do Vestido, Amar, O Lutador, Procura da Poesia, Mulinha, Lira Romantiquinha. Breve disponibilizarei alguns deles no meu blog para compartilhar com vocês.  Não percam!


Uma amiga tomou a mesma resolução em relação ao "Os Sertões", do Euclides da Cunha. Disse que ia até o fim. Colocou o dicionário do lado e foi em frente, palavra por palavra, página por página. Será que ela conseguiu concluir?


Agora as coincidências.


Concluí a leitura no domingo de manhã, na praia. Subo a serra, coloco a vida em dia, ligo a televisão, zapeio na TVA e paro no Cinemax, filme nacional. Sempre prestigio se der para agüentar. Vou assistindo, zapeando sempre que dá, vendo se não tem coisa melhor em outro canal. Peguei o filme no meio, aparece uma cidade do interior, fazenda, grileiros, pistoleiros. Dois casais, um casado mesmo, o outro só "amigos". Conversa vai, conversa vem, o casado fica loucamente apaixonado pela namorada do outro. Ela topa ficar com ele com a condição da mulher dele pedir para ela ficar com o marido. Eu percebo que conheço aquela estória, já vi ou li em algum lugar.


O marido não come, não trabalha, sucumbe à paixão. A mulher dele, diante da situação, vai lá na casa da outra e pede para a outra aceitar seu marido, pois senão ele morrerá de paixão. A outra tripudia, diz que não quer homem nenhum, em especial o marido da outra, mas como ela pediu, ficará com o traste por uns dias, satisfará a luxúria do marido dela.


Caiu a ficha. Pego a antologia do Drummond e lá está: "Caso do Vestido", poema no qual uma mãe conta para as filhas a história de um vestido, situação semelhante à do filme. Procuro no guia de programação: o filme "O Vestido" é uma adaptação livre sobre o poema "Caso do Vestido". Coincidência?


E tem mais. Após o filme terminar, com final um pouco diferente do poema (a adaptação é livre, né?), entro na Internet para ler os e-mails atrasados – faltou o seu! – e ver as notícias. Vou no blog do Noblat, como sempre, e qual o "poema da noite"? (todo noite o Noblat publica no blog um poema por ele escolhido e faz alguns comentários sobre o autor) "Procura da Poesia", de quem de quem? Carlos Drummond de Andrade!!


Coincidências?


José FRID