domingo, 20 de maio de 2018

Vai

O homem comum atravessa 
o olho de sua morte e nasce 
como nascem as aves no outono 
e os dias nos calendários. 
O homem comum há de ser comum 
entre a noite de cal e o oceano 
como se assim pudesse se alcançar 
tentativa da palavra escassa. 
O homem comum 
não se surpreende no espelho 
e nem se vê 
na imagem em que se interfere. 
Morre o homem comum 
como morrem 
as escamas dos peixes 
morre na alternativa 
de não ser mais. 


Álvaro Alves de Faria in Vagas Lembranças, um ensaio gráfico-poético:

sábado, 19 de maio de 2018

quarta-feira, 16 de maio de 2018

[A PESSOA CERTA]



A pessoa certa atravessa
a rua com seu terno branco
gravata de seda italiana.
A pessoa certa
executiva de si mesma
atravessa a praça
com sapatos pretos
meias de náilon norte-americanas.
A pessoa certa entra no prédio
recolhe dinheiro
cola na pasta
pega o elevador.
A pessoa certa
atravessa o hall
chega à porta giratória.
A pessoa certa
põe o pé na calçada
e cai fulminada
sem saber por quê.


Álvaro Alves de Faria in 
O Azul Irremediável (1992)

domingo, 13 de maio de 2018

Quanto vale?


Fim do dia
jogo na Sena e saio
com bela moeda de
real

Um homem acampa na porta da lotérica
mão famélica esticada, trajes mulambentos:
espera escuras miúdas moedas
- É sua mina particular

Deposito a moeda na mão
encardida e recebo um protocolar
- Obrigado, senhor...
enquanto ele apalpa o metal

Sentiu o peso  – Valeu!
o dourado reluz – Valeu, valeu!
compreendeu o valor da moeda:
- VALEU, DOUTOR!!!! DEUS TE PAGUE!!!

(o cachorro-quente na esquina vale duas dessas moedas....)

José FRID

sábado, 12 de maio de 2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Símbolos...

W. B. Yeats num ensaio acerca de magia:

1 - Que as fronteiras de nossa mente estão sempre se deslocando, e que muitas mentes podem fluir umas nas outras, por assim dizer, e criar ou revelar uma mente única, uma energia única.

2 - Que as fronteiras de nossa memória também se deslocam, e que nossas memórias são parte de uma grande memória, a memória da própria Natureza.

3 - Que essa grande mente e memória podem ser evocadas por símbolos.


Transcrito por Edmund Wilson in O Castelo de Axel, Cia das Letras, pás.70/71

quinta-feira, 10 de maio de 2018

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Naturalismo

[...] Nos meados do século XIX, a ciência fez novos progressos e as ideias mecanicistas voltaram a estar na moda. Dessa vez, porém, vinham de outra parte - não da física ou da matemática, mas da biologia. A teoria da evolução teve o efeito de reduzir o homem, da estatura heroica a que os românticos haviam procurado exaltá-lo, ao aspecto de um animal indefeso, mais uma vez minúsculo dentro do universo e à mercê das forças que o circundavam. A humanidade era o produto acidental da hereditariedade e do meio ambiente, em cujos termos se tornava explicável.  Esta doutrina chamou-se, em literatura, naturalismo, e foi posta em prática por romancistas como Zola, que acreditava serem idênticas a composição de um romance e a realização de um experimento de laboratório: bastava apenas fornecer às personagens um meio ambiente e uma hereditariedade específicos e depois acompanhar-lhes as reações automáticas. E por historiadores e críticos com Taine, que asseverava que serem a virtude e o vício produtos de processos automáticos, tanto quanto álcalis e ácidos, e que buscava explicar as obras-primas com estudar as condições geográficas e climáticas dos países onde haviam sido produzidas.


Edmund Wilson in O Castelo de Axel, Cia das Letras, págs.31/32     

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Deus relojoeiro...

{...} Os séculos XVII e XVIII foram, na Europa, um período de grande desenvolvimento da matemática e da teoria física; na literatura do período chamado clássico; Descartes e Newton constituíram influência tão importante quanto a dos próprios clássicos. Os poetas, a exemplo dos astrônomos e dos matemáticos, haviam chegado a encarar o universo como uma máquina obediente às leis da lógica e suscetível de explicação racional; Deus figurava meramente como o fabricante de relógios que deveria ter existido para manufaturar o relógio.  

Edmund Wilson in O Castelo de Axel, Cia das Letras, pág.29      

sábado, 5 de maio de 2018

Nós tecemos os sonhos....

Repito as palavras profundas que Shakespeare põe na boca de Próspero na mais bela, na mais poética e mortalmente triste de suas comédias. Somos feitos do mesmo tecido que nossos sonhos: o que quer dizer que, reciprocamente, tecemos nossos sonhos com nossa própria substância.

