sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Algarismos sem retórica

[...]
E por falar neste animal [burro], publicou-se há dias o recenseamento do Império, do qual colige que 70% da nossa população não sabe ler.

Gosto dos algarismos porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outros, não o escolhem. são sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases; o algarismo não tem frases, nem retórica.

Machado de Assis in História de Quinze dias, 15 de agosto de 1876

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sobre contos.....

Cada dia é, em si mesmo, segundo Sêneca, uma vida singular; por outros termos, uma vida dentro da vida. Não digo que não; mas por que não acrescentou ele que muitas vezes uma só hora é a representação de uma vida inteira?

Machado de Assis sobre os contos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Do abstrato ao .....

Tenta ir do abstrato ao concreto.

O abstrato é a dor dos outros.

O concreto é a dor dos outros incidindo sobre seu corpo até invadi-lo por inteiro.

O concreto é algo que não pode fazer nada além de crescer.

Algo como um tumor ou o contrário de um tumor: um filho.

No seu caso é um tumor.


Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.32 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como os cachorros....

Quando era criança você adorava o silêncio. Depois quis que as palavras te inundassem e te submergissem. Mas você sabia nadar, ninguém precisou te ensinar. Com a gente, você pensa, fizeram que nem fazem com os cachorros: simplesmente nos jogaram na água e aprendemos a nadar ali, na hora.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.31  

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

A menina - Alice Soares


Pastel e nanquim sobre papel,  1987

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Emagrecer.....

A balança marca 92,1 quilos. Você sintoniza o rádio na 92,1 FM. Detesta essa rádio e todos os programas dela. Precisa emagrecer.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.31

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

Consequências do toque de recolher....

O toque de recolher consiste na proibição de circular livremente pelas ruas de determinado território.

Costuma ser decretado em tempos de guerra ou de revoltas populares.

No Chile, a ditadura o impôs de 11 de setembro de 1973 até 2 de janeiro de 1987.

Numa noite de verão, meu pai saiu para caminhar sem rumo certo. Acabou ficando tarde, teve de dormir na casa de uma amiga.

Fizeram amor, ela engravidou, eu nasci.


Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.45

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Filhos, cães e gatos

[...]

Outra coisa, aproveitando o espaço, sobre cachorros e gatos: os pais querem que os filhos sejam cachorros, mas os filhos sempre são gatos. Os pais querem domesticar os filhos, mas os filhos, como os gatos, não são domesticáveis.

Alejandro Zambra in Múltipla escolha, Planeta, 2017, pág.105 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A função da literatura

A função da literatura não é a de refletir a realidade, e sim a de criar uma realidade que só a linguagem tem condições de produzir. 

A literatura é a realidade da linguagem, e não a realidade da vida, que se exprime através de uma des-linguagem.

Lêdo Ivo in O aluno relapso/Afastam-se das hélices, Apicuri, 2013, pág.35  

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Contador de histórias

[...]

E repare o leitor como a língua portuguesa é engenhosa. Um contador de histórias é justamente o contrário de historiador, não sendo um historiador, afinal de contas, mais do que um contador de histórias. Por que essa diferença? Simples, leitor, nada mais simples. O historiador foi inventado por ti, homem culto, letrado, humanista; o contador de histórias foi inventado pelo povo, que nunca leu Tito Lívio e entende que contar o que se passou é só fantasiar.

Machado de Assis in História de Quinze dias, 15 de março de 1877

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Sublime obsessão


Obsessão pela forma?
Mas nenhuma forma forma.
Nem informa. Só deforma.
Busco a forma que transforma
em poesia a própria forma.


Lêdo Ivo in O aluno relapso/Afastam-se das hélices, Apicuri, 2013, pág.25  

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

domingo, 18 de novembro de 2018

Objeto de arte


Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.
 
Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira
 
Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz
 
À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.
 
Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus
Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.
 
Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.
 
Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,
Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.


Dante Milano in Poesia e prosa, Civilização Brasileira, 1979. p.177-178. (Coleção vária). Poema integrante da série Últimos Poemas.
  

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Lição de retórica

A exatidão
é uma ficção
como o sim e o não
ou a contramão.



Lêdo Ivo in O aluno relapso/Afastam-se das hélices, Apicuri, 2013, pág.31

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Descobrimento da Poesia

Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber,
Sem saber o que dizer,
Quero escrever urna coisa
Que não se possa entender,

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.



Dante Milano

sábado, 10 de novembro de 2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Conhecimento do amor



Se o fruto já maduro da experiência
Me deu de amor algum conhecimento,
Só sei dizer que o seu entendimento
É saber que transcende toda ciência.

Com que palavras o direi? — "Paciência"
Ou "Impaciência", "Alento" ou "Desalento".
Quereis outra palavra? "Alheamento".
Outra? "Presença" ou sua igual "Ausência".

Esquecimento de si mesmo: olvido.
Quantas vezes morri sem ter morrido,
Sem sentir ao morrer nenhuma dor.

Nem a morte é culpada de tal morte,
Até a deseja o amante em seu transporte:
Só ela é eterna como o seu amor.



Dante Milano

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Imagem



Urna coisa branca,
Eis o meu desejo.

Urna coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca.
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo,

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Urna coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,

Fria e sem Deus.



Dante Milano