quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Sonhos - Langston Hughes

Agarre-se aos sonhos
Pois se os sonhos morrerem
A vida é um pássaro de asas quebradas
que não pode voar.

Agarre-se aos sonhos
Pois quando os sonhos vão
A vida é um campo estéril
Congelado com neve.

Langston Hughes 

in  "The Collected Poems of Langston Hughes", publicado por Alfred A. Knopf, Inc, 1994.


(Tradução livre de José FRID)



Dreams

Hold fast to dreams
For if dreams die
Life is a broken-winged bird
That cannot fly.

Hold fast to dreams
For when dreams go
Life is a barren field
Frozen with snow.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O negro diz sobre rios


Eu conheci rios:
Eu conheci rios antigos como o mundo e mais velhos que o
      fluxo de sangue nas veias humanas.

Minha alma tornou-se profunda como os rios.

Eu tomei banho no Eufrates quando as madrugadas eram juvenis.
Eu construí minha cabana perto do Congo e ele me embalou para dormir.
Eu olhei para o Nilo e ergui as pirâmides acima dele.
Eu ouvi o canto do Mississippi quando Abe Lincoln
      desceu para Nova Orleans, e eu vi seu lamacento
      regaço  tornar-se  todo dourado ao pôr do sol.

Eu conheci rios:
antigos e escuros rios.

Minha alma tornou-se profunda como os rios.

Langston Hughes in  "The Collected Poems of Langston Hughes", publicado por Alfred A. Knopf, Inc, 1994.

(tradução livre de José FRID)

The Negro Speaks of Rivers

I've known rivers:
I've known rivers ancient as the world and older than the
     flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln
     went down to New Orleans, and I've seen its muddy
     bosom turn all golden in the sunset.

I've known rivers:
Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like the rivers.

#langstonhughes

#poesia
#poetry

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Negra menina morta

Com duas rosas brancas em seus seios
Velas brancas na cabeça e nos pés,
Dark Madonna da sepultura ela descansa;
A Senhora Morte a achou doce.

Sua mãe penhorou o anel de casamento
Para colocá-la em branco;
Ela ficaria tão orgulhosa que dançaria e cantaria
por se ver esta noite.

Countee Cullen

(Tradução livre de José FRID


A Brown Girl Dead 
With two white roses on her breasts,
White candles at head and feet,
Dark Madonna of the grave she rests;
Lord Death has found her sweet.

Her mother pawned her wedding ring
To lay her out in white;
She'd be so proud she'd dance and sing
to see herself tonight. 
#lcounteecullen
#poesia
#poetry

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O vício do celular.....

Oi pessoal,
Nas últimas semanas, tenho tentado algo novo. Meu terapeuta, que tem 70 anos e vê telefones celulares como pequenos e satânicos tijolos de bolso, pediu que, quando eu me encontrasse ociosa - em uma escada rolante, por exemplo, ou esperando por um ônibus - eu mantivesse meu celular na minha bolsa e tentasse lembrar como eu passava o tempo antes que os celulares fossem triviais. Como meu terapeuta se parece muito com minha mãe e eu faria qualquer coisa para agradá-la (o que provavelmente significa que preciso de um segundo terapeuta para discutir meu relacionamento com meu primeiro terapeuta), tenho tentado seguir seu decreto.
Amigos, é insuportável, agonizantemente humilhante o quão difícil é essa tarefa para mim. Meus dedos tremem.  Meus olhos se contorcem. Eu me encontro acariciando meus bolsos traseiros apenas para sentir a forma do meu celular. Um mês atrás, eu não teria visto alguém jogar um videogame se você tivesse me pago, mas eu estou me pegando esticando meu pescoço para ter um vislumbre do jogo de Candy Crush. Eu sou como um ex-fumante ansiando  por uma baforada de um Marlboro de um passante.
Mas também estou me vendo percebendo coisas. Às vezes é horrível, e eu anseio pelo meu celular - ontem eu vi uma barata comendo um pirulito na Penn Station e quase desisti de todo o experimento (e também de sair do meu apartamento novamente). Mas, às vezes, perceber coisas novas é maravilhoso: um garoto de 7 anos pegando e tirando seus óculos novos e rindo de como o mundo se tornou claro. Uma pequena igreja ortodoxa russa com cúpulas de cebola entre dois escritórios de advocacia. Glórias da manhã crescendo na plataforma F do trem.
Então, muito parecido com essas improváveis glórias matinais, estou tentando cultivar a paciência em 2018.

