quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

João e Joan

Quando fala João Cabral

da mão esquerda de Miró

é com destra que penteia

a crina das próprias sílabas

empinando seu poema

para o sertão dos garranchos:

as letras e algarismos

atraem-se por faísca –

pedra, lâmina e cal.

Amarelo fica o azul

da tanta luz que lhe infunde:

tal explica o canavial

assim perto ao cemitério.

A mulher e o seu pássaro

(de gaiola ela vestida)

é sim contra sim e não

pois que o diapasão é o mesmo.

A bailadora flamenca

(um alfinete e uma pena)

sapateia em Barcelona

(com saias de Andaluzia)

um xaxado nordestino;

o cacto é borboleta



diante do tom adotado,

rapaz com capa vermelha

(Manolete) é sertanejo.

Cada um visa a seu touro

no martelo galopado,

na madeira martelada:

nem um nem outro é canhoto.

Maria Lúcia Dal Farra in "Viveiro", do Livro de auras. São Paulo: Iluminuras, 1994,

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