quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma tempestade no verão


Saí do trabalho e fui pegar o Metrô na Liberdade. Dezenove horas, mas sol ainda forte, vantagem do horário de verão. Olho para o céu, nuvens encarneiradas, nada daquelas negras obesas de água. Como choveu muito na noite passada, hoje nem precisa cair água do céu. Cinco estações depois, saio na Vila Mariana: chão molhado, céu cinza. Escapei da chuva. Dali até em casa são só três quarteirões na avenida, dois na ruazinha e já estou no meu quadrado. Uma casa e dois prédios mais, estarei salvo e a seco.

Deixo o terminal de ônibus desviando das pequenas poças, passo pela banca de jornal (quem ainda compra jornais na banca?) e sinto esparsos pingos. Chuva ou ar condicionado? Olho para o céu, nuvens cinzas não ameaçadoras. Passo pelo mercadinho e a loja de autopeças.  A marquise das lojas engana-me: quando saio do outro lado dela, os pingos já estão mais frequentes. Olho novamente para cima, meus conhecimentos meteorológicos dizem para eu seguir tranquilamente. Passo pelo chaveiro, a padaria desativada e... começo a correr, pingos grossos martelando cabeça e ombros. Entro no posto de gasolina bem na hora que o céu se liquefaz. Salvo. Enquanto a larga cobertura do posto aguentar o dilúvio...

Enquanto ela resiste de pé, outros incautos vão chegando para se abrigarem. Um casal de vendedores de flores deixa o semáforo com relutância, pois é o horário nobre comercial dos românticos, de volta ao lar ou indo aos encontros noturnos. O marido resmunga que, se a chuva demorar muito, as flores ficarão encalhadas. A mulher completa que elas murcharão antes da noite de amanhã, prejuízo certo, só vai dar para aproveitar o papel brilhante e as fitas vermelhas. Olham desolados para os buquês de rosas empilhados no chão, algumas já despetaladas pela força da chuva: vermelhas, rosas, brancas e amarelas.

Uma moça de scooter estilo "retro", como está escrito na lateral da carroceria, entra no posto para se abrigar, mas parece que demorou muito. Está bem vestida e combinando com o estilo antigo da pequena máquina. Pena que a indumentária não é à prova d'água: jaqueta bordada, luvas, calças e sapatilhas douradas encharcadas. Um motoboy, que acabara de colocar seu surrado macacão inteiriço de plástico e galochas de borracha, explica para ela que no verão esse equipamento não pode faltar no bagageiro da moto. Ela agradece a informação, mas faz uma cara de que na scooter dela nunca haverá espaço para itens tão feios. Estilo é fundamental, mesmo debaixo d'água. Elegância acima de tudo.

Algumas pessoas que estão com guarda-chuva arriscam caminhar pela avenida, desafiando a tempestade. A chuva gosta desses ousados, lava-lhe seus pés, desfolha seus guarda-chuvas, molha suas costas, encharca-lhes as barras das calças, fazem-nas desistir. Um casalzinho jovem passa pela avenida causando admiração aos abrigados no posto. Ela de short e camiseta cavada, ele de calça jeans e camiseta, ambos de tênis. Caminham como se passeassem ao luar, rindo, conversando, saltitando poças, ignorando a água que vem do céu. A tempestade é impotente perante a juventude!

Eles cruzam com um mendigo que vem em sentido contrário, todo paramentado com sacos de lixo dos pés à cabeça. Ele sorri para ela, que não retribui, a mal educada. Ele atravessa no meio dos veículos e das águas, ignorando ambos. Cumprimenta o florista e pede-lhe dinheiro para jantar. O homem, desolado, diz que não vendeu nada por causa da chuva e ameaça contar-lhe seus prejuízos futuros, mas o pedinte já segue em frente em sua batalha alimentar, não tem tempo para lamúrias de empresários.

Um rio caudaloso desce ligeiro pela sarjeta da rua, vindo das avenidas mais acima. Ele encontra as águas da rua do posto e, como a sarjeta não comporta o volume, a lâmina d'água se espraia pelo asfalto em frente ao posto. O casal florista comenta que a água que desce daqui a alguns dias estará nas torneiras. Olho o riacho e calculo: daqui da rua ao córrego Ipiranga, depois ao Tamanduateí, Tietê, seguindo para o interior. Gritei empolgado:

- Dessas águas não beberemos!

Expliquei meus cálculos aos presentes. Talvez só em Barra Bonita.

Uma mulher com guarda-chuva, a despeito disso tudo, consegue chegar à esquina do posto, mas não se abriga, quer ir em frente. Como diriam os antigos, para enfrentar aquela tempestade só se ela for tirar o pai da forca ou a mãe da zona. Seja qual for o motivo, ela aguarda o semáforo fechar para poder atravessar. Os refugiados no posto esquecem os meus cálculos e prestam atenção na mulher. Os carros param e nossa heroína começa a travessia. A primeira barreira é a sarjeta alagada. Como ela não é Moisés, tem que atravessá-la por cima. Tenta pular o riacho, mas seu passo é curto e ela enfia o pé direito na água até o meio da canela (voltando aos antigos, enfiou o pé na jaca). Ela fica sem saber o que fazer. Prossegue colocando o outro pé na água? Retrocede? Na indecisão, ela levanta a perna direita e a correnteza tenta arrancar sua sandália. Ela luta contra a água, mas a tempestade manda uma lufada de vento em auxílio, esbagaçando seu guarda-chuva e, com isso, desequilibrando-a. O riacho engole a sandália e a mulher ainda submerge o pé esquerdo na água suja (dois pés na jaca!). Atônita, ameaça ir atrás da sandália, mas essa se afasta ligeira rua abaixo. Desiste de reaver o calçado e tenta retoma sua caminhada. Pena que demorou muito lutando com as águas de janeiro: o semáforo abre e os carros, sempre impacientes, arrancam rápidos, criando um grande esguicho de água que cobre totalmente nossa heroína. Encharcada e semi-descalça, ela fecha o guarda-chuva e segue seu caminho em direção à forca ou ao meretrício. Boa filha!

A tempestade, satisfeita com a maldade praticada em prol dos donos das sapatarias femininas, amaina. O casal de motoqueiros parte junto. Pintou um clima? O casal de floristas corre com seus buquês, as pétalas ficam bonitas com as luzes refletindo nas gotas de chuva, os românticos adoram. Eu, faminto e úmido, sigo meu caminho, chuvisricando, como diria Drummond.


José FRID




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