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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Inspiração



Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando.


Pablo Neruda

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Quem é Nefatli Ricardo Reyes Basoalto????




Houve época em que Nefatli Ricardo Reyes Basoalto (nascido em Parral, interior chileno, a 12 de julho de 1904) sentia dificuldades em explicar aos jornalistas por que se tornara Pablo Neruda. Ficava então em silêncio. Mas, no fundo, a razão era bastante prosaica: o pseudônimo fora uma forma de ludibriar a atenção do pai, um provinciano pobre que não queria que o filho fosse poeta; um dia, Nefatli leu o nome Neruda numa revista e adotou-o. Como Pablo Neruda passou então a colaborar em revistas de províncias, sem que seu pai desconfiasse. (Só mais tarde o poeta viria a saber que se tratava do sobrenome de um outro poeta, Jan Neruda, glória nacional checa. Hoje, na maioria dos países, quando se diz Neruda, sabe-se de quem se trata: do autor de Residencia em la Tierra.)
 

 
Flávio Moreira da Costa in "Os  Subúrbios da Criação", Livraria e Editora Polis Ltda. – São Paulo/SP – 1979, p.67

domingo, 11 de dezembro de 2011

Quem Morre?






Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente,
quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe. 



Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.



Pablo Neruda

domingo, 28 de agosto de 2011

Prólogos - Pablo Neruda


Livro curioso, composto exclusivamente por inúmeros prólogos escritos por Pablo Neruda para os seus livros e os livros de amigos ou de autores com afinidades ideológicas, cobrindo o período de 1924 até sua morte em 1973 (alguns foram publicados depois da sua morte, até 1999). Alguns dos prólogos são poemas, especialidade do escritor, que transcrevi no meu blog.


No livro não estão todos os prólogos escritos por Neruda, mas apenas aqueles selecionados por Arturo Infante Renasco, todos traduzidos por Thiago de Mello, poeta brasileiro asilado no Chile na época da nossa ditadura e grande amigo de Pablo Neruda.


Ficamos com vontade de ler muitos dos livro citados pelo Neruda, apesar de que "em muitos casos, os livros que têm o compromisso ou a generosidade de apresentar nos são desconhecidos, ou perderam com os anos a virtude da atualidade que tiveram no momento de ser publicados" como menciona Antonio Vilanova no prólogo do livro em comento.


Destaco, entre eles, "El Río", de Alfredo Gómez Morel, "El sol mira para atrás", de Delia Domínguez, "El mundo que tía Paty dejó", de Inés Valenzuela, "Extranos visitantes", de Alicia Enríquez (contos cruéis), "Piel del tiempo", de Enrique Huaco, "De repente" e "Carbón", de Diego Munoz, "Casas muertas y Oficina n.º1", de Miguel Otero Silva, "Las nubes e los anos", de Fernando González Urízar, e "Balada para la ciudad muerta", de Alfonso Alcalde,


Interessante o destaque que Neruda dá para as regiões natais dos poetas. Talvez ele considere que a natureza local influencie a lavra da poesia. Exemplos: "Dos bosques de Angol aos pedregosos rios de Boroa e Ranquilco, a terra e os homens estão unidos por uma forte textura de raízes e sombras, por uma rede imperial de altaneiros vegetais", " dos bosques, de uma chuva, mais outra, de todas as areias chegam os poetas deixando um rastro de platina queimado, uma pequena marca de sapatos perdidos na argila subterrânea", "tu, alfonso, das cidades marinhas trazes fumo e chuva em tuas mãos e sabes tecer o fio fresco e frio da profundidade matutina", mas a bruma, as praias e o oceano desencadeado do sul do Chile, que encontraram neste livro adolescente seu caminho para a intimidade de minha poesia", "desde lá se abre este livro, suas páginas estão feitas com aquelas areias, forte, largo e trepidante em seu mundo".


