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domingo, 27 de março de 2022

A vida é assim....

Mudei e meus filhos ficaram amigos das crianças do prédio. A amizade dos pequenos virou a convivência dos pais. Jonas e da Soraya estavam na nossa faixa de idade. As crianças brincavam no quarto, os adultos na sala bebendo, comendo e conversando sobre tudo e o nada. Amizade forte, de deixar os filhos com um casal para o outro fazer uma viagenzinha romântica. Tínhamos o mesmo padrão econômico. A exceção era brindar um bom negócio fechado por Jonas com champagne francês, que ele dizia ser um prêmio dado pelo patrão.

Um dia Jonas perguntou se eu poderia guardar um presente que comprara para Soraya, surpresa de aniversário de casamento. Concordei e recebi um grande pacote, envolto em papel cheio de corações. Coloquei no maleiro e esqueci.

Meses depois, Jonas aparece na televisão sendo preso por tráfico de drogas, líder de quadrilha que exportava cocaína para a Europa e importava armas russas. Lembrei do embrulho dos corações. Tereza ligou para Soraya pelo interfone, mas não havia mais ninguém. Não tivemos coragem de ligar no celular.

A vida é assim.

Eu poderia ter mudado para o prédio ao lado do primeiro. Meus filhos fariam outras amizades e eu não conheceria Jonas e Soraya, mas Milena, que não tinha filhos, mas mantinha a porta sempre aberta para todos os pais dos quatro blocos do edifício, quinze andares cada, quatro por andar. Só aceitava dinheiro, mas sempre tinha uísque, vinho, cervejas, camisinhas e uma cama enorme, a um lance de escadas da academia de ginástica do prédio. Tereza descobriu onde eu investia minhas comissões de vendas e tivemos que mudar do prédio.

A vida é assim.

Mudei foi para o prédio da esquina. Pedro, pintor da cobertura com piscina. frequentava a academia quando, filhos na escola, as mães ajustavam seus corpos. Tereza estava cada dia mais gostosa, mais durinha e dourada pelo sol. Um dia, ao voltar do trabalho, ajudei-o a colocar alguns quadros no seu carro, nus femininos, em várias posições. Reconheci algumas moradoras, inclusive minha Tereza. Gostosa, durinha, dourada. Relevei, estava ganhando também.

A vida é assim.

Talvez tenha mudado para uma casa. Meus filhos brincam com as crianças dos prédios do outro lado da rua. Conheço de vista muitos moradores e na padaria escuto histórias sórdidas sobre eles. Um dia, na Paulista, encontro a Soraya almoçando com a Milena e o Pedro, negócios. Convidaram-me para a conversa. Agora cuido das contas, pagamentos, cobranças, não pergunto nada. Nado com Pedro, vizinhas, Milena e Soraya e coloco o nariz onde não devo, entende?

A vida é assim.

Não mudei. Tereza trocou-me por um rico pintor, deixando as crianças comigo. Casei-me com a babá e resolvi o problema. Trabalho numa empresa de comércio exterior. Outro dia, a polícia federal apareceu no escritório. Consolei Soraya...

J.FRID

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Kendra

Kendra acalenta a ideia de ter um filho. Todo aquele sexo não deveria servir só para o prazer, ela pensou. Seria sua resolução de ano novo. Um novo ano, uma nova década, uma nova vida, um bebê. Lembra-se que, muito nova, teve a oportunidade de ter um filho, que estaria hoje maior do que ela. Optou por não ter, uma decisão que achou acertada na época. Hoje ela tem dúvidas, mas está resignada. Com um filho, sua vida seria totalmente diferente, talvez nunca chegasse a Marte, seu grande sonho. Ela é realista e tem consciência que a vida é uma sequência de opções abandonadas, que não adianta ficar pensando no que poderia ter acontecido se outra fosse a decisão. "Não se deve chorar pelo leite derramado ou pela xícara quebrada", dizia sua avó. Seus trinta longos anos lhe mostraram que a vida não é um jogo de xadrez, com regras claras e precisas, mas um jogo onde o tabuleiro tem casas incertas, as regras mutáveis e o adversário nem sempre é conhecido. Não dá para refazer a jogada. Mexeu a peça, tem que assumir as consequências, fazer o melhor possível com o que se tem a mão. A vida é dura, mas bela, ela sabe. A Lua venceu o filho. Mas em novos tempos, outra decisão deve ser tomada. Qual, ela se pergunta. Depende só dela, reconhece.