Paul Groussac in A viagem intelectual (1904), transcrito por Jorge Luis Borges in O Livro dos Sonhos, pág.126

sexta-feira, 4 de maio de 2018

quinta-feira, 3 de maio de 2018

A explicação

Um homem, na vigília, pensa bem de outro e nele confia plenamente, porém, inquietam-no sonhos em que esse amigo age como um inimigo mortal. Revela-se, afinal, que o caráter sonhado era o verdadeiro. A explicação seria a percepção instintiva da realidade.

Nathaniel Hawthorne, Livro de anotações (1868),  transcrito por Jorge Luis Borges in O Livro dos Sonhos, pág.162

quarta-feira, 2 de maio de 2018

terça-feira, 1 de maio de 2018

Episódio do inimigo

Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava:  a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:

- A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmo - disse -, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobre tudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.

Disse-me, então, com voz firme:

- Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:

-É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.

-Precisamente porque já não sou aquela criança - replicou - é que tenho que matá-lo. Não se trata de vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos,Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

- Posso fazer uma coisa - respondi.

- Qual?

- Acordar.

E assim o fiz.


Jorge Luis Borges in Livro dos Sonhos, págs.147/148

segunda-feira, 30 de abril de 2018

domingo, 29 de abril de 2018

História dos dois que sonharam

O historiador árabe El Ixaqui narra este acontecimento:

Contam os homens dignos de fé (porém somente Alá é onisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que existiu no Cairo um homem possuidor de riquezas, porém tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas, menos a casa de seu pai. Diante disso, viu-se forçado a trabalhar para ganhar seu pão. Trabalhou tanto, que o sono venceu-o uma noite sob uma figueira de seu jardim, e ele viu no sonho um homem empanturrado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: "Tua fortuna está na Pérsia, em Ispahan; vai buscá-la". Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem, afrontando os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Ispahan, e no centro da cidade, no pátio de uma mesquita, deitou-se para dormir. Junto à mesquita havia uma casa, e, por vontade de Deus Todo-Poderoso, um bando de ladrões atravessou a mesquita, e meteu-se na casa, e as pessoas que aí dormiam, despertando com o barulho, pediram socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas noturnos daquele distrito acudiu com seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão quis revistar a mesquita e lá deram com o homem do Cairo; açoitaram-no de tal maneira com varas de bambu que ele quase morreu. Dois dias depois recobrou os sentidos na cadeia. O capitão mandou buscá-lo e disse:"Quem és tu e qual é a tua pátria?" O outro declarou: "Sou da famosa cidade do Cairo e meu nome é Mohamed el Magrebi". O capitão perguntou-lhe: "O que te trouxe à Pérsia?" O outro optou pela verdade e disse: "Um homem ordenou-me, em sonho, que eu viesse a Ispahan porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Ispahan e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser as vergastadas que tão generosamente me deste".

Diante de tais palavras o capitão riu tanto que se viam seus dentes do siso e, finalmente, lhe disse: "Homem desajuizado e crédulo, eu já sonhei três vezes com uma casa no Cairo no fundo da qual há um jardim, e nesse jardim um relógio de sol, e depois do relógio, uma figueira, e logo depois da figueira, uma fonte, e sob a fonte, um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira e tu, produto de uma mula com um demônio, não obstante, vens errando de cidade em cidade baseado unicamente na fé no teu sonho. Que eu não volte a ver-te em Ispahan. Toma estas moedas e desaparece".

O homem pegou as moedas e regressou a sua pátria. Sob a fonte de seu jardim (que era a mesma do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus lhe deu sua benção, recompensou-o e enalteceu-o. Deus é o Generoso, o Oculto.

Do "Livro das mil e uma noites (noite 351), transcrito por  Jorge Luis Borges in Livro dos Sonhos, págs.154/156 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Convém distinguir...

Por que comparas teu mandamento interior com um sonho? Ele te parece, por acaso, absurdo, incoerente, inevitável, irrepetível, origem de alegrias ou terrores infundados, incomunicável em sua totalidade, porém ansioso de ser comunicado, como são precisamente os sonhos?

Franz Kafka, in Quarto caderno in-oitavo, transcrito por Jorge Luis Borges in O Livro dos Sonhos, pág.63 

terça-feira, 24 de abril de 2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Na hora do chá....

