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domingo, 27 de março de 2022

Amores

...Eu o amava! Como o amava! Talvez não importa tanto assim o que se ama nesse mundo. Mas é preciso amar algo. Claro que sempre tive minha casa e meu jardim, embora, por alguma razão, nunca foram o suficiente. As flores reagem maravilhosamente, porém não têm empatia. Então, amei a estrela da tarde. Parece tolice? Costumava ir ao quintal depois do pôr do sol e esperar até que ele começasse a brilhar acima do eucalipto sombrio. Costumava sussurrar: "Aí está você, meu querido". E nesse exato momento parecia brilhar só para mim. Parecia entender essa... algo semelhante à nostalgia, mas que não é nostalgia. Ou lamento - tem mais a ver com lamento. Mas lamentar o quê? Tenho muito mais a agradecer.

... Mas, quando ele entrou na minha vida, esqueci da estrela da tarde; não precisava mais dela. Foi estranho. Quando o chinês apareceu à porta vendendo pássaros e levantou-o na sua gaiola minúscula, em vez de revoar, revoar, como os pobrezinhos dos pintassilgos, ele soltou um piozinho fraco e eu me peguei dizendo, como já havia dito à estrela acima do eucalipto: "Aí está você, meu querido". A partir desse momento, ele era meu.


Katherine Mansfield in A mosca e outras histórias, Lafonte, tradução de Otavio Albano, pág. 62.

quarta-feira, 23 de março de 2022

Frésia feliz!


Uma grande abelha, uma camarada peluda e dourada, rasteja para dentro de uma frésia e a delicada flor se curva, oscila, balança; e quando a abelha voa para longe, continua a tremular como se risse. Flor despreocupada e feliz!

Katherine Mansfield in A mosca e outras histórias, Lafonte, tradução de Otavio Albano, pág. 58.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Sobre amor e paixão....

O amor é uma experiência quântica, cheia de potencialidades e possibilidades. O amor é a incerteza encarnada. Paixão é ansiedade, inquietação, a tensão de uma faísca possível, o crepitar das brasas pegando o ar, brilhando enquanto são consumidas.

Hisham Bustani 

sábado, 19 de junho de 2021

Memórias....

Somente nós. Nós dois, nosso amor e a vida...

Triste de quem tem memória. Envelhece antes do tempo. Chora sem ter de que (pobre chora à toa). Dramatiza tudo.

Continua chovendo. Uma chuva que se adensa nos corações e a eles lembra o que era para esquecer.

Antônio Maria in Do diário (sábado, 10-10-1964), Portal da Crônica Brasileira - https://cronicabrasileira.org.br/

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Para Tess - Raymond Carver

Lá fora no estreito o mar ondula branquejando,
como dizem por aqui. Está bravo, e eu feliz
de não estar lá. De ter pescado hoje
na enseada, jogando minha melhor isca pra trás
e pra frente. Não peguei nada. Nenhuma fisgada
sequer, nem uma. Mas foi bom. Foi ótimo!
Eu levava o canivete de seu pai e fui seguido
algum tempo por um cachorro chamado Dixie.
Certas horas me sentia tão feliz que precisava parar
a pesca. Então deitei na beira de olhos fechados,
ouvindo o som que a água fazia,
e o vento no topo das árvores. O mesmo vento
que sopra no estreito, mas diferente, também.
Por um tempo até me deixei imaginar estando morto - 
e isso não foi ruim, pelo menos num par
de minutos, até realmente afundar na ideia: Morto.
Enquanto eu deitava ali de olhos fechados,
logo após ter imaginado como poderia ser
se de fato eu não me levantasse mais, pensei em você.
Abri meus olhos então e levantei depressa
e voltei para minha felicidade outra vez.
Sou grato a você, percebe? E queria te dizer.

Tradução de Rodrigo Lacerda in O fazedor de velhos, pág.83


For Tess - Raymond Carver
Out on the Strait the water is whitecapping
as they say here.  It's rough, and I'm glad
I'm not out there.  Glad I fished all day
on Morse Creek, casting a red Daredevil back
and forth.  I didn't catch anything.  No bites
even, not one.  But it was okay.  It was fine!
I carried your dad's pocketknife and was followed
for a while by a dog its owner called "Dixie."
At times I felt so happy I had to quit
fishing.  Once I lay on the bank with my eyes closed,
listening to the sound the water made,
and to the wind in the tops of the trees.  The same wind
that blows out on the Strait, but a different wind, too.
For a while I even let myself imagine I had died -
and that was all right, at least for a couple
of minutes, until it really sank in: Dead.
As I was lying there with my eyes closed,
just after I'd imagined what it might be like
if in fact I never got up again, I thought of you.
I opened my eyes then and got right up
and went back to being happy again.
I'm grateful to you, you see.  I wanted to tell you.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Casamento ao contrário....

