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domingo, 30 de janeiro de 2022

Criar tensão.....

Eu gosto quando há algum sentimento de ameaça ou sensação de ameaça nos contos. Eu acho que um pouco de ameaça é bom ter em uma história. Por um lado, é bom para a circulação. Tem que haver tensão, uma sensação de que algo é iminente, que certas coisas estão em movimento implacável, ou então, na maioria das vezes, simplesmente não haverá uma história. O que cria tensão em uma peça de ficção é, em parte, a maneira como as palavras concretas são ligadas entre si para compor a ação visível da história. Mas também são as coisas que ficam de fora, que estão implícitas, a paisagem logo abaixo da superfície lisa (mas às vezes quebrada e instável) das coisas.

Raymond Carver in de "A Storyteller's Shoptalk", publicado no The New York Times em 1981

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Para Tess - Raymond Carver

Lá fora no estreito o mar ondula branquejando,
como dizem por aqui. Está bravo, e eu feliz
de não estar lá. De ter pescado hoje
na enseada, jogando minha melhor isca pra trás
e pra frente. Não peguei nada. Nenhuma fisgada
sequer, nem uma. Mas foi bom. Foi ótimo!
Eu levava o canivete de seu pai e fui seguido
algum tempo por um cachorro chamado Dixie.
Certas horas me sentia tão feliz que precisava parar
a pesca. Então deitei na beira de olhos fechados,
ouvindo o som que a água fazia,
e o vento no topo das árvores. O mesmo vento
que sopra no estreito, mas diferente, também.
Por um tempo até me deixei imaginar estando morto - 
e isso não foi ruim, pelo menos num par
de minutos, até realmente afundar na ideia: Morto.
Enquanto eu deitava ali de olhos fechados,
logo após ter imaginado como poderia ser
se de fato eu não me levantasse mais, pensei em você.
Abri meus olhos então e levantei depressa
e voltei para minha felicidade outra vez.
Sou grato a você, percebe? E queria te dizer.

Tradução de Rodrigo Lacerda in O fazedor de velhos, pág.83


For Tess - Raymond Carver
Out on the Strait the water is whitecapping
as they say here.  It's rough, and I'm glad
I'm not out there.  Glad I fished all day
on Morse Creek, casting a red Daredevil back
and forth.  I didn't catch anything.  No bites
even, not one.  But it was okay.  It was fine!
I carried your dad's pocketknife and was followed
for a while by a dog its owner called "Dixie."
At times I felt so happy I had to quit
fishing.  Once I lay on the bank with my eyes closed,
listening to the sound the water made,
and to the wind in the tops of the trees.  The same wind
that blows out on the Strait, but a different wind, too.
For a while I even let myself imagine I had died -
and that was all right, at least for a couple
of minutes, until it really sank in: Dead.
As I was lying there with my eyes closed,
just after I'd imagined what it might be like
if in fact I never got up again, I thought of you.
I opened my eyes then and got right up
and went back to being happy again.
I'm grateful to you, you see.  I wanted to tell you.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Adolescente é fogo!


Mais ou menos um mês atrás, num sábado em que todos tinham saído, eu pegara a Bíblia, logo depois de ter me masturbado, e jurei que nunca mais faria aquilo. Mas acabei gozando sobre a Bíblia e as promessas e juramentos não duraram mais que um dia ou dois, até ficar sozinho novamente.


Raymond Carver in "Ninguém disse nada", conto integrante do livro "Fique quieta, por favor", tradução de Maria Helena Torres, Rocco, 1988.

domingo, 10 de junho de 2012

Short Cuts - Cenas da vida - Raymond Carver



Coletânea de nove contos e uma poesia de Raymond Carver utilizados por Robert Altman como base do roteiro do filme "Short Cuts - Cenas da vida". No filme, Altman encadeou os textos e ambientou-os na mesma região, fazendo personagens de contos distintos interagirem acidentalmente.

Os contos são no estilo próprio do autor, realistas, minimalistas, praticamente sem um final. Os títulos fazem menção a dados dos contos que não são os principais, deixando o leitor percorrer o caminho no escuro, perguntando-se a cada momento onde vai dar a estória. 

A leitura vale pelo estranhamento que os contos causam, situações prosaicas, que poderiam ocorrer a qualquer um de nós, com soluções surpreendentes, como o autor desenvolve o enredo, etc..

Robert Altman destacou na introdução do livro:

Um crítico escreveu que Carver "revelava o estranho oculto por trás do banal", mas o que ele de fato fazia era captar as idiossincrasias maravilhosas do comportamento humano, as idiossincrasias que existem no movimento aleatório das experiências da vida.

A visão do mundo de Raymond Carver, como talvez a minha própria, poderia ser chamada de sombria. Estamos ligados por atitudes similares acerca da natureza arbitrária do acaso no esquema geral das coisas (...)


Contos:

Vizinhos - Casal viaja e deixa as chaves do apartamento com outro casal vizinho, para cuidarem da gata e das plantas. O casal que fica "viaja" na casa do outro.

Eles não são o seu marido - marido fica chocado por opiniões de terceiros sobre sua mulher e a põe de dieta.

Vitaminas - marido se envolve com colega de trabalho da mulher - vendedoras de vitaminas - mas pretenso caso é interrompido por outra pessoa de forma muito curiosa.

Fique quieta, por favor - marido descobre possível traição da mulher e perambula pela cidade.

Tanta água tão perto de casa - pescadores encontram corpo nu de mulher, trazem-no para margem e continuam a pesca por mais alguns dias, antes de avisar à polícia. A mulher de um deles fica transtornada.

Uma coisinha boa - mãe encomenda bolo para o aniversário do filho e esquece de buscá-lo por motivo relevante.

Jerry, Molly e Sam - marido resolve dar solução aos seus problemas, começando pelo cachorro.

Cobradores - vendedor a domicílio de aspiradores

Diga às mulheres que a gente já vai - violência gratuita.

Limonada (poema) - pai perde filho em acidente e se culpa, culpa a todos.


Short Cuts - cenas da vida", de Raymond Carver,  Rocco, tradução de Rubens Figueiredo


Leia o livro e veja o filme!!!!


José FRID

(Lido em julho de 1999, relido em junho de 2012, continua potente!)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Do que precisa ser capaz o escritor



Escritores não precisam de truques ou ardis, nem necessariamente ser os caras mais inteligentes da rua. Às vezes, correndo o risco de parecer bobo, um escritor deve ser capaz de apenas parar e se boquiabrir com isso ou aquilo – um pôr do sol, um sapato velho – em simples e absoluto assombro.


RAYMOND CARVER