A influência da ideologia é forte também. No prólogo do livro "Morte ao invasor", de Ilya Ehrenburg, ele chega a dizer que "os que lerem este livro verão também, como já faz anos muitos homens já vimos, a União Soviética, numa alvorada de força e pureza" e que "a Divisão dos pães, feita na vasta extensão da URSS pelo grande Partido Comunista, único partido do Homem, é um milagre imperecível e terrenal, não aproveitado e destruído depois por uma casta maléfica de sacerdotes, mas estendido na profundidade e na distância dos seres até os limites da natureza". Nada como um dia após o outro para revelar as atrocidades do Stálin, a grande fome imposta aos russos, que causou a morte de milhões, etc. Por outro lado, ele denuncia, no prólogo do livro "A tragédia Dominicana", que "todos ou quase todos protegem realidades como a sinistra quadrilha nazi argentina, a servidão da Bolívia entregue a alguns audazes aventureiros facistas, e quando se fala de atacar as covas da tirania, tudo se converte em hipócrita sustentação de princípios que não contam nunca, tudo se torna papelada e escusas, e o rosto completo da liberdade americana continua atravesado por essas sinistras cicatrizes."


No livro existem prólogos contemporâneos da revolução cubana, que ele naturalmente incensa e a qual dedica seu livro "Canción de gesta", e da eleição de Allende, quando frisa que "Chile e Cuba trabalham com dificilmente, atacados por todos, para mudar os fatos desmentidos pela realidade...".


O prólogo do seu livro "Poesía Política" merece destaque especial (fiz transcrição integral no meu blog), pois mostra o compromisso do poeta com seu povo. Assino embaixo!

Um texto curioso é o comentário indignado de Neruda sobre um artigo publicado num jornal do Chile, em dezembro de 1972, parcialmente transcrito no livro, com viés direitista, no qual os comunistas são considerados tarados, frouxos, incapazes, fracassados, invejosos, etc. Neruda apresenta uma lista de notórios comunistas, inclusive ele, para refutar o autor do artigo. Está no meu blog também.


Pablo Neruda morreu em setembro de 1973, doze dias depois da derrubada de Allende por Pinochet. Dizem que morreu de tristeza, pela queda do governo de Allende. Pode ser verdade: poetas conseguem morrer de tristeza!


Em resumo, o livro foi uma leitura muito proveitosa!!


José FRID

sábado, 27 de agosto de 2011

Poetas dos povos




A América do Sul foi sempre terra de oleiros. Um continente de cântaros. Estes cântaros que cantam, feitos sempre pelo povo. Feitos com barro e com as suas mãos. Feitos com argila e com suas mãos. Feitos de pedra e com suas mãos. Feitos de prata e com suas mãos. Sempre quis que na poesia se vejam as mãos dos homens. Sempre desejei uma poesia com impressões digitais. Uma poesia de greda, para que nela cante a água. Uma poesia de pão, para que todo mundo a coma. Só a poesia dos povos sustenta esta memória manual. Enquanto os poetas se fecharam nos laboratórios, o povo seguiu cantando com seu barro, com sua terra, com seus rios, com seus minerais. Produziu flores prodigiosas, surpreendentes epopéias, amassou folhetins, relatou catástrofes. Celebrou os heróis, defendeu seus direitos, corou os santos, chorou os mortos.



E tudo feito apenas com as mãos. Estas mãos foram sempre toscas e sábias. Foram cegas, mas romperam as pedras. Foram pequenas, mas tiraram peixes do mar. Foram escuras, mas buscaram a luz. Por isso essa poesia tem esse sortilégio do que tem sido criado entre as coisas naturais. Essa poesia do povo tem o selo do que deve viver à intempérie, suportando a chuva, o sol, a neve, o vento. É poesia que deve passar de mão em mão. É poesia que deve se mover no ar como uma bandeira. É poesia que foi golpeada, que não tem a simetria grega dos rostos perfeitos. Tem cicatrizes em seu rosto alegre e amargo. Eu não dou um louro a esses poetas do povo. São eles que me presenteiam a força e a inocência que deve dar forma a toda poesia. São eles que me fazem tocar sua nobreza material, sua superfície de couro, de folhas verdes, de alegria.



São eles, os poetas populares, os obscuros poetas, os que me ensinam a luz.



(1966)



Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Poemas sem pele, sem mãos, sem objeto.







