No Carnaval, entre uma banda e outra, fui relaxar caminhando e fotografando pela Urca, com a meta de alcançar o Bar Urca, no final do bairro, para recarregar as baterias. Ela é um bairro carioca tomado ao mar por aterro, espremido entre o mar e os morros da Urca e Pão de Açúcar qual marisco agarrado nas pedras. Região calma, plana, boa para uma caminhada leve, observando-se a Baía da Guanabara, as montanhas, o Cristo, a Ponte Rio-Niterói, os barcos, São Pedro sobre as águas, o prédio do Roberto Carlos, suas casas acolhedoras, a maioria com arquitetura européia. No meio do bairro destaca-se sua prainha de águas mansas, cercada de pedras, e o antigo prédio do Cassino da Urca se derramando sobre suas areias claras.
O edifício é dividido pela rua que liga as duas partes do bairro. Uma imponente laje sobre o logradouro permite que as pessoas transitem ao abrigo do sol e das chuvas entre os dois corpos da edificação, Ele, inicialmente, destinava-se ao Hotel Balneário, depois serviu ao Cassino da Urca, célebre pelos seus shows, e por fim virou os estúdios da TV Tupi, Canal 6. Está abandonado por litígio entre os moradores e uma escola europeia de design que o comprou..
Caminhava quando, repentinamente, uma imagem levou-me ao passado: a praia cheia de crianças mergulhando nas águas não muito limpas, casais enamorados entredevorando-se, pais bêbados, mães comilonas, sacos e bolsas com comidas e bebidas, esteiras sobre a areia, barracas de sol multicoloridas, grandes filas no ponto final dos ônibus, tudo como antigamente. E como estava no passado, lembrei-me do Circo do Carequinha, programa transmitido ao vivo pela TV Tupi, com a dupla de palhaços Fred e Carequinha.
Posei para a foto acima e fui sugado para um dia em que fui assistir ao programa ali mesmo, nos estúdios atrás daquela porta. Eu morava na Praia Vermelha, do outro lado do morro da Urca. Era muito novo, pequeno, tímido e sentei-me na arquibancada meio com medo. Com o andar do programa fui relaxando e curtindo. Tinha brincadeiras, músicas, danças, pipocas, refrigerantes, etc., se não me falha a memória. O palhaço Carequinha sempre repetia seu bordão "tá certo ou não tá?", elevando e abaixando seu largo colarinho, com a criançada gritando animada "tá!!!" Além do Carequinha, o programa apresentava o palhaço Fred, o anão Meio-quilo e outros personagens. Os dois palhaços principais compunham a dupla "Fred e Carequinha", que durou muitos anos, fazendo shows por todo o Brasil.
Esse Fred atrapalhou a vida de muitos Fredericos na época, que não gostavam de serem chamados pelo nome abreviado, coisa de palhaço. (Assim como "zé é apelido de otário", já dizia meu pai) Alguns adotavam, alternativamente, Frid como apelido, o que me confundia, pois pensava que todos eram meus parentes. Hoje os Fredericos não ligam mais para isso, os palhaços estão soterrados na poeira do tempo, e o Fred atual é goleador, ídolo da torcida.
E foi exatamente esse Fred, o palhaço, não o jogador, que me causou um grande trauma. Voltando ao programa, em determinada hora eram distribuídos brindes para a plateia. Eu, como todas as crianças, estava esperançoso de ganhar algum brinquedo, se possível da Estrela, da Atma ou da Trol. Os apresentadores, seguidos pelas enormes câmeras com várias lentes, iam até uma criança, puxavam um assunto qualquer e a presenteavam com algum merchandise. O Carequinha foi para um lado, o Fred para outro, Meio-quilo pelo meio, as crianças ansiosas. De repente, o Fred surgiu ao meu lado. Levei um susto com aquele homem grande, gordo, cara branca, chapéu cônico na cabeça quase careca, roupa florida de calças curtas, meião preto, voz sebosa (veja a foto – eu poderia ser o garoto no canto). Abri o maior berreiro! Aquilo não era um palhaço, mas um monstro das profundezas abissais, a ser enfrentado pelo National Kid! (Que era da TV Rio) Saí correndo, mãe atrás, quase consegui passar pela porta da fotografia e sair voando pelo bairro. Um vexame! Fui resgatado do passado pela buzina estridente de um ônibus, que quase bateu num carro que vinha em sentido contrário na estreita e curva via de mão dupla. Voltei ao presente, mas a imagem do Fred veio junto, parecia que iria surgir das ruínas do prédio. Corri para o Bar Urca, a cerveja tomada na amurada do mar foi diluindo, sumindo com aquela trágica lembrança. Olhei as ondas quebrando nas pedras e começou a vir à minha mente o dia que nadei por ali treinando para atravessar a Baía da Guanabara até a Praia do Flamengo .... garçom, socorro, não, correndo, mais uma Bohemia gelada!

José FRID