terça-feira, 11 de outubro de 2011
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Darwin, 200
A teoria darwiniana sofreu aperfeiçoamentos, mas seu cerne, a seleção natural, permanece intacto. O mecanismo foi exposto em obra clássica, "Origem das Espécies", que também faz aniversário (150 anos): a diversidade observável nos organismos é fruto da acumulação de incontáveis e discretas características hereditárias que tenham contribuído para a sobrevivência e a reprodução de seus portadores.
Outro pilar da teoria darwiniana: os milhões de espécies de plantas, animais e micro-organismos que vivem e já viveram sobre a Terra descendem todos de um ancestral comum, que surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Durante um século e meio reuniram-se inúmeras comprovações empíricas desses princípios. A universalidade do DNA, a substância presente no núcleo das células portadora de hereditariedade, é só uma delas.
É uma ideia poderosa, em sua simplicidade. Os organismos não são como são em obediência a um desígnio superior. Ao contrário, sua diversificação resulta do entrechoque de eventos inteiramente naturais -sobretudo mutações genéticas e modificações no ambiente- ao longo de um tempo muito profundo.
Compreende-se que esse modo de encarar a biosfera torne problemáticas outras explicações para a miríade de formas que povoam o mundo, como as inspiradas na literalidade de textos religiosos. Apesar disso, é possível conciliar o mecanismo da seleção natural com a noção de um Deus que o tenha criado.
O próprio Darwin, ateu ou agnóstico, jamais fez de sua teoria uma arma antirreligião. Essa é a caricatura que dele se construiu nos últimos 150 anos. Deixar-se arrastar por ela não faz jus à grandiosidade de sua visão da vida, que está na raiz do enorme avanço da biologia nas últimas décadas e que tanto fez para dissipar ilusões sobre o lugar da espécie humana no universo.
(editorial Folha de São Paulo, 10/02/09)
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Lembra-te de Darwin
Deu na Veja
É inaceitável dar criacionismo em aula de biologia. Embrutece porque ensina o aluno, desde cedo, a confundir crença e superstição com razão e ciência.De André Petry:
É assustador que, às vésperas do bicentenário do nascimento de Charles Darwin, pai da teoria da evolução, escolas brasileiras estejam ensinando criacionismo nas aulas de ciências. Já se sabia que as escolas adventistas fazem isso. A novidade é que o negócio está se propagando. Em instituições tradicionais de São Paulo, como o Mackenzie, inventou-se até um método próprio para o ensino. "Antes, usávamos o material que havia disponível no mercado", explica um dos diretores da escola, Francisco Solano Portela Neto.
O criacionismo é ensinado como ciência da pré-escola à 4ª série.
Não há problema em que o criacionismo seja dado nas aulas de religião, mas ensiná-lo em aulas de ciências é deseducador. Criacionismo é a explicação bíblica para a origem da vida. Diz que Deus criou tudo: o homem, a mulher, os animais, as plantas, há 6 000 anos. Quem estuda religião precisa saber disso. É uma fábula encantadora, mas não é ciência.
É inaceitável que o criacionismo seja ensinado em biologia para explicar a origem das espécies. Em biologia, vale o evolucionismo de Darwin, segundo o qual todos viemos de um ancestral comum, há bilhões de anos, e chegamos até aqui porque passamos no teste da seleção natural. É a melhor (e por acaso a mais bela) explicação que a ciência encontrou sobre a aventura humana na Terra.
Quem contrabandeia o criacionismo para as aulas de biologia diz que, em respeito à "liberdade de pensamento", está "mostrando os dois lados" aos alunos. Afinal, são escolas religiosas, confessionais, e os pais podem ter escolhido matricular seus filhos ali exatamente porque o criacionismo é visto como ciência. Pode ser, errar é livre, mas que embrutece não há dúvida.
Embrutece porque ensina o aluno, desde cedo, a confundir crença e superstição com razão e ciência. É desnecessário. Que cientistas saem de escolas que embrulham o racional com o místico? Também é cascata, porque, fosse verdade, a turma estaria ensinando numerologia em matemática. Ensinaria alquimia em química, dizendo, em nome da "liberdade de pensamento", que é possível transformar zinco em ouro e encontrar o elixir da longa vida...
Há pouco, na Inglaterra, um reverendo anglicano defendeu o estudo do criacionismo na educação básica. Era diretor de educação da Royal Society. Queria colocar Deus no laboratório da escola. Cortaram-lhe o pescoço. A Suprema Corte americana já examinou o assunto. Mandou o criacionismo de volta às aulas de religião. No Brasil, terra do paradoxo, o atraso avança.