As palavras se gastam com o uso, o sentido foge das formas, a poesia - demasiada usada - se desfaz a si própria. O poeta de época se emaranha nas frases como o peixe na rede, agoniza fora d'água, o ar o aniquila. Assim saem poemas do papel, interminavelmente enrolados e enrarecidos, ao gosto da moda obscura, poemas sem pele, sem mãos, sem objeto. (1954)

Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Das regiões frias do sul do Chile





... a linguagem de Delia Dominguez:



Ignora o vapor evaporado que flutua sobre os empapados capinzais: sua comunicação é aguda como ferramenta, reta e sonora. A humanidade não foi amassada pela noite nem a chuva: toca a lã, a lua, a água, a farinha, os corpos, a roupa e o amor, sem vegetalizar-se, sem converter-se em trepadeira.


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

domingo, 21 de agosto de 2011

Anatole France por Pablo Neruda

Como os grandes pensadores, conheceu uma profunda relação de desencanto, e alcançou alguma vez, na solidão da inteligência, o isolamento da desesperança. Mas é certo que o reteve entre os homens a âncora de um sorriso permanente. (1924)



Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Ao jovem poeta




Na confusão da primeira luz e da última treva sempre a voz nova dos novos poetas. Têm o orvalho sombrio da primeira hora, a ansiedade e a pureza do desamparado nascimento.


Seguirá rindo, ouvindo, cantando? Conquistará e ganhará a luz de cada dia? Roubará o fogo? Se decidirá entre noite madura e alvorada agônica?


Cada jovem poeta merece ser ouvido entre as folhas do Bosque.


A Miguel Budnik Sinay, a seu jovem cantar desejo toda a paciência da luz que conduz à soberania do racimo. (1961)



Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A minhas obrigações



Cumprindo com meu ofício
pedra com pedra, pluma a pluma,
passa o inverno e deixa
lugares abandonados,
habitações mortas:
eu trabalho e trabalho,
devo substituir
tantos olvidos,
encher de pão as trevas,
fundar outra vez a esperança.
Para mim somente a poeira,
a chuva cruel da estação,
nada me reservo a não ser todo o espaço
e ali trabalhar, trabalhar,
manifestar a primavera.
A todos tenho que dar algo
cada semana e cada dia,
um presente de cor azul,
uma pétala fria do bosque,
e já de manhã estou vivo
enquanto outros afundam
no ócio, no amor,
eu estou limpando minha campana,
meu coração, minhas ferramentas.
Tenho orvalho para todos.

(1959)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O cidadão Pablo Neruda


Como cidadão, sou homem tranquilo, inimigo de leis, governos e instituições estabelecidas. Tenho repulsa pelo burguês e gosto da vida da gente intranquila e insatisfeita, sejam artistas ou criminosos. (1926)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Dever do Poeta (Plenos Poderes)


A quem não ouve, nesta sexta, o mar
pela manhã, a quem dentro de alguma
casa, escritório, fábrica ou mulher,
ou rua, ou mina, ou seco calabouço:
a este eu ajudo e sem falar nem ver
chego e escancaro a porta da clausura
e um sem-fim vago se ouve na insistência,
um longo trovão roto se encadeia
ao peso do planeta e da espuma,
roncos surgem os rios do oceano,
vibra veloz em sua roseira a estrela
e o mar palpita, morre e continua.
Assim pelo destino conduzido
devo sem trégua ouvir e conversar
o lamento marinho na consciência,
devo sentir o golpe da água dura
e recolhê-lo numa taça eterna
tão pura que onde esteja o encarcerado,
onde sofra o castigo do outono
eu esteja presente com uma onda perdida,
e através das janelas eu circule
e quando me escutar levante o olhar
dizendo: como chegarei ao mar?
E eu transmitirei sem dizer nada,
os ecos estrelados de uma onda,
um quebranto de espuma e de areais,
um sussurro de sal que se retira,
o grito gris do pássaro da costa.
E assim, por mim, a liberdade e o mar
responderão ao coração escuro.

(1962)

Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

sábado, 13 de agosto de 2011

Os comunistas são ....



