sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Versão

Há fatos que já  são arquivados  na memória de forma fantasiosa.  Nunca lembraremos da verdade, só da versão....

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Memória e fantasia....

A memória e a fantasia são  duas faculdades caprichosas: quando uma fraqueja, a outra toma conta...

(Inspirada em frase de Bioy Casares)

sábado, 16 de setembro de 2017

Forever!



Foto no Espaço Elis Regina do Centro Cultural Mário Quintana

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Beijo....

Lembra quando te vi pela primeira vez? Eu quis me apresentar e você me disse: "Por que não escreve teu nome na memória da minha boca com um beijo?"

Newton Moreno in Body Art

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

[COM O FOGO NÃO SE BRINCA]



Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo


Adília Lopes in Um Jogo Bastante Perigoso (1985)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pormenores....

Há, nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para suprir os perdidos, e nem por isso a história morre.

Machado de Assis

sábado, 9 de setembro de 2017

Poesia é vida!


Registrado na parede do Centro Cultural Mario Quintana por um usuário apaixonado...

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

CRESCIMENTO....


"Quando é que vc vai crescer? Vc se comporta como se ainda tivesse 25 anos. Vc tem o dobro disso".

E ele resmunga como um Zé Buscapé inconformado:

"Caralho, a gente já envelhece. Ainda tem que crescer também?"


Mário Bortolotto na peça "Whisky e Hambúrguer"

sábado, 2 de setembro de 2017

New car....



Foto de  Peter Harholdt


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Velórios - Rodrigo M. F. de Andrade


Único livro de ficção de Rodrigo M. F. de Andrade. São apenas oito contos, incensados por Manoel Bandeira, Mário de Andrade, Aníbal Machado e Pedro Nava, que lamentaram que o autor não tenha prosseguido na literatura de ficção. Para mim, por essa amostra, ele fez bem em dedicar-se à defesa do Patrimônio Histórico Nacional.... mas quem sabe que com a prática poderia alcançar patamares mais elevados.

Destaco apenas dois contos, por sinal aqueles que são considerados autobiográficos por Pedro Nava: "Quando minha avó morreu" e "Iniciação". Eles abordam experiências de adolescentes descobrindo o mundo, sexo, morte, perda,vaidade, etc. que são comuns a todos que passam por essa faixa etária. Um terceiro conto merece a leitura - "Nortista" - que carece um pouco de foco.


D. Guiomar - Falho. Muita descrição sobre as atividades extraconjugais de um personagem, sem interesse para a ação. Final curto e seco. Em resumo, dois irmãos e um cadáver. 

Martiniano e a campesina - Muita volta para nada. Desfecho fraco: a carta guardada como trunfo pelo autor nada acrescenta ao conto.

Quando minha avó morreu - Conto curto, leve e preciso, autobiográfico segundo Pedro Nava. Muito bom, o autor acertou a mão. Narra a reação de um garoto à morte da avó e a demonstração do seu luto.

Seu Magalhães suicidou-se - Como é "um dos dez melhores contos da literatura brasileira", segundo Aníbal Machado, pulei a sequência e deixei para ler no final. Entretanto, o conto, na minha opinião, não é tudo isso que o Aníbal Machado diz. Trata-se de um mero caso de adultério familiar, que o autor não conduz com maestria, revelando a trama principal antes da hora, esvaziando o conto.

O enterro de Seu Ernesto - Gira em torno do enterro do Ernesto, com os dilemas da viúva, D. Amália, sobre beijar ou não o defunto e seus embates com as cunhadas.

Iniciação - Conto autobiográfico segundo Pedro Nava. Começa muito bem, aguça a curiosidade, a descoberta do sexo por um grupo de garotos, descoberta teórica, é claro. O leitor fica aguardando e .... nada! Nem com o padre sai transa!

O príncipe dos prozadores - O autor não foi feliz. Escreve, escreve mas não desenvolve o conto, não chega a lugar nenhum. Sorte do leitor que ele é curtíssimo.

O nortista - Mário de Andrade via nele "uma perfeição de psicologia". É um conto longo, que narra a saga de um jovem médico contratado pelo "nortista" - deputado federal nascido no Pará e que fez fortuna em Santa Catarina - para tratá-lo de tuberculose num sítio em Minas Gerais. O conto mostra o relacionamento entre os dois personagens, a relação do médico com os moradores das vizinhanças, o embate entre o paciente e o médico, até o desenlace final. Conto bom, mas um pouco dispersivo, seria bom ter um foco.


