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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Duas páginas de Saramago.....

Quando estou ocupado com uma obra que exige continuidade, um romance, por exemplo, escrevo todos os dias. Claro, estou sujeito a todos os tipos de interrupções em casa e interrupções devido a viagens, mas fora isso, sou muito regular. Eu sou muito disciplinado. Não me obrigo a trabalhar um certo número de horas por dia, mas exijo uma certa quantidade de trabalho escrito por dia, que geralmente corresponde a duas páginas. Esta manhã escrevi duas páginas de um novo romance e amanhã escreverei mais duas. Você pode pensar que duas páginas por dia não é muito, mas há outras coisas que devo fazer - escrever outros textos, responder a cartas; por outro lado, duas páginas por dia somam quase oitocentas por ano.


No final, sou bastante normal. Não tenho hábitos estranhos. Eu não dramatizo. Acima de tudo, não romantizo o ato de escrever. Não falo sobre a angústia que sofro em criar. Não tenho medo da página em branco, do bloqueio do escritor, de todas essas coisas que ouvimos sobre os escritores. Não tenho nenhum desses problemas, mas tenho problemas como qualquer outra pessoa que faz qualquer outro tipo de trabalho. Às vezes as coisas não saem como eu quero, ou simplesmente não saem. Quando as coisas não saem tão bem como eu gostaria, tenho que me resignar a aceitá-las como estão.  


[...]


Assim que chego ao final da obra, releio todo o texto. Normalmente, nesse ponto há algumas alterações - pequenas alterações relacionadas a detalhes ou estilo específicos, ou alterações para tornar o texto mais exato - mas nunca as principais. Cerca de noventa por cento do meu trabalho está na primeira escrita que faço, e isso permanece como está. Não faço o que alguns escritores fazem - isto é, escrever um resumo de vinte páginas da história, que é então transformado em oitenta páginas e depois em duzentas e cinquenta. Eu não faço isso. Meus livros começam como livros e crescem a partir daí. No momento, tenho cento e trinta e duas páginas de um novo romance, que não tentarei transformar em cento e oitenta páginas: eles são o que são. Pode haver mudanças nessas páginas, mas não o tipo de mudanças que seriam necessárias se eu estivesse trabalhando em um primeiro rascunho de algo que acabaria por assumir outra forma, seja em comprimento ou conteúdo. As alterações feitas são aquelas necessárias para melhorias, nada mais.  



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CARTA PARA JOSEFA, MINHA AVÓ :: JOSÉ SARAMAGO

Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira, sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.

Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo.

És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste a lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-me tu, ou terei sonhado que o contavas?) Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém.

Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrijada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava.

Não teremos realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!

É isto que eu não entendo, mas a culpa não é tua.


José Saramago, publicado em 14 de Março de 1968, no jornal lisboeta A Capital.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

OCEANOGRAFIA

Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.


De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.



José Saramago in Os Poemas Possíveis






segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Estudo de nu




Essa linha que nasce nos teus ombros,
Que se prolonga em braço, depois mão,
Esses círculos tangentes, geminados,
Cujo centro em cones se resolve,
Agudamente erguidos para os lábios
Que dos teus se desprenderam, ansiosos.

Essas duas parábolas que te apertam.
No quebrar onduloso da cintura,
As calipígias ciclóides sobrepostas
Ao risco das colunas invertidas:
Tépidas coxas de linhas envolventes,
Contornada espiral que não se extingue.

Essa curva quase nada que desenha
No teu ventre um arco repousado,
Esse triângulo de treva cintilante,
Caminho e selo da porta do teu corpo,
Onde o estudo de nu que vou fazendo
Se transforma no quadro terminado.


José Saramago in  Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobre nomes V – Saramago, Millôr e meu avô



Lendo uma biografia do nosso Prêmio Nobel de Literatura descobri que o escrivão inseriu um "Saramago" no nome declarado pelo pai. Só quando a criança teve que apresentar uma certidão oficial para entrar na escola é que descobriram a alteração. "Saramago" era o apelido da família. O próprio escritor esclarece que "saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres". O pai acusou o escrivão de estar bêbado na ocasião e denegrir a família entre os vizinhos da aldeia. O oficial do cartório alegou que apenas atendeu ao pedido do pai.


Como o nome da criança ficaria igual ao do pai – José Sousa – acredito que o escrivão possa ter querido diferenciar o filho colocando a alcunha de família. Algo parecido ocorreu com meu bisavô, que queria pôr no último filho o mesmo nome de outros irmãos e o cartorário se recusou. Negociaram vários anos até registrarem a criança assim: José Domingos Irmão.


