terça-feira, 31 de março de 2020

segunda-feira, 30 de março de 2020

Uma senhora bastante virtuosa....

Nasci há uns trinta anos, numa família de proprietários rurais bem abastada. Meu pai era um jogador compulsivo; minha mãe, uma senhora de caráter... uma senhora bastante virtuosa. Só que nunca conheci uma mulher cuja virtude lhe proporcionasse menos  satisfação. Sucumbiu sob o peso de sua própria dignidade e tiranizava a todos, a começar por si mesma. Ao longo de seus cinquenta anos de vida, nunca se permitiu um descanso nem ficou de braços cruzados; estava sempre se movimentando e ocupada como uma formiga - e sem nenhuma utilidade, o que não se pode dizer da formiga. Um verme infatigável a corroía dia e noite. Uma única vez eu a vi totalmente serena; justamente no dia seguinte ao de sua morte, no caixão. Contemplando-a, juro, pareceu-me que seu rosto expressava um assombro sereno; era como se os lábios entreabertos, as faces cavadas e os olhos docilmente fixos soprassem as palavras: "Como é bom repousar!". Sim, é muito bom poder finalmente se livrar da consciência martirizante da vida e dos sentimentos obsessivos e inquietantes da existência!

Ivan Turguêniev in Diário de um homem supérfluo, Editora 34, pág.10


domingo, 29 de março de 2020

quinta-feira, 26 de março de 2020

Um visitante


Quem escreve
é
um visitante

Chega nas horas da noite
e toma o lugar do
sono
Chega à mesa do almoço
come a minha fome

Escreve
o que eu nem supunha
Assina o meu nome

Eunice Arruda, por Rubens Jardim

sábado, 21 de março de 2020


FELICIDADE...