 

Kendra está pronta para ir correr. É uma boa atleta. A Space Corps incentiva a prática de esportes, o trabalho duro e o sexo por prazer, meios eficazes de controle social, indispensável na manutenção de humanos confinados em colônias. Ela pratica as três atividades com igual interesse, dedicação e prazer, tornando-se uma marciana exemplar. Kendra veste a malha térmica laranja, resistente ao frio intenso e aos raios cósmicos, com ajustes para movimentos atléticos. Óculos espaciais, insuflador nasal, protetor bocal e garrafa de oxigênio. Olha-se no espelho, está muito séria, parece ser uma mergulhadora. Veste sobre a malha um conjunto preto de short e top, presente de Natal enviado da Terra pela sua prima Anna, que dá um toque sensual ao conjunto. Afinal, hoje é dia de festa. Pretende ir até Marte-69 pela trilha que acompanha o Vale do Sol, sobe pelo cânion o Monte das Esferas e segue pelo planalto margeando o Lago Loch Ness. Ela gosta desse caminho porque nele encontrará muitas plantas transgênicas que foram adaptadas com sucesso ao clima e solo marcianos por sua equipe de pesquisas. Todos no espaço são vegetarianos, pois a Space Corps considerou sem sentido prático ou econômico criar animais no espaço para abate. Carne só de tecidos musculares criados em laboratório.

 

Kendra pode ter filhos, é uma jovem mulher saudável. Não haveria problema, só querer e providenciar a criança pela forma mais prazerosa proporcionada pela natureza. Companheiro fixo ela já tem, poderia ser um projeto a dois, criar um bebê. Entretanto, Kendra não pode ter filhos, por contrato. Não adianta querer, agora tem que cumpri-lo, pois sabe que não há como sobreviver no planeta sem um contrato válido. Ela descortina algumas possibilidades de conciliar desejo e obrigação. Será outra difícil decisão sobre ser mãe que deve tomar. Se opções que tem significarem realmente ser uma mãe.

 

Correr é essencial para ela quando tem que tomar alguma decisão séria, a atividade física ajuda-a concentrar-se nos pontos mais importantes do problema, analisar as variáveis, achar os caminhos possíveis, optar, decidir. Ela pega a garrafa de isotônico, liga o localizador e deixa sua colônia. As botas vão levantando poeira vermelha e trazendo-lhe recordações. Kendra tinha visto filmes e fotos da mãe em campanhas pró-aborto no fim do século vinte. "O corpo é meu, eu decido" estava escrito no cartaz que sua mãe segurava numa passeata. Ela lembra que a mãe tentava incutir-lhe a ideia de que a mulher tinha todos os direitos sobre seu corpo e poderia decidir livremente se queria ou não ter filhos. Alertava a filha que, obviamente, isso ocorria apenas nas sociedades democráticas, pois nos estados religiosos, a mulher não era  nada, seu corpo pertencia ao homem, à religião, e em ditaduras,  de esquerda ou de  direita,  os corpos femininos eram subjugados aos interesses dos ditadores. "Por isso é importante batalhar pelos direitos das mulheres, minha filha, pela democracia, contra todas as ditaduras. A liberdade das mulheres, a minha e a sua, está na liberdade da sociedade", doutrinava sua mãe, palavras que Kendra absorvia, sem entender muito bem o alcance delas em função da sua idade. Kendra hoje sabe que a luta das mulheres continua na Terra, mas que no espaço os corpos das mulheres não são delas. Por contrato. Ela sente na pele que a  Lua e Marte não são sociedades livres, apenas locais de trabalho.

