segunda-feira, 21 de outubro de 2019

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Términos....

Nossa mãe estava sentada de frente para uma fileira de janelas para o quintal. Os peitoris das janelas estavam forrados com suas plantas - begônias, violetas, suculentas - que ela regava todas as manhãs enquanto dormíamos. Se minha irmã e eu não estivéssemos sentadas diante dela, ela teria uma visão clara do World News. Como estávamos, ela passava a maior parte do tempo olhando pelas janelas, como se esperasse que terminasse - o noticiário, o jantar, a noite, sua vida. Embora ele tenha se encolhido bem ao lado dela, ela não olhou para o nosso pai nem falou com ele.

Jennifer Croft in Portrait of Our White Mother Sitting at a Chinese Men's Table, The Paris Review, 28 de agosto de 2019  

Our mother sat facing a row of windows to the backyard. The window sills were lined with her plants—begonias, violets, succulents—which she watered every morning while we slept. If my sister and I weren't sitting across from her she would have had a clear view of World News. As it was, she spent most of her time looking out the windows, as if waiting for it to end—the newscast, the dinner, the evening, her life. Although he gorged himself right next to her, she didn't look at our father or speak to him.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Como ele começou a fumar....

Levado por meu pai para assistir à inauguração de Brasília, deixei cair a jovem mandíbula ante tanta pompa, tanto fraque, tanta esquadrilha da fumaça, vendo passar em carro aberto o presidente Juscelino a distribuir acenos para nós, o populacho. Provavelmente me senti na obrigação de também eu fazer alguma coisa, qualquer coisa, para estar à altura do momento histórico – mesmo que essa coisa fosse me encostar no balcão de uma vendinha e, como quem anunciasse ao mundo a sua entrada na idade adulta, comprar o primeiro maço de cigarros, para a ele escravizar-me pelos 20 anos seguintes. A situação terá sido ainda mais risível, me ocorre agora, se a inspiração tabagística tiver vindo (desconfio que sim) do espetáculo daqueles aviões a esguichar fumo no céu da nova capital.

Humberto Werneck  no Estadão de 15 de outubro de 2019.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Bay window

Nunca saberemos....

O trem do metrô abre as portas e uma miríade de passageiros desce na estação, sob a angústia das duas filas laterais dos que pretendem embarcar. O fluxo de saída parece o Rio Amazonas desaguando no oceano, não acaba nunca de correr água,  para desespero dos que estão na plataforma.

 

O último a sair, justo aquele que libertará a passagem, é um rapaz alto, magro, barbudo, uns vinte anos, que caminha lentamente porque tem a cabeça virada para a direita, observando fixa e embevecidamente alguma pessoa fora do alcance dos milhares de olhos ferozes que querem entrar no vagão. 

 

O Rio Amazonas inverte o fluxo e agora é o trem que é invadido pelo mar, para desespero dos que estão dentro do vagão,  que são inapelavelmente comprimidos até se comprovar que dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.

 

Ajeitada a boiada, o trem parte e os novatos procuram identificar quem merecia tanta atenção do magrelo barbado. Seria uma atriz da Globo? Uma modelo famosa? Um craque do Palmeiras? Um repórter da Record? O governador? Nenhum deles é localizado no vagão. Quem, então? Quem?

 

A malta, decepcionada, procura no meio dos comuns. Seria a loira bonita,  que podia ser a mãe dele, seios empinados sob delicada blusa de crochê tricolor? A moça com rabo de cavalo trançado, que balança a cabeça conforme a música que só ela escuta? A mulher grávida com barriga e seios enormes,  que está a ponto de maternidade, sentada no banco reservado? Ou a senhora miudinha à sua frente? A executiva de paletó vermelho sobre blusa branca de seda que deixa entrever sutiã todo bordado? Ou a menina de vestido listrado curtinho, curtinho? A mulher de blusa verde que deixa o umbigo à mostra, "mais por fora que umbigo de vedete", como diria o bisavô do rapaz? Indecisa, a turba percebe que são tempos modernos, o magrelo pode estar interessado em outro, como o barbicha  oriental, com óculos enormes no qual caberiam quatro olhos.  Ou o outro barbudo, vistosos fones de ouvido, que funga a cada quinze segundos, repuxando a cabeça, coçando  nariz e mordendo o polegar a cada intervalo. Quem sabe o rapaz de ralo bigode e cavanhaque insipiente. Seria a moça ultrasupermaquiada que fala ao celular ou o bombadão com tatuagens tomando o pescoço e meia cabeça? A mão com longas unhas verde-piscina que envolve o balaústre superior? Ou a meia rosa shocking que emerge de um tênis prateado?

 

Nunca saberemos....


José FRID

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

A sua maneira de escrever era a de um poeta, coisa que ele não era....