A biografia não menciona por qual nome Saramago era chamado antes de se descobrir o equívoco. José? Zé? Zezinho? Sousa? Ela não explica, também, porque ele escolhe o Saramago como sobrenome, ao invés do tradicional Sousa da família. Queria se diferenciar do pai? Nome de guerra? Seja qual o motivo, o Saramago passou para a família, batizando sua filha única Violante e seus netos.


Millôr Fernandes também tem origem no cartório. A confusa grafia do escrivão tornou o nome Milton em Millôr – o traço incompleto do "t" formava uma espécie de acento circunflexo sobre o "o", enquanto o "n" tinha a aparência de "r". Millôr gostou do nome diferente e adotou-o em todos os seus documentos.


Minhas tias têm nomes muito parecidos, o que cria confusão quando a gente quer citar ou chamar uma delas: Celeste, Celsa, Celina, Célia e Celita. A minha avó trocava os nomes, lembrando por último aquele que desejava realmente falar. Sempre achei que iniciar os nomes pelas mesmas três letras devia ser promessa, simpatia, tradição familiar ou outra coisa desse gênero. 


No almoço da última Páscoa, eu troquei os nomes das tias como minha avó fazia e falei que ela devia apanhar por colocar nomes muito parecidos nas filhas. Fui surpreendido por uma delas, que retrucou que quem merecia apanhar era o pai dela, único responsável pelo registro dos filhos. Como bom machão da época, ele ia ao cartório sozinho e colocava o nome que queria, sem consultar vovó. Ela começou a exemplificar pelo nome ela, que era igual ao de uma das empregadas da vovó, criatura muito mole, enrolada, quase inativa, que demorava muito para fazer qualquer trabalho. Minha avó só não mandava embora por pena da coitada. Vovô foi lá e tascou na criança o nome da empregada que vovó detestava. Essa tia acha que ela é meio paradona por culpa do nome. 


A outra tia "Cel..." deve seu nome a uma gata que pertencia aos vizinhos. A gata vivia deitada nas camas e sofás e a dona da casa passava o dia gritando o nome da gata para ela descer dos móveis, irritando a todos. Meu avô não teve dúvida e colocou o nome da gata na filha. (Não, essa tia sempre foi muito agitada, espertinha e trabalhadeira. Agora, depois de .... anos, é que ela está mais gata, não pode ver um sofá, uma cama ...)


Eu não conhecia essa faceta brincalhona do meu avô. Aproveitei para perguntari porque meu tio mais velho, Armando, não tinha recebido o nome do pai, como era costume na época (e ainda hoje em dia). Ela explicou que o nome escolhido pela minha avó era Ramiro, mas que meu avô trocou para Armando na hora do registro. E qual a inspiração desse Armando? Empregado? Vizinho? Gato, cão, passarinho? Nada disso, simplesmente o ex-noivo da minha avó! Ela namorou, noivou, o dito cujo viajou a trabalho e nunca mais voltou! O que passou pela cabeça do meu avô para, nos anos vinte, abster-se de colocar seu próprio nome (ou o nome do seu pai) no seu primeiro filho para pôr o de um antigo namorado da mulher? 


O interessante é que esse tio registrou seu primeiro filho dentro da tradição, e assim sucessivamente, ou seja, o nome do ex-noivo da minha avó seguiu pela família – filho, neto e bisneto, por enquanto – como se ela tivesse casado com ele!


Esse meu avô ....


José FRID


sábado, 21 de abril de 2012

Saramago - Biografia - João Marques Lopes



Bela biografia do Saramago, nosso Prêmio Nobel. Ela mostra a vida pessoal do escritor, mas sem entrar em detalhes muito específicos ou particulares. Contextualiza a carreira do Saramago, tanto profissional quanto política, em face das transformações políticas e sociais ocorridas em Portugal ao longo do século XX. Caracteriza Saramago como um homem do seu tempo, sempre participando da vida literária e política do país. Utiliza muitas informações dos "Cadernos de Lanzarote", no qual o Saramago faz suas anotações sobre a vida, a política, seus livros, etc.


Vale a leitura. Depois dela, aos livros do Saramago!


José FRID

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Poema a boca fechada



Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.



Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.


Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.



Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.



Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O que somos ...


Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

José Saramago

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Retrato do poeta quando jovem - José Saramago




Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.



Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.



Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.



Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.




José de Sousa Saramago 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O leitor de livros e sua mina inesgotável





Se o leitor de livros, aquele que gosta de ler, não se limitar àquilo que se faz agora, se ele andar pra trás, se ele começar do princípio, se ele pode ler os primitivos, e os grandes cronistas e depois os grandes poetas, a língua passa a ser algo mais que um mero instrumento de comunicação. Transforma-se numa, digamos, mina inesgotável de beleza e de valor. 



José Saramago

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O valor do pessimismo



Não sou pessimista. O mundo é péssimo. São os pessimistas os únicos que querem mudar o mundo. Para os otimistas tudo está muito bem. Deveria se fazer profissão e militância do pessimismo.