Já pôs um vestido branco, decidida a descer e mostrar-se a Berck e a todos os outros. Está feliz por ter trazido um vestido de cor branca, a cor do casamento, pois tem a impressão de viver um dia de casamento, casamento ao contrário, casamento trágico sem noivo. Leva embaixo de sua roupa branca a ferida de uma injustiça, sente-se engrandecida por essa injustiça, embelezada por ela, como as personagens de uma tragédia ficam embelezadas por sua desgraça. Vai em direção à porta, sabendo que o outro, de pijama, irá atrás de dela e irá segui-la como um cachorro que a adora, e quer que atravessem assim o castelo, casal tragi-grotesco, uma rainha seguida por um cão bastardo.



Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, pág. 111   

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O outro homem da mulher que amo


O outro homem da mulher que amo,
há nele as minhas marcas que são dela
e sempre encontro indícios dele quando
ela se despe e se abre e posso tê-la.

No corpo dela, o gotejar frequente
de nós, formando sulcos, vias, trilhas,
dentro da noite em que ela se oferece,
não deixa que nos sobre alternativa:

eu sigo os mapas dele, acrescentando
ao já sabido as minhas descobertas,
e ele me segue na mulher que amamos.

Pois tanta variante há no caminho
que – ou dois ou nada – um de nós apenas
não vai sobreviver nela sozinho.

Miguel Mararvilla in Tanto amar, p. 17.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Pragmático?

(Continuação de "Pragmatismo" - ver em 05/02/2020)
/
- Por que só os jovens podem dispor de corpos jovens? Por quê?
- Boa pergunta! Precisamos de outra cerveja. Garçom! Uma Original agora!

Um bar próximo de uma faculdade, sexta à noite, dois professores doutores conversando. Têm quase cinquenta anos, casados, três filhos um, dois o outro.

- Antigamente não era assim. Veja em Machado de Assis, moças de quinze anos com homens com quase quarenta anos. Charles Dickens, com cinquenta e oito, trocou mulher e dez filhos por atriz de dezoito anos. Ela uma graça, ele velho, careca e barrigudo. Nâo deixou de ser um ilustre e querido escritor.
- Mas... Por que mesmo estamos falando desse assunto?
- Estou numa enrascada, envolvido com um corpo jovem, 18 aninhos....
- Você? Alguma aluna? Copiando o reitor?
- Não, não é da escola. Ela trabalha numa loja perto do campus.
- Meu amigo papa-anjos! Quem diria! Caçando fedelhas pelo bairro.
- Caçando nada. Nem sei como aconteceu, tudo foi tão rápido. Um sorriso, umas conversas, quando vi já estava pagando o apartamento dela...
- Então é sério! Largou a Cecília para ficar com a ninfeta??
- Não, você não entendeu nada. Só tô pagando.
- E comendo, não? Conte-me tudo, principalmente os detalhes sórdidos!
- A coisa é simples: um homem, uma mulher, desejos e só.
- Mas como uma ninfetinha foi dar bola para um velho careca e barrigudo?
- Velho não, quarenta e cinco anos só. Tô bem conservado. Pergunte para ela.
- É puta?
- Não! Moça de família, trabalhadora.
- Mas aceita seu dinheiro...
- Não é isso. Ela dividia o apartamento com duas colegas, que deram para trás. Não consegue bancar sozinha, fiquei com pena e estou ajudando a menina.
- Safado! Se aproveitando de uma menina inocente.
- inocente é exagero, muito esperta. Não sei quem se aproveita de quem.
- Tá valendo a pena?
- Tá. Tô revigorado. Tava mesmo precisando de uma coisa assim.
- Bonita? Gostosa? Boa de cama?
- Talvez. O conjunto é que importa. Tinha esquecido como é uma pele jovem, macia, firme, lustrosa. E uma bundinha dura, empinadinha, peitinhos durinhos, olhando pra mim, que cabem na mão. Ela é uma máquina do tempo, me leva direto aos meus vinte anos, ao tempo da faculdade, às estudantes, às festas....
- Melhor que Cecília?
- Não sei, não dá para comparar. Cecília é uma mulher completa, não é só o corpo. É o meu presente, o futuro. A menina é o passado. Quero as duas.
- Mas com toda a sua empolgação,  a menina pode ser o seu futuro...
- Tenho vinte e sete meses para decidir.
- Por que vinte e sete?
- O contrato de aluguel, trinta meses. Já se passaram três meses.
- É foda, amigo. Uma enrascada deliciosa, mas complicada. Como aconteceu?
- Cecília pediu uma forma de pudim. Na loja tinha dezenas de tipos. A menina mostrava uma, eu tirava foto e mandava para a Cecília...
- Então ela sabia que você era casado! Safadinha!!
- Ela tinha que abaixar e pegar cada forma, depois devolver, pegar outra. A camisetinha subiu e mostrou seu umbigo com um piercing com três estrelinhas, uma no buraquinho e duas penduradas em correntes. Uma graça. Perguntei se tinha doído, ela respondeu que não, mas os dos seios foram dolorosos. Colou a camiseta no corpo, apareceram uma barrinha com duas bolinhas em cada bico. Rapaz, aqueles seios duros, apontados para mim, quase perdi a cabeça. Fui salvo pelo zap da Cecília mostrando qual forma comprar. Tudo podia ter parado aí se Cecília não me mandasse voltar lá para trocar a forma por outra e mais  outra, comprar uma escumadeira, etc., nisso vi uma tatuagem no cóccix, ela disse que tinha outras, conversa vai, conversa vem, o estrago estava feito.
- Então a Cecília é que é culpada do seu namorico?
- Culpa concorrente! Se eu não tivesse que voltar várias vezes à loja...
- Safado! Mas é isso, meu amigo, cai dentro, mas não esqueça a camisinha!

