terça-feira, 9 de agosto de 2011

Semana dos Pais: Kafka: Querido pai (II/IV)

(Veja parte I aqui)

Pai:

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Eu era uma criança medrosa: é claro que apesar disso também era teimoso como o são as crianças; certamente também minha mãe me mimou, mas não posso crer que fosse um menino difícil de lidar, nem que uma palavra amável, um silencioso levar pela mão, um olhar bondoso não pudessem conseguir de mim tudo o que se quisesse. Ora, no fundo você é um homem bom e brando (o que se segue não vai contradizer isso, estou falando apenas da aparência na qual você influenciava o menino), mas nem toda criança tem a resistência e o destemor de ficar procurando até chegar à bondade. Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia, ruído e cólera, e neste caso isso lhe parecia, além do mais, muito adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso.

Naturalmente, hoje não posso descrever sem mediações seus métodos pedagógicos nos primeiros anos, mas posso talvez imaginá-los por dedução dos anos posteriores e a partir da maneira como você trata Félix. Neste caso entra em consideração, como agravante, o fato de que naquele tempo você era mais jovem, portanto mais disposto, mais genuíno, mais despreocupado do que hoje, e de que, além disso, inteiramente ligado aos negócios, mal podia se mostrar uma vez ao dia para mim, e por isso a impressão que me causava era mais profunda ainda, tanto que jamais se banalizou em hábito.

De imediato eu só me recordo de um incidente dos primeiros anos. Talvez você também se lembre dele. Uma noite eu choramingava sem parar pedindo água, com certeza não de sede, mas provavelmente em parte para aborrecer, em parte para me distrair. Depois que algumas ameaças severas não tinham adiantado, você me tirou da cama, me levou para a pawlatsche (varanda) e me deixou ali sozinho, por um momento, de camisola de dormir, diante da porta fechada. Não quero dizer que isso não estava certo, talvez então não fosse realmente possível conseguir o sossego noturno de outra maneira; mas quero caracterizar com isso seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado. Segundo a minha índole, nunca pude relacionar direito a naturalidade daquele ato inconseqüente de pedir água, com o terror extraordinário de ser arrastado para fora. Anos depois eu ainda sofria com a torturante idéia de que o homem gigantesco, meu pai, a última instância, podia vir quase sem motivo me tirar da cama à noite para me levar à pawlatsche (varanda) e de que, portanto, eu era para ele um nada dessa espécie.

Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 13/14, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.

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