quinta-feira, 16 de novembro de 2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Suspiro da terra....

[...]

E caminhávamos na noite estrelada e a estrada poeirenta nos levou, através de uma vila escura, novamente a uma úmida planície azul como papel carbono, com uma lua muito fina que resplandecia alaranjada lançando atrás de nós ou diante de nós ou nas valetas ao lado uma sombra tênue, apenas perceptível... e depois subimos uma pequena colina, minúscula como suspiro da terra, e ele disse que dali já se veria o lugar onde nascera e a sua terrinha...


Bohumil Hrabal
 in Eu servi o rei da Inglaterra, Editora Best Seller, pág..159


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terça-feira, 14 de novembro de 2017

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O SOBREVIVENTE



                                                                        A Cyro dos Anjos

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.
Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.
                 Um sábio declarou a O Jornal que ainda
                 falta muito para atingirmos um nível
                 razoável de cultura. Mas até lá, felizmente,
                 estarei morto.
Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
(Desconfio que escrevi um poema.)



Carlos Drummond de Andrade

Paulista by night


Torre da Gazeta refletida no prédio novo do outro lado da Paulista...

sábado, 11 de novembro de 2017

Are you hungry?

[...]

Um mendigo de porto pode não saber inglês, mas nunca se perdoaria não saber o suficiente para pedir de comer a quem fale esse idioma.

Manuel Rojas in Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa, Agir Editora, 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Na escuridão...

[...] Uma noite despertei no silêncio escuro do meu quarto e vi, na parede revestida com papel de flores violeta,uma luz. Desde o primeiro instante tive a ideia de que algo extraordinário estava acontecendo comigo e não me assustei. Movi os olhos para um lado e a mancha de luz seguiu o mesmo movimento. Era uma mancha parecida à que  se vê no escuro quando se apaga uma lamparina; mas se mantinha por bastante tempo e era possível ver através dela. Baixei os olhos até a mesa e vi as garrafas e meus objetos. Não me restava a menor dúvida; aquela luz saía de meus próprios olhos e vinha se desenvolvendo desde muito tempo. Passei o dorso da mão diante do rosto e vi meus dedos abertos. Logo senti cansaço; a luz diminuía, e fechei os olhos. Depois tornei a abri-los para comprovar se aquilo era certo. Olhei a lâmpada elétrica e vi que ela brilhava com a minha luz. Voltei a me convencer e dei um sorriso. Quem, no mundo, via apenas com os próprios olhos na escuridão?
  
Felisberto Hernández in O lanterninha, tradução de Davi Arrigucci Jr, Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa, Agir Editora,  pág.323

terça-feira, 7 de novembro de 2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Da criação....

Em determinados momentos penso que em algum lugar de mim nascerá uma planta. Começo a espreitá-la, acreditando que naquele lugar se produziu algo raro, mas que poderia ter um futuro artístico. Eu ficaria feliz se esta ideia não fracassasse por completo.No entanto, preciso esperar um tempo desconhecido; não sei como fazer germinar a planta, nem como favorecê-la, nem cuidar de seu crescimento; sinto apenas o desejo de que tenha folhas de poesia; ou algo que se transforme em poesia se olhadas por certos olhos.



Felisberto Hernández in Explicación falsa de mis cuentos, tradução de Davi Arrigucci Jr, Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa, Agir Editora, pág.323


domingo, 5 de novembro de 2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A coisa sem nome....

[...] 

E mesmo assim Popo nunca estava ocioso. Vivia sempre ocupado, batendo seu martelo, serrando e aplainando. Eu gostava de ver Popo trabalhar. Gostava do cheiro das madeiras - cipreste, cedro e virola. Gostava da cor das aparas de madeira e gostava da maneira como a serragem polvilhava o cabelo pixaim de Popo.

"O que está fazendo, senhor Popo?", perguntei.

Popo sempre respondia: "Ah, garoto! Boa pergunta. Estou fazendo a coisa sem nome".

Eu gostava de Popo por causa disso. Eu o achava um homem poético.