Gravar entrevista? Pode sim. Senta aqui do meu lado, assim não atrapalha meu trabalho. Tá gravando? Pode perguntar... Dizem por ai que sou gordo e feliz? Feliz sim, gordo não, pelo amor de deus. Cheinho, forte, pode ser. O que é ser gordo, diz pra mim. Ter sobrepeso? Barriga? Cara redonda? Braços roliços? Não, pra mim gordo é quem se sente gordo, obeso, inchado, quem não pode fazer as coisas que quer. E eu não me sinto assim não. Tenho barriga, sim, mas só barriga, mais nada, uma barriguinha saudável, nem atrapalha, consigo dar laço nos meus sapatos. Sou é grande, largo, mamãe que fez assim. Toda a minha família tem cara redonda, sinto nos dedos. Família lua cheia, sabe? Caminho muito, devagar e sempre, mas vou pra todo lado com minha bengala, o que muita gente não faz. Ando daqui até a Augusta, subo até a Paulista. Feliz? Sim, feliz com meu corpo e com minha vida. Dentro do possível, né. Podia ser mais feliz, claro, ganhar na loteria, estudar mais, ter outro emprego, mas também poderia ser menos, ser infeliz, como muitos que encontro por aí, jogados na rua... Poucos têm uma mulher como a minha, maravilhosa, filhos legais, amigos... Tem um povo que fica ali, do outro lado da rua, gritando e batendo na bíblia, falando de demônio, essas coisas, esse povo só pode ser infeliz, muito infeliz. Também são infelizes o que ficam pedindo para as ciganas do viaduto ler a sorte... Quem quer saber do futuro não está feliz com a vida, quer ver mudanças, quer saber se vem felicidade pela frente, não é mesmo? Ainda bem que as adivinhas sempre dizem coisas boas para os clientes, que vai aparecer o príncipe encantado, um emprego novo, essas baboseiras, senão seria uma chuva de gente caindo do viaduto nos carros lá embaixo... O que é felicidade pra mim? Complicado... Uma vez escutei num dicionário que felicidade seria "um estado durável de plenitude, satisfação e equilíbrio físico e psíquico, em que o sofrimento e a inquietude são transformados em emoções ou sentimentos que vão desde o contentamento até a alegria intensa ou júbilo, significando bem-estar espiritual ou paz interior", se não me falha a memória. Minha memória é muito boa, presto atenção e gravo tudo. Memória de elefante, dizem. Não gosto dessa frase, pois fico sem saber se é elogio sincero ou deboche. O povo é cruel, um bando de hienas, aproveita qualquer falha nossa para atacar. O elefante é um bicho grande, já pus a mão num deles no zoológico, lembro bem, mais alto que minha mão esticada, largo, não dá para abraçar, maciço, vigoroso, uma pata imensa, tromba grossa, esquisita... Queria tocar a girafa, o hipopótamo, mas não deixaram... Felicidade? Pois bem, a definição começa com um estado durável... Logo não é permanente, constante, eterna. Com isso eu concordo, eu e o Lupicínio, que canta que a felicidade foi-se embora... Acho que a gente é feliz e nem sabe. Quando acaba a felicidade é que a gente percebe que era feliz... O dicionário fala em estado de plenitude e de satisfação, que todo mundo sabe o que é. Come bem e fica satisfeito, trepa e fica satisfeito, bebe bem e fica satisfeito, dorme bem e fica satisfeito... A definição diz que a felicidade transforma sofrimentos e inquietudes em contentamento, em alegria. Ora, então felicidade é uma máquina que transforma sofrimentos em alegrias. Todo mundo quer, mas não tem pra vender! Cada um tem que inventar a sua própria máquina. O cara feliz é alegre. Sou feliz, sou alegre. Quem olha para mim, aqui no trabalho, talvez não veja alegria em mim, pelo contrário, só vê tristeza, dor... Ledo engano, sou um cara taciturno, mas sou muito alegre. Gosto de palavras difíceis, viu. Ledo engano é uma delas, escutei aqui na rua, o computador disse que era um engano que a pessoa faz pensando que está fazendo certo. Quantos a gente não faz, né? Ledo engano. E taciturno é bonito, escutei num livro e no dicionário: "aquele que por natureza fala pouco, que denota melancolia, que inspira sentimentos lúgubres ou macabros, que tem mau humor". Ledo engano, só falo pouco, só isso. Não agora, né, estou falando pra burro. Aqui no trabalho fico quietinho, no meu canto, fico só na minha, taciturno. Faz parte do meu show, como canta o Cazuza. Quem me vê pensa logo em infelicidade, e ver a infelicidade do outro é desagradável, machuca, aí tentam compensar, minha mão tá ali, esticada, pronta... Saem felizes, achando que sou infeliz. Ledo engano. Como canta o Seu Jorge, "felicidade é viver na sua companhia, felicidade é estar contigo todo dia, felicidade é sentir o cheiro dessa flor, felicidade é saber que eu tenho seu amor...", conhece a música, não? E ele ainda diz que "felicidade, é acordar do seu lado, tomar um café reforçado, depois sair pra correr com você..." Porra, assim sou feliz para caralho, tenho minha casinha, minha nega chamada Tereza, como a do Jorge Bem, meus filhos, meus amigos, vivo em paz, que mais eu quero? Talvez correr, mas andar tá bom... A música também diz que "felicidade é num fim de semana, curtir uma praia bacana, um pôr do sol de arrasar..." Gosto muito de praia cheia de gente, músicas, crianças brincando, o marulhar das ondas do mar, os vendedores ambulantes gritando seus produtos, cervejinhas, pastéis, camarões... Agora, pôr do sol não é pra mim, não vejo graça nele, entende, não? O Janeci canta a felicidade também, conhece o cara, não? Sou muito musical, todo ouvidos como diz meu filho mais velho. "Melhor viver, meu bem, pois há um lugar em que o sol brilha pra você, chorar, sorrir também e dançar, dançar na chuva quando a chuva vem...", já dançou na chuva? Muito bom, muito bom, adoro andar na chuva, gostaria de pular nas poças, mas não consigo vê-las... Ele completa que "tem vez que as coisas pesam mais, do que a gente acha que pode aguentar, nessa hora fique firme, pois tudo isso logo vai passar..." Ledo engano, nem tudo passa, passa não, a gente tem que viver assim mesmo, transformar o sofrimento em alegria, não é mesmo? Eu faço isso, é meu lema, não deixo o sofrimento ficar grande, corto logo, as dores também, alegria, alegria. "Você vai rir, sem perceber, felicidade é só questão de ser, quando chover, deixar molhar, pra receber o sol quando voltar...", minha voz é boa, acho que vou ser cantor, não pareço o Steve Wonder? O sol sempre volta. Isso é uma verdade. E felicidade é questão de ser feliz e sou, mesmo sendo gordo, cego, pobre... Porra, alguém cuspiu na minha mão!

José FRID

quinta-feira, 19 de março de 2020

Urina fedorenta...

