sexta-feira, 22 de março de 2019

Valsas de Esquina de Mignone


Só um pássaro
e seu peso de orvalho tocando
o chão como se foram teclas.
Passa onde a graça
ilumina a cidade de ferro
subitamente atenta a essa beleza.

Nos jardins teimam rosas
delicadamente.
Violetas africanas
salpicam de ouro
muros escuros
e as princesas purpúreas
espiam dos balcões verdes
nas paredes florescidas:
dançam pétalas
dança a vida
nos jardins contentes
não termina a partitura
que se repete
sempre.

Dora Ferreira da Silva 

quinta-feira, 21 de março de 2019

quarta-feira, 20 de março de 2019

Chamar pássaros




Chamar pássaros com o alpiste
de amá-los. Eles pousam nos parapeitos. Nem
sombra de medo nessa aproximação.
Quase me sinto gêmea do que são parados
à beira da janela ou saltando no telhado
recém-chegados.

A cordialidade dos pássaros é

sutil:
afloram o coração de quem os ama.

Dora Ferreira da Silva

terça-feira, 19 de março de 2019

segunda-feira, 18 de março de 2019

Boneca


A boneca de feltro
parece assustada com o próximo milênio. 
Quem a aninhará nos braços 
com seus olhos de medo e retrós?

O signo da boneca é frágil 
mais frágil que o de pássaro. 
Confia. Assim passiva 
o vento brincará contigo 
franzirá teu avental 
dirá coisas que entendes 
desde a aurora das coisas: 
foste um caroço de manga 
uma forma de nuvem 
ou um galho com braços 
de ameixeira no quintal.

Não temas. Solta o
corpo de feltro. Assim. 
Para ser embalada nos braços 
da menina que houver.

Dora Ferreira da Silva

sexta-feira, 15 de março de 2019

Dos fatos...

No jornalismo apenas um fato que é falso prejudica todo o trabalho. Em contraste, na ficção, um único fato que é verdadeiro dá legitimidade a todo o trabalho. Essa é a única diferença, e está no compromisso do escritor. Um romancista pode fazer o que quiser, desde que faça as pessoas acreditarem nele.

Gabriel Garcia Márquez em entrevista para The Paris Review, edição 82, inverno de 1981

quarta-feira, 13 de março de 2019

Um pé.....

Foi numa noite de verão, enquanto caminhava pelo distrito de Fukagawa, que sua atenção foi atraída por um pé feminino de brancura deslumbrante desaparecendo por trás das cortinas de um palanquim. Um pé pode transmitir tantas variações de expressão quanto um rosto, e este pé branco feminino pareceu a Seikichi a mais rara das jóias. Os dedos dos pés perfeitamente formados, as unhas iridescentes, o calcanhar arredondado, a pele, tão lustrosa como se tivesse sido lavada durante séculos pelas águas límpidas de algum riacho de montanha - tudo era um pé de perfeição absoluta destinada a agitar o coração. de um homem e pisotear sua alma.   

Junichiro Tanizaki  in A vítima, The Paris Review, edição n.º 16, Primavera/Verão de1957

terça-feira, 12 de março de 2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

O guardião


Ele sentiu o cheiro do desconhecido, o cheiro do inimigo atrás da porta, o cheiro da morte. Retesou-se todo, uma descarga elétrica cruzou todo o seu corpo, solicitando nervos, músculos, artérias. O que fazer? Evitar o embate com o desconhecido seria uma boa medida. Se fosse alto, grande, forte, bastava mostrar-se para dissuadir o outro. Infelizmente, sua família era de pequenos e, dentre eles, ele era o menor, quase anão. Melhor seria blefar.  Alertou ao outro, em alto e bom som, que ele estava ali, preparado, pronto para se defender, a todos e a casa. O desconhecido não tomou conhecimento do seu alerta e mexeu na porta com o intuito de abri-la. E agora? Só restava-lhe buscar dentro de si forças, surpreender o invasor. Sua família era de baixinhos mas valentões, não levavam desaforos para casa, muitos grandalhões já tinham se arrependido amargamente por enfrentarem alguém da família.


O desconhecido prossegue com a invasão, mas temeroso com quem irá enfrentar. A porta vai sendo aberta lentamente. Os dois adversários enfim se confrontam. Em segundos eles têm que decidir o que farão: avaliam-se, medem suas forças, confrontam músculos, alturas, portes, identificam intenções, traçam estratégias, planejam o ataque, a defesa ou a fuga. Segundos? Milissegundos. Decisões rápidas, instantâneas, o cérebro inundado por adrenalina é o computador mais veloz.