V.S. Naipaul in Miguel Street, A coisa sem nome, Cia das Letras, tradução de Rubem Figueiredo, pág.19


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Homem-mulher

Popo jamais ganhara dinheiro. Sua esposa era quem saía de casa para trabalhar, e aquilo era fácil, porque eles não tinham filhos. Popo dizia: "As mulheres gostam de trabalhar. Os homens não são feitos para o trabalho".

Hat dizia: "Popo é um homem-mulher. Não é um homem propriamente dito".



V.S. Naipaul in Miguel StreetA coisa sem nome, Cia das Letras, tradução de Rubem Figueiredo, pág.21

terça-feira, 31 de outubro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Viu Deus....

[...].

Então, um dia falou que tinha visto Deus, depois de tomar banho.

Para muito de nós, aquilo não causou a menor surpresa. Ver Deus era muito comum em Port of Spain e, na verdade, em toda Trinidad, naquela época. O Pundit Hanesh, massagista místico de Fuente Grove, tinha começado com aquele negócio. Também tinha visto Deus e havia publicado um livreto intitulado 'O que Deu me disse'. Muitos místicos rivais e não poucos massagistas anunciaram a mesma coisa e suponho que fosse algo natural que, como Deus andava pela área, Homem-homem também O visse.

Homem-homem começou a pregar na esquina da Miguel Street, debaixo do toldo da loja da Mary. Fazia isso todo sábado de noite. Deixou a barba crescer e vestia uma túnica branca e comprida. Arranjou uma Bíblia e outros objetos sagrados e ficava de pé embaixo da luz branca de uma lâmpada de acetileno e pregava. era um pregador impressionante e pregava de um jeito dramático. Fazia as mulheres chorarem e até pessoas como o Hat ele conseguia deixar de fato preocupadas.

Tinha o hábito de segurar a Bíblia na mão direita, batia nela com a mão esquerda espalmada e, com um sotaque inglês perfeito, dizia: "Andei conversando com Deus nos últimos dias e o que ele me disse sobre vocês, minha gente, não foi nada muito bonito de ouvir. A gente anda ouvindo os políticos falarem todo dia de tornar a ilha autossuficiente. Pois sabem o que foi que Deus me disse na noite passada? Agorinha mesmo, noite passada, logo depois que terminei de comer? Deus me disse: "Homem-homem,dê uma olhadinha nessa gente aqui" Aí me mostrou o pai comendo a esposa e a esposa comendo o marido. Me mostrou o pai comendo o filho  e a mãe comendo a filha. Me mostrou o irmão comendo a irmã e a irmã comendo o irmão. É isso que os políticos e toda essa turma têm na cabeça quando dizem que a ilha tem de se tornar autossuficiente. Porém, meus irmãos, ainda não é tarde de mais para vocês se voltarem para Deus".

Eu tinha muitos pesadelos todo sábado de noite depois que ouvia Homem-homem pregar. Mas o engraçado era que, quanto mais ele metia medo nas pessoas, mais gente vinha para ouvir sua pregação. E na hora de fazer a coleta de dinheiro, lhe davam cada vez mais.


V.S. Naipaul in Miguel StreetHomem-homem, Cia das Letras, tradução de Rubem Figueiredo, págs. 52/53

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O maior poeta do mundo

[...]

Observamos as abelhas, o homem e eu, durante mais ou menos uma hora, agachados perto das palmeiras.

O homem disse: "Eu gosto de observar as abelhas. Filho, você não gosta de observar as abelhas?"

Respondi: "Não tenho tempo".

Ele balançou a cabeça com ar triste. Falou: " Pois é isso o que eu faço, apenas observo. Posso ficar dias observando as formigas. Você já observou as formigas? E os escorpiões, e as centopeias, e as lacraias... você já observou?

Balancei a cabeça.

Perguntei: "Mas o que é que o senhor faz na vida?"

Ele se pôs de pé e respondeu: "Sou poeta".

Falei: "Um bom poeta?"

Ele respondeu: "O maior que existe no mundo".

"Qual o nome do senhor?"

"B.Wordsworth".