- Vai se foder, puta ordinária, com suas vizinhas doentes, vai te foder, pássaro da noite, espantalho da noite, pesadelo da noite, lembrança da minha burrice, monumento de minha estupidez, lixo de minhas lembranças, urina fedorenta de minha juventude...


Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, págs. 84/85   

segunda-feira, 16 de março de 2020

Escrever

Escrever, ao menos bons textos, é algo radicalmente artificial. É um trabalho organizado, planejado, intensivo e exigente de organização e formalização do que alguém pensa ou sente. Há pouca coisa de espontâneo na escrita,especialmente na escrita acadêmica. Claro, é possível imprimir um ar de naturalidade e de espontaneidade a um texto, mas isso requer um trabalho muito intenso. É quase impossível ficar bom na primeira versão.

Além disso, escrever é afetar, mexer com os humores, com os neurônios,interpelar. Escrever é sempre uma provocação, no limite, física. Afinal, ler movimenta quimicamente o cérebro, causando indignação, alegria, raiva, medo,tranquilidade, cansaço. Escrever é uma atividade semelhante a compor letra e melodia. É um trabalho minucioso, de relojoeiro, que procura gerar efeitos racionais e emocionais com premeditação e o máximo de precisão.

Por isso mesmo, é sempre útil imaginar, sonhar, como o tipo de leitor e leitora que você deseja atingir, seja para seduzir, seja para desafiar. Saborear antecipadamente as eventuais reações das pessoas que eu espero que leiam o meu texto ajuda no processo de escrita. Como eu já disse aqui, em grande parte,o mero ato de escrever se basta. No entanto, se ele fosse fechado em si mesmo,seria o caso de não publicar nada, certo?

No meu caso, eu escolho pessoas bem concretas, todas com nome e sobrenome.Algumas delas constam das minhas dedicatórias, outras não, é claro,especialmente as que eu pretendi desafiar em um tom mais agressivo.

José Rodrigo Rodriguez em entrevista a  José Nunes para o projeto "Como eu escrevo".

quinta-feira, 12 de março de 2020

Eleito

O sentimento de ser eleito está presente, por exemplo, em toda relação amorosa. Pois o amor, por definição, é um presente não merecido; ser amado sem mérito é até mesmo prova de um verdadeiro amor. Se uma mulher me diz: amo você porque você é inteligente, porque é honesto, porque me compra presentes, porque não anda atrás das outras, porque lava a louça, fico decepcionado; esse amor me parece interesseiro. Como é mais bonito ouvir: sou louca por você apesar de você não ser nem inteligente, nem honesto, apesar de você ser mentiroso, egoísta, ordinário.

Talvez seja quando é ainda bebê que o homem conhece pela primeira vez a ilusão de ser eleito, graças aos cuidados maternos que recebe sem mérito e reivindica ainda mais energicamente. A educação deveria livrá-lo dessa ilusão e fazê-lo compreender que tudo na vida se paga. Mas muitas vezes é tarde demais.



Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, pág. 53   

terça-feira, 10 de março de 2020

Lentidão e memória....

Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Imaginemos uma situação das mais comuns: um homem andando na rua. De repente, ele quer se lembrar de alguma coisa mas a lembrança lhe escapa. Nesse momento, maquinalmente, seus passos ficam mais lentos. Ao contrário, quem está tentando esquecer um incidente penoso que acabou de viver sem querer acelera o passo, como se quisesse rapidamente se afastar daquilo que, no tempo, ainda está muito próximo de si.

Na matemática existencial, essa experiência toma a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.



Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, págs.. 42/43   

sexta-feira, 6 de março de 2020

Conversa com o membro....

A penetração não aconteceu. Não aconteceu porque o membro de Vincent está pequeno como uma framboesa murcha, como o dedal de uma bisavó.

Por que está tão pequeno?

Faço essa pergunta diretamente ao membro de Vincent e este, francamente espantado, responde:

- E porque não deveria ficar pequeno? Não vi necessidade de crescer! Acredite, essa ideia, realmente, não me ocorreu! Não fui avisado. De comum acordo com Vincent, acompanhei essa curiosa corrida em volta da piscina, impaciente para ver o que ia acontecer! Diverti-me muito! Agora, vocês vão acusar Vincent de impotência! Por favor! Isso iria me culpabilizar horrivelmente e seria injusto, pois vivemos numa harmonia perfeita, e juro, sem nunca nos decepcionarmos um com o outro. Sempre tive orgulho dele e ele de mim!

