quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Cantiga de ninar


Noite boi
da cara preta
deixa dormir
as putas meninas
de tuas esquinas


Marcia Vinci in Poemas do Sim e do Não, Paralelo 13S, Publicado na Folha em 29 de outubro de 2017


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Chamar a sorte...


A vida está cheia de imprevistos, e quem peleia chama a sorte para si.


Os Melhores Contos da América Latina, organização de Flávio Moreira da Costa, Agir Editora, pág. 291

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

CARTAS:



Meu marido nunca usou aliança, desde que nos casamos. (Vladmira — Florianópolis)

RESPOSTA:
0 importante no casamento, Vladmira, não é que o homem use a aliança — é que use a mulher.


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Acordei sobressaltado com os gritos da minha mulher gritando "fogo! fogo". Quando abri os olhos, havia um homem saindo pela janela. (Adalberto Barbacena)

RESPOSTA:
Então, meu caro, é fogo mesmo.

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Em frente à minha casa, todas as noites, fica um homem de terno cinza acenando para a minha mulher. Ela insiste em dizer que se trata de uma estátua e não posso conferir, pois sou paralítico e ela não me leva até lá. (Zé Eduardo - Volta Redonda)

RESPOSTA:
Sua mulher é muito sensata. Já imaginou se ela o leva até lá e a estátua sai correndo? Além de paralítico, você acabaria débil mental.

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Tenho medo de dormir sozinha e meu marido trabalha de noite. (Maria Clara - Copacabana)

RESPOSTA:
Ligue para uma dessas agências de empregados e peça um acompanhante. Eles têm de tudo. Se um dia o seu marido passar a trabalhar de dia, vai ser o diabo pra se livrar do acompanhante.

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CARTA:
Meu farmacêutico é anão e toda vez que vem me dar injeção, meu marido proíbe. Acha que eu seria capaz de simpatizar com um anão? (Florilda - Recife)

RESPOSTA:
Não acredito que seu marido tenha alguma coisa contra o anão. Talvez seja porque ele, ao aplicar a injeção, não alcance o seu braço.

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Os vestidos de minha mulher encolheram e ela não manda fazer outros, fica com o busto de fora e não pode sentar sem mostrar os joelhos. E quer me convencer que está na moda. (Pedrinho - Brasília)

RESPOSTA:
De uma certa forma, sua mulher está com a razão: busto e joelho de mulher não caem nunca da moda, pelo menos enquanto não completam cinqüenta anos.

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CARTA:
Sempre que vou ao cinema com minha mulher, ela senta em cima e eu embaixo. O senhor acha isso normal? (Alfredo - São Paulo)

RESPOSTA:
Absolutamente, acho isso ridículo. E os vaga-lumes, não dizem nada? Se sua mulher é muita pesada, o lógico seria você sentar em cima.

Leon Eliachar in O Homem ao Cubo, José Álvaro, Editor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 96.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Inveja e ressentimento.....

Posso perdoar-te por tudo. Menos por seres quem tu és. Menos por eu não ser quem tu és. Menos ainda porque eu não sou tu.


Je puis tout te pardonner; sauf d'être ce que tu es; sauf que je ne suis pas ce que tu es; sauf que je ne suis pas toi.


Maxime Du Camp sobre Gustave Flaubert, por recriação de Silviano Santiago em Machado, Cia das Letras, págs.44/45

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Eterno aprendiz

Eu tenho medo de não ser todos os dias um eterno aprendiz.


Augusto Cury em entrevista para o Estadão.


domingo, 7 de janeiro de 2018

Escrever...


É bom escrever porque reúne as duas alegrias: falar sozinho e falar a uma multidão.


Cesar Pavese



Minha liberdade é escrever.


Clarice Lispector

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Carta:

— Sou branca, meu marido é branco e tivemos um filho preto. Como o senhor explica isso?
(Jandira - Ceará)

— Lamento muito, mas quem tem de se explicar é a senhora. Vocês que são brancos que se entendam. 


Leon Eliachar in O homem ao quadrado, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1963

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Verdade...

As pessoas preferem acreditar naquilo que elas preferem que seja verdade.


Francis Bacon

sábado, 30 de dezembro de 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Desbloqueado....


5505 15..........

Identifiquei o número que havia apagado do celular - uma sequência irritante de cincos - antes mesmo desse diálogo ter acontecido. Ariela!

- Vem pra cá!

Ela não apareceu. Mas no dia seguinte me desbloqueou do Facebook. Talvez seja um despropósito da minha parte, mas quando fui desbloqueado por Ariela pensei em Jesus Cristo. Há dois mil e doze anos o mestre havia sido desbloqueado no terceiro dia... Hosana nas alturas! Oh, Céus!

