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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Kabir



Eu disse, à criatura sedenta dentro de mim,
que rio é esse que desejas atravessar?
Não há viajantes na estrada que leva ao rio, e não há estrada.
Vês alguém caminhando junto à margem, ou se abrigando ali?

Não há rio algum, nem barco, nem barqueiro.
Não há corda atada ao barco, nem alguém para puxá-la.
Não há chão, céu, tempo, banco de areia ou vau!

E não há corpo, nem mente!
Acreditas que existe algum lugar capaz de aplacar
a sede da alma?
Nessa grande ausência, nada encontrarás.

Sê forte, então, e penetra teu próprio corpo;
ali tens um lugar sólido para os teus pés.
Pensa nisso com cuidado!
Não te desvies noutra direção!

Kabir diz isto: apenas te desfaz de todo pensamento sobre
coisas imaginárias,
e te mantém firme sobre aquilo que és.

O poeta místico Kabir viveu na Índia de 1440 a 1518.

Tradução do inglês de Adriana Lisboa

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Vida insuficiente


Lembro de um pequeno trecho de Fernando Pessoa que sempre gosto de citar: ele diz que toda arte é a confissão de que a vida não basta. Acho que a literatura, enquanto expressão artística, não deixa de ser isso, uma espécie de busca por algo mais, esse reconhecimento de que nossa vida cotidiana não é suficiente. E não é mesmo. A gente precisa transitar, residir um pouco em lugares que são da ordem da imaginação, da fantasia, da poesia. E a literatura entra em nossa vida cotidiana - tanto na vida de quem a faz como na vida de quem a lê - dessa maneira. É a busca por uma espécie de espaço alternativo à vida, algo que nos ofereça outras visões, outras janelas, opções distintas daquilo que a gente experimenta em nossa vida prática. É uma espécie de folga da vida, mas não é uma folga fácil. A boa literatura faz a gente pensar muito, e nem sempre isso é uma coisa tranqüila e prazerosa, no sentido "férias". Nem sempre é um relaxamento. Muitas vezes é algo que nos mobiliza.


Adriana Lisboa no Paiol Literário, 29 de setembro de 2010, projeto promovido pelo jornal Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná.

sábado, 16 de abril de 2011

DESTRUIÇÃO COMPLETA


COMPLETE DESTRUCTION


It was an icy day.
We buried the cat,
then took her box
and set fire to it



in the back yard.
Those fleas that escaped
earth and fire
died by the cold.

*


DESTRUIÇÃO COMPLETA


Era um dia gélido.
Enterramos o gato,
depois pegamos sua caixa
e tocamos fogo nela



no quintal.
As moscas que escaparam
à terra e ao fogo
morreram com o frio.




William Carlos Williams, tradução de Adriana Lisboa