O membro falou a verdade. Aliás, Vincent não está nada ofendido com o comportamento dele. Se seu membro agisse dessa forma na intimidade de seu apartamento, ele nunca o perdoaria. Mas aqui, está pronto a considerar sua reação como razoável e até mesmo decente. Decide portanto aceitara as cosias como são e começa a simular o coito.


Milan Kundera in A Lentidão, Nova Fronteira, 1995, págs. 122/123  

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

um dia, nos setenta:

um dia, nos setenta:

cheguei da rua
carregando uma maçã
e seis meses de desemprego.
li uma carta de minha mãe
fechei as janelas
a porta, a cara
deitei-me no chão
e abri o gás.
esperei.
e, somente meia hora depois,
descobri o gás cortado
por falta de pagamento.
levantei-me
e comi a maçã:
nu e louco
 como o quadro da bienal.

Marçal Aquino

domingo, 23 de fevereiro de 2020

O outro homem da mulher que amo


O outro homem da mulher que amo,
há nele as minhas marcas que são dela
e sempre encontro indícios dele quando
ela se despe e se abre e posso tê-la.

No corpo dela, o gotejar frequente
de nós, formando sulcos, vias, trilhas,
dentro da noite em que ela se oferece,
não deixa que nos sobre alternativa:

eu sigo os mapas dele, acrescentando
ao já sabido as minhas descobertas,
e ele me segue na mulher que amamos.

Pois tanta variante há no caminho
que – ou dois ou nada – um de nós apenas
não vai sobreviver nela sozinho.

Miguel Mararvilla in Tanto amar, p. 17.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Poema para 2002


Caxumba, catapora, amigdalite,
miopia, nevralgia, crise asmática.
Dor de dente, dor de corno, hepatite,
diabete, arritmia e matemática.

Helenas, Marianas e Marcelos,
tomate, hipocondrias e chicória,
sacerdotes, baratas, pesadelos,
calvície, dentadura e desmemória.

Pé quebrado, verso torto, ruim de bola,
nervoso, nariz grande, cu de ferro.
Desastrado, imprudente e noves fora,

muita prosa pr'um gozo quase zero.
E para coroar todos os danos
bem-vindos sejam os meus cinquenta anos.

Antonio Carlos Secchin in Todos os ventos, 2002.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O menos vendido


Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

Ricardo Silvestrin in O menos vendido, 2006

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Praia...


Angra dos Reis

Pragmático?

(Continuação de "Pragmatismo" - ver em 05/02/2020)
/
- Por que só os jovens podem dispor de corpos jovens? Por quê?
- Boa pergunta! Precisamos de outra cerveja. Garçom! Uma Original agora!

Um bar próximo de uma faculdade, sexta à noite, dois professores doutores conversando. Têm quase cinquenta anos, casados, três filhos um, dois o outro.