Precisa aprender a confiar nesses movimentos alternados de nuvens sombrias e de fulgurâncias luminosas que o animam. Por vezes, pensamentos interessantes zumbem-lhe na cabeça, depois esses ideias fogem-lhe de novo sem que ele faça qualquer  esforço para retê-las, pois sabe que o seu aparecimento no consciente e, em seguida, o seu desaparecimento não fornecem qualquer informação verdadeira sobre o seu destino. Não pode obrigar-se a trabalhar. "Sou forçado a esperar que alguma coisa se agite em mim e que eu me dê conta disso."

Às vezes, porém, os momentos de tropeço, de estagnação, de resistências, oprimem-no, fazem-no duvidar do seu talento, como se esses obstáculos lhe lembrassem com excessiva clareza que a sua maneira de escrever era a de um poeta, coisa que ele não era.

Lydia Flem sobre Freud in O Homem Freud - O romance do inconsciente -  pág.168/169  

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Pássaros....

Metrô, Linha Verde, lotado. Duas mulheres lado a lado. A primeira, mais nova,  segura-se no corrimão superior com a mão direita. A manga do casaco escorrega e deixa visível uma revoada de pássaros azuis, gaivotas ou pombos no mal traço do tatuador, começando no cotovelo e fazendo suave inflexão para  a esquerda, como fossem sair do braço na altura do punho, abaixo do polegar. Para onde iriam, o que os atraíam para fora do corpo feminino? O trem dá um tranco "arruma-passageiros", para ninguém esquecer dos ônibus lotados nas avenidas acima do metrô. A domadora de pássaros levanta o braço esquerdo procurando novo apoio, revelando uma miríade de finas pulseiras prateadas e um grande relógio com grossa pulseira metálica. Seriam esses brilhos que atrairiam as gaivotas ou os pombos? 

A outra mulher, à esquerda da primeira, cabelos loiros quase brancos, batom vermelhão no meio de uma pele muito rebocada, segura-se no balaustre vertical, também com a mão direita,  duas destras. Com o solavanco do trem, ela sente necessidade de um apoio adicional, levantando o braço esquerdo em direção ao corrimão superior.  A manga do casaco vermelho desliza desnudando um ramo de grandes rosas. Vejo o braço direito da primeira mulher fremir rápido, a mão deslizar para a esquerda no corrimão: são beija-flores!

José FRID

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Urinar e escrever ....

Talvez lhe interesse saber (e ver) que a minha escrita voltou a ser o que era. Ela foi afetada durante semanas em consequência do meu último acesso de distúrbios urinários, os quais estão agora desaparecendo. Existe um vínculo interior entre o fato de urinar e o de escrever, e certamente isso não acontece somente comigo. Quando notei os primeiros sinais de hipertrofia prostática no funcionamento da minha bexiga em 1909, em Nova York, sofri ao mesmo tempo da cãibra dos escritores, coisa que jamais me ocorrera até então.

Freud in O Homem Freud - O romance do inconsciente - Lydia Flem, pág.161

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ler e escrever

Pertenço a essas criaturas humanas que podem ser encontradas a maior parte do dia entre dois móveis: um de estrutura vertical, a cadeira, o outro horizontal, a mesa, e dos quais toda a civilização provém... Como essa postura não envolve contribuições iguais de todas as partes do corpo, mas as mais nobres dentre elas ultrapassam notavelmente a horizontalidade da mesa, sou obrigado, para ocupá-las, a fazer duas coisas: ler e escrever.

Carta de Freud a Silberstein in O Homem Freud - O romance do inconsciente - Lydia Flem, pág.142

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Ofício de escritor

Então descobri que nos cansamos quando escrevemos uma coisa a sério. Se não nos cansamos é um mau sinal. Não se pode esperar escrever algo sério assim, na flauta, com um pé nas costas, borboleteando leve por aí. Quando alguém escreve uma coisa séria, mergulha dentro dela, se afunda até os olhos; e, se tem sentimentos muito fortes, que lhe inquietam o coração, se é muito feliz ou muito infeliz por alguma razão, digamos, mundana, que não tem nada a ver com aquilo que está escrevendo, então, se o que escreve é válido e digno de vida, qualquer outro sentimento se apaga nele. Ele não pode pretender conservar intacta e fresca sua cara felicidade, ou sua cara infelicidade, tudo se distancia e some e ele está só com sua página, nenhuma felicidade ou infelicidade pode subsistir nele se não estiver estritamente ligado a essa página, não possui outra coisa nem pertence a ninguém, e, se não for assim, então é sinal de que sua página não vale nada.

Natalia Ginzburg, "As pequenas virtudes". Trad. de Maurício Santana Dias, via Facebook do Alcides Villaça 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Escrever....

Escrever não é só artesanato.  Não é uma coisa em que pacientemente se acumulam personagens e truques. É uma experiência religiosa que exige total convicção  da parte do criador e, como é nada natural, talvez acabe minguando cedo.

John Updike  em entrevista. 

domingo, 22 de setembro de 2019

sábado, 21 de setembro de 2019

A fala.....

A palavra falada é como uma abelha: tem mel e tem ferrão.

Talmude

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Assédio...

