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sábado, 22 de maio de 2021

Quiabo

Quiabo

 

Há quem me julgue mal

apenas porque babo.

Há quem de mim se atraia

(ao contrário)

porque toma como patente

a parecença que guardo.

Por sim ou por não

atesto que desse jeito estremeço

jovens e pudicíssimas donzelas.

 

Meu fino cone

(caviloso)

longas unhas de moça imita

e rapazes me apreciam

também por isso.

Pequenos túneis

carregados de semente

podem fazer crer

tenho muito a oferecer –

quem sabe até respingos daquilo

que permitiu a ti

ser gerado.

 

 

Maria Lúcia Dal Farra in Livro de possuídos, 2002

 

domingo, 2 de março de 2014

Cebola


Gosta dos dias longos
esta milenar senhora!
Memorialista,
enrodilha-se na lembrança das próprias folhas
em permanente esforço de perpetuá-las.
Preferida dos faraós,
deve (por cero) ter inspirado a técnica
em que se eternizaram.

Objeto arqueológico de todas as idades,
esta esfinge
foi dita em sânscrito, persa,
latim, grego. Guarda por exemplo
(em gravidez poliglota)
a nostalgia do antigo lar egípcio,
a travessia do deserto, a ausência da mesa,
a carência de alento –
o fundo pranto hebreu que ainda hoje
(inadvertido e fortuito)
compartilha
com quem lhe devassa a alma.

Percorre com faca teu ventre sagrado
é topar com inscrições inauditas,
passagens secretas,
falsas portas,
inesperadas relíquias.

Que apenas a maldição que eu mereça
recaia sobre mim!

Maria Lúcia Dal Farra in “Vergilianas”, do Livro de possuídos

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Noite estrelada (Cipreste e vilarejo)


Tantos sóis na noite escura
e tão baixos
que afrontam (com seus bojos)
as pontas da torre que se alça
dos pés da igreja
para alcançá-los.
Tão irrequietos se mostram
que mal se equilibram na abóboda celeste,
torturados por movimentos espiralados
de quem quer vasculhar
as profundas do horizonte.
Há mesmo um tornado de luz se formando
que traga tudo que brilha
em seu turbilhão de infinito.

Apenas um cipreste resiste
(incólume)
com sua secreta sabedoria
de chama da morte.

Maria Lúcia Dal Farra in "Van Gogh", do Livro de possuídos. São Paulo: Iluminuras, 2002

domingo, 5 de janeiro de 2014

Maçã


A maçã na mesa: pomo da discórdia.
Abuso da minha inteligência
porque quero conhecê-la com dentes,
escavá-la até a longínqua estrela.
Saliva a saliva
procurar-lhe nomes,
no afunilado umbigo aprofundar a língua.

A presença hierática pede respeito
mas profano-a:
tenho de escolher entre ser
boa ou má,
quebrar a dormência – que não
para bela adormecida fui nascida.

Ouso, caio,
começo de novo o mundo,
exilo da fruta o sabor do amor celeste –
sou (por fim) mortal.

Debaixo da macieira
(ah dourada mediocridade!)
a sombra saboreio da vida ufana.
Não aguardo, com Arthur,
que os cavaleiros me livrem
do jugo estranho, e nem vou
(a pé, com Merlim)
aprender mágica no pomar.

Quero conhecer o mal e suas ramas.

 Maria Lúcia Dal Farra in  "Vergilianas", do Livro de possuídos, São Paulo: Iluminuras, 2002

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

João e Joan

Quando fala João Cabral

da mão esquerda de Miró

é com destra que penteia

a crina das próprias sílabas

empinando seu poema

para o sertão dos garranchos:

as letras e algarismos

atraem-se por faísca –

pedra, lâmina e cal.

Amarelo fica o azul

da tanta luz que lhe infunde:

tal explica o canavial

assim perto ao cemitério.

A mulher e o seu pássaro

(de gaiola ela vestida)

é sim contra sim e não

pois que o diapasão é o mesmo.

A bailadora flamenca

(um alfinete e uma pena)

sapateia em Barcelona

(com saias de Andaluzia)

um xaxado nordestino;

o cacto é borboleta



diante do tom adotado,

rapaz com capa vermelha

(Manolete) é sertanejo.

Cada um visa a seu touro

no martelo galopado,

na madeira martelada:

nem um nem outro é canhoto.

Maria Lúcia Dal Farra in "Viveiro", do Livro de auras. São Paulo: Iluminuras, 1994,

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Manga


Ela está sobre a mesa –
nua
e fechada em si
como uma urna.
O elegante perfil convoca outras formas
para torná-la única:
pêra, pêssego, abricô – o coração, afinal,
de onde irrigam a candura
e o aceno para afagá-la com duas mãos.