- Antigamente não era assim. Veja em Machado de Assis, moças de quinze anos com homens com quase quarenta anos. Charles Dickens, com cinquenta e oito, trocou mulher e dez filhos por atriz de dezoito anos. Ela uma graça, ele velho, careca e barrigudo. Nâo deixou de ser um ilustre e querido escritor.
- Mas... Por que mesmo estamos falando desse assunto?
- Estou numa enrascada, envolvido com um corpo jovem, 18 aninhos....
- Você? Alguma aluna? Copiando o reitor?
- Não, não é da escola. Ela trabalha numa loja perto do campus.
- Meu amigo papa-anjos! Quem diria! Caçando fedelhas pelo bairro.
- Caçando nada. Nem sei como aconteceu, tudo foi tão rápido. Um sorriso, umas conversas, quando vi já estava pagando o apartamento dela...
- Então é sério! Largou a Cecília para ficar com a ninfeta??
- Não, você não entendeu nada. Só tô pagando.
- E comendo, não? Conte-me tudo, principalmente os detalhes sórdidos!
- A coisa é simples: um homem, uma mulher, desejos e só.
- Mas como uma ninfetinha foi dar bola para um velho careca e barrigudo?
- Velho não, quarenta e cinco anos só. Tô bem conservado. Pergunte para ela.
- É puta?
- Não! Moça de família, trabalhadora.
- Mas aceita seu dinheiro...
- Não é isso. Ela dividia o apartamento com duas colegas, que deram para trás. Não consegue bancar sozinha, fiquei com pena e estou ajudando a menina.
- Safado! Se aproveitando de uma menina inocente.
- inocente é exagero, muito esperta. Não sei quem se aproveita de quem.
- Tá valendo a pena?
- Tá. Tô revigorado. Tava mesmo precisando de uma coisa assim.
- Bonita? Gostosa? Boa de cama?
- Talvez. O conjunto é que importa. Tinha esquecido como é uma pele jovem, macia, firme, lustrosa. E uma bundinha dura, empinadinha, peitinhos durinhos, olhando pra mim, que cabem na mão. Ela é uma máquina do tempo, me leva direto aos meus vinte anos, ao tempo da faculdade, às estudantes, às festas....
- Melhor que Cecília?
- Não sei, não dá para comparar. Cecília é uma mulher completa, não é só o corpo. É o meu presente, o futuro. A menina é o passado. Quero as duas.
- Mas com toda a sua empolgação,  a menina pode ser o seu futuro...
- Tenho vinte e sete meses para decidir.
- Por que vinte e sete?
- O contrato de aluguel, trinta meses. Já se passaram três meses.
- É foda, amigo. Uma enrascada deliciosa, mas complicada. Como aconteceu?
- Cecília pediu uma forma de pudim. Na loja tinha dezenas de tipos. A menina mostrava uma, eu tirava foto e mandava para a Cecília...
- Então ela sabia que você era casado! Safadinha!!
- Ela tinha que abaixar e pegar cada forma, depois devolver, pegar outra. A camisetinha subiu e mostrou seu umbigo com um piercing com três estrelinhas, uma no buraquinho e duas penduradas em correntes. Uma graça. Perguntei se tinha doído, ela respondeu que não, mas os dos seios foram dolorosos. Colou a camiseta no corpo, apareceram uma barrinha com duas bolinhas em cada bico. Rapaz, aqueles seios duros, apontados para mim, quase perdi a cabeça. Fui salvo pelo zap da Cecília mostrando qual forma comprar. Tudo podia ter parado aí se Cecília não me mandasse voltar lá para trocar a forma por outra e mais  outra, comprar uma escumadeira, etc., nisso vi uma tatuagem no cóccix, ela disse que tinha outras, conversa vai, conversa vem, o estrago estava feito.
- Então a Cecília é que é culpada do seu namorico?
- Culpa concorrente! Se eu não tivesse que voltar várias vezes à loja...
- Safado! Mas é isso, meu amigo, cai dentro, mas não esqueça a camisinha!

JOSÉ FRID

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Conselhos do Marcos Rey para quem pretende lidar com as palavras....



• Releia, linha a linha, o que foi escrito. Se possível, em voz alta.
• Consulte um dicionário para acertar na grafia das palavras. Há palavras que escrevemos errado a vida inteira.
• Cuidado com a acentuação. No Brasil já houve diversas reformas. A última tornou acentuar muito fácil. Mas é preciso saber as regras.
• Um erro de crase pode arruinar uma reputação.
• Pontuar não é sopa: há bons escritores que erram muito. Saiba, porém, que a vírgula não é enfeite e o ponto facilita muito a construção das frases.
• Escritor experiente não abusa de sinais.
• Deixe sempre claro quem está falando. Use aí o travessão. Aspas no geral só confundem e poluem a página.
• Cada ideia numa linha. Não acumule informações numa única.
• Corte sem dó todas as palavras desnecessárias. As que não tiverem função na frase, varra. São lixo que enfeia a leitura.
• Leia muitas vezes algumas páginas, contos e crônicas de grandes autores. É o melhor jeito de aprender.
• Evite a repetição de palavras e, principalmente, dos que, quais, porque, mas, como, tanto, quanto, de, pois, porém, que revelam dificuldade de redação. Mas não basta cortar. É preciso descobrir outras formas de dizer.
• Nunca repita ideias. Também não precipite desfechos.
• Cuidado com a adjetivação.

 (Por Dante Mendonça)

Hora do almoço...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Esposa ideal...

Devan era mais um poeta do que um professor quando se casou com Sarla - fora contratado temporariamente pela universidade e tinha ainda confiança em sua poesia - e como mulher de um poeta ela parecia muito prosaica. Naturalmente a escolha não fora sua, mas de sua mãe e suas tias, mulheres astutas e cautelosas. Sarla era filha do amigo de uma das tias, morava na mesma rua dessa tia, elas a observavam há anos e achavam que era a mulher adequada em todos os sentidos: feia, econômica e pessimista de nascença.

  Anita Desai in Sob Custódia, Editora Rocco, 1988, pág.66