Pense bem...  aceite meu  convite. Você come porque lhe dou dinheiro. Você mora com meu dinheiro. Esse uniforme é meu, eu poderia pedir para você tirar ele agora, aqui, deixar você  só de calcinha e sutiã, que por sinal  foram comprados com meu dinheiro. Seus cabelos estão loiros com o dinheiro que você ganhou de mim. O vestidinho bonito que você coloca pra ir pra casa também saiu do meu bolso.

Eu trabalho honestamente e compro minhas coisas,  pago minhas contas....

Pense bem... tem um monte de gente querendo seu emprego,  todo dia tem gente no escritório,  algumas até bonitinhas, oferecidas, tá fácil preencher vagas, é  tirar uma e colocar outra, o dinheiro vai de uma para a outra, as contas ficam...

As palavras chovem sobre seu corpo encurvado por esfregar o chão...

Pense bem.... dinheiro é tudo, tudo, tudo e mais alguma coisa, move o mundo, não é o amor não,  é  o dinheiro, o dindim que move o mundo, as pessoas. Sem dinheiro não existe amor. Mas o dinheiro vive bem sem amor, compra o amor se for preciso. 

A voz dele ecoa nos azulejos como trovão e penetram fundo nos ouvidos dela...

Pense bem.... Não estou pedindo muito... eu sei que você não desgosta de mim, acha graça nas minhas piadas, se interessa pelas estórias que conto, eu te trato bem, sou educado,  limpinho, não tomo intimidades assim à toa...

O pano de chão dela quase esbarra no mocassim preto dele, com fivela prateada...

Pense bem... sua negativa pode por tudo a perder. A vida não está fácil aí fora. Você sabe muito bem, seu marido está sem trabalho há dois anos. A cerveja dele sai daqui da empresa, o pedaço de carne, o feijão,  tudo, tudo, como esse pano de chão,  a vassoura, o balde, suas botas, as luvas, tudo sai do meu bolso...

Você pode ir pro lado de lá para eu limpar esse pedaço?

Pense bem... Não não estou pedindo muito, só uma saidinha para a gente conversar, se conhecer melhor, ir prum lugar mais agradável,  longe desse banheiro,  baldes, vassouras, panos de  chão, tomar umas bebidinhas,  comer umas coisinhas gostosas....

Ela sente medo, abre as portas dos reservados e investe nos vasos sanitários...

Pense bem... ninguém precisa saber de nada, o assunto é só nosso, só ser discreto. Gosto de você, do seu trabalho, acho que você fica bonitinha nesse uniforme, mas merece coisa melhor, que eu posso dar pra você.... a gente conversando, quem sabe, se conhecendo melhor, estou precisando mesmo trocar uma encarregada que não colabora mais, quem sabe a vaga pode ser sua, trabalhando de vestido, cabelos soltos, brincos novos, sapatos de salto alto, eu pago com gosto...

Ela se vê nos espelhos em cima das pias que limpa, fica bem de uniforme, o corte marcial e a cor lhe são favoráveis, mas pensa que não merece isso que está acontecendo...

Pense bem... não veja a situação como o patrão e  a empregada, mas como duas pessoas que se gostam e compreendem as necessidades do outro....  Pense bem.... estarei na saída.

Ela pensou. Torceu o pano de chão imundo e refletiu. Lavou, tá limpo, pronto pro uso, quase novo. Ninguém saberia dizer, olhando para ele lavadinho, pendurado no varal para secar, por onde teria andado, que sujeiras tinha limpado, ficavam só nódoas indefinidas. Ela era superior ao pano? Todos pisavam neles...

Ela pensou ao tomar banho e trocar de roupa. Se sentiu só, muito só, com medo, muito medo. Será que todas tinham que escutar isso? Precisa desse emprego, precisa do dinheiro desse emprego. Pensa no desespero do marido, dois anos só com pequenos bicos, seu desalento, sua vergonha. Discrição. Ninguém precisaria saber de nada. Lavou, tá limpo, realmente, só ficarão mentiras, náuseas e nódoas na alma...  

José FRID

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Presente, futuro - passado

Não há presente ou futuro - apenas o passado , a acontecer de novo e de novo.

Eugene O'Neill

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

terça-feira, 10 de setembro de 2019

De graça até injeção na testa?

De graça até injeção na testa e ônibus errado, diz o ditado popular. Será que vale para mulher feia, canhão?

Alego que estou sem dinheiro para as bebidas, ela paga. Sem carro, vamos no dela. Sem dinheiro para o motel, ela saca o cartão. Sem camisinha, ela tem na bolsa.

Que faço??

Relaxo e gozo?

José FRID

(25/02/2011)

domingo, 8 de setembro de 2019

O nada....

[...] Agora o sol do meio-dia já dissipou as nuvens,  e o céu que ele vê através do para-brisa é vazio e frio, e há um nada a sua frente,  o nada dos olhos azuis de Ruth, o nada que ela lhe disse que faz, o nada em que ela acredita. 

John Updike  em Coelho corre, Companhia das Letras,  1992, págs. 88/89