segunda-feira, 29 de maio de 2017

[MINHA AVÓ E MINHA MÃE]

[MINHA AVÓ E MINHA MÃE]

Minha avó e minha mãe
perdi-as de vista num grande armazém
a fazer compras de Natal
hoje trabalho eu mesma para o armazém
que por sua vez tem tomado conta de mim
uma avó e uma mãe foram-me
entretanto devolvidas
mas não eram bem as minhas
ficámos porém umas com as outras
para não arranjar complicações

Adilia Lopes  in A Pão e Água de Colónia (1987)

sábado, 27 de maio de 2017

França - São Paulo


TEATRO RENAULT, na Avenida Brigadeiro Faria Lima

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Apenas mais um dia....


Chove desde ontem na cidade
o parque está deserto
crianças e idosos
corredores e jogadores
namorados e gazeteiros
ambulantes e policiais
escutam desolados a chuva bater nas vidraças

No céu não há pássaros, borboletas, mariposas
apenas nuvens plúmbeas
no chão não há passos, cães, bicicletas
apenas poças onde pequenos círculos desfazem-se

As árvores choram folhas
pequeninas, pequeninas, pequenas
pequenas, médias, grandes
abatidas por pingos calibre 45

O leão albino ruge silenciosamente
para o hoje inútil banco de madeira verde
o brônzeo ilustre cidadão, limpo das fezes columbinas
vigia a fofa grama crescer alegremente entre doces pingos

O córrego obeso de chuva lambe as vigas da ponte
que se não fosse de concreto
retorcer-se-ia  toda no gozo

Os peixes estão em dia de festa, tudo vem na correnteza
flores, fezes, folhas, frutas, galhos, papéis, plásticos, terra
lixo

Para a pequena garça esbelta e branca, branquíssima
imóvel com seu longo e fino bico, atenta ao alvoroço písceo
é apenas mais um dia

e quem não pesca não come...


José FRID

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Lenda pessoal....


Para suportar a sua própria história, cada um acrescenta-lhe um pouco de lenda.

Marcel Jouhandeau

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Significado da vida....



Antes, a questão era descobrir se a vida precisava ter algum significado para ser vivida. Agora, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado. 


Albert Camus

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Conjugação - Affonso Romano Santanna

Conjugação

                    Eu falo
                    tu ouves
                    ele cala.
                    Eu procuro
                    tu indagas
                    ele esconde.

                    Eu planto
                    tu adubas
                    ele colhe.

                    Eu ajunto
                    tu conservas
                    ele rouba.

                    Eu defendo
                    tu combates
                    ele entrega.

                    Eu canto
                    tu calas
                    ele vaia.

                    Eu escrevo
                    tu me lês
                    ele apaga.


Affonso Romano Santanna 

terça-feira, 16 de maio de 2017

Desgraças...


Nada é tão lamentável e nocivo como antecipar desgraças.


Sêneca

segunda-feira, 15 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Moonlight

Sou um homem do século XXI e sei que

a lua apenas reflete luz e gira em torno da terra,
um dos planetas que orbitam em torno do sol,
uma estrela de quinta categoria
na periferia da Via Lactea,
apenas uma das três trilhões de galáxias do universo,
iniciado por uma grande explosão....

Mas como me emociono ao ver a lua cheia
brincando de esconde-esconde com os prédios da cidade
num céu limpo e escuro de gravura japonesa

Sento-me à varanda e deixo-me envolver pela magia lunar
como fazia meu ancestral à beira da caverna...

Vemos dragões e pensamos no amor.


José FRID

quarta-feira, 10 de maio de 2017

O homem mediano e suas paixões


É um grande engano pensar que o homem mediano só tem paixões medianas.


Georges Bernanos

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Dois segundos (Poesia alheia)


A força de uma natureza
que nem ele mesmo parecia conhecer
levava dois segundos
para se impor em um arroubo
que transbordava
e ganhava vida própria
à revelia de sua própria
existência.


Poesia alheia elaborada por José FRID sobre texto de Julio Maria sobre Luiz Eça, no Estadão,
25 de abril de 2017

sábado, 6 de maio de 2017

Arrastão (Poesia alheia)


Sua mão esquerda
assumia o protagonismo
com a mesma intensidade que
a direita saía ligeira
para as regiões mais agudas
do piano.


A harmonia fazia a mesma melodia
atingir o estado de levitação
sem nunca ser a mesma
e seu suingue chegava com força
para arrastar três homens
ou uma orquestra inteira.


Se não fosse nada disso
também seria bom.


Poesia alheia elaborada por José FRID sobre texto de Julio Maria sobre Luiz Eça, no Estadão, 25 de abril de 2017

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Arte


A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo.


Vladimir Maiakovski

terça-feira, 2 de maio de 2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Cada um....


Cada um é o que foi, e o que há de ser.


Padre Antônio Vieira

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Inspiração literária...

Há, no fundo literário de qualquer escritor, duas partes, a que a inspiração lhe dá e a que ele lhe toma.


Joaquim Nabuco 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A amada - Leonora Carrington (Conto surrealista)

                                              
Num fim de tarde, passando por uma rua estreita, eu roubei um melão. O fruteiro, que estava escondido atrás de seus frutos, agarrou-me pelo braço e disse-me: "Senhorita, eu estive esperando por uma ocasião como esta por quarenta anos. Eu passei quarenta anos escondido atrás desta pilha de laranjas com a esperança de que alguém roubaria um fruto de mim. Eu lhe direi o porquê; preciso falar, preciso contar minha história. Se você não escutar, eu entregarei você à polícia. "

"Vou ouvir", eu disse. Sem me deixar ir, ele levou-me para o interior da loja, entre frutas.

