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sábado, 25 de junho de 2011

Chama





as tulipas acenderam
- espadas, coroas,
cabelos -
seu ruído no quarto.
na cama sem repouso
um rosto avesso ao rosto
intransigente, do espelho,
busca equilíbrio
sobre o cânion dos lençóis
paira, fogo contido,
gêmeo do incêndio das flores
ardendo em contínuo
silêncio,
no halo da lucidez


Cláudia Roquette-Pinto in Zona de Sombra, 1997

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O dia inteiro

O dia inteiro perseguindo uma idéia :
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem           
no rosto desta última flor.


Cláudia Roquette-Pinto in Corola, 2000

terça-feira, 12 de abril de 2011

Em surdina




Em surdina
(para um balé de balanchine)


I


ela pode voar
(ele acredita)
no movimento
que desamarra dentro
- de' entre os braços
que um necessário apolo
ergueu a tempo para essa alegoria -
como se denso
embora leve
detendo-se o corpo se desse
em asas
- asas ao inverso,
que nela o vôo
não alça: desata -
como se um vento (ou
o que, íntimo, levita)
soprando de dentro
sobre a água fixa da platéia a erguesse
antes mesmo
que os dedos-palafita
de um parceiro a tocassem
(como tocam agora) as
costelas
onde um par de asas se agita


II


o corpo um arco
encordoado para fugas
(ou será ela
a própria flecha
Que dispara?)


Cláudia Roquette-Pinto in Zona de Sombra, 1997

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sítio





O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopéia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
_ mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:


O menino brincando na varanda.

Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: - Pai!
acho que um bicho me mordeu!  assim

que a bala varou sua cabeça?


Cláudia Roquette-Pinto in Margem de manobra, 2005

sábado, 9 de abril de 2011

Desprego das estrelas




Desprego as estrelas,
deixo que elas
rolem céu abaixo
soltas do seu facho
frio, iridescente,
ricochete rente
ao chão adormecido.
Cobres,
estrelas de pobre,
moedas
que dobram na queda,
vão metal.
O mesmo que falta
às nossas mais altas
intenções, e nos deixa
(é sempre a mesma queixa)
nesse vai-da-valsa :
com as mãos repletas
de palavras certas,
de moedas falsas.


Cláudia Roquette-Pinto in Corola, 2000