"B de Bill?"

"Black. Black Wordsworth. White Wordsworth era meu irmão. Nós compartilhamos o mesmo coração. Posso observar uma florzinha igual à glória da manhã e chorar".

Falei:"Por que o senhor chora?"

"Por quê, menino? Por quê? Você vai saber quando for grande. Você também é um poeta, sabia? E quando a gente é poeta pode chora por qualquer coisa e por tudo".

V.S. Naipaul in Miguel Street, B.Wordsworth, Cia das Letras, tradução de Rubem Figueiredo, págs. 58/59

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terça-feira, 24 de outubro de 2017

O maior poema do mundo

Um dia, quando eu estava no quintal dele, Wordsworth me disse:" Tenho um grande segredo que agora vou revelar para você".

Falei: "É um segredo de verdade?"

"No momento, é".

Olhei bem para ele e ele olhou bem para mim. Falou: Isso vai ficar só entre mim e você, não esqueça. Estou escrevendo um poema".

"Ah." Fiquei decepcionado.

Ele disse: "Só que é um tipo diferente de poema. É o maior poema do mundo".

Dei um assovio.

Ele disse: "Estou trabalhando no poema já faz mais de cinco anos, agora. Vou terminar daqui a vinte e dois anos, quer dizer, se eu continuar escrevendo no ritmo atual".

"Então o senhor escreve muito, é?"

Ele disse: "Não mais. Só estou escrevendo um verso por mês. Mas eu tomo todo o cuidado para que seja um bom verso";

Perguntei: "E qual foi o verso bom do mês passado?"

Ele olhou para océu e disse: " O passado é profundo".

Falei: "É um verso muito bonito".

B.Wordsworth disse: " Eu tento destilar as experiências de um mês inteiro em um único verso de poesia. Portanto, daqui a vinte e dois anos, vou ter escrito um poema que vai poder cantar para toda a humanidade". 

Fiquei cheio de assombro.



V.S. Naipaul in Miguel StreetB.Wordsworth, Cia das Letras, tradução de Rubem Figueiredo, pág. 63

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Edifício Martinelli


Edifício Martinelli visto da esquina das Ruas Capitão Salomã (à direita) e do Seminário.Anos 40/50. Os prédios do lado esquerdo foram demolidos, provavelmente para a abertura da Praça Pedro lessa e do terminal de ônibus, sob o viaduto de Santa Efigênia. 

domingo, 22 de outubro de 2017

Uma praça...

Uma tarde, saí para caminhar. Antes de voltar, quando escureceu, sentei-me no banco de uma praça. Só nesta cidade existem praças assim. Pequena e nova, parecia um acidente nesse bairro utilitário, nem próspero nem miserável. As árvores eram raquíticas, como se rejeitassem crescer, ofendidas ao serem plantadas em terreno tão pobre, num setor tão opaco e medíocre. Numa esquina, uma fonte de água gaseificada iluminava as figuras de três rapazes que conversavam em meio a uma poça. Dentro de uma piscina seca, que nunca acabou de ser construída, havia tijolos despedaçados, cascas de frutas, papéis. Casais apenas conversavam nos bancos, como se a feiura da praça não propiciasse maior intimidade.


 José Donoso in Uma Senhora, tradução de Léo Schlafman, Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa, Agir Editora, pág.491

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Personagens....

Assim, Dumas comenta em suas memórias: "É prerrogativa de romancistas criar personagens que matam aqueles dos historiadores. A razão é que os historiadores evocam meros fantasmas, enquanto os romancistas criam gente de carne e osso".


(Alexandre Dumas in Viva Garibaldi! Une odyssé en 1860, cap.4)

Umberto Eco in "Confissões de um jovem romancista", Zahar, pág.66


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O trabalho enobrece o homem....



