terça-feira, 23 de julho de 2019

Pintura

A pintura é uma gravação da emoção.

Edward Hopper

domingo, 21 de julho de 2019

Noite dentro....

Fazia alguns anos, Lurdes se familiarizara com a noite que levava dentro. Não a noite espessa e agourenta, mas uma escuridão tranquila e vagarosa, em que as coisas se haviam acomodado. Apesar disso, de manhã, à mesa, tudo se coloria, e quando a filha e o marido tomavam café, e a fumaça evolava-se das xícaras, flores amarelas tinham se espalhado, distraídas, sobre a toalha: a mãe à cabeceira era a dona da casa. Nessas horas longe da escuridão, Lurdes convencia-se de que a filha era uma boa menina tomando seu leite, e que o marido, barba recém-feita, tinha a compenetração do recato.[...]

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.113

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Utilidade da morte....

[...] Para isso serve a morte: para que inventemos nossos queridos na medida de nosso desconsolo. [...]

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.110  

sábado, 13 de julho de 2019

Olhos...

Mesmo quem está perdido, está indo numa direção,
só não sabe qual.
Mesmo quem está perdido, segue um sentido,
só não sabe qual.
Ela caminha pra diante,
os olhos não sentem a curva ...
                                                           J.FRID

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Aquilo...

Pedi dois litros de amor. Só tinha em comprimidos.
Levei uma cartela com trinta, um por dia.
Passado o mês, vou comprar ódio.
Dizem que é tão bom quanto e mais barato.
Vendem a quilo.
                                                           J.FRID

terça-feira, 9 de julho de 2019

Água pura da tristeza......



Parados no meio da sala, desconhecendo meu egoísmo, secaste minhas lágrimas com mãos desveladas, me abraçaste, a me conter junto a teu peito. Balançavas o corpo de um lado a outro, de um lado a outro, cadência boa, mar em compasso de calmaria, como quem embala um bebê, como quem sabe lidar com a água pura da tristeza, tranquilidade azul de quem se atritou uma vida com a aspereza.[...]

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.109  

segunda-feira, 8 de julho de 2019

domingo, 7 de julho de 2019

Meu amor....

[...] Mais uma vez o gemido, e outro, e ele, rápido, arfou e disse coisas e insistiu nela, cada vez mais rápido, cada vez mais, e ela agora sem jeito, dispondo-se, contornando-se ao prazer alheio, fazendo-se o vaso das coisas que viriam. Foi quando ouviu:
- Meu amor.
E ela, que não era amor de ninguém, compreendeu que estava alforriada pela impostura, que tudo estaria acabado a partir de agora: finalmente abriu os olhos, finalmente e a tempo de ver o homem que tombou abatido e inútil a seu lado na cama. Meu amor, ele ainda ousou repetir, esforçando os lábios numa palavra que não cabia em sua boca, não no meio daquela cama no meio daquele quarto de solteiro. O homem limpou-se com o lençol e, antes de fechar os olhos baços rumo ao sono, deu-lhe um sorriso, como se fosse meigo ou terno, brando só porque estivera nu e se repletara numa mulher.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.91  

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Olhos fechados....

Por enquanto, ela se dispunha só assim: de olhos fechados. E se abrisse os olhos e lhe perguntassem para onde olhava, não saberia responde - decidira-se, por fascinação, a um início; inclusive se havia disposto a estar somente de olhos fechados. Tudo era partida: despira a roupa e postara-se de quatro, sobre os joelhos e sobre as palmas da mão, e ainda sem entender o que viria a seguir, pensou - um pensamento capaz de assombrar a precariedade que tem uma mulher nua, de quatro e de olhos fechados -, pensou que, se uma pessoa fizesse apenas aquilo que alcança o entendimento, não avançaria um passo. Mas não era caso de avançar, não era caso de entender, era só caso de dispor-se ali, à espera, nua, de quatro, olhos fechados, conforme lhe fora dito. Conforme lhe ordenara o homem de alguma idade que....

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.87  

terça-feira, 2 de julho de 2019

Ficciones

Cheguei à casa do professor pelas sete da noite. O volume de Ficciones agarrado junto aos seios. Toquei a campainha. Ele abriu a porta: recebeu-me sem surpresa. Meu coração trocou o tempo em que batia, e eu acolhi, enfim, como quem aprende, a nódoa.
O rosto de um homem daquela idade era finalmente bonito

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.85  

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Ao mar.....

A mocinha e o senhor....

Rimos os dois. Parados, de frente um para o outro, ríamos juntos, e eu temi que fosse feliz na hora errada. Num gesto imprevisto colocou-me as mãos sobre os ombros. Estaquei: uma mulher se depara como mulher frente a um homem poucas vezes no espaço de uma vida. Atendendo a algum impulso subterrâneo, abracei-~lhe o corpo. Ele suspendeu a respiração. Para uma mocinha, e para um senhor, para nós dois, o contato físico era um dom inesperado. Ele retribuiu o abraço com muita força e encostou, como se fosse permitido, o rosto ao meu. Conheci a pele escanhoada. Era macia.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.82  

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Sóis de gemas...

[...] Sem que eu pedisse - sem que eu merecesse -, colocara, ao lado do bule, quindins lisos e perfeitos. E como me oferecesse sóis de gemas, a fome veio. Levei o doce à boca, o ovo feito geleia, e o açúcar suavizou meus lábios.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.79  

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Leões e a história....

Até que os leões tenham seus próprios historiadores, a história da caça sempre glorificará o caçador.


Chinua Achebe in Things Fall Apart.  

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Amizade....

[...] Sou velho, a morte está ali ao lado - apontou com o queixo uma das prateleiras de livros -, mas ainda não somos amigos.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.77  

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Geometrias históricas...

Orgulhosa de juventude....

[...] Cedeu passagem recuando o corpo, e senti que me observava. Por vaidade, contraí as nádegas e alteei o queixo. Por vaidade. Foi assim que penetrei naquele lugar, com o coração ainda escuro - ainda sem nódoa.

O gabinete era amplo , e prateleiras repletas de livros enchiam o ambiente. Numa parede sobre a qual se aplicara um papel de um bordô muito profundo, dominava essa pintura a óleo, de cores bastantes tênues: uma mulher, jovem, trazendo ao peito um colar de pérolas. Senti que o homem ainda observava. E, orgulhosa de juventude, ainda mais contraí as nádegas, fingindo observar o retrato.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.70

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Silêncio....

Na primeira noite em que Beatriz dormiu no apartamento, o silêncio tornou-se uma suspensão de vida. era um silêncio que se interpunha à própria quietude, tão total e tão calado que mesmo o silêncio de uma pessoa morta quebraria.

Cíntia Moscovich in Arquitetura do arco-íris, Record, pág.37