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sábado, 2 de julho de 2011

ROMEU E EU (conto dialético e, ipso facto, poema romântico)



#6 ROMEU E EU (conto dialético e, ipso facto, poema romântico) [1977]


Eu quero brincar com você. Papai não deixa. O Diretor proíbe. A Esquerda se opõe. Você me chama e eu morro de vontade. Papai me ameaça. O Diretor me intima. A Esquerda me aterroriza. Saio escondido, procuro por você, mas eles me acham. Papai me bate. O Diretor me põe de castigo. A Esquerda atenta contra mim. Fico esperando, você me procura, nos encontramos no escuro, nos pegam em flagrante. Papai me expulsa. O Diretor me interna. A Esquerda me seqüestra. Escapo e sobrevivo, mas você não está livre. É filho de seu Papai. Disciplinado ao seu Diretor. Prosélito da sua Esquerda. Vivo solitário, você prisioneiro, e não podemos brincar. Castram nossa infância porque você é igual a mim, sua vontade igual à minha, mas nos fazem diferentes.



NOTA: Aparece originalmente no "Jornal Dobrabil" e reaparece em diversos espaços periódicos, como a página "Leitura" da "Folha de Londrina" em 1983. Chegou a ser vertido para o grego por Rigas Koupa, organizador da coletânea internacional "I Elxi Tom Omonimon: Anthologia Homo-Erotikon Poiimaton" [antologia de poemas homoeróticos], publicada em Atenas (Odisseas, 2005). Como outros exemplos de "Línguas na papa", está entre os mais explícitos manifestos homossexuais do autor, recortado contra um pano de fundo histórico, representado pelo regime militar pós-64.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

PENSO, LOGO CAGO




#5 PENSO, LOGO CAGO [1977]

 
Eu não nasci, pois não me lembro de isso ter acontecido. Não morri, pois também não me lembro que isso tenha acontecido. E, se não nasci nem morri, das duas uma: ou sou Deus ou não existo. Ora, como nem tudo que eu quero acontece e nem tudo que acontece eu quero, não sou Deus. Portanto, não existo. Logo, não penso. Então este raciocínio é falso, e nesse caso eu não passo de um mero amnésico. De qualquer maneira, nada tem importância: se perco a memória, tanto faz que tudo seja ou não verdade. Basta dar a descarga e passar pro papel. 




NOTA: Foi publicado originalmente no "Jornal Dobrabil" e seu discurso sofismado joga com o duplo sentido (filosófico e fecal) da escatologia. O poema está incluído na coletânea "Memórias de um pueteiro" e na antologia "Poesia digesta: 1974-2004".

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Drummond e Glauco Mattoso




SONETO DO DRUMMOND MENOR [1585] 


Preguei-lhes uma peça! Nos setenta, 

estavam os concursos já na moda: 
autor novato ou velho arrisca e tenta 
um prêmio faturar e entrar na roda... 


Ao ver que é só Drummond que se comenta 
e criticá-lo é coisa que incomoda 
a claque, que é que o Glauco faz? Inventa 
um nome falso, a ver se alguém o poda... 


Inscrevo um poeminha de Drummond 
tal como se meu fosse: não um bom, 
mas um dos sem valor, um perecível... 


Foi desclassificado pelo júri... 
Então desmascarei quem quer que jure
que tudo que ele fez tinha alto nível...
 


SONETO DO DRUMMOND MAIOR [1586] 


Mas nem só de José, solução, rima, 

foi feito o bom Drummond: também do duro 
soneto, que de muitos paira acima 
e irrita as oficinas do futuro! 


É nele que o poeta se aproxima 
dos mestres e se afasta do monturo 
efêmero: eis que o metro da obra-prima 
varia, verso a verso, mas sem furo! 


Heróico, provençal, martelo, sáfico: 
tetrâmetro, seu deca foge ao gráfico 
traçado pelo cânone camônico... 


Andrógino, anarquista, esse seu deca: 
se em tudo que já lemos não defeca,
o mijo do cachorro soa irônico...


Glauco Mattoso


terça-feira, 21 de junho de 2011

BORZEGUINS AO LEITO




#12 BORZEGUINS AO LEITO [1988] 


Na boca da avenida, bem no centro da cidade, 
lá vem ela com pinta de estudante calourinha. 
Não sei de que colégio, que cursinho ou faculdade, 
só sei que o que eu queria é que ela fosse aluna minha. 
O cabelinho dela é uma tentação pro trote: 
levinho, liso e loiro, escorrendo no decote. 
E o que me põe mais bobo, mais doido, mais tonto nela 
é aquele tênis preto amarrado na canela.  


Franjinha sobre o óculos, boquinha de chiclete, 
nariz arrebitado, saia acima do joelho. 
Deve ter mais de vinte e aparenta dezessete. 
Se ela é coelhinha, eu queria ser coelho. 
A cinturinha dela parece de tanajura, 
de olhar já dá formigamento na musculatura. 
Mas o que deixa ouriçadíssimo este magricela 
é aquele tênis preto amarrado na canela.  


Eu fico só pensando nela sem aquela blusa: 
mamãe me amamentando e eu encolhido no colo. 
Sem saia deve ser alguma coisa tão confusa 
que nem Serra Pelada com metrô no subsolo. 
Nua de corpo inteiro é uma fotografia aérea
 da Via Anchieta atravessando a Sibéria... 
Só tem mesmo uma coisa que eu não tirava dela: 
é aquele tênis preto amarrado na canela.  


Glauco Mattoso



 NOTA: Originalmente publicado em "Rockabillyrics", saiu em 1988 no gibi "Chiclete com Banana" e foi incluído por Augusto Massi na antologia "Artes e ofícios da poesia" (1991), e por Wilberth Salgueiro no livro "Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea, dos anos 70 aos 90" (2002), tendo repercutido internacionalmente a ponto de aparecer na "Revista das Letras" (suplemento do jornal "O Correo Galego"), de Santiago de Compostela (2000). Foi a primeira letra do livro "Rockabillyrics" que teve arranjo genuinamente rockabilly e gravação por uma banda do gênero: incluída no repertório do trio mineiro Os Baratas Tontas, está gravada no CD "Nervos à flor da pele!", que lançaram em 1996 pelo selo Cogumelo. A faixa foi também incluída na coletânea "Urbanoise", produzida pelo próprio GM para o selo Rotten Records, por ele criado em sociedade com o baterista Português, da banda punk Garotos Podres.