Darwin foi um gênio. Em seu tempo, não se sabia como as características hereditárias eram transmitidas de pai para filho. Nem que a Terra tem 4,5 bilhões de anos e que os continentes flutuam sobre o magma. No entanto, a teoria da evolução se encaixa à perfeição nas descobertas da genética, da datação radioativa, da geologia moderna. Só um cérebro poderosamente equipado, conjugado com muito estudo, pode ir tão longe. Confundido com criacionismo, Darwin parece um macaco tolo. É assustador.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Darwin em ação: Pimenta arde para evitar ataque de fungo
Pimenta arde para evitar ataque de fungo
Concentração de moléculas irritantes nos frutos varia com grau de incidência do micróbio, diz estudo
| Amit Dave - 25.fev.04/Reuters |
RICARDO BONALUME NETO (Folha de São Paulo)
Quanto mais quente, melhor - especialmente quando se trata de pimenta e quando a pimenteira tenta sobreviver a micróbios que afetam sua capacidade de reprodução.
Uma elegante pesquisa de cientistas bolivianos e americanos mostrou que uma mesma espécie do gênero de plantas do qual fazem parte a pimenta chili e a popular malagueta brasileira varia o ardor do seu fruto de acordo com a ameaça, maior ou menor, de um fungo causador de doença.
Os fãs de condimentos "quentes" devem, portanto, agradecer ao fungo Fusarium semitectum por forçar as plantas a produzirem frutos cada vez mais ardidos.
Trata-se da primeira demonstração prática, em campo, de um aspecto importante da "guerra química" entre uma planta e um micróbio: que a defesa bioquímica varia com a intensidade da ameaça.
As mesmas substâncias que dão o ardido à pimenta impedem o fungo de causar estragos maiores. Quanto mais presentes as moléculas do ardor, as chamadas capsaicinas, mais forte é a proteção.
As propriedades antimicrobianas das pimentas ajudam a explicar o porquê de um em cada quatro seres humanos consumir o produto a cada dia.
O estudo foi feito por sete pesquisadores dos dois países, liderados por Joshua Tewksbury, da Universidade de Washington em Seattle, oeste dos Estados Unidos. Ele está publicado na edição de hoje da revista científica "PNAS".
O estudo da equipe de Tewksbury foi feito com a pimenta chili da espécie Capsicum chacoense, comum na região do Chaco, entre Bolívia, Paraguai e Argentina.
Paradoxo
Em geral, não é uma boa idéia para uma planta ter frutos muito ardidos ou amargos. A função principal de uma fruta, dizem os autores do estudo logo na sua primeira frase, é atrair animais para dispersar sementes viáveis através das suas fezes. É um caso de amor ou rejeição à primeira mordida.
Outros consumidores são menos desejados: insetos que atacam os frutos e micróbios que destroem as sementes em vez de dispersá-las. No caso da pimenta estudada, o buraco feito pelo inseto era o canal perfeito para a invasão do fungo.
A planta tenta se defender dessas pragas microscópicas produzindo substâncias tóxicas. Mas não pode exagerar na dose, senão os animais dispersores passam a evitar frutos ardidos demais. É um autêntico "come-lá-dá-cá".
Foram estudadas sete populações da pimenteira, distribuídas em 1.600 km2 de território boliviano, e notou-se que, quanto maior o risco de ataque por inseto ou por fungo em uma região, maior a quantidade das capsaicinas.
COMENTÁRIO DO FRID:
A NATUREZA É BELA E SÁBIA!!
terça-feira, 1 de julho de 2008
A Evolução Natural aos 150 e seu avô que era macaco
Pois foi que, naquele 1º de julho – há 150 anos, hoje – emissários dos naturalistas Charles Darwin e Alfred Russel Wallace leram perante uma seleta de notáveis uma detalhada descrição do processo da Seleção Natural das Espécies. Ambos haviam chegado à mesma conclusão independentemente. Naquele dia, Wallace estava na Malásia e Darwin no interior da Inglaterra.
O velho Darwin já tinha chegado à conclusão de que havia um processo de Seleção Natural após sua extensa viagem ao redor do mundo. Isso fazia 20 anos. Mas guardara as conclusões para si. Wallace, por sua vez, era jovem e teve o insight revolucionário durante um longo período de febres causadas pela malária. Quando o jovem enviou um paper rápido para o mestre avaliar se achava que valia d'algo, o velho tomou um susto. Tirou das gavetas seu extenso trabalho e convocou de presto a reunião.
Não o fizesse, outro levaria a fama da descoberta.
O público que ouviu as idéias de Darwin e Wallace no salão principal da Linnaean Society de Londres, há século e meio, não era composto de cientistas. Apenas por gentlemen curiosos. Foram horas de leitura de muitos artigos, lá no meio as 18 páginas sobre a evolução. Saíram todos atordoados sem terem entendido muito do todo. Ao fim do ano, quando o presidente da Sociedade, Thomas Bell, redigiu seu relatório, tratou de explicar que aquele ano de 1858 'não fora marcado por nenhuma dessas descobertas impressionantes que revolucionam a ciência'.
Pois é.
Mas vivemos todos num mundo darwinista."
Pedro Doria - http://pedrodoria.com.br/