terça-feira, 25 de julho de 2017

Porque amor, dor e gratidão se misturam....

[...]

Em casa, o marido já fez macarrão com molho de latinha'. A mulher como com algum gosto.Sorri.Ela vai até ele e o abraça. Sente gratidão. Por ele exisitr. Por abraçá-la  e gostar dela. Segura seu rosto entre as mãos. Beija aqueles lábios, os olhos. E reconhece. Aos poucos. O rosto, o pescoço. Acaricia o peito, por dentro da camisa. Acaricia. Por dentro. Antes de acabar o macarrão. Emaranhados. Um no outro. Ele a carrega até a cama. Ela quer se dar para ele. Porque amor, dor e gratidão se misturam. Neste momento. Assim como os líquidos. De um e outro. Assim.
Assim.
Bom.


Eda Nagayama in Desgarrados, Cosac Naify, 2015, págs. 30/31

domingo, 23 de julho de 2017

O bolo...

[...]

Ela lhe pareceu mais alegre. Talvez por causa do bolo. assim, comendo bolo na mão, na rua. Voltava a ser uma mocinha. Um bolo podia então rejuvenescer. Sorri. Deus gostaria dessa simplicidade. Era Seu jeito de se manifestar nas criaturas. Graça que era mais comeum nas mulheres.

Eda Nagayama in Desgarrados, Cosac Naify, 2015, pág.20

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Família....

Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se.
depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luis Peixoto in A criança em ruínas, Dublinense, 2017

quarta-feira, 19 de julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

Executivo na Sé


Oito e meia da manhã. Os passageiros sonolentos ascendem pela escada rolante escutando a voz alta de um executivo ao celular, que ecoa sobre a sinfonia ferroviária, dando ordens, decidindo a vida dele e de outros. Escutam mas não o veem.  Eles desembarcam correndo no piso superior e seguem rápidos para as catracas libertadoras. Poucos reparam no homem sentado no chão, encostado no canto formado pela parede e a mureta de concreto.

Ele segura o celular com a mão esquerda junto à orelha e fala, fala, fala. Ordens, decisões, orientações. A mão direita segura um ...garfo! Ele roda o talher entre as pernas cruzadas e extrai ...espaguete! Coloca o rolo de massa na boca e continua decidindo a vida pelo celular, não tem tempo a perder.....

José FRID


segunda-feira, 17 de julho de 2017

domingo, 16 de julho de 2017

Homem Aranha

Estou próximo ao terminal de ônibus junto ao Metrô Vila Mariana. Uma jovem mulher atravessa a rua e passa a caminhar à minha frente. Ela é obesa, muito obesa, coxas grossas, quadris largos, pneus sólidos. Calças compridas pretas, camisa também comprida e preta. Coroando a figura, cabelos fartos e compridos até a cintura, na indiscreta cor vermelho sangue vivo. Na mão esquerda ela carrega uma pequena garrafa plástica de Coca-Cola, líquido preto em rótulo vermelho, total harmonia entre a consumidora e o produto.

Um conhecido morador de rua e cachaceiro da região vem saindo do terminal no seu gingado peculiar e cantarolando um funk. Quando se depara com a moça, perde o passo e fica mudo. Olha para ela embevecido como um escultor à sua musa. Ela vai se aproximando e ele reage aos gritos: "Mary Jane!!! Que linda! Queria ser o Peter Parker para ficar com você!!" Ela passa por ele ignorando suas palavras, a Coca balançando e espumando a cada passo. Ele continua parado admirando sua fornida deusa indo embora. Quando passo por ele, escuto-o dizer a si próprio "Queria ser o Spiderman!", engatando com a música do filme. Quem imaginaria que um sem teto fosse fã de um super-herói?    (Saudades da Mary Jane da Kirsten Dunst, gata!)

José FRID

sábado, 15 de julho de 2017

Serra catarinense.


O outro lado da Serra do Rio do Rastro - Santa Catarina

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Na política....

Em política nada se perde e nada se transforma - tudo se corrompe.


Millôr Fernandes

segunda-feira, 10 de julho de 2017

domingo, 9 de julho de 2017

Na política brasileira....


Eu não subi até aqui pra ser incorruptível.

Millôr Fernandes

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Selva


1

Adília
chora
como
uma Madalena

2

Adília

treslê
a Bíblia

3

Adília
a idiota
da família
afoga-se
em chá de tília

4

Adília
memorabilia

Combray
Penamacor

Cortam-me
ou esticam-me
braços
e pernas
conforme
a cama
(a cama
é a medida)

A medida porém
é a Senhora da Aparecida

Também eu
fui Procrustes
tive
duas camas
os outros as outras
nunca
estavam
certos

Errei (pequei)
estou arrependida
(antes não fodida
que mal fodida)



Adília Lopes

terça-feira, 4 de julho de 2017

Memórias....

Na memória, tudo é grato, até a desventura.