Sem me deixar ir, levou-me para o interior da loja, entre frutas e legumes. Fechamos uma porta mais distante e alcançamos uma sala onde havia uma cama na qual estava deitada uma mulher imóvel e provavelmente morta. Pareceu-me que ela tinha estado ali por um longo tempo, visto que a cama estava coberta com ervas.

"Eu a rego todos os dias", disse o homem com um ar pensativo. "A 40 anos que não tenho conseguido saber se ela está morta ou não. Ela nunca se moveu, nem falou, nem comeu durante esse tempo. Mas a coisa curiosa é que ela permanece quente. Se você não acredita em mim, olhe."

O homem ergueu um canto da tampa,  que me permitiu ver muitos ovos e alguns pintinhos recém-nascidos.

"Como você percebe," ele disse, "eu incubo ovos aqui. Eu também vendo ovos frescos. "

Cada um de nós sentou-se em um lado da cama e fruteiro começou a contar sua história.

"Acredite em mim; Eu a amo tanto! Eu tenho sempre a amado! Ela era tão doce! Tinha pequenos e ágeis pés brancos. Gostaria de vê-los?

"Não", respondi.

"Finalmente", ele continuou, depois de exalar uma respiração profunda, "ela era tão linda! Meu cabelo era loiro; Os dela, magnificamente pretos! Agora, ambos temos cabelos brancos. Seu pai era um homem extraordinário. Ele tinha uma mansão no campo. Ele era um colecionador de costeletas de cordeiro. Por isso nós chegamos a nos conhecermos. Eu tenho uma certa habilidade em secar a carne com um olhar. Mr. Pushfoot (como ele era chamado) ouvira sobre mim. Ele convidou-me para sua casa com o intuito de secar suas costeletas para salvá-las do apodrecimento. Agnes era sua filha. Nós nos amamos desde o primeiro momento. Nós partimos em um barco pelo Sena. Eu remava. Agnes me disse: "Eu te amo tanto que só vivo para você." Respondi-lhe com as mesmas palavras. Acredito que é meu amor que a mantém aquecida, talvez esteja morta, mas o calor persiste".

Depois de uma breve pausa, com um olhar ausente, ele prosseguiu: - "No próximo ano vou cultivar alguns tomates; não me surpreenderia se eles crescessem bem lá dentro ... Tornou-se noite, e eu não sabia onde passaríamos nossa noite de núpcias. Agnes tinha se tornado muito pálida, por causa da fadiga. Finalmente, mal tínhamos deixado Paris para trás,  quando vi uma pousada que faceava o rio. Amarrei o barco e caminhamos em direção a um terraço obscuro e sinistro. Havia dois lobos lá e uma raposa, que começaram a andar ao redor de nós. Não havia mais ninguém ... Bati e bati na porta, do outro lado da qual prevaleceu um silêncio terrível. – 'Agnes está cansada! Agnes está muito cansada! ', Gritei com toda a força que pude. Finalmente, a cabeça de uma velha senhora apareceu na janela e disse: 'Eu não sei de nada. O senhorio aqui é a raposa. Deixe-me dormir. Você está me incomodando.' Agnes começou a chorar. Não havia outro remédio senão dirigir-nos à raposa. "Você tem camas?" Eu perguntei várias vezes. Ninguém respondeu: ele não sabia como falar. E novamente a cabeça, mais velha do que a outra, mas que agora descia lentamente pela janela amarrada ao final de um pequeno cordão. 'Dirija-se aos lobos; eu não sou o senhorio aqui. Deixe-me dormir! Por favor!' Eu entendi que aquela cabeça era louca e eu não tinha coração para continuar. Agnes continuava chorando. Eu andei em torno da casa algumas vezes e, finalmente, eu fui capaz de abrir uma janela, através do qual entramos. Então nós nos encontramos em uma cozinha com um teto alto; sobre um grande forno aquecido pelo fogo estavam alguns legumes que cozinhavam e pularam na água fervente, uma coisa que muito nos divertiu. Comemos bem e depois nos deitamos no chão. Eu tinha Agnes em meus braços. Não dormimos. Aquela cozinha terrível continha todos os tipos de coisas. Muitos ratos tinham enfiado a cabeça fora de seus buracos e depois cantaram com gritantes e desagradáveis ​​pequenas vozes. Odores imundos se expandiam e diminuíam um após o outro, e havia correntes de ar. Creio que foram as correntes de ar que acabaram com a minha pobre Agnes. Ela nunca se recuperou. A partir desse dia, cada vez ela falava menos. . . "

Leonora Carrington, tradução de José FRID.

Original disponível em Biblioklept, acessado em 20/04/2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

segunda-feira, 24 de abril de 2017

ÀS VEZES O POEMA CAI COMO UM RAIO - Affonso Romano de Sant'Anna



Às vezes, o poema cai  como um raio
em cima de você.

Às vezes o poema, como um raio,
cai longe de você
e chegam apenas os ecos do trovão.

Você não o mereceu.
Não foi fulminado pela luz
e pode, quando muito,
ouvir os ruídos
do que se perdeu.


Affonso Romano de Sant'Anna