Manhã, ela sai do Metrô  a caminho do trabalho, desviando de corpos dispersos pelo Vale do Anhangabaú. Mortos? Espera que apenas durmam, mesmo aquele enrolado em mortalha branca e o outro que parece um monte de lixo. Rente à banca de jornal, um corpo sobre papelão emula a Estátua da Liberdade, uma mão junto ao tórax, a outra esticada, da qual roubaram a tocha que guia os desvalidos do mundo, muitos daqueles que se espalham ali pelas calçadas, pelos canteiros dos jardins, sob as marquises, à porta das lojas.
Ela sobe a rua Capitão Salomão pensando como as pessoas conseguem dormir serenos em suas casas, sabendo de tantos ao relento. O coração é seletivo: emociona-se com os desabrigados pela guerra na Síria, pelas enchentes  no México e por terremoto na Índia, vistos pela tevê ou na internet, mas apenas provoca desvio, num passo duro, daqueles caídos aqui, ali, no Largo do Paissandú, tão próximos, tão reais, que ferem nossas narinas e nossos olhos.
A rotina de trabalho a absorve, os desvalidos caem num desvão mental. Na hora do almoço, passeia tranquila, os corpos já retomaram suas atividades, batalham pela sobrevivência, para existirem por mais um dia, por uma noite mais.
Cinco horas da tarde, ainda claro. Hora do chá em Londres, hora dela voltar ao lar. Ela repisa o caminho da manhã, agora sem corpos, os desvalidos ainda transitam pelas ruas e praças, a batalha continua, a dura noite é próxima.
Ela cruza o Largo, entra na Salomão, vê ao longe um furgão estacionado. Aproxima-se do veículo, ao lado dele, um saco preto, dentro dele um corpo, este imóvel, olhos fechados, rosto crispado num esgar de despedida. O coração aperta, lágrimas não saem, ela segue para o Metrô, o importante é existir, ao menos mais um dia, por mais uma noite.
Outra semana, mesmo horário vespertino, mesmo local, outro saco escuro, outro corpo, também imóvel, olhos esbugalhados, surpresos com a saída antecipada.
Cinco horas no centro de São Paulo não é hora do chá, mas hora do rabecão.
Ela não anda mais de Metrô, prefere o ônibus à porta de casa, à porta do escritório. (Os corpos, vivos ou mortos, estão lá, mesmo que ela não os veja....)
José FRID

domingo, 22 de abril de 2018

sábado, 21 de abril de 2018

Não importa....

Agora isso acabou. Acabou-se o tempo. Há e haverá sempre alguém esperando que o sol arrebente na curva do horizonte e se espalhe por cima das montanhas ou pelo reflexo do mar. Haverá alguém vigiando isso acontecer, para poder depois contar como foi.

Na verdade, não importa tanto. Não importa nada.

Sei perfeitamente por que vim parar aqui. Só não consigo acabar de entender como é que isso aconteceu.

Mas isso também já não importa.


Eric
 Nepomucen
o in Antologia pessoal, pág.330

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Mais de trinta anos de bons serviços

 

Rua Formosa, centro de São Paulo. Poucos sabem onde fica. Pudera, todo o seu lado par foi desapropriado e demolido. Virou uma rua com poucos prédios, todos do mesmo lado, com vários trechos absorvidos por praças e calçadões de pedestres. Rua Formosa, esquina com Avenida São João. O prédio amarelo dos Correios, majestosa construção tombada, agora centro cultural, tem quatro andares de janelas apreciando as formosas do outro lado da esquina...

 

Mil novecentos e noventa, janeiro. Começo no meu novo emprego, no Martinelli, famoso prédio rosa que domina a região. Das janelas do vigésimo segundo andar tenho ampla visão da Avenida São João, até ela sumir sob o Minhocão. Na esquina mais próxima, o prédio dos Correios se sobressai, majestoso, ocupando meio quarteirão. Um colega de trabalho chama a minha atenção para o outro lado da esquina: construções baixas, antigas e deterioradas que compõem a tal Rua Formosa. Nos Correios, naquele tempo ainda ativo e importante para as comunicações paulistanas, um frenético movimento de pessoas entrando e saindo do prédio, despachando cartas, telegramas e pacotes, retirando encomendas.  Do outro lado da rua, a vida passa num ritmo mais calmo, mulheres sem pressa observam o movimento postal, sentadas nos tamboretes dos bares, encostadas nas fachadas.... Talvez influenciados por tanta placidez, muitos homens que ali circulam relaxam, diminuem seus passos, adiam seus compromissos, observam as solícitas moças, tomam uma cerveja gelada, uma pinga para o santo. Na distância, vejo vários deles conversarem com elas, sempre receptivas. Alguns pares se entendem, caminham juntos e somem por uma discreta porta situada entre os bares, acesso ao segundo andar, às modestas alcovas do amor imediato.  O colega informa que o George vai lá três vezes por dia, paga o quartinho por mês, com desconto de cliente especial. Pergunto se ele é solteiro: não, casadíssimo! E gosta da mulher!! Mas gosta mais de variar, vai com todas, mas o importante é o preço – cincão – e a disponibilidade imediata. Já e agora!