Marcelo Mirisola in Hosana na sarjeta, Editora 34, 2014, pág.129

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

VULCÕES

Vulcão em erupção na Guatemala. Anoitecer, a montanha bem definida contra o céu avermelhado, em brasas, a coluna de fumaça subindo em volteios qual cigarro extinguindo-se num cinzeiro. Fica feliz de estar à distância segura, no hotel, deitado na espreguiçadeira ao lado da piscina, copo gelado na mão; triste, ao mesmo tempo, por não estar mais perto, na boca da cratera, não poder constatar na pele o calor das lavas, a poeira nos pulmões e olhos, o enxofre nas narinas, o troar nos ouvidos, os tremores nos pés. Na distância, é testemunha ocular da história. Mas ver é tudo? Melhor estar lá, presenciar, correndo todos os riscos? Fecha os olhos à busca de respostas. Respira suavemente. Buscar respostas para quê? O que elas mudarão na sua vida? Poderá agir? Os monótonos barulhos dos equipamentos eletromecânicos lhe dão sono. Relaxa, deixa o sono, a inconsciência chegar, dominá-lo. Dorme, mas o ritmo é mantido, o trabalho continua sendo feito, ele só precisa estar de corpo presente, a fístula está lá. Um tempo imensurável para ele transcorre. Desperta, fixa os olhos na parede alva à sua frente. Outro vulcão, agora chileno, inerte, pacífico, aparentemente calmo como ele, sem fumo, coberto de neve, branco sobre azul do céu como roupa de marinheiro. Outra piscina, ele imerso na água cálida, deliciando-se com os volteios dos esquiadores, descida desabalada pela montanha como se fugissem de lavas imaginárias. Calor ou frio? O que é melhor? Respostas, outra vez, respostas. Para quê decidir? Poderia agir? Presta atenção nos metódicos ruídos dos aparelhos. Sequência inabalável, os mesmos movimentos, os mesmos ciclos, os mesmos resultados, vida garantida. As máquinas não procuram respostas, fazem o que tem que ser feito, agem. Como os esquiadores, zumbindo montanha abaixo, só pelo prazer, sem querer chegar a lugar nenhum. Fecha os olhos e deixa-se deliciar com a esquiadora de rosa shoking, graciosa, esbelta, audaciosa, loira e voluptuosa como uma Bond girl, incansável em subir e descer a montanha. Acena-lhe quando ela passa no teleférico, convida-a a despir-se e compartilhar a piscina aquecida pelas entranhas da terra...

- Pronto, já acabamos por hoje, o senhor pode ir.

O operador remove delicadamente os tubos e conexões. Ele está liberto, pode ir e vir até a próxima segunda-feira, sete horas. Como visitar seus vulcões com seu rim pesando meia tonelada, fixo naquela sala asséptica, que visita segundas, quartas e sextas? Só chega a  Poços de Caldas, vulcão extinto como seus rins.... 

José FRID

(início de um conto...)

domingo, 24 de dezembro de 2017

A verdade....

As pessoas costumam amar a verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la quando as confrontam.

Santo Agostinho

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Humorismo

Definição de Humorismo:

- Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros. Há duas espécies de humorismo: o trágico e o cômico. O trágico é o que não consegue fazer rir; o cômico é o que é verdadeiramente trágico de se fazer.

Leon Eliachar in O homem ao quadrado, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1963, pág. 15

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

As flores


Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras, vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria:

— Deixe de brincadeira, Epitácio.

Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia:

— Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho mais onde colocar.

Foi aí que ele compreendeu tudo:

— O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas flores?

Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia convencê-la de que não era ele.

— Um de nós dois está mentindo — gritou, furioso. 

— Então é você — rebateu ela.

No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio ninguém:

— Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram, Epitácio. É muita coincidência. 
Vai me dizer que não era você. 

Ele não tinha por onde escapar. Insinuou muito de leve que a mulher devia ter conhecido alguém na sua ausência. Ela chegou a chorar e se trancou no quarto. A discussão entrou pela noite até o dia seguinte. Epitácio saiu cedo, sem mesmo tomar café. Bateu a porta com força e levou o mistério para o trabalho. 

Meia hora depois, a mulher saiu e foi ao florista.

— Como vai, Dona Iracema? A senhora ontem não veio, heim? Aconteceu alguma coisa?

À noite, Epitácio viu as flores e não disse uma palavra, mas a mulher não parou:

— Seu cínico. Bastou você sair para as flores aparecerem e ainda tem coragem de dizer que não foi você.