Frase de Jorge Luis Borges selecionada por Edival Lourenço in Revista Bula 

domingo, 2 de julho de 2017

A história....

A verdadeira história não é o que sucedeu; é o que pensamos que sucedeu.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O desejo e a Globo

Enterrado em sua poltrona de couro, ele olha embevecido para as imagens da mocinha da novela, o sucesso do momento. Não perde um movimento dela, tenta absorver tudo: um meneio de mão, o jogar dos cabelos, o sorriso, o movimento do vestido, a sombra dos seios no tecido, os dois palmos de pernas acima das botinhas pretas, os olhos brilhando quando vê o amado chegar, seu caminhar pela sala, a voltinha junto à janela, o amuo fingido, puro charme, a boquinha se mexendo ao pronunciar doces palavras para... não era para ele, mas para o outro. "Desgraçada", grita, socando o braço da poltrona e interrompendo sua masturbação mental. Sua voz é absorvida pelas cortinas pesadas, os tapetes espessos, as estantes abarrotadas de livros com belas encadernações, os quadros, as fotos do pai ao lado da tevê. Entra o intervalo comercial, seu anúncio aparece, ótimo. Ergue os olhos para o pai e escuta-o.

- Então, meu filho, cresça e apareça. A medida do seu sucesso será ter a atriz que quiser, como eu tive. Que sua mãe não saiba, e sua mulher também.
- Mamãe não sabia, não desconfiava?
- Saber não sabia, sempre fui discreto, seja também, meu filho. Desconfiar sim, a imprensa especulava, insinuava, tive até que pagar uns e outros. Dinheiro mesmo ou comprando anúncios. O poder do anunciante, meu filho, o poder...

Ele fixa os olhos na foto do pai com uma atriz de sucesso, ela divina e maravilhosa, ele com um sorriso matreiro de patrocinador esperto, dono de muitas lojas, agora suas, como aquele escritório, a poltrona, tudo. Só a televisão era nova, oitenta polegadas, 12K. Amuado, explica-se ao progenitor.

Cresci e apareci, papai. Estou muito melhor que você, por todos os indicadores econômicos e financeiros, menos um, o da sua atriz da Tupi. Outros tempos, papai, só uma montanha de dinheiro não resolve mais. A mocinha está lá, quero-a, mas meu dinheiro não a compra. Não agora. Daqui a alguns anos com certeza poderei tê-la, mas eu é que não vou querer, desejarei outra, outra será a medida do meu sucesso. A culpa não é minha, pai, a culpa é do mercado, dos outros anunciantes, empresas sem dono, que não sabem exigir seus direitos. A emissora ficou tão forte, pai, que pode pagar bem para suas estrelas. No seu tempo é que era bom, papai, você é que pagava diretamente a elas, o poder era seu, agora é dos diretores da Globo. E as mocinhas agora querem mocinhos, colegas de trabalho, cantorzinhos, essa fauna. No seu tempo, pai, elas queriam homens, homens bem sucedidos, ricos, poderosos como eu e você. Papai, você nasceu na hora certa, eu dei azar. No teatro ainda tenho força, na música também, só botar uns patrocínios que vai tudo bem, tenho quem quero. Mas quero ela, a estrela da Globo, pai, como você tinha a da Tupi. Tá difícil, os diretores da Globo pegam todas, casam até. Como posso concorrer, pai? Acabo só pegando segundo escalão ou as mais passadas.

A novela recomeça, ele pede licença para o pai e presta atenção na tevê. A mocinha não aparece, ele fica acompanhando o enredo com pouco interesse, a cabeça vai enchendo-se de ideias... Viciara em novelas por causa do seu trabalho de acompanhar a veiculação de seus anúncios. O que era um fardo virou a parte mais agradável do dia. Cada novela, uma paixão por uma atriz, mas... olha para o pai a procura de auxílio...Sim, pai, vou ter que comprar a Globo, papai!

José FRID

terça-feira, 27 de junho de 2017

Destino...

Em geral, chamamos de destino as asneiras que cometemos.

Arthur Schopenhauer

domingo, 25 de junho de 2017

Liberdade....

A liberdade é um bem tão apreciado que queremos ser donos até da alheia.

Barão de Montesquieu

domingo, 18 de junho de 2017

Beleza divina....

Como é que Deus que se fez homem, que é a favor dos pobres de espírito, dos humildes, dos deserdados da terra, vai se autoconceber como um ser belo? Seria um ato injusto de Deus. Seria um ato racista de Deus, impossível. Por isso, Cristo deve ter sido francamente feio, e todas as pinturas que o mostram formoso são pura tapeação.

Frase de Jorge Luis Borges selecionada por Edival Lourenço in Revista Bula 

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ajudar os muito pobres para salvar os poucos ricos...

Se uma sociedade livre não pode ajudar os muito pobres, não poderá salvar os poucos ricos.

John Kennedy