 

Hora do almoço, os colegas convidam-me para almoçar na Ipiranga. Passamos rente aos bares da esquina, as moças agora exibem ostensivamente seus dotes físicos, são ativas na caça ao cliente, fazem promessas de prazeres paradisíacos. Conseguimos superar as agressivas ofertas e seguimos em frente, incólumes. Eles informam que são as mais baratas da região, fazem programa até por cincão, George conhece todas, vai lá três vezes ao dia. Uau!, digo eu, o cara é animal!!! Eles indagam-me: como ele faz no fim de semana?

 

Na volta do almoço, óculos escuros, caminho pelo calçadão da São João, a uma distância segura das trabalhadoras, o que me permite observá-las melhor sem ser assediado. Altas, baixas, gordas, magras, peitudas, tábuas, novas, velhas, brancas, negras, mulatas, louras, morenas, tem para todos os gostos e precisão. A honestidade impera: fantasias realizadas ou seu dinheiro de volta.

 

Dia após dia elas estão lá, desde o começo da manhã até à noite, de segunda a domingo, com sol, chuva, frio, verdadeiro serviço de utilidade pública. Afinal, dizem que é a profissão mais antiga do mundo. Uma prefeita começa obras no Vale do Anhangabaú, elas resistem, clientela aumenta com os operários. George morreu de aids, algumas delas talvez tenham tido o mesmo triste fim, bem como anônimos clientes. Mas o ponto resiste, sempre há trabalhadoras disponíveis, sempre há clientela. Afinal, cincão é uma proposta irresistível.

 

Mudo de emprego, vou para longe. Depois de anos, retorno à mesma janela: imutáveis o prédio dos Correios e as formosas de vida fácil. Fácil? Vai lá fazer o trabalho delas, atendendo a todos que passam, sem discriminar ninguém...

 

Tempos depois, um prefeito resolve higienizar a região, desapropriando os predinhos deteriorados da Rua Formosa. Espaço para outra praça e um centro cultural, alega. Com as demolições, somem os bares, a porta do amor, as meninas e os clientes. Como faria George agora? O prédio dos Correios, invejoso e obsoleto, também entra em obras, também quer ser centro cultural.

 

Dois mil e dezessete, março, fim do dia. Depois de várias trocas de emprego, estou de volta à região da Ipiranga. Saio do Largo do Paissandu e caminho pela São João com destino ao Metrô São Bento. Logo no começo, uma feira do "rolo": um monte de homens aglomerados, com sacolas, mochilas, pacotes, objetos, conversando nervosamente entre si, em escambos rápidos. No calçadão, hippies fora de época expõem seus produtos no calçadão. Vários prédios estão invadidos por movimentos em prol de habitação popular. A reforma do prédio dos Correios seguiu em ritmo de Sedex e o centro cultural foi inaugurado, brilhando sobre a avenida. Um bar toca música alta, espalha parcas cadeiras vermelhas pela calçada, todas vazias. As obras prometidas por aquele longínquo prefeito vão em ritmo lento, lentíssimo, a esquina com a Rua Formosa está tomada por tapumes multicoloridos. Chego mais perto e vejo: as formosas voltaram, em menor quantidade, é certo, e mais recatadas, como Temer gosta. Escoradas nos tapumes, oferecem discretamente seus serviços. Se há oferta, é porque haverá clientes, agora não mais usuários dos Correios. Não vejo a porta do amor. Onde se dão as conjunções carnais? Em quartinhos dos prédios invadidos? Na penumbra dos cinemas "adultos" da região? Será que ainda fazem por cincão ou a inflação elevou para dez, vinte reais o programa rápido? Daria para barganhar três por cinquenta? O risco diminuiu, não se morre de aids, há coquetéis que prolongam a vida. George iria gostar...

 

Caminho ao meu destino, mas um grafite na empena cega de um prédio, bem acima das moças, atrai a minha atenção: um rosto metade mulher jovem e bonita, metade caveira, pescoço ornado por colar de caveirinhas. Na mão cadavérica um coração aberto expondo um relógio. Vixe!!! Seria um alerta sobre o destino das moças e dos seus clientes dos encontros rápidos?? O que diria George??


José FRID


quarta-feira, 18 de abril de 2018

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Sedução platônica....

[...]  Douglas era confiado a uma série de governantas francesas, que tomavam cuidados bilíngues em relação a ele, paparicando-o e praticando a delicada arte da sedução platônica, que as mulheres solitárias de meia-idade sabem impor com tanta habilidade em garotinhos confusos e solitários.



Budd Schulberg in Os Desencantados, Cosac & Naify, pág.240