Centro de São Paulo, hora do almoço, sol abrasador. Adro da igreja de São Gonçalo. Sob as árvores (ninguém é de ferro),boa meia dúzia de camelôs vendendo DVDs piratas, cigarros contrabandeados, óculos escuros falsificados. As banquinhas são constituídas por um estrado de madeira sobre pés em "x" também de madeira, fixados no tampo por dobradiças, um avanço na tecnologia popular de mascatear, afinal camelô também envelhece (nem todos enriquecem como o Sílvio Santos) e não pode se abaixar a toda hora! (Antigamente, os ambulantes expunham suas mercadorias sobre um plástico diretamente sobre o chão. As suas extremidades estavam ligadas por uma corda: deu polícia ou fiscal no local, era só puxar que ele se fechava como paraquedas, protegendo a preciosa mercadoria. Mas precisava-se de coluna boa para abaixar e vender os artigos expostos)
Uma viatura policial percorre devagar o Viaduto Dona Paulina e entra na rua Dr. Rodrigo Silva, lateral da igreja. Dois policiais veem os ambulantes e seus clientes. O veículo para um pouco mais à frente. O motorista aciona a sirene, como dissesse "olha nós aqui, somos autoridades, queremos respeito". Os camelôs, qual ratos esfomeados, olham para eles e os ignoram: têm clientes para atender, o pão nosso de cada dia para ganhar, estão só trabalhando, atendendo as necessidades dos paulistanos, não têm tempo de brincar de polícia e ladrão. Os policiais ficam indignados. Como gatos gordos, precisam mostrar serviço para justificar os empregos. A sirene é acionada outra vez e por tempo maior, o som estridente chama a atenção de todos os passantes: assalto? Morte? Fogo?
Chama a atenção de todos, menos a dos camelôs, que mantém suas atividades mercantis, um olho no cliente, outro nas autoridades. O policial motorista esbraveja com os ambulantes, mas as motos estacionadas a noventa graus impedem que ele saia do carro: cão que late não morde. O policial ao seu lado abre a porta e ameaça sair do veículo, mas não levanta a bunda do assento: depois do almoço dá uma preguiça... O motorista insiste com a sirene escandalosa, os clientes começam a evitar o local. Os ambulantes persistem em apregoar suas mercadorias, é hora do almoço, horário nobre das vendas, não podem desperdiçar tempo. Esperam que os gatos gordos desistam logo, afinal eles não estão roubando nem matando ninguém, só atendendo as necessidades básicas dos paulistanos.
O policial se enfurece com o comportamento desrespeitoso dos mascates, a raiva supera a lassidão pós-almoço, ele consegue ficar de pé e gritar em direção aos comerciantes, que olham aquela patética figura e continuam seus labores. Indignado, o homem saca sua arma e a aponta para os ambulantes. Agora, diante de tão sólido e metálico argumento, eles começam a recolher seus trastes, não tão lento que pareça provocação, nem tão rápido que atrapalhe as vendas, tudo sob os olhares surpresos dos seus clientes e das mocinhas que ali perto expõem seus corpos, horário nobre para o comércio delas também.
Um ônibus vira a esquina, entra na rua e para: a porta aberta do carro da polícia impede que ele prossiga. O policial reluta: insiste em impor o respeito ou libera o trânsito? Reflete por instantes e enfim guarda no coldre seu forte argumento. Senta no banco, bate a porta do veículo com força desnecessária. Os ambulantes suspiram aliviados e imprecam contra os guardas. A viatura parte célere, com policiais atrás de novas ameaças à sociedade, mas certamente com a satisfação do dever cumprido.
José FRID
3 comentários:
Obrigada pelos minutos de prazer ao ler as crônicas de José Frid.
Márcia F.
Isto é uma loucura.
Abraços
Oséas
Imagina na Copa!!!!
Cuidado com o Engenhão!! Se bater um vento forte, vai parar no seu quintal!
Grande abraço!
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