 

O Vale do Sol termina e Kendra entra no cânion para começar a subir o Monte das Esferas, Arfa um pouco, a inclinação é forte, são quase mil metros a galgar. O trabalho árduo a faz recordar a dificuldade de seus pais em decidir irem para a Lua. Sua mãe teria que assinar um contrato abrindo mão do direito de engravidar. Seu corpo ficaria sob a supervisão da Space Corps Inc., que lhe implantaria dispositivo anticoncepcional fixo. O pai se submeteria a aplicações quinzenais de remédios que o tornaria temporariamente infértil. A corporação queria ter segurança máxima, o casal teria que fazer exames semanais para comprovar a esterilidade de ambos. Kendra recorda-se que questionara a mãe sobre a coerência da sua decisão de submeter-se aos interesses dos outros, indagando sobre onde estaria a liberdade que tanto pregava. A mãe retrucara que era coerente, pois o corpo era dela, a decisão também, sem nenhuma pressão externa, pois, se quisesse, poderia não ir para a Lua. Ela tinha toda a liberdade para decidir sobre o contrato de trabalho lunar e optara por não levar Kendra e o irmão com eles e por não ter mais filhos.

 

Kendra contorna uma imensa rocha no meio do caminho e recorda-se que não pode ir com seus pais para a Lua porque estava em fase de crescimento, dez anos. Só quando ocorresse a sua menarca receberia autorização para embarcar, já com o dispositivo anticoncepcional instalado. As pesquisas com ratos, cães e macacos tinham constatado deformações nos fetos desenvolvidos em condições lunares. Não iriam arriscar com seres humanos. Monstruosidades não eram boas para os negócios espaciais. Mesmo novinha, poderia ser desejável pelos homens confinados nas colônias lunares. O sexo era incentivado pela empresa como um meio seguro e barato de controle da população expatriada, ocupando as horas ociosas no espaço.

 

Ela completa a trilha íngreme. Na beira do planalto consegue enxergar, ao longe, na paisagem desértica, os módulos hexagonais da sua colônia, conhecida como "Colmeia". Emociona-se, é seu lar há tantos anos, vida muito feliz. Pensa que seria muito bom ter uma criança para cuidar, mostrar as belezas do planeta, ensinar a viver nas colônias, correr com ela pelas planícies avermelhadas, subir as montanhas, ver o por do sol, contar as histórias da colonização sob o céu estrelado. Lar, enquanto tivesse um contrato.

 

A atmosfera limpa permite que Kendra veja a quilômetros de distância. A planície pedregosa, avermelhada e desértica pontilhada por inúmeras colônias mostra o sucesso das pesquisas dos pais.  Agora são milhares de humanos nas centenas de colônias espalhadas por Marte, todos trabalhando para a Space Corps Inc., todos estéreis, por contrato. Retoma a corrida, só faltam cinquenta quilômetros até Marte-69. Espaço e tempo que têm que ser suficientes para ela conseguir decidir entre as opções que lhe parecem disponíveis: ter um filho em Marte, ir para a Terra ter o filho ou ter um filho na Terra. Ela acha que é uma decisão tão difícil quanto a de seus pais ao decidirem viajar para a Lua. A diferença é que eles poderiam optar por não assinar o contrato e permanecerem na Terra, enquanto ela tem que decidir com o contrato em vigor e a dezenas de milhões de quilômetros da Terra.

 

Correndo, Kendra recorda que seus pais explicaram aos filhos que a viagem era uma oportunidade rara e imperdível, que os filhos tinham que entender e aceitar a decisão deles. Seriam os médicos da primeira colônia lunar, quinhentas cobaias humanas confinadas em colônias-laboratório. Liderariam, também, o desenvolvimento de inúmeras pesquisas sobre os efeitos do espaço nos corpos e mentes humanos. Condições gerais de saúde, desempenhos físicos, saúde mental, alimentação, efeitos dos remédios e tratamentos terrestres, ingestão de bebidas alcóolicas e de drogas variadas, todos os aspectos da vida espacial seriam estudados, inclusive a possibilidade da reprodução humana extraterrestre. Cobaias animais e vegetais também seriam empregadas nos estudos, visando a autonomia da vida na Lua e em Marte, a próxima parada da Space Corps Inc. Uma proposta desafiadora e muitíssimo bem remunerada. Os pais falaram que a viagem era o futuro dos filhos, o futuro da humanidade. Kendra se recorda que ela e o irmão não conseguiram contestá-los, tristemente mostraram alegrias pela viagem.