O invasor recua um passo, mas é tarde, pois é atacado. O guardião gostaria de pular na garganta do desconhecido, encerrar com um golpe só a peleja, mas a diferença de alturas o impede. Assim, foca na parte mais vulnerável do adversário e avança com todo o seu peso de quilo e meio no  corpo do inimigo, cravando com força seus dentinhos de poodle microtoy na pele áspera do calcanhar do outro. "Maldito cão dos infernos!", grita o pai das crianças.


José FRID


domingo, 10 de março de 2019

sábado, 9 de março de 2019

Método de trabalho....

Quanto ao meu método de trabalho, é bastante consistente com o que estou dizendo agora. Eu nunca sei o quanto vou ser capaz de escrever ou sobre o que vou escrever. Espero pensar em algo e, quando surgi com uma ideia que considero boa o suficiente para escrever, começo a repassá-la em minha mente e deixo que ela continue amadurecendo. Quando está terminada (e às vezes muitos anos passam, como no caso de  Cem Anos de Solidão que eu pensei por dezenove anos) - repito, quando ela terminar - então eu me sento para escrevê-la, e é aí que começa a parte mais difícil e a parte que mais me aborrece. Porque a parte mais deliciosa de uma história é pensar nela, arredondá-la, virando-a de novo e de novo, de modo que quando chega a hora de sentar e escrever, não interessa muito a você, ou pelo menos não me interessa muito, a ideia que tem sido revolvida.  

Gabriel Garcia Márquez in Eu não estou aqui para fazer um discurso.

quinta-feira, 7 de março de 2019

quarta-feira, 6 de março de 2019

Matinês

As matinês são a melhor ocasião
para filmes ruins - carros-patrulha
expelindo  chama laranja, o telefone
morto na mão da babá.
Reluzindo com facas e mísseis,
homens perseguem a dupla
selvageria de sexo e guerra
durante todas as misteriosas
ficções da tarde.
O público está inquieto,
um oceano perverso maltratando seus barcos.
Faz um barulho que eu pareço precisar.
O bracelete de rubi
tinindo contra a algema,
todos os carros emitem sons estridentes.
A criança na minha frente
quer mais doce,
balançando em seu assento de veludo. Cale-se,
diz sua mãe, prováveis  dezessete anos.
Apenas cale a boca.
Os cadáveres do futuro
flutuam  através da galáxia com nada
em suas rígidas e irradiadas mãos.
Em nossos ouvidos o turbo ruge,
a maçãs do rosto estala
uma meia desliza para o chão.
Cocteau disse que o filme é a morte trabalhando.
Fora da penumbra, uma pequena voz
sussurra  cale-se, feche a porra da boca.  
 

Chase Twichell in Paris Review, edição n.º 124, Outono de 1992

Tradução livre de José FRID

Bad Movie, Bad Audience
 
Matinées are the best time
for bad movies—squad cars
spewing orange flame, the telephone
dead in the babysitter's hand.
Glinting with knives and missiles,
men stalk through the double
wilderness of sex and war
all through the eerie
fictions of the afternoon.
The audience is restless,
a wicked ocean roughing up its boats.
It makes a noise I seem to need.
The ruby bracelet
clinks against the handcuff,
all the cars make squealing sounds.
The kid in front of me
wants more candy,
rocks in her velvet seat. Shut up,
says her mother, maybe seventeen.
Just shut the fuck up.
The corpses of the future
drift across the galaxy with nothing
in their stiff, irradiated hands.
In our ears the turbo revs,
the cheekbone cracks,
a stocking slithers to the floor.
Cocteau said film is death at work.
Out of the twilight a small voice
hisses shut up, just shut the fuck up.  

segunda-feira, 4 de março de 2019

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Viuvez....