E aqui, no hotel Tichota, compreendi também que aqueles que inventaram que o trabalho enobrece o homem eram os mesmos que vinham aqui toda noite para comer e beber com as belas senhoritas nos joelhos - aqueles ricos que conseguiam ser felizes como rapazinhos - e eu pensei que os ricos tinham uma maldição ou algo do gênero; os casebres e os quartinhos escuros e a sopa ácida e as batatas dão uma sensação de felicidade e bem-estar às pessoas, que a riqueza é como uma maldição ... mas, ao que parece, até aquelas troças sobre a felicidade de viver em casebres eram invenções daqueles nossos fregueses para quem era indiferente o quanto conseguiam esbanjar em apenas uma noite, que jogavam dinheiro aos quatro ventos, satisfazendo-se com isso... Jamais vi homens tão felizes quanto aqueles ricos industriais e aqueles empresários - como disse, sabiam soltar-se e divertir-se com a vida como meninos travessos, provocavam até despeito e pregavam peças, tanto era o tempo que tinham à sua disposição para tudo - e toda vez, no meio daquela alegria, de repente um perguntava a outro se não precisava de um vagão de porcos húngaros ou, quem sabe, de dois, ou de um trem inteiro. Aquele outro, depois, por sua vez, olhando o nosso empregado que cortava lenha - de fato, é preciso dizer, e aqueles ricos tinham sempre a sensação de que aquele doméstico era a pessoa mais feliz sobre a terra e, por isso, olhavam sonhadores aquele trabalho que elogiavam sem jamais fazê-lo e que, se tivessem de executá-lo, se sentiriam infelizes e isso seria o fim da felicidade deles[...]



Bohumil Hrabal in Eu servi o rei da Inglaterra, Editora Best Seller, pág..70

terça-feira, 17 de outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Silêncio e o vento....

[...]

Havia silêncio. No ar ouvia-se apenas o vento perfumado que se podia comer como um sorvete, como uma neve invisível amontoada; podia-se quase comê-lo com a colher; eu tinha a impressão de que, se me oferecessem um pãozinho ou um pedaço de pão, poderia comê-lo junto com o ar, quase como se fosse leite.



Bohumil Hrabal in Eu servi o rei da Inglaterra, Editora Best Seller, págs.49/50

sábado, 14 de outubro de 2017

O menino, a bike e os macacos

O sonho dos meninos da pequena cidade perdida nas montanhas mineiras era ir de bicicleta para a escola: mochila nas costas, capacete gomado, vento passando pelos cabelos, zumbindo pelos ouvidos ...liberdade, liberdade!

A maioria não podia realizá-lo pela falta de condições de seus pais em adquirir uma, mesmo usada, depauperada, o primeiro de muitos sonhos frustrados ao longo da vida. Outros herdavam uma bike surrada, que as bicicletarias arrumavam por pouco dinheiro. Muitos dividiam as duas rodas com irmãos: um dia pedestres, noutro ciclistas. Poucos tinham a sorte de receber uma novinha, metais brilhando, pneus lustrosos, o inesquecível cheirinho de  carro novo.

Natal. Da grande caixa salta uma reluzente bicicleta, toda equipada, milhares de marchas, banco de silicone, amortecedores, freios a disco. Os pais e os irmãos mais velhos tinham cotizado para agradar ao menino, mas na verdade presenteavam-se a si mesmo com o brinquedo, sonho deles agora realizado. Eles tentam levar nosso herói para estrear a bicicleta, antevendo e saboreando as alegrias dele ao sair pedalando. Bradam que o menino nem vai precisar das duas rodinhas, aprenderá logo com a experiência deles: uma queda ou outra, e ele já estará rodando pela cidade, dando inveja aos garotos e atraindo a atenção das mocinhas. O menino, atemorizado, alega que machucara a perna num jogo de futebol, comera muito... Os adultos esquecem-no e, sob o efeito de eflúvios alcoólicos, passam a relembrar animadamente suas experiências ciclistas, deliciosas histórias de passeios, quedas, amores, competições...

Na manhã seguinte, o menino acorda cedo e escapa para a rua, para o lago, evitando a pressão dos familiares, que logo irão embora. Está aterrorizado, teme o veículo como a uma fera. Ouvira as histórias, parecia-lhe que todos nasciam sabendo andar de bicicleta, menos ele, é claro; todos caiam, sacudiam a poeira e seguiam em frente, mesmo com sangramentos, fraturas...