Nessa noite ele teve insônia.



Leon Eliachar in "O homem ao zero", Editora Expressão e Cultura – Rio de Janeiro, 1968, pág. 275.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Um Nome Qualquer

Encontraram-se depois de mais de dez anos:


-- Afonso!

-- Hermenegildo!

Abraçaram-se três vezes seguidas, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- Lembra-se do Rogério?

-- Lembro.

-- Morreu a semana passada.

-- Coitado.

Conversaram a mesma conversa que conversam os que não se vêem há muito tempo:

-- Que tens feito?

-- Lutando.  E você?

-- Levando a vida.

Quando deram por si, estavam tomando cafezinho em pé, como fazem sempre os que não se vêem há muito tempo:

-- Você está mais gordo.

-- E você, mais magro.

Foram andando, parando, relembrando incidentes pitorescos, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- E aquele mergulho no rio, atrás do internato, lembra-se?

-- Se me lembro, quase você morre afogado.

-- E foi você quem me salvou, nunca esqueci.

Pararam num ponto de ônibus pra se despedir, ficaram batendo papo mais de meia-hora, como fazem todos os que não se vêem há muito tempo:

-- Você casou?

-- Casei. E você?

-- Mais ou menos. Estou com uma zinha aí mas ela é casada.

-- Você nunca quis nada com o casamento, hein, malandro?

-- Com essa até que eu casava.

-- Como ela é?

-- Baixotinha, gordota, tem um sinalzinho no rosto, mas eu gosto dela assim mesmo.

Afonso ficou apreensivo:

-- Como é o nome dela?

-- Cláudia.

Afonso ficou mais curioso:

-- Ela tem filhos?

-- Dois. Um menino de quatro e uma menina de três.

Afonso só faltou pedir o retrato pra ver, mas não teve coragem. Apressou a despedida:

-- Bem, tenho de ir andando, estou atrasadíssimo.

Tomou o ônibus, foi direto para casa. No caminho, foi pensando: "Cláudia... dois filhos... um menino de quatro... uma menina de três... baixotinha... gordota... um sinalzinho no rosto..." era muita coincidência. Quando entrou em casa, só faltou arrancar a porta. Lá estava a mulher no meio da sala, com os dois filhos, baixotinha, gordota, com um sorriso na cara deste tamanho:

-- Chegou cedo hoje, hein, Afonso?

Ele estava tremendo de ponta a ponta, quando perguntou:

-- Diz depressa o nome de um homem.

-- Como?

-- Depressa, diz um nome de homem. Um nome qualquer.

Ela nem teve tempo de pensar:

-- Hermenegildo.

Ele chegou a cambalear, foi preciso segurar no vão da porta:

-- Quem diria, hein?

Sua mulher não entendia nada:

-- Mas o que foi, Afonso?  Está sentindo alguma coisa?

Ele foi categórico:

-- Estou sim.

-- Está sentindo o quê?

Ele arreganhou os dentes:

-- Estou sentindo ódio de mim mesmo, por ter salvo aquele desgraçado. Devia ter deixado ele morrer afogado.

Cláudia caiu de bruços e como caiu, ficou, inteiramente desacordada.

O médico disse que era normal.

Estava esperando o terceiro filho.


Leon Eliachar in A mulher em flagrante, Livraria Francisco Alves - Rio de Janeiro, 1969, pág. 54

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Ar fresco da montanha....


Meu novo emprego de garçom e, em seguida, de maître, ficava além de Decin, entre as montanhas. Quando me aproximei do hotel quase tive um choque: não se tratava de uma simples hospedariazinha, como eu esperava, mas era, ao contrário, uma minúscula cidade, ou uma grande vila, no meio de belos bosques e bucólicas fontes termais; aspirava-se ali um ar fresco que se podia colocar num cálice, bastava virar-se assim de cara contra aquela agradável corrente de ar e deglutir lentamente, como fazem os peixes com as guelras, e sentia-se bem claro e distinto o oxigênio misturado ao ozônio atravessar as brânquias, os pulmões, e as vísceras encherem-se lentamente como se, lá embaixo, antes de chegar aqui, num certo ponto, tivesse furado um pneu - e havia muito que estava furado - e só aqui, com este ar, ele se enchesse automaticamente até o número certo de atmosferas, para viajar não só com mais segurança mas também com mais prazer.


Bohumil Hrabal in Eu servi o rei da Inglaterra, Editora Best Seller, pág.127

terça-feira, 12 de dezembro de 2017