 

Kendra agora corre às margens do Lago Loch Ness, um lago sem água, tão falso quanto o monstro escocês. Passa sob um renque de goiabeiras que lhe provocam recordações da casa da tia Márcia, com quem moraria até a hora de embarcar para a Lua. Vem-lhe a visão das pequenas goiabeiras do fundo do quintal, sob as quais perdeu a virgindade diversas vezes, sempre com o menino bonito da casa ao lado. Kendra sorri ao lembrar que, para surpresa de todos, seu passaporte para a Lua veio da gravidez inesperada e não da menarca tão desejada. Como aprendera, a natureza só pensava no lema "crescei e multiplicai". O esperma do jovem localizara seu primeiro óvulo maduro, evitando seu desperdício. Despreparada, tivera que tomar uma decisão, difícil para uma mulher madura, dificílima para uma menina sozinha.

 

Emocionada, Kendra para em um mirante turístico, onde equipamentos especiais emulam a água serena de um lago, com pequenas vagas provocadas por uma brisa leve, que a malha térmica não deixa sentir, mas percebida no movimento das folhas das árvores circundantes. Simulacros de pássaros voam sobre a água inexistente, completando a aparência terrestre do local, onde muitos vão matar as saudades de casa. Com os olhos fixos na imagem da água do lago, ela recorda a reação da mãe à sua gravidez. Objetiva e clara, como sempre, serena na tela do celular. "Você sabe o que eu penso disso. O corpo é seu, você é quem decide o que vai fazer com ele. Mas não pode vir para cá grávida nem trazer o bebê. Você quer gerar um monstro? Ou condenar seu filho a deformidades? Pode tirar ou ter a criança e criá-la, eu mando dinheiro para vocês. Ou deixar com a Márcia e vir para cá, como é seu sonho. A decisão é só sua. E do menino, se ele se interessar. Mas o corpo é seu."

 

Kendra percebe que está novamente tendo de decidir entre três opções difíceis. Três. Sorri, a criança deveria se chamar Trindade. Ela retorna a corrida, o sol irá se por logo e com isso o frio vai piorar muito. Faltam trinta quilômetros até Marte-69, ela tem dez quilômetros para analisar cada opção. Pensa na primeira, que seria aditar seu contrato para tornar-se cobaia de reprodução humana extraterrestre, última etapa dos estudos iniciados por seus pais. Teria que concordar previamente, por contrato, que, a critério exclusivo da Space Corps, abortaria o feto se ele fosse defeituoso ou descartaria o bebê se ele viesse a apresentar doenças graves. Kendra emociona-se, é uma decisão difícil, um pouquinho atenuada considerando-se que as novas pesquisas mostraram riscos baixos de defeitos fetais com a adoção dos novos protocolos médicos. Ela sente que descartar o bebê é um eufemismo para matar a criança, seu filho. Caso aceitasse, não precisaria sair de Marte. Manteria seus sonhos espaciais e teria seu bebê. Para de correr ao relembrar as palavras da mãe: "Você quer gerar um monstro? Ou condenar seu filho a deformidades?" Daria para ela aceitar isso? Conseguiria abortar ou eliminar seu filho? Depois que nascesse, ele seria seu ou da Space Corps? Meramente uma cobaia?