Liz Watson, editora de projetos especiais, in "Lenny"
(Tradução livre de José FRID)

terça-feira, 31 de julho de 2018

Cenas do inverno paulistano

Subo a rua a caminho do Metrô com camisa de flanela, casaco e guarda-chuva. O tempo virou ontem à noite,  chove e faz frio, 14 graus. As pessoas pelas quais passo também estão com indumentárias de inverno, que afinal chegou (por quantos dias, horas?). As mulheres aproveitam para exibir seus casacos, malhas, cachecóis,  echarpes,  botas, boinas, gorros, etc., como estivessem no alto inverno europeu. Mulheres....

A uma quadra do  Metrô vejo um cidadão caminhando em sentido contrário: tênis, bermudas, camiseta,  um ar de felicidade no rosto e ... uma Skol latão na mão. Oito e quinze da manhã.  Um dos dois está equivocado.....

Ainda matutando sobre as diferenças,  entro no terminal de ônibus colado ao metrô: desfile de casacos, mantôs, malhas, boinas, botas e .... uma japinha de pernas de fora, short mínimo,  tentando combater o frio com uma camiseta longa da Coca-Cola, que ela tenta esticar, com as mãos no bolso, até abaixo dos quadris. Será que ela acabou de desembarcar do avião, vindo das praias quentes do Nordeste? Ou será que ela e o cidadão feliz com a que desce redondo apostam na volta em breve do veranico de julho? São Paulo ....

José FRID

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Avó tão jovem....



Hoje, vinte e seis de julho, tornei-me avó. Jovem, jovem, culpa da minha filha. Fiquei grávida aos dezesseis, ela também quis assim, imitadorazinha barata. Culpa minha, minha máxima culpa, sempre a estimulei ficar parecida comigo, era minha bonequinha, gostava de vesti-la igual a mim. Depois de tudo que fizemos para sermos iguais, era de se imaginar que ela também queria ter filho aos dezessete. Era o que faltava, pois eu sou mãe e ela só filha. Mas a danada não ficou satisfeita com o filho, a mesma idade, quis me imitar em tudo. Tudo! Tinhosa, armou tudo nas minhas costas. Eu, trinta e quatro anos e já avó.

Quem vê nós duas juntas diz que somos irmãs ou primas. Ela se veste com minhas roupas, imito o comportamento dela e de suas amigas. Sou um pouco infantil, reconheço, ela muito madura. Ela é um pouquinho mais alta, nada que um saltinho não resolva. Cintura igual, boca igual, iguais olhos, sobrancelhas, cabelos. Trocamos roupas, sapatos, lingeries. Temos o mesmo timbre rouco sexy da Débora Seco. Sucesso com os homens, inveja nas mulheres.

Meus seios são iguais aos delas. Não, os delas que são iguais aos meus, nasci primeiro. Pequenos, duros, bicudos. As nádegas são um pouco diferentes, meu bumbum é mais durinho, empinado, muito exercício. Ela é preguiçosa, mas uma calcinha justa resolve. Na hora do vamos ver, do rala e rola, como perceber a sutil diferença? Só sendo viado. O ventre e a depilação também são quase os mesmos, não dá para saber quem é quem. Só se Jorge fosse viado.

Tudo igual, mas tenho que reconhecer uma diferença entre nós: ela é muito mais inteligente, esperta e determinada do que eu. Nunca teria condições de imaginar essa situação, armar o que ela fez, de levar até o fim o plano maluco, tudo para ser igual a mim. Tadinha, tudo culpa minha, mexi com sua cabeça com minhas histórias, seu nascimento, a emoção de ser mãe muito nova...

Jorge, coitado, não teve qualquer chance! Eu dormindo, já era tarde, ele chegando bêbado do jogo das terças, ela com o bote armado, se oferecendo na penumbra, dócil, sedenta, com minhas roupas, meu perfume. Como ele poderia saber que estava transando com uma e não com a outra? Nunca!

