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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Poema para 2002


Caxumba, catapora, amigdalite,
miopia, nevralgia, crise asmática.
Dor de dente, dor de corno, hepatite,
diabete, arritmia e matemática.

Helenas, Marianas e Marcelos,
tomate, hipocondrias e chicória,
sacerdotes, baratas, pesadelos,
calvície, dentadura e desmemória.

Pé quebrado, verso torto, ruim de bola,
nervoso, nariz grande, cu de ferro.
Desastrado, imprudente e noves fora,

muita prosa pr'um gozo quase zero.
E para coroar todos os danos
bem-vindos sejam os meus cinquenta anos.

Antonio Carlos Secchin in Todos os ventos, 2002.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Três toques



A Titite



1) Paciência!


O processo desse amor
já caiu em exigência.


2) Impaciência


Amor é bicho precário.
Eu queria avançar no romance,
e você me cortou no sumário.


3) Dialética



Acho que assim
resolvo o nosso problema.
Tiro você da vida
e boto você no poema.


Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Biografia




A Ricardo Vieira Lima


O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.


O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenda que incendeia
com a carícia de um murro.


O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.


Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.



Antonio Carlos Secchin
in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

terça-feira, 18 de maio de 2010

Repente


A Salvador Monteiro


Desfaço mau-olhado em meia hora,
amanhã trago o amor que escapuliu.
Mostro o pau com que sei matar a cobra,
e mato a cobra em troca de três mil.


Por quatro mando a chuva pra lavoura,
por sete vou nevar em céu de anil,
por dez eu escureço a claridade,
e o sol já vai brilhar por vinte mil.


Por quarenta na mão lá vem dilúvio,
o preço de sessenta inclui trovão.
Para acalmar a fúria do divino,
trinta à vista e cinquenta à prestação.


Não reclame do preço que lhe cobro,
Deus me leva uma santa comissão.
Da cobra eu fico só com o veneno,
e da neve um chumaço de algodão.


Só consigo enxergar a claridade
quando dou de beber ao lampião,
e apago minha sede em conta-gotas
quando acende o holofote do verão.


Reles faquir sem carteira assinada,
mero cantor de uma fome sinfônica,
sou passageiro que chega ao inferno
em vôo direto, e na classe econômica.



Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sábado, 1 de maio de 2010

"Com todo o amor ..."

A Waldemar Torres
'Com todo o amor de Amaro de Oliveira.
São Paulo, 2 de abril de 39'.
O autógrafo se espalha em folha inteira,
enredando o leitor, que se comove,
não na história narrada pelo texto,
mas na letra do amor, que agora move
a trama envelhecida de outro enredo,
convidando uma dama a que o prove.
Catharina, Tereza, Ignez, Amália?
Não se percebe o nome, está extinta
a pólvora escondida na palavra,
na escrita escura do que já fugiu.
Perdido entre os papéis de minha casa,
Amaro ama alguém no mês de abril.
Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sagitário


A Carlos Dimuro


Evite excessos na quarta-feira,
modere a voz, a gula, a ira.
Saturno conjugado a Vênus
abre portas de entrada
e armadilhas de saída.
Evite apostar em si, se quiser,
jogue a ficha em número
próximo do zero. Evite acordar
o incêndio implícito de cada fósforo.
E quando nada mais tiver a evitar
evite os horóscopos.


Antonio Carlos Secchin
in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sábado, 3 de abril de 2010

Sertão

Atmosfera cheia de luz, espaço sempre diurno: sertão é uma palavra cercada de sol por todos os lados.



Antonio Carlos Secchin
in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

terça-feira, 9 de março de 2010

Herança

Drummond carrega indelevelmente a frustação e o peso de seus mortos, pois herança não é apenas aquilo que recebemos, mas aquilo de que não conseguimos nos livrar.


Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sábado, 6 de março de 2010

Ou

                              A Ubirajara Darius



você pode me pisar
que nem confete
você pode me morder
que nem chiclete
você pode me chupar
que nem sorvete
você pode me lanhar
que nem gilete
só não pode proibir
que nem piquete
se eu quiser escapulir
que nem pivete




Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Artes de Amar



A Suzana Vargas



paixão e alpinismo sensação simultânea
de céu e abismo


paixão e astronomia mais do que contar estrelas
vê-las
à luz do dia


amor antigo e matemática equação rigorosa:
um centímetro de poesia
dez quilômetros de prosa


Antonio Carlos Secchin
in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Estou ali ..."

A Alberto da Costa e Silva
Estou ali, quem sabe eu seja apenas
a foto de um garoto que morreu.
No espaço entre o sorriso e o sapato
há um corpo que bem pode ser o meu.
Ou talvez seja eu o seu espelho,
e olhar reflete em mim algum passado:
o cheiro das goiabas na fruteira,
o murmúrio das águas no telhado.
No retrato outra imagem se condensa:
percebo que apesar de quase gêmeos
nós dois somos somente a chama inútil
contra a sombra da noite que nos trai.
Das mãos dele recolho o que me resta.
Eu o chamo de filho - e é meu pai.
Antonio Carlos Secchin in "Todos os Ventos", Editora Nova Fronteira