 

Recompõe-se e segue pelo caminho para Marte-69. Mais dez quilômetros e Kendra analisa sua segunda opção. Negociar o contrato para conseguir o seu encerramento prematuro, com o pagamento, pela companhia, da viagem de retorno à Terra. Significaria trocar seu sonho de morar em Marte pela criação do filho. Ela se interroga: a criança mereceria tal sacrifício? Cobraria do filho a frustração de seus sonhos espaciais? Quereria tanto um filho para abrir mão de seus sonhos mais importantes? Angustiada, acelera seus passos como se no final da trilha houvesse a resposta certa. Relembra Shakespeare: "Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos". O que seria dela sem seus sonhos? Mais uma desiludida e infeliz na Terra? Ser mãe bastaria?

 

Kendra já consegue ver as luzes de Marte-69. Ela começa a analisar sua última opção, que seria continuar no planeta e usar seus óvulos armazenados na Terra para gerar uma criança, num útero artificial como muitas mulheres faziam para não passar pelos desconfortos da gravidez e do parto. Depois do nascimento, mandaria entregar a criança para a tia Márcia criar, como seus pais fizeram. Ou mesmo para a sua mãe, em vias de se aposentar na Lua.  Poderia acompanhar o crescimento da criança por meio de hologramas sensoriais, cada dia mais reais. Poderia sentir o cheirinho do bebê e ele o dela, como mãe e filho. Escutaria sua voz e ele a dela. Estaria presente na vida da criança, mesmo estando a dezenas de milhões de quilômetros de distância. Poderia até segurar o bebê com o braço robótico e quando ele fosse maiorzinho, abraça-lo, acaricia-lo pelos hologramas. Mas isso seria ser mãe?  

 

Ela chega às portas de Marte-69, que está toda enfeitada para o réveillon, com faixas comemorativas nos mais diversos idiomas da Terra. São dois dias terrestres de festas para atender a todos os fusos horários, pois os habitantes de Marte vieram de quase uma centena de países terrestres, fruto da política da Space Corps Inc. para a diversidade de seus trabalhadores espaciais. No calendário da empresa ainda existiam festas de comemoração dos Anos Novos Chineses, Judaicos, Muçulmanos e de qualquer outra religião.

 

Kendra reconhece, satisfeita, que a corrida teve o efeito esperado. Chegara ao âmago do problema. A questão não era decidir entre as três opções, mas definir o significado de ser mãe. O que ela esperava da maternidade? Que sentimentos a criança preencheria? Quanto ela estaria disposta a renunciar pelo filho? E seus sonhos? E sua vida? Conclui que precisaria de muitos quilômetros vermelhos para chegar a uma decisão, mas não se preocupou. Era uma mulher saudável de trinta anos e poderia esperar. Feliz, entra em Marte-69, retira a malha amarela e os acessórios, ajusta o conjuntinho preto e cai na folia do réveillon de dois mil e cinquenta. "Mamãe eu quero, mamãe eu ...."


José FRID

 

 

 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Melão com presunto

Melão com presunto. Ou seria presunto com melão? Toda vez que como melão em fatias, penso que ele deveria ser servido com presunto, trazendo-me à lembrança um dia específico no fim da infância, início da minha adolescência. O melão seria a minha "madeleine", mas como não sou Proust, essa constante lembrança não consegue inspirar-me sete volumes e duas mil e quinhentas páginas, mas apenas esta pequena crônica.

O curioso é que a lembrança é sempre a mesma: eu e meu pai sentados à mesa da cozinha do apartamento de Botafogo, um melão entre nós. Sem mãe, irmã, empregada. Onde estariam? Devia ser um sábado ou domingo, por meu pai estar em casa de tarde. O melão seria a entrada do almoço? O lanche da tarde? Detalhes perdidos no tempo.

Meu pai colocou dois pratos na mesa, com presunto, e uma travessa larga vazia. Ele trouxe da geladeira a fruta amarela, colocou-a na travessa e disse: "melão espanhol, você vai gostar". Eu já conhecia algumas coisas da Espanha: toureiros, Dom Quixote, castanholas, azeite, flamenco, vinho, o dono da quitanda perto de onde morara, agora iria conhecer o melão. Parecia-me uma melancia pequena ou uma laranja bem grande.

