quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Kafka e o pai (IV/IV)

 (Clique no número para ler as partes I, II ou III)

Querido Pai:

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A impossibilidade do intercâmbio tranquilo teve uma outra consequência na verdade muito natural: desaprendi a falar. Certamente eu não teria sido, em outro contexto, um grande orador, mas sem dúvida teria dominado a linguagem humana fluente e comum. No entanto, logo cedo você me interditou a palavra, sua ameaça: "Nenhuma palavra de contestação!" e a mão erguida no ato me acompanharam desde sempre. Na sua presença – quando se trata das suas coisas você é um excelente orador – adquiri um modo de falar entrecortado, gaguejante, para você também isso era demais, finalmente silenciei, a princípio talvez por teimosia, mais tarde porque já não podia pensar nem falar. E como você era meu verdadeiro educador, isso repercutiu em todos os aspectos da minha vida. No geral é um curioso equívoco você acreditar que nunca me submeti à sua vontade. "sempre do contra em tudo" não foi realmente meu princípio de vida diante de você, como acredita e me recrimina por isso. Pelo contrário: se eu tivesse obedecido menos, você na certa estaria muito mais satisfeito comigo. O fato é que as suas medidas educativas acertaram no alvo; não me esquivei a nenhuma investida sua; assim como sou (naturalmente pondo de lado os fundamentos e a influência da vida), sou o resultado da sua educação e da minha docilidade. Que esse resultado apesar disso lhe seja penoso, que você se recuse inconscientemente a reconhecê-lo como produto da sua educação, se deve justamente ao fato de que sua mão e o meu material eram tão estranhos um ao outro. Você dizia: "Nenhuma palavra de contestação!" e com isso queria silenciar em mim as forças contrárias que lhe eram tão desagradáveis, mas essa influência era muito forte para mim, eu era dócil demais, emudecia por completo, me escondia de você e só ousava me mexer quando estava tão distante que o seu poder não me alcançava mais, pelo menos diretamente. Mas você estava ali, diante de mim, e tudo lhe parecia ser novamente "do contra", quando era apenas a conseqüência natural da sua força e da minha fraqueza

Seus recursos oratórios extremamente eficazes e que nunca falhavam, pelo menos comigo, eram: insulto, ameaça, ironia, riso malévolo e – curiosamente – autoacusação.


Franz Kafka, aos 36 anos (1919) in "Carta ao Pai", páginas 22/23, tradução de Modesto Carone, Editora Brasiliense, 5ª reimpressão, 1995.



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