Foi com imensa alegria que ela contou que estava grávida. E eu não pude falar nada, fui mãe aos dezessete, que exemplo diferente poderia dar para ela?

Ela se sente realizada, pensa que agora está igual a mim em tudo: mãe aos dezessete de uma menina que também é filha de Jorge, seu pai. Vendo seu rostinho feliz  com o neném, não tenho coragem de contar-lhe que ela é fruto de um carnaval na praia e que Jorge só apareceu na minha vida muito depois....



José FRID

terça-feira, 24 de julho de 2018

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Incidente


Uma vez andando pela velha Baltimore,
Coração pleno, coração cheio de alegria,
Eu vi um baltimoreano
Mantendo olhar diretamente para mim.

Agora eu tinha oito anos e era muito pequeno
E ele não era maior,
E então eu sorri, mas ele mostrou
Sua língua, e me chamou de 'Nigger'.

Eu vi toda a Baltimore
De maio até dezembro;
De todas as coisas que aconteceram lá
Isso é tudo que eu lembro.


Countee Cullen


Incident
Once riding in old Baltimore,
Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
His tongue, and called me, 'Nigger.'

I saw the whole of Baltimore
From May until December;
Of all the things that happened there
That's all that I remember. 

Tradução de José FRID

terça-feira, 17 de julho de 2018

Um beijo.....


A imagem pode conter: texto





Nelson de Oliveira in "sólidos gozosos & solidões geométricas "

domingo, 15 de julho de 2018

Guerra, incêndio....

Estamos acostumados a guerrear neste país. Quer dizer, somos usados ​​pela guerra, como a madeira é usada pela chama. Árvores não têm conhecimento do fogo em suas partes internas até que a floresta esteja em chamas, ou até que sejam cortadas em gravetos. Não consigo imaginar que alguém se acostume a combater ou que as árvores se acostumem a queimar.


We are used to war in this country. I mean, we are used by war, as wood is used by flame. Trees have no knowledge of fire in their inner parts until the forest is ablaze, or until they are cut into kindling. I cannot imagine that one gets used to combat or that trees accustom themselves to burning.


Gretchen Herbkersman in Thor, The Paris Review,  issue 62, summer 1975

Tradução de José FRID


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Uma criança tão notável....

Minha filha nasceu no dia em que a Grande Guerra começou. Nos momentos de silêncio durante o trabalho de parto, escutei as explosões, imaginando enquanto mergulhava em cinco minutos de sono, se o bombardeio havia precipitado as contrações, ou se ela era uma criança tão notável que sua entrada no mundo deveria causar uma guerra, um rearranjo dos planetas não inteiramente dela própria.

My daughter was born the day the Long War began. In the quiet times during labor, I listened to the explosions, wondering as I drifted into five minutes' sleep whether the bombing had precipitated the contractions, or whether she was so remarkable a child that her entrance into the world should cause a war, a rearrangement of planets not entirely her own.

Gretchen Herbkersman in Thor, The Paris Review,  issue 62, summer 1975

Tradução de José FRID


Argos e seus mil olhos

[...] Então pus Argos com seus mil olhos para guardá-la e impedir que ele se aproximasse dela novamente. Mas quando Hermes transformou Argos num pavão e seus mil olhos na cauda do pavão, concluí que aquilo não valia a pena.





quarta-feira, 11 de julho de 2018

terça-feira, 10 de julho de 2018

VIDA

VIDA

Lá, no fim, a morte
aqui, antes de tudo
o nascimento.

Entre um e outra
a linha reta da vida
graduada de zero a dez

A idade não importa
a linha é individual
zero no início, dez no final

Estou agora em 5, 3, 8, o 2 ou nos finais 9,5?
Melhor não saber
dá cor à vida

Brancas nuvens
ainda sou verde
a vida é rósea

tudo azul

amarelo maduro
marrom pouca esperança
a situação está preta

Dez, nota dez
zero  no início, dez no final
... ou não: há recomeço?

