quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Prefácio para um Bilhete Suicida de Vinte Volumes


Ultimamente, tenho me acostumado ao jeito
Com que o chão se abre e me engole
Cada vez que saio para passear com o cão.
Ou a singela música cortante que o vento faz
quando corro para alcançar o ônibus... 

As coisas chegaram a esse ponto.

E agora, a cada noite conto as estrelas.
E a cada noite obtenho o mesmo número.
E quando elas não se mostram para serem contadas,
Conto os buracos que deixam.

Ninguém canta mais.

Então, na noite passada subi na ponta dos pés
Rumo ao quarto da minha filha e a escutei
Conversando com alguém, e quando abri
A porta, não havia ninguém ali...
Apenas ela, ajoelhada, espiando dentro

De suas próprias mãos fechadas.



Amiri Baraka/Leroy Jones, tradução de Leonardo Morais

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