É um livro de 1971, provavelmente escrito no fim dos anos sessenta, época nele retratada. O personagem principal escreve, traduz livros, faz faculdade, participa do movimento estudantil, fuma à beça, namora, tem mil dúvidas existenciais, .... talvez como o próprio autor, que tinha menos de 30 anos quando da publicação do livro.
Como Rubem Fonseca destaca na orelha do livro, ele "não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica", ..., "não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos de cultura de massa ou a superficialidade interpretativa do 'midcult'. Sua linguagem polissêmica força a participação ativa do leitor, afinal premiado com a revelação de uma experiência emocional, estética e intelectual das mias ricas", ou seja, poderíamos classificar como um romance experimental. E como tal, tem algumas sacadas geniais, desafiadoras, e algumas partes mornas, cansativas, prolixas, ...
Li este livro após "Os subúrbios da criação", de crítica literária, do mesmo autor, que mostra suas influências literárias, autores prediletos, etc., o que resultou num preparo para o llivro em pauta. Li e reli, realmente este não é um livro fácil, mas interessante. Como o autor (ou o narrador) menciona no texto, depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ambos os livros citados e elogiados no "Os subúrbios da criação", temos agora as "Memórias falsas ou Desmemórias de Cláudio Crasso", o personagem do livro. Transcrevendo:
"Se você é do tipo que quer as coisas explicadinhas e tá-tá-tá-e-coisa, o problema é seu, porque eu sou o caos. E depois daquelas Memórias Póstumas e das outras, das Memórias Sentimentais, só poderiam surgir agora essas memórias falsas - porque escritas com o devido distanciamento: a Geografia, a história e a Economia nesse livro pertencem ao domínio da Imaginação - ainda que às vezes "real"; porque a ficção é fixação. Vou me colocando desde o início em boa companhia, depois de Machado e Oswald - eu. Eu, a terceira etapa de um processo desideológico brasileiro - como pedem os tempos - visto através da lupa de sua literatura. Pois é o que eu faço - Literatura - ainda que me desepere. É o que me resta e o que me falta; o excesso e a escassez." (1. Começo de Conversa, pág.19)
Destacarei algumas partes em outros posts mais adiante.
É o primeiro livro do autor, que depois teve várias obras premiadas: Prêmio Jabuti para, Prêmio Machado de Assis, Prêmio da União Brasileira de Escritôres e Prêmio Nestlé de Literatura para "O equilibrista do arame farpado", de 1997; Prêmio Jabuti para "Nem todo canário é belga", de 1998; Prêmio nacional de Contos do Estado do Paraná para "Malvadez Durão", de 1982.
A leitura de "O desastronauta" provoca a vontade de ler os outros livros do autor, para acompanhar sua evolução literária: onde foi dar todo o experimentalismo de "O desastronauta"?
José FRID
ps: o livro tem como subtítulo "ok, Jack Kerouac, nós estamos te esperando em Copacabana". Exceto pelo personagem ter lido alguns livros do Kerouac, não percebi o sentido da citação. Falha minha?
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