José FRID

sábado, 7 de julho de 2018

CARA DE LADRÃO

Manhã de segunda-feira. Cidade funcionando à meia-carga, metrô vazio: jogo da seleção às 11 horas. O trem para na estação São Bento. Dirijo-me rápido às escadas rolantes de acesso ao Vale do Anhangabaú, lugar cheio de ladrões...
Escolho uma delas, pego o lado esquerdo, o lado direito está ocupado por lerdos e cansados. Vou escalando rápido os degraus móveis, tenho pressa, estou atrasado, como sempre.
Uma mulher segurando uma criança no colo sai da direita e interrompe  bruscamente minha ascensão. Paro e levanto a cabeça: uma mocinha de seus dois anos olha para mim com curiosidade. Olhos grandes, boquinha de desenho animado, duas chuquinhas nos cabelos.
Adoro criança. Sorrio para ela, que não retribui. Faço uma careta divertida mexendo olhos e boca, mas ela só olha, atenta. Outra careta, agora incluindo sobrancelhas e testa: ganho um largo sorriso. Sorrimo-nos. Ela, interessada, tenta se acomodar melhor sobre o ombro da mãe. A até agora imóvel senhora também se ajeita à filha, e no movimento percebe que tem alguém atrás delas. Ela olha de esguelha para mim e imediatamente apalpa o celular no bolso traseiro da calça. Fica aliviada, mas sobe um degrau. Tenho cara de ladrão!
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta.....
José FRID

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cântico VI: Tu Tens um Medo


Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno. 

Cecília Meireles in Poesia completa: Volume 1, Editora Nova Fronteira, 2001. 

domingo, 1 de julho de 2018

Direito de cometer homicídios...

[...] O diretor gaguejou, limpou a garganta e, com o tom de voz mais natural do mundo, comunicou a Cipião que ele havia sido preso devido a um engano. Na verdade, o fato era lamentável, mas o que é que se podia fazer? Há cinquenta anos, a polícia não dispunha dos equipamentos atuais, computadores, detectores de mentira, essas coisas. Para encerrar o assunto, declarou que ele próprio e o tal que não se virava, definido como chefe do departamento de não sei o quê ministerial, e mais não sei o quê judiciário, haviam resolvido compensá-lo da injustiça. E, juntando a ação à palavra, entregou a Cipião um envelope branco e um estojo revestido de marroquino preto. O envelope continha um certificado com as assinaturas do diretor e da estátua. Cipião afastou o papel o mais que podê, até conseguir ler. O documento dizia que o Senhor Wanderley de Sousa Cipião, que havia cumprido pena de cinquenta anos, apesar de inocente, adquiria, a partir de 14 de fevereiro de 1990, o direito de cometer dois homicídios de qualquer espécie, ou outros delitos cuja pena estivesse circunscrita a cinquenta anos, sem ser submetido a julgamento ou a algum tipo de pressão legal.

Foram necessários dois minutos e meio para Cipião compreender a mensagem. A seguir, quase encabulado, perguntou se podia abrir o estojo. O diretor sorriu e fez um gesto afirmativo com a palma da mão estendida. Levantada a tampa, o espírito de Pierre sobrevoou o ambiente. Sobre um leito de veludo azul-marinho, repousava um Colt calibre 38, ao lado um pente carregado de balas. Na coronha de madeira, brilhavam três iniciais em metal escovado: W.S.C.


Victor Giudice in O museu Darbot, Leviatâ Publicações, págs.67/68

quinta-feira, 28 de junho de 2018

PRATICIDADE



                  Para João de Jesus Paes Loureiro


Abro o guarda-chuva japonês
cinza
em cima da minha cabeça
e caminho em direção ao banco.

Pagarei minhas contas
olharei os olhos vermelhos
da moça do caixa
e observarei suas unhas claras.

Conversarei com outros clientes
sobre a vida
e direi que o governo é culpado de tudo.

Nunca mais esquecerei
esta mulher de boca acesa
na fila
atrás de mim.

Sairei depois à rua
e me sentirei um magnata
fora do tempo.

Encontrarei à manhã
vizinhos tristes
e direi palavras desnecessárias.

Enfim
sou um homem prático.

Já posso matar-me sem remorso.



Álvaro Alves de Faria in À Noite, Os Cavalos (2003)