Papai pegou um facão, espetou-o, com uma certa dificuldade, numa das pontas do melão. Segurando a fruta com a mão esquerda, fez o facão deslizar pela casca até a outra ponta. O corte pareceu-me um sorriso, um sorriso "melãocólico". Sacou a lâmina, rodou a fruta, cravou-a e deslizou-a com maestria até encontrar com o primeiro corte exatamente na outra ponta. Cortes precisos, cirúrgicos, permitindo a extração de um bonito pedaço da fruta. Levantou uma ponta do pedaço com o facão, o suficiente para retirá-lo e colocá-lo no prato. Fiquei surpreso: o tal melão não se parecia, por dentro, nem com melancia nem com laranja. Tinha uma poupa amarelo-esverdeada, com muitas sementes quase brancas na parte superior, achatadas e alongadas, presas por uma gosma amarelada. Nada daquelas sementes pretas pequenas da melancia, encrustadas em toda a fruta, que a gente tinha que cuspir para não ter apendicite ou morrer, como minha mãe alertava. Engolindo um daqueles caroços pretos e brilhantes, nem dormia de tanta preocupação.

Voltando ao melão, meu pai deslizou o facão pela parte superior daquele pedaço, separando as sementes. Depois, deixou o facão percorrer a fatia da fruta em paralelo à casca, mas com pressão exata, de forma que a parte cortada ficasse sobre a casca. Parecia um toureiro espanhol manejando espada. Agora o facão vai de cima para baixo cortando a meia lua em pequenos pedaços geométricos. O pedaço ficou parecendo o sorriso do gato da Alice, brilhando no escuro. Uma simpatia, esse tal de melão espanhol.

Meu pai repetiu a operação, colocando um sorriso no seu prato. Uma coca para mim, uma cerveja para ele, não é que o melão com presunto era bom mesmo? O doce da fruta contrastava e completava o salgado do presunto. "Quer mais?" Repetimos. Ficou na lembrança o melão espanhol, como meu pai frisava. Do presunto não guardei a nacionalidade, poderia ser um parma, um brasileirinho, mas era coisa do dia a dia. 

A Martina, apesar da tenra idade, já conheceu melão e adorou. Entretanto, a fruta já chega para ela em pequenos pedaços que possa pegar com a mão. Um dia, quem sabe, ela já grandinha, podendo comer com garfo e faca, repetirei o balé do corte da fruta, farei o sorriso do gato da Alice para ela, apesar de não ter a precisão geométrica de papai.

Outro dia fiquei pensando porque aquele melão seria espanhol. Pesquisando, constatei que, por muito tempo, o melão comercializado vinha da Espanha, no Brasil só era encontrado em pomares caseiros. Depois, com o aumento da demanda, as plantações comerciais transformaram o Brasil em grande exportador de melão, não só do tipo espanhol, como de outros tipos, com cores e sabores variados. Ao Mercadão!

Na Espanha existe um ditado popular que diz que o "melão pela manhã é ouro, ao meio dia é prata e pela tarde mata", querendo mostrar que o melão sendo um fruto alcalizante, cai melhor no desjejum. Papai dera-me prata ou queria matar-nos? Aqui estou, foi prata!

Passei por uma fase de problemas com uma hérnia de hiato. O médico suspendeu tudo que eu gostava de beber: bebidas alcoólicas, refrigerantes, chocolates, mates, etc. No dia a dia, a proibição que mais me incomodou foi o mate, que tomava toda tarde nas lojinhas em volta do trabalho. Tive que trocar por suco de melão. Uma vez o empregado da lanchonete fez o suco na minha frente e, quando colocou os pedaços da fruta no copo do liquidificador, quase perguntei se não dava para bater com umas fatias de presunto…..

Nesses anos, comi muitos melões, no Brasil e no exterior, com ou sem presunto, de diversos tipos, mas aquele primeiro é incomparável, o único memorável. Não se tem mais melão espanhol como aquele? Ou aos outros faltou o ingrediente especial, meu pai?


José FRID

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Não houve primavera eleitoral!