Ela era uma mulher de cinquenta e nove anos que se declarava ter quarenta e cinco porque quarenta e cinco eram o que sentia. Ela se casou com um homem consideravelmente mais velho, que havia morrido com setenta e dois anos. Ela se casou com ele pelo seu dinheiro, mas, apesar do conforto e conveniência que isso trouxera, a Sra. Crasthorpe acreditava que, no casamento, ela não havia florescido. Sempre um botão de rosa era como, em particular, pensava em si mesma; e havia, na Sra. Crasthorpe, muita privacidade, sempre houvera. Ela sabia que não diria a ninguém, nem nunca, que Arthur tinha sido enterrado sem uma cerimônia de despedida decente, assim como ela não havia dito a ninguém que era a mãe de um filho ou que havia havido, nos últimos anos de seu casamento, Tommy Kildare e Donald.

"Eu devo saborear a minha viuvez", afirmou, em voz alta e firmemente, em seu carro. "Eu vou fazer algo disso".


 Mrs. Crasthorpe - By William Trevor - February 26, 2018 Issue -  The New Yorker  

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Escolher o pai....

"Na época do  Samurai , tive uma discussão muito ruim com meu pai. Então pensei: não escolhemos nossos pais. Se escolhêssemos, eu teria escolhido algo melhor que isso. E então eu tive uma ideia para um livro, ou, enfim, uma pergunta: o que seria necessário para que fosse possível escolher? Eu acho que livros interessantes exploram novos paradigmas. Primeiro você pensa no paradigma - pode ser: como um enxadrista vê o mundo? Como um estatístico vê o mundo? Então, você procura a forma que faria isso funcionar. Mas esse tipo de livro leva tempo para ser bem executado. Não é apenas uma questão de escrever tantas milhares de palavras por dia. "  

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Vai gostar de azul....


Aclimação


Cartas que chegam no mesmo segundo em que são enviadas...

[...]
Curioso como a técnica nos transportou a um mundo sem lugares fixos. Falamos de lugar nenhum, podemos setar em toda a parte e, como nada pode ser verificado, tudo o que imaginamos, em princípio, é verdadeiro. Se ninguém pode comprovar onde estou, sim, se nem eu mesmo tenho total e absoluta certeza, onde estaria a instância que decide? Lugares reais e fixos no espaço existiam antes de termos aparelhos portáteis de rádio e escrevermos cartas que chegam ao destino no  mesmo segundo em que são enviadas.

Daniel Kehlmann in Fama, Cia das letras, pág.134 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A emoção - Norah Lange

A emoção tira de nossas almas.
O coração se nos abre 
para amar melhor.
Sentimos todo o céu
 batendo em nossas mãos.
Um chuvisco de recordação
umedece minha alma
É tão doce
 sentir-se  morrer por dentro
 pouco a pouco    


Norah Lange


La emoción tira de nuestras almas.
                    El corazón se nos abre
                                         para amar mejor.
Sentimos todo el cielo
              latiendo en nuestras manos.
Una llovizna de recuerdo
              humedece mi alma.
¡Es tan dulce
          sentirse morir por dentro
                                        poco a poco!  

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Pintura....

A pintura é uma gravação da emoção.

Edward Hopper

domingo, 17 de fevereiro de 2019

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Lá fora - Norah Lange

Lá fora a noite
sacudindo angústias.
     Dentro, o coração
                   fresco de amor
                                       Como uma nova folha!
Norah Lange

 Afuera la noche
sacudiendo angustias.
    Adentro, el corazón
                  fresco de amor
                                      ¡Como una hoja nueva!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Os olhos das penas de pavão...

[...] Só um molho de penas de pavão no vaso, colocado em cima da cômoda, resistia a esse domínio. Era um elemento travesso, perigoso, vagamente revolucionário, como uma turma bagunceira de colegiais, aparentemente bem comportada, mas ao virar dos olhos devassa e sem freios. Esses olhos de penas de pavão furavam o dia todo, furavam as paredes, davam piscadelas, apinhavam-se, pestanejavam, encostavam o dedo na boca, uns na frente dos outros, cheios de risinhos e travessuras. Enchiam a sala de gorjeio e de cochicho, derramavam-se como borboletas em volta de um lustre, suas multidões coloridas batiam em espelhos opacos e senis, desacostumados ao movimento e à alegria, espiavam pelo buraquinho da fechadura. Nem na presença da minha mãe, deitada com um lenço na cabeça, eles podiam deixar de piscar os olhos, dar sinais, comunicar-se usando o alfabeto mudo das cores, carregados de significados secretos. Irritava-me este acordo sarcástico, este complô cintilante por trás das minhas costas.

Bruno Schulz in Lojas de canela, Imago, págs.109/110 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019