Rodrigo M. F. de Andrade in Velórios, Cosac & Naify, 2004


José FRID



Livre de vírus. www.avg.com.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cor e forma....


Palacete Tereza, novo local da Casa de Francisca

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Auscultar a vida....



Tinha o espírito amadurecido no convívio dos seus mestres preferidos - mestres de estilo e mestres dessa arte especial e difícil de auscultar a vida, sem a qual não se atinge o plano do permanente, em literatura.

Pedro Dantas sobre Rodrigo M. F. de Andrade no prefácio de "Velórios", Cosac & Naify, pág.8


terça-feira, 29 de agosto de 2017

New car....


Foto de  Peter Harholdt

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Olhos verdes e mansos

Aqueles olhos verdes e mansos produziam em mim, não sei por que obscura perversão, um desejo violento de praticar com a filha de Martiniano as mais desvairadas libertinagens. Sua voz mole tinha inflexões que também me punham o demônio no corpo e, enquanto ela dizia umas vagas coisas sem importância, eu me sentia capaz dos maiores horrores.



Rodrigo M. F. de Andrade in "Martiniano e a campesina" - Velórios, Cosac & Naify, pág.31


domingo, 27 de agosto de 2017

New car.....



Foto de  Peter Harholdt

sábado, 26 de agosto de 2017

Guarda-chuva submerso, metafísico...

[...] Quanto ao guarda-chuva, é melhor não entrar em detalhes. Esse guarda-chuva, exposto á intempérie, devia se assemelhar muito às bandeiras que os independentes desfraldam em 15 de setembro. É um guarda-chuva submerso, um guarda-chuva metafísico, próprio para se molhar com decência. Aberto o guarda-chuva, via-se o céu por todas as partes.


Manuel Gutiérrez Nájera in "Romance do bonde", integrante de "Os Melhores contos da América Latina", organizado por Flávio Moreira da Costa, pág.90

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Helpline - Suzannah Evans


No callcenter no fim do mundo
todos estão vestindo os farrapos
das roupas com que vieram trabalhar há duas semanas .

Do piso dez contamos incêndios à distância
os destroços enfumaçados dos subúrbios.

As pausas de chá são rigorosamente monitoradas
e a internet ainda está lá
mas nós estamos cansando das notícias.

Dormimos onde estamos confortáveis ​​-
caixa das escadas, carpetes, cadeiras da cantina.

Atraso para turnos não é tolerado
embora nesta etapa  poucos de nós
têm casas para onde ir.
A demanda pelo serviço é alta.

Não sei por que fiquei  tanto tempo nesse trabalho
quando o mundo em que eu poderia gastar seu amplo salário
foi desintegrado -
políticos escondidos
supermercados forçados a abrir em ruas explodidas

talvez seja porque todos me dizem
que minha voz poderia ser a última que eles ouvem

talvez seja porque quase todos os chamados preocupados
lembram-me da minha mãe preocupada

ou porque falamos sobre flores amarelas,
a fome, o cheiro de tinta queimada
relembrar sobre o verão no parque.

Seu cão saiu há dois dias e não voltou
se eu tivesse morrido ele poderia ter me comido
ela diz
parece um arrependimento.


Suzannah Evans in Strix #1, via The Guardian Books, tradução livre de José FRID

terça-feira, 22 de agosto de 2017

domingo, 20 de agosto de 2017

Bom-dia, Boa-noite...

Estou dezessete minutos atrasado. Nem mais nem menos, dezessete. O número exato é importante para definir o ritmo das passadas até o metrô e deste até o escritório. O objetivo não é anular o atraso, missão impossível com sapatos pretos de couro e de cadarço, mas torná-lo aceitável. Uns cinco minutos, por exemplo. Saio do prédio e dobro à esquerda. Tenho pouco mais de cinquenta metros de calçada para decidir qual caminho farei até à estação do Metrô. São duas opções que alterno aleatoriamente, ambas desembocando no grande terminal de ônibus grudado à estação do metrô, ponto final de várias linhas que vêm de longe: Jardim Ângela, Pirituba, Cidade Tiradentes. Ele é todo aberto, mas coberto com lajes altas. Bancos compridos de concreto esparramam-se ao longo das duas plataformas dos ônibus, entremeadas de pilares e quiosques de pão-de-queijo e salgadinhos. No começo do dia é um lugar muito agitado, mas morto ao final da noite e na madrugada. Tentador para os sem tetos da região, que vez ou outra vejo por ali, arrastando seus pertences em sacos, bolsas, malas, caixas ou carrinhos de supermercado.

