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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Dragão



Semana que vem, chega-te pelo correio

a lua: puro papelão,
que aos teus dedos transmutará em loiça.


Não fosse a gripe que me assolou esses dias,

não fosse a preguiça, os livros e o sono,
eu te mataria um dragão.


Na entrada da tua vila, deixaria o bicho,

pesado como uma hecatombe
(um hematoma na boca do estômago,


as asas imensas de bomba

imersas numa poça de sangue verde).
Ora, não te assustes,


sei que te acostumei com presentes mais delicados.

Mas não seria preciso guardá-lo: telefonarias
para o Departamento de Limpeza Urbana


avisando que um louco que te ama

deixou um sonho morto
na porta da tua casa.


Eucanaã Ferraz

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A questão



Como decidir do desejo?
Algum padrão diz do que
e de quanto vive?

Ele vive do que deseja?
É uma necessidade?
Subsiste no fundo do tempo?

Faz-se num minuto? Morre
no outro? Perdura uma existência inteira?
O desejo que não desejamos,

refreá-lo como? Respiramos.
Há interromper-lhe o passo?
O desejo nos ouve?

É cego? É doido? O desejo vê
mais que tudo? São os nossos
os seus olhos? Se os fechamos,

ele finda? Quem pôs o desejo em nós?
Onde está posto? E onde não?
Penetra o sonho, o trabalho, infiltra

nos livros, no óbvio, nos óculos,
na cervical, na segunda-feira e os versos
não sabem outro tema.

Há quem não deseje?
Tudo o que vive deseja?
Faça-se o exercício: não desejar,

por um mês, uma semana,
um dia. O desejo fabrica-se
de nenhum aval? Ele não teme?

Não receia o sal à face da razão?
Não teme a dor, decerto, que dela
parece, por vezes, primo-irmão.

E perguntamos, perplexos. O desejo
é uma forma oblíqua de alegria? Brinca
conosco? Mas, brincarmos com ele,

ai de nós, é de seus truques
o mais fatal. Morremos de desejo?
Com ele removemos pedras?

Por ele removemos montanhas?
Pode o desejo mover o não?
(O não: esta seta o mata?

Ou esta farpa fomenta o que nele nos ultrapassa
e que, sem nome nem fim, não desistirá
senão quando tudo morto em nós?)

Química tão secreta,
não vale a pena qualquer pesquisa,
uma pluma, este poema.



Eucanaã Ferraz in "Rua do mundo", Companhia das Letras, 2004.


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domingo, 6 de março de 2011

Passeio



Na entrada do cinema, o drops
pode ser misto ou de hortelã,
o misto tem gosto de frutas,
o de hortelã de hortelã.


As pessoas são muitas pessoas.


Dentro do cinema, quanto tudo é escuro
são todos anônimos e mesmo em inúmeros
assim como são, ficam uma só pessoa
no escuro, como se não fosse ninguém.


Eucanaã Ferraz in "Livro primeiro", Edição do autor, 1990.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Quando eu morrer



Pai, quando eu morrer,
ficarei rosa como uma menina
(você não deve ralhar ou querer que eu minta
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).


Quando eu morrer sou tranqüilo
como um príncipe que beijasse
a boca do nada (você vai achar bonito
esse quadro de tintas longínquas).


Pensarão que sou uma menina, um barco,
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.
Veja pai, sou um mineral,
intacto e sem passado.


Eucanaã Ferraz in "Livro primeiro", Edição do autor, 1990
.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Passando em frente...



Passando em frente
ao antigo, imponente
prédio:


o leão, velho, pára
e repara, atento,
naquele seu estranho parente.


Repara nas patas
bem postas,
pesadas, afiadas,


nos pelos, nos olhos,
em tudo que, granítico,
jamais apodrece.


O leão velho vê
a si mesmo
e inveja o irmão de pedra.


Pensa, por exemplo, que
não poderia guardar
entradas de edifícios


como faz o pétreo
leão de guarda,
impávido, perfeito.


Enquanto medita, moscas
fazem festa em volta de sua juba,
um tanto suja,


não há como negar, e
todo ele, desse jeito, mostra
uma ternura engraçada,


de palhaço,
de palhaço velho,
mais doce por isso.


O leão de pedra,
ao contrário, é,
depois de um século,


todo empáfia,
um rei
que não morresse,


que não morre,
que permanece, e
mais rei por isso.


O leão de pedra, imóvel,
guarda a entrada do templo,
enquanto o outro


procura por nós, igual
a nós, dentro
do tempo.


Eucanaã Ferraz in "Dessassombro", Editora Sette Letras, 2002

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Procurar palavra...


Procurar palavra
em palheiro.


Sem circunlóquios,
não faltando à clareza.


Obstáculos
não façam extensa


e fatigante a marcha
contra o dicionário.


O gesto necessário.
E só.




Eucanaã Ferraz in Dessassombro, Editora Sette Letras, 2002.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Enquanto descansa, dorme...




Enquanto descansa, dorme,
a mulher que amo, que me ama,
sigo neste exercício da ternura exata
e comum:


cuidar, de quando em quando,
que as treliças da janela
amenizem a manhã em sua rudeza de adaga,
ainda que doméstica lâmina,


e, assim, em volta da mulher que amo,
que me ama, vá o dia
como deve ser: o sol
necessário, um debrum.


Eucanaã Ferraz in "Dessassombro",Editora Sette Letras, 2002.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Acorda

Acorda

Em meio ao que deve ser
ainda a noite. Seu grito,


porém, não se desfaz
no ácido escuro: cuspido


para além do corpo
à maneira de um osso,


permanece agudo, ali,
fincado entre a parede


e a cama. Pode vê-lo,
como quem vê doer a dor


fora de si mesmo. Fecha
os olhos, abre-os, fecha


o peito, respira, e o grito,
sólido, negro negror,


no mesmo lugar. A garganta
não pode trazê-lo de volta,


o sono não pode apagá-lo, o medo
vigia, o quarto carbonizado


pelo pavor é minúsculo,
é imenso. O grito assim,


matéria, parece ter peso:
não é leve, apesar de


acima do chão,
chumbo em levitação;


tem cor: a tinta da noite
em si mesma concentrada;


massa: totalmente caroço,
compacta; temperatura: é frio


como só pode o vidro,
frio que se irradia liso


e lança de si gelado o hálito
em que tudo – cômoda, quadros,


cama – afunda; o grito assim,
feito coisa, tem densidade:


a de um piano sem teclas,
só a sua glândula enfartada e dura;


tem cheiro, e pelo quarto
instantâneo se espalha: fedor


de borracha. Bicho que
depois de morto pudesse


saltar sobre a presa:
lei, sentença, decisão


sem preâmbulos e sem motivo. Mas
a mão da mulher acorda


e lhe pergunta. Um sonho,
um pesadelo, ele responde. E


volta-se para o lado. Cômoda,
quadros, cama respiram aliviados,


o dia tem pressa,
dormir é ouro.



Eucanaã Ferraz in Cinemateca, Companhia das Letras, 2008