sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Amor na terceira idade


Rodoviária do Tietê. Um dia comum, de manhã. O portão de acesso à plataforma vinte e quatro está fechado. O ônibus já encostou, os parcos passageiros esperam que o portão seja aberto. Alguns com feições de insones, pouco dormiram para não perder o ônibus, outros demonstram enfado pela longa viagem que se prenuncia. Um casal de terceira idade também aguarda entre eles, mas sem aparentar cansaço nem enfado. Observando-se bem, suas faces deixam entrever sinais de uma pequena alegria pela viagem que se aproxima. Rever filhos, netos, ou turismo?

Os dois com cabelos bem branquinhos e bem vestidos para a ocasião. Cada um carrega sua bolsa de viagem, a dele pequena, a dela grande, como necessita toda mulher. Ela de vestido estampado discreto, um colar de pérolas, pequenos brincos combinando, anéis, muitos anéis, cabelos presos em coque como as avós dos desenhos animados. Um casaquinho jogado sobre os ombros, uma bolsa a tiracolo. Ele com calça bege de gabardine, jaqueta idem, camisa azul clara. Idade dos dois? Indefinida. Idosos. Enquanto ele parece que secou com a idade, magro, magro, levemente encurvado, rosto chupado, braços finos parecendo gravetos, ela encorpou, engrossou, rosto grande, braços fortes, seios, nádegas, pernas notáveis. Os dois aparentam saúde.

Ela, com a passagem na mão livre, pede para ele conferir se o número da plataforma de embarque é 24 e o da poltrona é 25, ou se é ao contrário. (Preocupação desnecessária, pois estão exatamente na plataforma vinte e quatro e o ônibus está olhando para eles, logo a poltrona ...) O senhor não questiona, cumpre a missão. Ele troca a bolsa de mão, aciona seu graveto direito e começa a procurar os óculos no bolso da camisa, no bolso interno da jaqueta de gabardine, no bolso direito da calça, na camisa, no bolso direito da jaqueta, no bolso direito da calça, no esquerdo... Ela, com voz calma e amistosa, diz que, se está difícil, ela poderá procurar os óculos dela na bolsa. Ele faz um gesto para ela esperar, passe-lhe sua mala de viagem e, com as duas mãos livres, acha os óculos, que estavam pendurados no seu pescoço por uma correntinha, entre a camisa e a jaqueta. Mostra o troféu para a mulher, que coroa essa vitória com um doce sorriso.

Ele instala o aparelho ótico sobre o nariz, pega a passagem da mão dela, balança a cabeça e a mão para focar a imagem e diz em voz alta e firme:

- Plataforma vinte e quatro, poltrona vinte e cinco!

Os dois olham para cima e conferem a placa: 24. Sorriem-se! Ele, triunfante, desencurva-se, estufa o peito, devolve a passagem e pega sua bolsa de viagem. Olha para o horizonte como um conquistador, por cima dos óculos e através da porta de vidro. Ela passa a mão sobre o ombro dele, como se limpasse algo, afagasse seu homem. Olha em volta, orgulhosa, como exibindo seu galã. O amor é lindo!

Os viajantes que acompanharam a cena preocupam-se com a passagem dele: em que bolso estará? Estará em algum bolso ou bolsa?

José FRID

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