José Saramago

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A viagem de José Saramago

A viagem não acaba nunca.

Só os viajantes acabam.

E mesmo estes poderão prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. (...)

O fim de uma viagem é sempre o começo doutra.

É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caíra, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.

É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles.

É preciso recomeçar a viagem.

Sempre.

José Saramago in "Viagem a Portugal", 1985.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Das coincidências, das bruxas e algo mais!



Fernando Meirelles comentando como foi escolhido para dirigir o filme "Ensaio sobre a cegueira":


"O Ensaio Sobre a Cegueira foi publicado no Brasil em 97 ou 98. Li o livro quase numa sentada e por uma semana aquelas imagens e a idéia de que tudo está por um triz me fizeram companhia. Naquele ano, minha vida andava estável demais, então pensei que filmar tal história seria o antídoto perfeito contra a incômoda sensação de segurança que eu sentia.

Num impulso, sem ter a mínima idéia de como adaptaria aquele romance, liguei para o Luis Schwarcz, o editor brasileiro do José Saramago, e pedi que ele consultasse o autor sobre seu interesse em vender os direitos para uma adaptação cinematográfica. A resposta veio rápida: nenhum interesse. Absorvi o tranco, comprei os direitos de
Cidade de Deus do mesmo editor e esqueci o assunto.

Sobre as bruxas: como 2005 havia sido um dos piores anos da minha vida, decidi fazer de 2006 o meu período sabático: não assumiria nenhum compromisso. E foi assim por cinco meses. Em junho recebi um e-mail de um produtor canadense, que eu não conhecia, me perguntando se eu já havia lido José Saramago e se teria interesse em uma adaptação de um dos seus romances. Para ser simpático respondi: manda. Três dias depois, chegou em um envelope com um roteiro em inglês. Era
Blindness, o Ensaio Sobre a Cegueira.

Devem existir milhares de diretores no mundo. O que fez com que aquele texto viesse cair justamente em minhas mãos? Essas coincidências são assustadoras. Talvez mais impressionado pela magia da coincidência do que motivado pela possibilidade de mergulhar naquele universo tão negro, dei um sinal verde: disse ao produtor Niv Fichman que havia gostado da adaptação, o que bastou para que mais três dias depois ele e o roteirista Don McKellar estivessem almoçando comigo em São Paulo.

Nunca fui um bom surfista, mas ondas do entusiasmo sempre me levam de arrasto, e eles estavam muito animados. Não consegui evitar. Dois meses e meio após esse encontro, lá estava eu no Festival de Toronto anunciando oficialmente o projeto."


Mais coincidências? Clique aqui, ali, aqui e acolá.

Mais do filme? Clique Aqui

José FRID

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira


O que leva uma pessoa a ler um livro depois que viu o filme nele baseado? Ainda mais que os críticos disseram que a adaptação do filme tinha respeitado fielmente o livro? Por que ler um livro do qual se conhece a história, os personagens e o final?


Porque filme é filme, livro é livro!

Acabei de ler o "Ensaio sobre a cegueira", do José Saramago. Ótimo livro! Recomendo!

A história? Os habitantes de uma cidade (um país, o mundo?) começam a ficar cegos de forma misteriosa. Uma cegueira branca: não enxergam porque os olhos estão inundados por uma claridade intensa, um "mar de leite". Como as autoridades não sabem como tratar a doença ou como ela é transmitida, começam a isolar os doentes num prédio abandonado. E os cegos ficam abandonados também, ao "deus dará". Logo surgem os conflitos entre os cegos, os mais fortes querendo explorar os outros. Paulatinamente a cidade toda fica cega, acarretando a ausência da "civilização", sem governo organizado, água, eletricidade, transportes, limpeza, comida, higiene, etc. Os homens e mulheres se revelam na confusão deflagrada pela cegueira geral.

Só uma mulher enxerga. Pior para ela!

O filme está todo lá, mas o livro tem espaço para detalhar melhor os personagens, os locais, os acontecimentos. As coisas acontecem com mais vagar, o autor divaga por temas acessórios, a forma de escrever - quase sem parágrafos, diálogos só com vírgulas, etc. - o português de Portugal, o humor do Saramago, etc. Conclusão: o livro é muito bom!

O fato de ter visto o filme não atrapalha a leitura do livro, acho que até realça seu prazer. E ver o filme depois do livro também será emocionante, conferir como os personagens foram desenvolvidos pelos atores, ver como os locais citados no livro foram imaginados pelo diretor, etc. Um complementa o outro.

Acho até que o final do filme é melhor que a parte final do livro. O Saramago divaga demais no fim do livro, o Fernando Meirelles fez bem em dar uma abreviada.

Leia o livro, veja o filme!
Veja o filme, leia o livro!

José FRID