JOSÉ FRID

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Esposa ideal...

Devan era mais um poeta do que um professor quando se casou com Sarla - fora contratado temporariamente pela universidade e tinha ainda confiança em sua poesia - e como mulher de um poeta ela parecia muito prosaica. Naturalmente a escolha não fora sua, mas de sua mãe e suas tias, mulheres astutas e cautelosas. Sarla era filha do amigo de uma das tias, morava na mesma rua dessa tia, elas a observavam há anos e achavam que era a mulher adequada em todos os sentidos: feia, econômica e pessimista de nascença.

  Anita Desai in Sob Custódia, Editora Rocco, 1988, pág.66

terça-feira, 29 de outubro de 2019

A falta de um sorriso....

Quando uma mulher é infeliz em um relacionamento, às vezes o único recurso que ela tem é o poder de reter um sorriso. Os impotentes costumam confiar na ausência ou na falta como formas de violência ou ação passivas. A recusa em sorrir é um ato de resistência passiva.
Jennifer Croft in Portrait of Our White Mother Sitting at a Chinese Men's Table, The Paris Review, 28 de agosto de 2019
When a woman is unhappy in a relationship, sometimes the only recourse she has is the power to withhold a smile. The powerless often rely on absence or lack as forms of passive violence or action. The refusal to smile is an act of passive resistance.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Nascer do amor....

[...]

E, no entanto, nosso pai poderia ter sido o fotógrafo. Isso deixa espaço para a possibilidade de que, no momento da abertura e fechamento da persiana, ainda exista um resquício de amor entre eles, algo que a parte de mim que é filha deles quer acreditar. Nenhuma criança quer acreditar que nasceu do ódio. Nascer do amor é nascer com a capacidade de amar. É a única herança que importa.

Jennifer Croft in Portrait of Our White Mother Sitting at a Chinese Men's Table, The Paris Review, 28 de agosto de 2019  

And yet our father might have been the photographer. This leaves room for the possibility that, in the moment of the shutter opening and closing, a remnant of love still existed between them, which is something the part of me that is their child wants to believe. No child wants to believe they were born of hate. To be born of love is to be born with the capacity to love. It is the only inheritance that matters.

domingo, 1 de setembro de 2019

Sobre mulheres complicadas....

Ed gostava de suas mulheres o mais complicado possível. Se elas fossem solteiras e estivessem disponíveis sem problemas psicológicos, ele não estava interessado.