A festa da democracia, como dizem, está atrasada por causa da covid-19. Do outubro costumeiro passou para novembro. Este ano o primeiro turno da eleição caiu no dia da Proclamação da República. Um belo nome: Proclamação. Que é uma declaração solene que se faz publicamente de uma decisão importante. A Proclamação anterior: Independência ou Morte! Nossos hermanos uniram as duas proclamações: a independência à Espanha já veio com a República. Ninguém pensou, na época, em implantar uma nobreza latino americana (Só ditaduras, mas é outra história...). A proclamação brasileira de 1889 foi, na verdade, um golpe militar que depôs o imperador. Deodoro da Fonseca, que era Marechal do Exército e monarquista fiel, deu atenção a boatos sobre a diminuição do poder do Exército e da Marinha. Febril, saiu da cama, montou num cavalo e, acompanhado de tropas, atravessou o Campo de Santana, tomou o Ministério da Guerra e depôs o gabinete do Visconde de Ouro Preto, primeiro-ministro de Dom Pedro II. Proclamou a República às dez e quarenta e cinco daquela manhã e voltou para casa. Depois, descansado, virou nosso primeiro presidente ao entardecer.

Domingo, dez e quarenta e cinco da manhã, estou na escola municipal em que voto há trinta e quatro longos anos, na seção 135 da 258ª Zona Eleitoral. Por extenso fica mais bonito: ducentésima, quinquagésima, oitava zona eleitoral. Já não sou um menino, mas o prédio está bem conservado. Posso caminhar de olhos fechados pelo prédio até a minha urna eletrônica: Entro, desço três degraus, caminho alguns passos pelo claro hall de entrada, subo o primeiro lance de escadas, vinte largos degraus, caminho uns passos, viro à esquerda e vou até o fim do corredor. De um lado as salas de aula, do outro as janelas, que mostram o tráfego da avenida dos Bandeirantes e o voo dos aviões de Congonhas. As paredes de ambos os lados preenchidas com painéis com os trabalhos das crianças. Como a primavera começa em setembro, o corredor eleitoral fica todo florido, um verdadeiro jardim botânico cultivado por mãos infantis e de suas esforçadas professoras. Toda eleição percorro com vagar esse corredor, absorvendo a alegria, a felicidade e a esperança que as crianças registram em seus trabalhos. Flores, árvores, bichos, riachos, etc. como meus filhos faziam na infância deles e que Martina fará na dela. Flores, casas com chaminés, árvores, flores, sóis, papai, mamãe, irmãos, amiguinhos, bichinhos, bolas, aviões, etc., como só as crianças pequenas sabem fazer. Num longínquo passado, eram os meus rabiscos que enfeitavam uma escola. Não essa, é claro, outra, à beira-mar. O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos sem parar...

De olhos bem abertos, mas de máscara, passo pela porta da escola, cumprindo meu dever cívico. Deveria ser um direito e não obrigação, mas isso é assunto para outra crônica. O hall está calmo, sem a movimentação habitual, muitos não devem ter vindo votar com medo da peste. Uma mesária pergunta minha seção. Respondo que chego na urna de olhos fechados. Ela insiste. Cento e trinta e cinco, digo. Ela diz que é lá em cima. Só olho sério para ela, sigo em direção às escadas, com vontade de fechar os olhos e deixar-me guiar pela experiência. No patamar, surpreso, deparo-me com uma imensa porta verde de ferro, tapando todo o vão. Cadê meu corredor florido? Cadê as crianças?

Desnorteado, subo mais um lance de escadas. Um corredor desconhecido. Nenhuma indicação das seções. A sala em frente é da 141ª . A minha está de que lado? Opto para ir para o mesmo lado do meu antigo corredor. 140, 139, 138, 137, o corredor parece um deserto: sem primavera, sem crianças, sem eleitores. As paredes nuas, os painéis vazios, tristezas, preocupações. No chão, as marcas do afastamento social. Dá vontade de chorar. Ainda bem que estou de óculos escuros e máscara.