Ultimamente, deparo-me no terminal com uma pessoa dormindo no segundo banco da também segunda plataforma, a que leva direto ao acesso do metrô. Com esse frio, a pessoa está abrigada sob grosso cobertor marrom que abarca todo o seu corpo, ocultando dos pés à cabeça, formando um grande volume esparramado no banco. Imagino ser um mendigo gordo, muito gordo, um Papai Noel, dormindo com a cabeça apoiada no seu saco, saco de presentes é claro, seus maliciosos. As pessoas sonolentas que se dirigem ao metrô ou que esperam seus ônibus invejam o dorminhoco, ainda ressonando àquela hora...
Chego ao terminal fora da hora costumeira. De longe, vejo uma touca branca flutuando entre os pedestres, a cerca de um metro do chão. Aproximo-me e sou surpreendido: o Papai Noel é na verdade uma mulher baixinha e idosa. Acabou de acordar, ainda boceja e espreguiça-se, sentada em um pano zebrado. O cobertor marrom está sobre uma grande mala de lona verde. Uma bengala repousa ao lado dela. Além da touca branca sobre cabelos brancos e alourados, calça tênis e meias listradas, veste calça comprida de malha cinza, blusa e casaquinho vermelho. Animada, feliz, sorri e dá bom-dia a quem passa, eu inclusive, que retribuo sorriso e bom-dia e sigo em frente para tirar o atraso.

Retorno à noite ao terminal, hoje bem mais tarde do que o habitual por causa de um curso. Quem esta lá? Ela, agora com uma touca listrada, combinando com as meias, que não sei se são as mesmas. A grande mala verde está aberta e suas entranhas mostram uma ordeira arrumação, roupas de cama de um lado, roupas pessoais de outro, todas passadas e dobradas. Caprichosa, estica o cobertor zebrado, grosso quase como um edredom, sobre o frio concreto do banco. Depois, um lençol branco, travesseiro pequeno e o cobertor marrom. Parece feliz, antegozando uma boa noite de sono e sonhos. Sorri e dá boa-noite aos passantes, inclusive eu, que já tirei o atraso e tenho tempo para retribuir sorriso e boa-noite e observar que a vida é dura e injusta para muitos, mas alguns, apesar de tudo, ainda conseguem ser felizes.... 


José FRID

sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Smart-TV

Vinte e três e quarenta e um. Fim. As letrinhas dos créditos passam rápidas pela tela, outro filme está para começar. A mulher dorme esticada no sofá, a cabeça sobre seu colo. Uma manta leve cobre o corpo dela, os pés exibem meias coloridas. Ela ressona suavemente. Escolhera o filme, mas não aguentou assisti-lo. O dia tinha sido cheio para ela, levantara às cinco e trinta, fora a Brasília, reunião, almoço, reunião, volta no fim do dia, o filme argentino não deu conta do sono acumulado, do pouco tempo dormido nos últimos dias.

Ele pensa em levantar, mas a acordará, com certeza. E com certeza ficará mal humorada por causa do sono perdido. Prefere deixar-se ficar no sofá. Toma um gole do excelente tinto que ela trouxera e aciona o controle da smart-TV à procura de algo interessante. Sobe e desce pela escala de canais, nada no momento. Troca para a internet. Navega no Face, Instagran, nada muito interessante também. O pensamento foge para a noite de ontem, filme iraniano e um chopinho. Bar cheio, cheio de jovens animados, cheio de moças alegres, muita música alta, muito álcool, muita paquera, ela muito enciumada com os olhares cobiçosos, famintos, para ele, ele controlando-se para evitar uma guerra conjugal, mas ambos sem querer deixar o lugar. Resultado: excitadíssimos, chegando em casa entredevoraram-se, foi um descarrego, um abandono total ao sexo, compensando cada jovem que estava no bar, cada gesto, cada olhar, cada corpo deslumbrante ou não, e repetindo e repetindo...