Se ele pudesse ter encontrado uma mulher que não fosse apenas casada, mas uma mãe, na prisão, e mãe de gêmeos siameses, ele teria ficado encantado.   

John Steinbeck sobre seu grande amigo Ed Ricketts  in Smithsonianmag.com

terça-feira, 9 de julho de 2019

Água pura da tristeza......



Parados no meio da sala, desconhecendo meu egoísmo, secaste minhas lágrimas com mãos desveladas, me abraçaste, a me conter junto a teu peito. Balançavas o corpo de um lado a outro, de um lado a outro, cadência boa, mar em compasso de calmaria, como quem embala um bebê, como quem sabe lidar com a água pura da tristeza, tranquilidade azul de quem se atritou uma vida com a aspereza.[...]

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.109  

domingo, 7 de julho de 2019

Meu amor....

[...] Mais uma vez o gemido, e outro, e ele, rápido, arfou e disse coisas e insistiu nela, cada vez mais rápido, cada vez mais, e ela agora sem jeito, dispondo-se, contornando-se ao prazer alheio, fazendo-se o vaso das coisas que viriam. Foi quando ouviu:
- Meu amor.
E ela, que não era amor de ninguém, compreendeu que estava alforriada pela impostura, que tudo estaria acabado a partir de agora: finalmente abriu os olhos, finalmente e a tempo de ver o homem que tombou abatido e inútil a seu lado na cama. Meu amor, ele ainda ousou repetir, esforçando os lábios numa palavra que não cabia em sua boca, não no meio daquela cama no meio daquele quarto de solteiro. O homem limpou-se com o lençol e, antes de fechar os olhos baços rumo ao sono, deu-lhe um sorriso, como se fosse meigo ou terno, brando só porque estivera nu e se repletara numa mulher.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.91  

terça-feira, 2 de julho de 2019

Ficciones

Cheguei à casa do professor pelas sete da noite. O volume de Ficciones agarrado junto aos seios. Toquei a campainha. Ele abriu a porta: recebeu-me sem surpresa. Meu coração trocou o tempo em que batia, e eu acolhi, enfim, como quem aprende, a nódoa.
O rosto de um homem daquela idade era finalmente bonito

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.85  

segunda-feira, 1 de julho de 2019

A mocinha e o senhor....

Rimos os dois. Parados, de frente um para o outro, ríamos juntos, e eu temi que fosse feliz na hora errada. Num gesto imprevisto colocou-me as mãos sobre os ombros. Estaquei: uma mulher se depara como mulher frente a um homem poucas vezes no espaço de uma vida. Atendendo a algum impulso subterrâneo, abracei-~lhe o corpo. Ele suspendeu a respiração. Para uma mocinha, e para um senhor, para nós dois, o contato físico era um dom inesperado. Ele retribuiu o abraço com muita força e encostou, como se fosse permitido, o rosto ao meu. Conheci a pele escanhoada. Era macia.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.82  

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Receita de mulher - Vinícius de Moraes

RECEITA DE MULHER

Rio de Janeiro , 1959

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso 
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture 
Em tudo isso (ou então 
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). 
Não há meio-termo possível. É preciso 
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito 
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto 
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. 
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche 
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso 
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas 
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços 
Alguma coisa além da carne: que se os toque 
Como o âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos 
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro 
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e 
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem 
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então 
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca 
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência. 
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos 
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar as pernas, e as pontas pélvicas 
No enlaçar de uma cintura semovente. 
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras 
É como um rio sem pontes. Indispensável 
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida 
A mulher se alteia em cálice, e que seus seios 
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca 
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas. 
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebal 
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! 
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas 
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem 
No entanto sensível à carícia em sentido contrário. 
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio 
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!) 
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos 
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão 
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre 
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos 
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face 
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior 
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras 
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes 
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e 
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão 
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta 
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros. 
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos 
Ao abri-los ela não mais estará presente 
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá 
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber 
O fel da dúvida. Oh, sobretudo 
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo 
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade 
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma 
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre 
O impossível perfume; e destile sempre 
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto 
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina 
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição 
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Está tudo bem, tudo, tudo bem....

Corre, corre. O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. AH, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranoia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder. OK?

Caio Fernando Abreu in Anotações sobre um amor urbanoO essencial da década de 1970, Editora Nova Fronteira, 2004, 2ª edição, pág.160