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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O amor - poesia futurista

                                          
                                        A Dona Branca Clara


Tome-se duas dúzias de beijocas
Acrescente-se uma dose de manteiga do Desejo
Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme
Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia
Coloque-se dois ovos
Agite-se com o braço da Fatalidade
E dê de duas horas em duas horas marcadas
No relógio de um ponteiro só!


Oswaldo de Andrade

sexta-feira, 8 de março de 2013

Propiciação


Eu fui o maior onanista do meu tempo
Todas as mulheres
Dormiram em minha cama
Principalmente cozinheira
E cançonetista inglesa
Hoje cresci
As mulheres fugiram
Mas tu vieste
Trazendo-me todas no teu corpo


Oswald de Andrade in "Serafim Ponte grande", de 1929 para trás

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O desastronauta - Flávio Moreira da Costa



É um livro de 1971, provavelmente escrito no fim dos anos sessenta, época nele retratada. O personagem principal escreve, traduz livros, faz faculdade, participa do movimento estudantil, fuma à beça, namora, tem mil dúvidas existenciais, .... talvez como o próprio autor, que tinha menos de 30 anos quando da publicação do livro.

Como Rubem Fonseca destaca na orelha do livro, ele "não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica", ..., "não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos de cultura de massa ou a superficialidade interpretativa  do 'midcult'. Sua linguagem polissêmica força a participação ativa do leitor, afinal premiado com a revelação de uma experiência emocional, estética e intelectual das mias ricas", ou seja, poderíamos classificar como um romance experimental. E como tal, tem algumas sacadas geniais, desafiadoras, e algumas partes mornas, cansativas, prolixas, ...

Li este livro após "Os subúrbios da criação", de crítica literária, do mesmo autor, que mostra suas influências literárias, autores prediletos, etc., o que resultou num preparo para o llivro em pauta. Li e reli, realmente este não é um livro fácil, mas interessante. Como o autor (ou o narrador) menciona no texto, depois das Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Memórias Sentimentais de João Miramar, de Oswald de Andrade, ambos os livros citados e elogiados no "Os subúrbios da criação", temos agora as "Memórias falsas ou Desmemórias de Cláudio Crasso", o personagem do livro. Transcrevendo:

"Se você é do tipo que quer as coisas explicadinhas e tá-tá-tá-e-coisa, o problema é seu, porque eu sou o caos. E depois daquelas Memórias Póstumas e das outras, das Memórias Sentimentais, só poderiam surgir agora essas memórias falsas - porque escritas com o devido distanciamento: a Geografia, a história e a Economia nesse livro pertencem ao domínio da Imaginação - ainda que às vezes "real"; porque a ficção é fixação. Vou me colocando desde o início em boa companhia, depois de Machado e Oswald - eu. Eu, a terceira etapa de um processo desideológico brasileiro - como pedem os tempos - visto através da lupa de sua literatura. Pois é o que eu faço - Literatura - ainda que me desepere. É o que me resta e o que me falta; o excesso e a escassez." (1. Começo de Conversa, pág.19)

Destacarei algumas partes em outros posts mais adiante.

É o primeiro livro do autor, que depois teve várias obras premiadas: Prêmio Jabuti para, Prêmio Machado de Assis, Prêmio da União Brasileira de Escritôres e Prêmio Nestlé de Literatura para "O equilibrista do arame farpado", de 1997; Prêmio Jabuti para "Nem todo canário é belga", de 1998; Prêmio nacional de Contos do Estado do Paraná para "Malvadez Durão", de 1982.

A leitura de "O desastronauta" provoca a vontade de ler os outros livros do autor, para acompanhar sua evolução literária: onde foi dar todo o experimentalismo de "O desastronauta"?

José FRID

ps: o livro tem como subtítulo "ok, Jack Kerouac, nós estamos  te esperando em Copacabana". Exceto pelo personagem ter lido alguns livros do Kerouac, não percebi o sentido da citação. Falha minha?



sexta-feira, 23 de março de 2012

Erro de português



Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português


Oswald de Andrade

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pronominais



Dê-me um cigarro

Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro





Oswald de Andrade

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Antropofagia - Tarsila do Amaral



Tarsila e Oswald de Andrade

Balada do Esplanada




Ontem à noite

Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.


Eu queria

Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
É o hotel
Do menestrel


Pra me inspirar

Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel


Mas não há, poesia

Num hotel
Mesmo sendo
'Splanada
Ou Grand-Hotel


Há poesia

Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador


Oswald de Andrade

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Sobre o que se escreve

A gente escreve o que ouve, não o que houve.
Oswaldo de Andrade

segunda-feira, 14 de abril de 2008

RELÓGIO

As coisas são

As coisas vêm

As coisas vão

As coisas

Vão e vêm

Não em vão

As horas

Vão e vêm

Não em vão

(Oswald de Andrade)