Breve espero que as crianças voltem às suas salas de aula e a primavera de 2021 forre as paredes escolares, trazendo alegrias e esperanças para todos nós.


José FRID

sábado, 8 de agosto de 2020

Ler, Escrever, Ser

Minha neta tem um pouco mais de cinco meses. Quando vou poder comprar um livrinho para ela ler? Os pais me desanimam, dizem que vai demorar um pouco para ela se interessar por leituras, agora só quer saber de mamar, agarrar os pés, virar-se no berço, colocar tudo na boca, dormir e chorar, não necessariamente nessa ordem. Não lembro quando ou como aprendi a ler. Meus pais eram grandes leitores: livros, jornais e revistas em todos os cantos da casa. Devo ter desejado aprender logo a ler para compartilhar aqueles objetos mágicos, mas não tenho lembrança dessa fase. Não fui precoce na leitura, só uma criança normal, aprendendo na escola no momento determinado, tarde para os dias de hoje. Tenho inveja de quem se lembra de como aprendeu, da cartilha que usou. Vovô viu a uva. Recordo apenas em ficar depois da aula treinando caligrafia, minhas primeiras letras devem ter sido terríveis. Espero que a minha neta puxe, neste aspecto, a mãe ou a avó, que têm letras bonitas. Mas será que até lá ainda se usará letras manuscritas?

Minhas letras não melhoraram, tem horas que não as entendo, verdadeiro código secreto. A secretária tinha dificuldade em interpretá-las, naquela época pré-computador, usando uma IBM elétrica de esferas. Não me incomodava em fazer correções no texto datilografado, mas uma coisa me tirava do sério: palavras inexistentes! Não entender a letra e trocar “pacto” por “pasto” ainda passa, mas por “palto’? “Palto”? “São” por “não” seria aceitável, mas por “rão”? “Rão”??? Hoje, com computadores, sofro ao digitar minhas anotações.

Outra lembrança dessa fase é sobre o uso do eme ou do ene antes do pê e do bê. O livro mostrava que as letras pê e bê eram gordinhas, pesadas, por causa da barriga grande. O ene era um nadador fraquinho, só tinha dois tracinhos, enquanto o eme era fortão, três traços, só ele conseguia salvar as duas letras obesas do lago. Até hoje não esqueço essa bobagem e, lógico, nunca erro. Será que minha neta vai aprender sobre letras obesas e letras salva-vidas?

Tenho uma recordação agradável, já dominada a arte de juntar letras em palavras. Terceiro ano do primário, uma redação premiada! A professora devia entender de hieróglifos traçados a lápis em papel almaços. Após lê-la na frente da turma, ganhei parcos aplausos e algumas guloseimas. Sofrimento para o tímido, alegria para o gordinho guloso que eu era (sou). Não lembro o tema da redação, talvez o registro de um passeio ou das férias. Guardei com carinho aquela redação por anos, relendo algumas vezes, até o papel pautado, com meu nome no cabeçalho, começar a desfazer-se e o grafite sumir. Pensei em copiar a redação, agora a tinta, mas na ocasião, do alto dos meus doze, treze anos, achei o texto tão bobinho que, envergonhado, joguei a surrada folha no lixo. A literatura brasileira perdeu um manuscrito precioso! E minha neta nunca vai ler sobre o passeio que o avô fez em priscas eras. Na vez dela, o relato será feito com celular, com cores, movimentos e sons. Guardado nas nuvens.

Por falar em prêmio escolar, ganhei outro no início do ginásio, hoje chamado de Fundamental. Não me recordo do motivo da premiação, mas o brinde foi inesquecível: um livro com os Discursos do Presidente Castelo Branco. Tentei lê-lo, Deus é testemunha. Insisti porque, quando pequeno, antes da época daquela redação premiada, estava em dúvida entre ser leiteiro ou presidente. Ler os discursos de um deles poderia indicar o caminho da presidência. Fez efeito contrário, resolvi ser astrônomo, viver no mundo da lua. Será que minha neta já sabe o que quer ser? Presidente também? Leiteiro não há mais...

José FRID