domingo, 3 de fevereiro de 2019

Corrida da República



O trem está parando na Estação República da Linha 4. Estou mais ou menos no meio da composição, sei que vou sair próximo a uma escada fixa, meio escondida atrás de um painel metalizado, que é o caminho mais curto para o acesso à rua, truque de frequentador habitual. Estou pronto pra sair do trem, tenho pressa, como todo paulistano. Ao meu lado, também ansioso para deixar o vagão, um rapaz alto, magro, barbudo, com mochila nas costas. Na próxima porta à esquerda, dois rapazes também em posição de saída rápida.

O trem estanca, soam as sirenes, piscam as luzes, as portas da estação se abrem, agora as portas do vagão. Salto ligeiro e rumo direto à escada oculta, pressentindo o barbudo atrás de mim e registrando os dois rapazes à esquerda, cujo caminho é condicionado por um largo pilar de pastilhas verdes à esquerda deles. Antes de fazer a curva para passar pelo painel, as lojinhas do corredor despertam a minha atenção, e quando dobro à direita, o Pernalonga já está bem ao meu lado, com os dois imberbes atrás de nós. Constato que somos quatro usuários metroviários profissionais.

Piso no primeiro degrau jogando um pouco o corpo para a direita, tentando bloquear o barbudo. Os dois rapazes se afastam tentando atacar pelas pontas. Percebo e retorno para o meio da escada, o Pernalonga aproveita e passa por mim subindo os degraus de dois em dois. Desafiado, acelero, compensando a pernada dele com a minha velocidade em calça social. Os dois retardatários marcam em cima, tentando achar uma brecha para passar. por nós. Chegamos no primeiro patamar empatados, eu e o Pernalonga, que se aproveita das compridas pernas para passar à minha frente. O cidadão da direita tenta seguir o vácuo do barbudo, mas com um jogo de braços constranjo seus movimentos. Vamos os quatro em desabalada carreira escada acima como se fôssemos tirar os pais da forca, instalada bem no meio da praça. No patamar final, o magrelo vence por um décimo de segundo, eu em segundo, os dois imberbes alguns degraus abaixo.

Mas o páreo não acabou, temos que passar pelos banheiros, pela caixa de preservativos e as catracas finais. Pernalonga titubeia no passo e faço a curva em alta velocidade, pegando a reta das catracas em primeiro lugar. Um dos imberbes passa pelo magrelo e emparelha comigo. Encaro o desafiante e tento manter a marcha acelerada, mas ele parece ser melhor no plano que na escada e lentamente vai abrindo um nariz de vantagem. Escuto passos bem abertos, é o Pernalonga tentando recuperar sua posição. Aqui não! Ligo o turbo e passo pelas catracas praticamente empatado com o imberbe de nariz comprido, só o fotochart poderia indicar quem realmente ganhou. Depois das catracas, corrida finalizada, cada um segue para seu destino, a estação é grande, com várias   saídas. Forca não há.

Caminho recuperando o fôlego, incomodado com a derrota, repreendendo-me por não ter enquadrado o Pernalonga logo no início, por ter relaxado e não perceber a aproximação do narigudo… quando passa por mim o último colocado e Fiat Lux!  Vitória moral, qual a seleção brasileira de 82: a minha idade é maior do que a soma das idades dos três competidores….

José FRID

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