quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O Brasil por Millôr Fernandes

O Brasil está dividido entre os abertamente cínicos e os que não conseguem se conter.

  O Brasil está cada vez mais cheio de 'pobremas'.

No Brasil o otimista dorme com medo de acordar pessimista.

Brasil; um filme pornô com trilha de Bossa Nova.

O Brasil é realmente muito amplo e luxuoso. O serviço é que é péssimo.

E no oitavo dia Deus fez o Milagre Brasileiro: um país todo de jogadores e técnicos de futebol.  

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

MULHER CONTEMPORÂNEA?

Almeida Júnior,  1899!!!
(Detalhe de "A Saudade ")

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Filhos....

Que pé no saco ter filhos; aliás, por que mesmo as pessoas os têm? Penso que é um tipo de fantasia sadomasoquista da mulher que anseia por explodir em lágrimas, merda, urina, sangue e leite. É exatamente isso, e apenas isso. E, e preferência, o cretino do homem deve prover essa orgia.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.76

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O quê fazer com essa informação?

Ela acordou e percebeu que tinha morrido. Fechou os olhos, respirou fundo e abriu-os novamente. Sim, tinha morrido. Lá estavam o céu azul clarinho com nuvenzinhas brancas simpáticas, que seu pai copiara do teto de um cassino de Las Vegas. Tinha sido bom nesses anos todos acordar numa gloriosa manhã parisiense, com a Torre Eiffel ascendendo no cantinho, por trás da porta do quarto. Nem a segunda-feira mais negra resistia àquele azul digno de Monet. Paz, um céu de paz sobre ela, sua vida, seus pesadelos. Só abrir os olhos para os maus sonhos derreterem sob as nuvenzinhas algodoadas. E no meio dos estudos mais difíceis e/ou mais monótonos, gostava de dar uma pausa, levantar a cabeça e deixar o olhar navegar de nuvem em nuvem, sentir o azul celeste penetrar nos cantos mais escondidos do cérebro. 

 

Se o céu estava lá, no lugar de sempre, no chão estaria a amarelinha, que seu pai copiara da porta da sua primeira escola, o jardim de infância debruçado no mar. Uma trilha numerada que atravessava o quarto, indo dos seus chinelos à porta do banheiro, o céu da chegada. Sua mãe percebia quando ela acordava, os pulos de quadrado em quadrado ressoavam pela casa. Ficaria a manhã todo indo da terra ao céu e vice-versa se não fosse a bexiga querer estourar ou o berro de algum genitor sobre algum atraso em atividades cotidianas. O primeiro beijo fora ali, na casa sete, como prêmio ao namoradinho por conseguir pular direto da quarta à sétima. Fechou os olhos para lembrar-se do primeiro beijo, do rosto do namoradinho, do gosto do beijo, suas emoções na ocasião, mas só sobrara o registro histórico. 

 

A primeira vez. A primeira vez. Quisera muito que ela ocorresse sobre a amarelinha e sob o céu parisiense, mas os hormônios deles dois impediram que subissem as escadas, tudo ocorrendo na sala de estar, sobre o tapete amarelo com desenhos geométricos em preto. Sim, da primeira vez lembrava-se de tudo, não ficara só o registro histórico, mas todas as sensações, emoções, sentimentos, gostos, gozos, cheiros, o rosto de Ronaldo. Se a amarelinha e o céu gales ainda estariam no quarto, o tapete amarelo não resistiu à sua infância e adolescência. Leite, vômito, urina, doces, sopinhas, refrescos, macarronada, champanhe, arroz, sucos, feijão, refrigerantes, meleca, batom, cerveja, sangue, vinho, esperma, toda uma vida algum dia parara sobre o amarelo e o negro, manchas indeléveis que fizeram que fosse doado ao catador de bagulhos da rua. Morto, o tapete, não o carroceiro. Quem sabe, o homem também não estaria morto como ela?