De modo que a boca quase treme
(hesitante entre beijá-la e mordê-la)
quando dela se achega
sem saber se se entrega ao domínio do cheiro
ou à volúpia de lambê-la –
mesmo antes de (com unhas)
fender-lhe a pele vermelho-verde.


Ah, sulcar a carne macia com o arado dos dentes
deixando que neles se enrosquem os cabelos
que a fruta
 (aflita)
não pode conter diante do torvelinho dos sentidos –
do cataclismo que o desejo encena
no afã de conhecer-lhe o rosto!


Sôfrego, salivo abocanhando a polpa
(esse manancial de sucos que me lambuza,
espirra, goteja e baba)
que chupo exaurindo a fonte dos deleites
dessa mulher que
por fim consentiu
(pudica e fogosa)
de a mim se entregar.


Maria Lúcia Dal Farra in "Vergilianas", do Livro de possuídos. São Paulo: Iluminuras, 2002,

sábado, 11 de maio de 2013

Fruto proibido


Com suas nádegas lascivas de mulher
a maçã deita de costas
na cesta sobre a mesa.
Já de batom está pintada,
armadilha edênica no seu poço
- no ponto da voragem,
caverna de pevides.

Drácula, penetro
no seu espírito interdito,
no jardim das delícias.
Cometo (insensato)
a grande virtude capital.


Maria Lúcia Dal Farra in  "Coisas de mulher", do Livro de auras, São Paulo: Iluminuras, 1994por indicação de Cláudio Willer

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Boi no pasto

 
Boi no pasto não tem patas.
Bóia as banhas ondulantes
sobre as bordas do capim
que (marítimo de ervas)
em superfície o conserva.
Está no seu elemento
e todo esterco trescala
ao verde que ele abate –
ilhas já dessa paisagem.
É o campo que se alevanta
no negro musgo do estrume
por seu turno resgatando
a larva à própria lavra.


Boi no pasto não tem peias
nem a terra lhe é fronteira.


Maria Lúcia Dal Farra in "Viveiro", do Livro de auras. São Paulo: Iluminuras, 1994, indicação de Cláudio Willer

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Retrato de mulher de frente

    

De tanto esperar pelo meu olhar,
enrubesceu. Aguardou-o
anos a fio
mas emana dela ainda
a mesma timidez
igual esperança. Há
(quem sabe)
uma indagação impossível
na boca rubra e natural.


A aura do objeto
mistura-se a seu cabelo
como se a existência
tivesse transcendido o momento
em que por certo nos encontraríamos.


Malgrado estar eu aqui –
tudo nela ainda espera por mim.

Maria Lúcia Dal Farra in "Klimt", Livro de possuídos, Iluminuras, 2002, via Claudio Willer

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O gato



Uma palavra para o gato: ágil.
Também unha, preguiça, pupila.
O resto
é o que ele
(entre uma e outra delas)
preenche de charme delgado –
enigmático.


Adoraria poder nele apalpar o pêlo
e saber de que abstração é feito.
Mas (felino) ele se enrosca incisivo
no vão do meu pensamento
e dependura-se
(em telepática acrobacia)
nas suas prerrogativas.
Só me permite escrevê-lo
a contrapelo.

Maria Lúcia Dal Farra in "Viveiro", do Livro de auras. São Paulo: Iluminuras, 1994, via Claudio Willer

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre gatos - II


GATO

Amarra seu sono
a cobra que o corpo molda
a fabricar o ninho.
Enredos de caracol percorre o instinto enquanto
(composto)
o redondo se obra.

O tigre
(no gato entranhado)
desperta quando ele salta
e ata cada curva do bichano
à floresta
que lhe é estranha.

No seu pêlo um desenho se ateia
(é novelo intrincado de chamas)
ao encerrá-lo também acalenta
uma a uma das sete existências.

Salamandra, caça, concha.
Gato: viveiro de alheios.

Maria Lúcia Dal Farra in "Livro de Auras" (Iluminuras, 1994)

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O GATO

o gato é mais
que aquilo que se vê
pois quem olha assim só vê
o que no gato é demais

o gatoflex
o gato rosca
o gato sono
o gato miado

o gato é o que mora
dentro do olho do gato
menina no centro do íris
sua tara faro e tato

o gato lhe acompanha
onde quer que você vá
só com os olhos - não é besta -
para ele basta olhar

mas nos olhos traz o pelo
preto brilhante macio
um olhar quase vazio
de quem sabe admirar

seu olhar nunca é pedinte
de vira lata carente
nem é feito de ameaça
pastor domingo na praça

o olhar do gato lhe abraça
sem pieguice ou apego
pelo prazer de abraçar
o gato está no olhar

Chacal in "Belvedere" (Cosac Naify/7 Letras, 2007)

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LIÇÃO DE UM GATO SIAMÊS


Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não é o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
- dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do eu vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Ferreira Gullar in "Muitas Vozes" (José Olympio, 1999)