Outro gole, acessa seus e-mails. Nada interessante, muitos enfadonhos, alguns trabalho. Pega o celular e passa para o WhatsApp. Algumas bobagens, piadas, fotos e desenhos cômicos, propaganda de futuros candidatos... um santo amigo mandou-lhe um arquivo de fotos em PDF. Curioso, abre e desfilam fotos de atrizes e outras em trajes sumários, poses sensuais. Reconhece a Charlize Theron, belíssima, uma loucura, as mãos tampando dois seios fantásticos, usando um biquininho preto. Examina atentamente a fotografia, questiona-se como alguém pode ser tão bela, gostosa... seu pensamento volta ao bar de quinta, para uma loura que estava no canto direito, lembraria vagamente a Charlize, só que estava vestida. Imagina-a sem roupa, será que os seios seriam iguais? Mais fotos, uma morena sensacional aparece, imagina que ela poderia ser aquela perto do caixa, que lhe mandara um beijo escancarado. Precisou segurar Tereza, que queria ir tomar satisfação com a mulher, "vagabunda, piranha...". Imagina-se estar só no bar, a morena aproximando-se, o cheiro dela, uma voz rouca, sensual... uma ereção a caminho e a mulher no seu colo. Larga o celular e volta ao controle remoto: um pedaço de filme americano, outro de uma pornochanchada brasileira – tosca, tosca, filosofa, mal filmada, mal interpretada, texto paupérrimo, só a ditadura e sua moral de pátria e família para explicar o sucesso daqueles filmes – um trecho de documentário africano, o fogo embaixo vai apagando-se e ele pode raciocinar. Para garantir a paz, responde um e-mail de trabalho, rotinas burocráticas, algo bem broxante. Tudo sob controle, volta a procurar um filme, encontra um com o Jason Statham – Adrenalina, o homem não pode parar senão morre, envolve-se com a ação, esquece das fotos, do bar, mas, quando Jason transa com a namorada no meio da rua para o seu coração continuar batendo, a noite de quinta volta à sua cabeça, ou melhor, às cabeças, adrenalina. Entra na internet direto num site pornô grátis, com fotos e filmes. Pega leve, começa com as fotos, nus femininos, jovens, muito jovens, algumas maduras... – quem há de resistir a uma mulher despida? Sente a ereção a caminho, mas não pode se tocar. Pensa na Charlize Theron, a atriz, e também na outra do bar. A ereção encontra obstáculo: a mulher no seu colo. Alisa os cabelos dela, passa a cabeça dela suavemente pela sua calça, sente a pressão, mas não é a mesma coisa. Acordá-la? O mal humor...

(Ela sente a ereção, a mão sobre sua cabeça, o suave movimento. Abre um olho, vê as fotos, sorri, esse homem não tem jeito, parece um garoto. Ela se mexe para sinalizar que está ali, que ele não se exceda... volta a dormir, o tem sob controle.)

Assustado, ele clica rápido no controle e volta à televisão, ao filme de ação, tiros para todo lado, gente morrendo, ereção abortada... o tempo passa – horas? minutos? segundos? – o filme se repete, fica chato, ele percebe o ressonar dela, em um clique volta ao site pornô, às fotos. Vai passando os olhos por elas, as poses e caras e corpos vão se repetindo, sem efeito sobre ele. Um gole de vinho, celular na mão, encontra a Charlize sorrindo para ele, as mãos nos seios, o biquininho preto, a Charlize... volta ao site, mais fotos, fotos, ela não está lá. Desinteressado, passa para a seção dos filmes. Uma música anuncia a tela com opção para sessenta filmes. Zera o som da tevê para evitar gemidos indiscretos, aquelas mulheres são piores que gata no cio. Começa a passar um por um, vê o título, interessa-se, clica, assiste um pouquinho, passa para outro, demora mais, segue adiante, sessenta já foram, outra tela com mais sessenta, fixa aqui e ali,  segue na busca, acaba se interessando por um deles com uma mulher belíssima e seu parceiro que dançam um tango caliente no que parece ser um estúdio de dança, tango que começa na vertical e com ambos vestidos, respeitosos, passos clássicos, mas lentamente as roupas vão caindo, eles se entrelaçam, interpenetram-se, vertical, horizontal, inclinado, frente e verso... outra ereção aparece, mais bruta, intensa, a sua roupa incomoda, aperta, machuca, ele se mexe tentando ajustá-la, mas a mulher dormindo no seu colo atrapalha-o, o contém, um olho na tela, outro na mulher...

(Ela sente a ereção, o desconforto do homem. Abre um olho, vê o tango, sorri, lembra da noite de quinta, o furor de ambos. Homem animado, o seu, já procurando. A voz do Emílio Santiago vem à sua cabeça: "Ele foi embora/ Nem faz uma hora/ Pensando, quem sabe/ Nos beijos que você lhe deu/ Tolo/ Pensou que beijar sua boca/ Foi consolo/ Despertou o instinto da fêmea/ E agora quer se deixar abater/ Se sentir caçada/ Dominada até desfalecer..." descansada, recuperada do cansaço, agradece mentalmente àquelas mulheres, toda a excitação dele será dela, hora de agir, mãos à obra...)