 

A primeira vez fora no tapete, mas muitas outras sobre a amarelinha, em Paris, na casa quatro, na sétima, na décima, no céu, até na Torre Eiffel, com a dobradiça machucando suas costas. Na cama, sólida estrutura que aguentara todos os seus devaneios, madeira maciça escura com rebaixos redondos revestidos com borracha amarela.

 

Abriu os olhos: o céu azulzinho, a amarelinha, a cama preta e amarela. Morrera, com certeza. E agora? O quê fazer com essa informação?



José FRID

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Analgésico....

Aliás, foi de lascar quando comi a médica e, no meio da foda, com minha melhor voz de Marlon Brando, disse-lhe que devíamos ter começado bem antes... Ela: "você é todo polido". Raiva maior que a do Amanuense Belmiro quando Jandira diz que ele é analgésico! O cara queria ser estimulante, se possível estupefaciente e a tipa lhe brica com esse adjetivo ridículo! A-nal-gé-si-co.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.77

domingo, 5 de janeiro de 2020

sábado, 4 de janeiro de 2020

Cadáveres....

Passa por mim, em alta velocidade, uma caminhonete do IML com os dizeres "transporte de cadáveres", como quisesse avisar a todos nós que apenas ainda não somos cadáveres....

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Comendo tatus ....

O tatu caça-se usando cães e pás para cavar. Acuados pelo cachorro - que não cessa de latir - entram na toca e ao caçador basta cavar e retirá-los. Nem sempre é fácil: além de esforço louco de andar - muitas vezes de gatinhas, pela caatinga cheia de espinhos e cobras, tem a esperteza, a tenacidade do tatu, que muitas vezes escapa.

Outras vezes, enfia-se a mão na toca e, em vez de tatu, recebe-se uma picada de cobra.

O fato é que voltamos com dois, que é melhor do que enfrentar a zombaria dos que ficaram.

Deliciosa a carne de tatu: é um peito de frango mais úmido e mais enfezado. Comeremos o mais velho, ensopado, e o mais novinho, assado.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.57

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Adepto do diabo....

[...] Assim que chegamos ao hotel, uma pregadora entrou atrás da gente e começou a nos converter sabe-se lá a que facção do judaico-cristianismo.

Eles nada entendiam do que ela dizia e eu me disse adepto do Diabo. Foi um erro terrível porque ela se interessou imediatamente pelo meu caso e só foi embora quando o alemãoguinho, distraído e inocentemente tirou as calças para remendá-las liberando - uma vez que não usa cuecas - sua formidável piroka, que badalou as bordas da cuca da adventista provocando uma zoada demi-epileptique, da qual ela jamais se recuperará.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.218

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Natureza mata....

Intoxicado de tanta verdura, decido dar uma volta pelo centrão à procura de jornais que me falem algo da Pauliceia. 

Saudade de um bom escapamento de moto rasgando um túnel na medula.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.217

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Agredir primeiro.....

Quando surgiu o Secos & Molhados, na década de 1970, vivíamos num país muito conservador, machista - não muito diferente do que vivenciamos hoje, talvez hoje ainda seja pior -, então nós causávamos incômodo e estranheza com a carga de transgressão através da questão sexual, do comportamento. Tínhamos consciência de que vivíamos num país careta, submetido a uma ditadura militar agressiva e nojenta. Recebi inúmeras ameaças de morte, mas nunca me intimidei. Minha arma era a libido. Sempre fui muito recatado, mas descobri que, com aquela maquiagem, liberava um lado meu mais agressivo, contestador. O que eu fazia era para chocar e questionar. Já entrava no palco com tanta raiva que não havia espaço para me agredirem, eu agredia primeiro. Enfim, hoje não é muito diferente. No atual momento do país, com o crescimento da bestialidade do conservadorismo, penso que um grupo como o Secos & Molhados apanharia na rua.



