quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A mãe ou o Rio de Janeiro



Sábado, dez horas da manhã, calor, muito calor. Ele está largado no sofá da sala. Chegou de madrugada, manhãzinha; fome, suor e sono. Comeu um pão amanhecido com mussarela ressecada, rebateu com coca-cola sem gás, mas gelada. Arrotou e riu. Tomou banho, muito calor, colocou só um bermudão e foi dormir no lugar mais fresco da casa. A campainha toca, a mãe grita que é para ele. Levanta sonolento, olha pela janela, reconhece Carlinhos, vai falar com ele. Ela passa por eles na porta de casa, vai ao mercado e manda o filho se vestir.

Sábado à tarde. A mãe pergunta aos filhos sobre o paradeiro do irmão. Ninguém sabe, ninguém viu. Sábado à noite. A mãe repete a indagação: ninguém sabe, ninguém viu. Mas ele só estava de bermuda, diz a mãe, mandando alguém ir à casa do Carlinhos. O vizinho informa: casa do Jonas, que pelo celular diz que o viu entrar no carro de Paulo, de moradia desconhecida. Sequestro?

Sábado de madrugada, desespero materno. Ela ao telefone com polícia,  hospitais, todos os conhecidos. O homem saiu só de bermudas, sem chinelo, camisa, dinheiro nem documentos. Ninguém sabe, ninguém viu. Os irmãos conhecem a figura e nem se preocupam, um rabo de saia deve ter o arrastado ...

Domingo, manhã, tarde e noite, nada do bermudão aparecer. Polícia, hospitais, necrotérios, vizinhos, parentes, amigos, colegas de trabalho. Ninguém sabe, ninguém viu. Morto e enterrado no mato? Agora desespero familiar. Unidos.

Segunda, manhã. À espera de notícias. À espera do corpo? Tarde, quatorze horas. Ligação a cobrar do Guarujá. Corpo boiando no mar? Aceita a chamada, a voz da mãe, sua, avó do falecido. Estremece. Como deixara um filho viajar sem dinheiro e documentos? Está vivo? Cansado, chegou com mais quatro famintos.

- Mãe?
- Assim você me mata, desgraçado! Some só de bermudas, filho desnaturado! Sem sandália, carteira, celular, camiseta....
- Como você está mãe?
- Envelhecida! Cansada! Pensei que você estava morto e enterrado no mato!
- Cê está muito dramática!
- Dramática? Dramática vai ser a surra que vou te dar! Onde você estava?
- Saí com uns amigos...
- Amigos? Cachorro, nem para avisar!
- Calma, mamãe querida! Vamos bater um rango na vovó e depois subir a serra.

Ele chega preto, vermelho de sol, cheirando a maresia, camiseta do Corinthians, calção, descalço. Sorriso  largo, abraça forte a mãe, que chora, soluça.

Fomos ver o jogo do Corinthians no Rio, mãe...mas você é palmeirense, meu filho...pra conhecer o Rio, mãe, de carro...com quê dinheiro? O Paulo emprestou...que miserável de Paulo é esse? Um amigo...mas você estava descalço, filhinho...ele pagou tudo, a camiseta é dele também...e eu, meu filho? Mãe, é o Rio!...minha criança, dormiu onde? No carro, mãe, na praia, conhecemos umas minas, pagode, mãe, samba carioca, feijoada, caipirinha, cerveja, praia...tadinho, na praia? É, com as minas, depois pegamos a Rio-Santos até a avó...não podia avisar? Mãe, tava sem celular!...orelhão, meu filho...nem lembrei, muita correria, muita coisa, o Rio!...cadê sua bermuda? Perdi na praia...ficou pelado, meu filho? Uma mina emprestou um short...você nem pensou em mim, que eu podia morrer...morre não, mãe, você é forte, era o Rio, mãe, as minas...não quero neto carioca...isso não posso garantir, mãe, é o Rio... 


José FRID






11 comentários:

Anônimo disse...

Já entendi, Sr. Carioca! O Rio desnorteia qualquer um!!!! Concordo.

Bjs, Lucy

Metamorfose Ambulante disse...

Seria o Rio ou as cariocas?

Anônimo disse...

Perfeito!
Adorei!

Regina

Anônimo disse...

Excelente.

Ervin

Anônimo disse...

Ótima, caríssimo. Vou repassar para alguns.

Aquele Abç,

Zelia

Metamorfose Ambulante disse...

Repasse livre, sem cobrança de direitos autorais!

Grande abraço!

Anônimo disse...

Vaí Corinthians…

Um palmeirense escrevendo sobre a fanática torcida do Timão.

Essa peça ficcional já ocorreu, na real, em muitas e muitas oportunidades.

E não é só a torcida do Corinthians que faz essas coisas...

Os porcos, por exemplo, também aprontam! J

Um abração do

Ayrtão

Metamorfose Ambulante disse...

Eu me lembro da "invasão" corintiana do Rio num jogo contra o fluminense! Tudo dominado!

Metamorfose Ambulante disse...

Regina

Que bom que você tenha gostado! Quem não gostou foi a mãe do filho desnaturado!


Anônimo disse...

Será?
Mãe sempre acaba brigando,reclamando,mas gosta de ver o filho andando com suas próprias pernas.

Regina

Anônimo disse...

Sensacional!!!



Dra. Gabriela