O doutor acaba de sair da minha casa. Consegui, afinal, o que queria! Por mais que dissimulasse, não pôde, por fim, continuar escondendo. O certo é que morrerei em breve, muito em breve. Os rios descongelarão e é provável que eu me vá com a última neve... para onde? Sabe Deus! Também para o mar. Pois bem! Sé é para morrer, que seja na primavera. Mas não é cômico começar a escrever um diário a, provavelmente, duas semanas da própria morte? E o que importa? Que diferença faz quatorze dias ou quatorze anos ou quatorze séculos? Dizem que, perante a eternidade, tudo é ninharia; mas, nesse caso, a própria eternidade é uma ninharia. Parece que estou começando a filosofar: mal sinal - não estarei com medo? Melhor começar a contar alguma coisa. Lá fora está úmido e ventando - estou proibido de sair. O que contar então? Acerca de suas doenças um homem decente não fala; inventar histórias não é a minha especialidade; refletir sobre questões elevadas não é comigo; nem mesmo descrições da vida ao meu redor poderiam interessar-me; e não fazer nada é deprimente; de ler tenho preguiça. Ah, contarei a mim mesmo toda a minha vida. Excelente ideia! Diante da morte é o mais apropriado e a ninguém ofende. Começo.
Ivan Turguêniev in Diário de um homem supérfluo, Editora 34, pág.9, tradução de Samuel Junqueira.
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