Ney Matogrosso in Vira-lata de raça - Memórias   

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

sábado, 14 de dezembro de 2019

Ney-anjo

Ney foi o anjo enviado por Deus para que o brasileiro compreenda melhor sua louca identidade de homem-mulher unidos num só: pássaro e tigre, cobra e borboleta, miséria e esplendor. Muito além do bustiê, Ney Matogrosso parece uma tese de mestrado ao vivo sobre a ambiguidade deste país. Tê-lo entre nós nos deixa mais nítidos e felizes também, pois a clareza dele é bela e como ele é nós, épico e arquetípico, nos tronamos belos através dele e muito mais livres e muito mais nobres. Rosa de Hiroshima soropositiva, seria radioativa, something between Greta Garbo, Rodolfo Valentino e Antígona: saúde!

Caio Fernando Abreu in Ney Matogrosso, muito além do bustiê, O Estado de São Paulo, 3 de fevereiro de 1995

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O tempo e o mar.....

O tempo é meu aliado, a minha casa. O tempo é uma invenção, ele simplesmente é. O tempo sou eu. Eu sou. Esse tempo contado, fragmentado, não existe, nós é que o inventamos. O tempo não está passando por nós, e sim nós é que estamos passando por ele. Somos nós que acessamos o tempo em algum instante. Se eu me submetesse ao tempo já seria um homem velho. Não tenho medo do tempo, tenho medo é do mar. Acredito que meu medo do mar seja um trauma de infância, quando minha família viajou da Bahia para o Rio de Janeiro de navio, durante a guerra, e pegamos um imenso temporal. Minha memória desse episódio é muito fragmentada, mas recordo das lembranças de minha mãe: ela diz que eu fiquei na cama olhando a tempestade por uma pequena janela redonda, vomitando o trajeto inteiro de tanto enjoo. Estava tão assustado com a tempestade e com a imponência do mar que não conseguia levantar da cama. Teve também outro episódio na infância em que me afoguei no mar e fui resgatado por um homem que não tinha um braço. Penso que esse medo do mar se alastrou por toda minha vida, mas não me paralisou, me fez aprender a lidar com o tempo. Eu faço o meu tempo da forma como penso e digo, como encaro a vida: trabalho com a palavra, sou um ator que canta. A palavra é o pensamento materializado, pois as palavras têm poder. Os místicos já diziam isso, nós criamos o nosso tempo.  

Ney Matogrosso in Vira-lata de raça - Memórias

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A morte....

Assim como ninguém nasce fora da história,
ninguém morre de morte natural. 
A morte nunca desiste, é ao mesmo tempo universal e não. 
Ela é distribuída em desproporção,
chega por meio de ataques de drones e armas
e mãos de maridos,
é transportado pelos minúsculos dorsos de micróbios criados em hospitais,
circulando nas tempestades erguidas pelo novo clima capitalista,
chega através de um murmúrio de radiação
instruindo a mutação de uma célula. 
Ela tanto se importa com quem somos
Como não se importa.
 Poesia alheia sobre fragmento de Anne Boyer  in The Undying 

"Just as no one is born outside of history, no one dies a natural death. Death never quits, is both universal and not. It is distributed in disproportion, arrives by drone strikes and guns and husbands' hands, is carried on the tiny backs of hospital-bred microbes, circulated in the storms raised by the new capitalist weather, arrives through a whisper of radiation instructing the mutation of a cell. It both cares who we are, and it doesn't."

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Haicai de Leminski

acabou a farra
formigas mascam
restos da cigarra

Paulo Leminski in La vie en close, 1995, p. 174

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

No aquário....

E vamos para o aquário, onde uma cunhã me dá a receita imediata do peixe que estou vendo - o Tamoatá - :"pega ele, corta em porções, salga, tempera com todos os temperos, aí põe ele pra pegá um molhozinho, e, quando ele está quase que molha, aí despeja o tucupi".

O peixe detestou ser "receitado" e eu saio lambendo os beiços. Visito a piranha-caju, o acará, o peixe disco - que fotografei-, o pacu branco, o lindo-feio apaiari, o peixe borboleta, o jacundá-pitanga - de cores estranhas e de águas lentas e paradas, onde fica oculto entre as plantas das margens, esperando qualquer ser vivo que passe...Chuóóópt! Ictófago, o bestalhão! Antropophagie.

Roberto Bicelli in Ego trip, Virgiliae, pág.217