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domingo, 4 de setembro de 2011

A leitura



A leitura de um bom  livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.

André Maurois

quinta-feira, 15 de abril de 2010

E que tal agora viajar de Buenos Aires a Santiago em 1947?


Depois da viagem de Paris ao Rio de Janeiro (leia aqui), com uma paradinha em Recife para tomar uma água de coco, que tal voar com nosso "herói" de Buenos Aires a Santiago do Chile, passando pelos Andes??
Só mamando oxigênio!!!
Boa viagem!!!! Boa sorte !!! (no mês passado, agosto de 1947, caíram três aviões na rota)

José FRID

"5 de setembro de 1947
O tempo está enevoado, mas calmo. Longo vôo por sobre os pampas que, vistos pela janela do avião, parecem de um azul líquido, mar antes que campo.


De vez em quando, dou uma olhada nesse oceano de terra, que se tornou violeta, e, de súbito, vejo diante do avião uma barreira abrupta. Isso lembra a chegada a Nova York e a cadeia de arranha-céus de Manhattan dominando as águas. Mas esse obstáculo, que parece tão próximo, estava ainda a mais de cem quilômetros, pois são necessários vinte minutos para atingi-lo. Os primeiros cimos são verdes. Em seguida o avião se esgueira entre cumes nevados. Não sobrevoa os Andes, ele os escala; vai de garganta em garganta, de corredor em corredor, Ao lado de cada viajante está atado um tubo de borracha, que se comunica com uma garrafa de oxigênio dissimulada num braço do assento. Quando se aperta um botão, uma corrente gasosa, de sabor metálico, penetra na boca, um pouco fria, e vai acalmar o coração e os pulmões. É uma impressão agradável e estranha. Nenhum sentimento de temor; uma vaga beatitude.

Penso em Mermoz, que foi um dos primeiros a abrir essa estrada e que teve de experimentar uma por uma suas passagens. Às vezes pousava nessas estreitas plataformas de neve e só podia tornar a sair deixando o avião cair num precipício. Hoje em dia ainda há acidentes (três aviões se perderam no início de agosto), mas nossos passageiros nem pensam nisso. Escrevo duas longas cartas, a minha mulher e minha filha. Uma criança dormita e recusa o oxigênio que lhe oferece, com insistência, a mãe. Aquela chupeta estranha não lhe agrada. Pouco importa aliás, pois a travessia dos Andes só dura uma hora e logo descemos em Santiago."

André Maurois in "Diário de uma Viagem pela América Latina", Editora Record,

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Viagem de Paris ao Rio de Janeiro em agosto de 1947



Tá com medo de viajar de avião?

Veja abaixo como era uma viagem de Paris ao Rio em 1947. E o autor da narrativa ainda dizia que não tinha nenhum medo, pois o avião era seguríssimo!!

Fazia mais calor dentro do avião que em Dacar. Em Recife tinha ambulante vendendo cocos para os passageiros!

Crie coragem e voe!!

José FRID


Paris, 7 de agosto de 1947

Calor tropical. O avião está atrasado; algo com o motor. Os horários não têm, nas estradas celestes, o mesmo rigor que nas estações terrestres.(...) Depois o alto-falante nos chama.(...) O grande avião da Panair do Brasil decola (...)

Lisboa, 8 de agosto

Tivemos que passar a noite aqui para revisão do motor duvidoso. Essa escala imprevista de cinqüenta passageiros teria sido causadora de furores sem a graça e a eficiência da aeromoça portuguesa (...) Em menos de uma hora alojou, pacificou e encantou aquela manada resmungona de descontentes.

Longo trajeto até Dacar. (...) Aliás, num avião, seria difícil para mim imaginar um perigo; percorri. Sem acidentes, centenas de milhares de quilômetros e tenho no ar um constante sentimento de segurança.

Dacar

Triste charneca em torno do aeroporto, cujos barracões são pouco dignos de acolher os viajantes às portas da França. Faz calor, mas menos que em Paris, muito menos que no avião. (...) Testes de motor, depois apontamos para o oceano. (...) O ar era tórrido, o sono rebelde, o barulho doloroso.

Recife

Depois de longas, muito longas horas, uma dor aguda nos ouvidos me diz que vamos descendo. Estamos em recife, capital do Estado de Pernambuco. (...) A noite é febril. A terra enlameada, cheia de poças quentes. Do lado de fora um negro vende cocos, que abre para o comprador, e cuja água bebo, morna e insípida.

Rio de Janeiro, 9 de agosto

Chegada ao Rio às quatro horas da manhã. Os aviões grandes não podem aterrissar no aeroporto Santos Dumont, que fica no coração da cidade. Da ilha onde pousamos é preciso ganhar a costa de lancha. (...) O ar fresco, na proa da lancha, me reanima, mas a escuridão nos priva do panorama, tão esperado, da baía. Procuro os picos célebres: o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Bico do Papagaio, o Dedo de Deus, mas só percebo ilhas cheias de vegetação e, ao longe, as luzes da cidade.

Por fim o cais. (...) Meu hotel (Copacabana) se encontra a nove quilômetros da cidade. Quando lá chegamos estava amanhecendo. Agora começo a distinguir as montanhas sublimes e estranhas. Um dos meus amigos conta que Paul Claudel, quando era embaixador no Rio, dizia que Deus havia caprichado para fazer desta baías a mais perfeita paisagem do planeta, mas que então um anjo perturbou o Altíssimo e que, por esta razão, alguns picos estão colocados de atravessado ou dobrados de maneira estranha. De fato, nunca vi formas naturais mais surpreendentes. Dir-se-ia que em torno das curvas harmoniosas da baía um artista japonês desenhou cumes impossíveis, proeminências corcundas, tortas. Ora, é esta mesma estranheza que faz a beleza única do Rio. A dissonância sublinha as harmonias.


André Maurois in "Diário de uma viagem pela América Latina", Editora Record.