José FRID

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Quisera ser um gato - FERREIRA GULLAR


Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde. 

Ela é, portanto, muito diferente do gatinho que, antes dela, me fazia companhia e que se foi. Morreu de velho, já que nunca havia adoecido durante seus 16 anos de vida. Quando adoeceu, foi para morrer. Não preciso dizer que fiquei traumatizado e não quis mais saber de outro gato. Amigas e amigos me ofereceram um substituto para o meu gatinho, e eu respondia que amigo não se substitui. 

Os anos se passaram, a dor foi se apagando, até que um belo dia, minha amiga Adriana Calcanhotto chegou aqui em casa com um presente para mim: era uma gatinha siamesa. Faltou-me coragem para dizer não, mesmo porque a bichinha me encantou à primeira vista. Manteve-se arredia por algum tempo, mas logo me aceitou e nos tornamos amigos. 

Hoje me sinto praticamente lisonjeado pelo fato de que, por medo ou desconfiança, enquanto ela foge de todo mundo, me busca pela casa, sobe em minhas pernas e ali se deita, isso sem falar que, todas as noites, dorme em minha cama. 

Confia em mim, sabe que gosto dela e que pode contar comigo para o que der e vier. Essa confiança de um bicho que não fala a minha língua, que não sabe quem sou eu, mas só o que sou dentro desta casa, me alegra. 

E às vezes, olhando-a dormir na poltrona da sala, lembro que para ela a morte não existe, como existe para nós, gente. Ela é mortal, mas não sabe, logo é imortal. A morte, no caso dela, é apenas um acidente como outro qualquer, dormir, comer, brincar, correr; só existirá quando acontecer, sem que ela saiba o que está acontecendo. 

Neste ponto é que a invejo. Já pensou como a vida seria leve se não tivéssemos consciência de que ela acaba? Seria como viver para sempre, tal como ocorre com a gatinha. 

E enquanto penso essas tolices, ela --que se chama Gatinha-- se levanta, vem até mim e começa a se roçar nas minhas pernas, insistentemente. Só então me dou conta de que está pedindo que eu vá até a cozinha e ponha ração no seu prato. Ela não sabe que é mortal, mas sabe muito bem que necessita comer e que quem lhe providencia a comida sou eu. 

A verdade é que vivemos os dois neste apartamento cheio de livros, quadros e móbiles (feitos por mim, não por Calder, ou seja, falsos móbiles) e nos entendemos bem. A Gatinha é diferente do Gatinho, é de outra geração, a geração do pet shop. Por isso mesmo, ela não come carne nem peixe, só come ração. 

Consequentemente, ao contrário do Gatito, que subia na mesa para xeretar meu almoço, ela não está nem aí para comida de gente, só quer saber de ração. E tem mais: só pode ser aquela ração; se mudar, ela não come, cheira e vai embora. 

Aliás, isso criou um problema sério, quando a ração que Adriana trouxera terminou. Como não entendia de rações, ao ver que a dela acabara, fui a um pet shop aqui perto para comprar e, como não tinha a dela, decidi comprar qualquer outra, mas fui advertido pela dona da loja de que teria que ser da mesma ração. 

Fui a outra loja, bem mais longe, e lá também não tinha a tal ração. Pedi a meu neto que a comprasse num pet shop do Humaitá, bairro onde ele mora, e nada, lá também não havia. Desesperado, liguei para Adriana que, imediatamente, me fez chegar aqui em casa dois pacotes com a raríssima ração que a gatinha comia. Respirei, aliviado. 

Depois aprendi que para evitar que ela morra de fome, no caso de faltar sua ração exclusiva, há que ter em casa uma ração parecida e ir misturando à sua até que se acostume. Coisas de gatos modernos, muito diferentes daqueles que, outrora, vagabundeavam aqui pelos telhados e pela rua. 

Mas, se mudou a ração, não mudou a razão que me fez adotá-la como minha companheira de todas as horas, que me acorda, pontualmente, às seis horas da manhã, vindo cheirar meu rosto sob o lençol. E agora a vejo, ali, a poucos metros de mim, deitada na poltrona, livre da morte, nesta tarde de março, num determinado ponto da Via Láctea, onde moramos.


Ferreira Gullar in Folha de São Paulo, setembro de 2009

segunda-feira, 14 de agosto de 2017