quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

A VERDADEIRA ESCRITA AUTOMÁTICA

quem vê a queimadura
do ouro
inteiro?
Herberto Helder
é tão difícil empreender a viagem pela escuridão e suas luzes para trazer  esses fragmentos de volta: os trechos de um poema criado durante um sonho
– o caderno ia se transformando enquanto o anotava, suas páginas estavam repletas de ilustrações, umas aquarelas e desenhos meio infantis que mudavam a cada vez que os via
e também mudavam a cor das letras do texto que escrevia, a tinta, a caneta – como se fosse um camaleão? – do azul ao verde, vermelho, lilás, amarelo, laranja, todo o espectro, até acabar, até sua carga extinguir-se de vez
e não, já não havia mais escrita, não existia mais caderno, mais nada a não ser um vozerio de festa na rua, saindo de uma inexistente casa em frente,
chegavam amigos, dois rapazes vindos da festa (também não existem, nunca os vi), eles me levariam de automóvel à cidade para procurar uma nova caneta da mesma escrita multicor e um novo caderno móvel,
mas o que escrevi durante o sonho permanece: é o poema de uma frase, sempre uma só frase sibilina multiplicada na horizontal, na vertical, em diagonal, no rodapé da página,
de todos os modos e em todas as suas cores para repetir:
vocês nunca mais saberão a previsão do tempo – e restava um eco escrito: vocês nunca mais saberão ... – nunca mais ... e ainda havia uns versos ao redor em português arcaico
e assim soa a voz da sombra e um mês devora o outro como bólidos estrambóticos
– depois desse mergulho para rememorar o futuro e antever o passado, retorno com a decisão visionária de escrever sobre a poesia moderna e o sagrado
e também quero dizer algo sobre ilhas, uns Açores e Baleares e ainda haverá mais poemas
e tudo será refinado, joeirado, sublimado
e tudo estará bem
e tudo será belo
como umas roupas em um varal ao sol do meio-dia
balançando docemente ao vento
enquanto vamos nos acercando ao ouro do tempo

Claudio Willer in A verdadeira história do século 20

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