O carnaval chegou e a bicicleta permanecia na garagem, montada com as rodinhas auxiliares. Ele até tentara dominá-la, mas sempre caía no quintal antes de chegar ao portão da rua.  Ora desequilibrava e capotava, a bicicleta caindo sobre ele, ora prendia o pé na corrente, quando não acontecia do guidão fechar e esmagar seu joelho, sem contar as vezes que a bicicleta simplesmente o cuspia, qual touro xucro. Ainda era um pedestre, um mísero e desprezível pedestre, que tinha que acordar mais cedo por ter que ir andando para a escola, e não voando sobre duas rodas como sempre sonhara...
E com o carnaval chegara um pequeno circo á cidade. Bandinha, pôneis, palhaços, cães dançarinos, trapezistas, um cansado elefante, um mágico, macacos amestrados, tigres, malabaristas, leões, homem-bala. Estreia no sábado, logo depois da matinê carnavalesca do Clube Lítero-musical.

A garotada fantasiada enche as arquibancadas. Enquanto a função não começa, voam serpentinas e confetes. O proto-ciclista, de índio, tenta chamar a atenção de uma sapeca havaiana. Os palhaços fazem sucesso, os cãezinhos só encantam os menorzinhos. Os trapezistas causam frisson na plateia, impressionada com os saltos mortais. O elefante e o mágico são um fracasso.

Intervalo, o índio consegue oferecer pipoca para a havaiana, que ainda bebe do refrigerante dele, no mesmo canudo, um beijo indireto. Ele, enlevado, nem presta atenção na entrada dos macacos uniformizados, só tem olhos para os dentinhos havaianos trincando os brancos grãos de pipoca. As macaquices da pequena tropa agradam à plateia, que ri e aplaude, comportamento repetido pelos animais, que guincham, batem as mãos e escancaram os lábios e dentes. Ele feliz com a alegria dela, como fosse o responsável por isso. Os animais saem do picadeiro junto com os domadores, mas a música da bandinha indica que retornarão para um número final. Ele só de olho nela...

- Olhe!

Ele olha para onde ela indicara: bicicletas! Macacos andando de bicicleta! Macacos! E sem rodinhas auxiliares! Ele fica estupefato: macacos de bicicleta!

Eles parecem provocá-lo: correm por todo o picadeiro, sobem pranchas, pulam pequenos obstáculos, um deles anda até sem as mãos no guidão. Vergonha! Vergonha! Vergonha! Cobre seu rosto, tem a impressão de que toda a plateia compara-o com os símios, ri dele e não das macaquices. Foge!

Sábado de carnaval. Noite. A garagem está iluminada. Um índio encara seu desafio. Macacos! Macacos! Ele, um homem! Circula em volta da perigosa máquina, mas sua mente está no picadeiro, nos primatas dando voltas ousadas, sorrisos nos rostos, desfrutando da brincadeira. Ele conseguirá!

Dias entre a garagem e o quintal. Mãos e joelhos esfolados, pernas com hematomas, cotovelos também. Marcas dentadas em pés e mãos. A bicicleta já não está mais intacta: arranhões, mossas, raspados maculam o azul metálico.

Quarta-feira de cinzas, seis horas da manhã. A cidade descansa dos excessos carnavalescos. O portão do quintal é aberto. Uma roda surge, um guidão, pedais, selim, outra roda. E o menino, olhar posto no horizonte, desbravador das montanhas mineiras. Sem testemunha, ele senta no selim, ajusta os pedais e parte, segue sem olhar para trás, o vento zumbindo nas orelhas...

Semana Santa, a família novamente reunida, um garoto não para de circular de bicicleta, sobe e desce calçadas, pula lixeiras, corre e freia em cima das pessoas, pedala sem as mãos no guidão, empina a bicicleta  na roda traseira, na  dianteira, coloca as pernas para cima, pedala em pé ...

- Para com as macaquices, filho!

José FRID