"Era nos anos dos Ford de bigodes, dos cavalheiros de bengala e polainas e das damas de chapéus emplumados. Apagados os fogos da guerra que se acreditava 'a última', a gente respirava à vontade, cheia de ilusões, sem se dar conta de que a paz havia nascido com a tara do câncer bolchevique, destinado a contagiar os vagos, os frouxos, os incapazes, os grosseiros, os marginais, os ressentidos, os fracassados, os invejosos, os violentos. A minoria negativa do gênero humano, seu peso morto, ia levantar-se com a pretensão monstruosa de dirigir o mundo." (Parágrafo de um artigo assinado por E.B., publicado em El Mercurio de Santiago do Chile, no domingo, 17 de dezembro de 1972)


Entre esses tarados, ignorantes, mafiosos, incapazes e fracassados foram e são comunistas homens como Máximo Gorki, super-homens como Gagárin e os primeiros cosmonautas, construtores de aviões como Tupolev, cientistas como Joliot-Curie, pintores como Palbo Picasso, Henri Matisse, Fernand Léger, tapeceiros de gênio como Lurçat, artistas comoventes como Paul Robeson, escritores como Anatole France, Henri Barbusse, Vladimir Maiakovski, Louis Aragon, Paul Eluard, Bertolt Brecht, Mariátegui, César Vallejo, políticos como Lênin, Jorge Dimitrov, Antonio Gramsci, Ho Chi Minh, Luis Emílio Recabarren. Humildemente, eu me incluo no número desses tarados do cronista mercurial. E, óbvio, o insigne cidadão, o ensaísta impecável, o Senador da inteligência, o escritor chileno Volodia Teitelboim.

(1972)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002



O texto do Jornal El Mercurio é fruto do embate político que dominava o Chile nos fins de 1972, que desaguaria no golpe de setembro de 1973, quando Pinochet derrubaria Allende do poder. O articulista pegou "pesado" com os comunistas e Neruda não poderia deixar tais infâmias passar em branco. Deve-se notar que, entre os políticos, Neruda destaca Lênin mas não menciona Stálin, cujo governo ele incensava nos idos de 1943. Nada como um dia após o outro. Picasso, na época, já tinha sido expulso do Partido Comunista, face às críticas que fez à ditadura soviética.


José FRID

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Poesia Política - Plabo Neruda


Tudo é novo debaixo do sol, e entre todas as coisas, a poesia. Passam e voltam as estações, mas na primavera ou no inverno, cresce, floresce e se duplica esta rosa de todos os tempos.


Por isso os poetas cantamos tudo que existiu, que existe, e o que viverá amanhã. A terra e o homem têm perpétua profundidade e fecundidade para nós. Nunca rechaçaremos nada a não ser a cumplicidade com o mal, com o que dana os seres, com a opressão ou o veneno. É essa relação entre a terra, o tempo e o homem que necessita rega e fulgor, quer dizer, poesia, para resplandecer e frutificar, para que a felicidade universal seja nosso reino comum.


Por isso são inimigos da poesia quantos dela excluem a luta que é também noso pão de cada dia. Aqueles que nos põem uma fronteira, querem destruir todo o castelo. Aqueles que, politicamente, querem separar a poesia da política, querem nos amordaçar, querem apagar o canto, o eterno canto.


Eu quero que todos os poetas cantem a rosa vermelha e a rosa branca, os olhos azuis e os olhos negros, os dias de sol sobre a areia e as noites de sombra tempestuosa. Eu quero que todos cantem seus amores.


Se não o fizerem, estarão traindo seus próprios mandatos imperiosos. Há, porém, uma traição mais aterradora, e é a de que nosso canto não compartilhe, não recolha ou não guie os caminhos dos homens. A sociedade humana e seu destino é matéria sagrada para o cidadão, mas para o poeta é massa crescente, criação profunda, obrigação original. Não há poesia sem contato humano. No pão do amanhã devem ir as marcas das mãos do poeta.


Ai daqueles que não compreenderam senão o silêncio, quando a poesia é palavra, e daqueles que só compreenderam a sombra, quando a poesia é luz de cada dia e cada noite dos homens.


Por isso o caminho não vai para o interior dos seres, como uma rede de sonhos. O caminho da poesia vai para fora, pelas ruas e fábricas, escuta em todas as portas dos explorados, corre e adverte, sussurra e congrega, ameaça com a voz pesada de todo o futuro, está em todos os lugares das lutas humanas, em todos os combates, em todas as campanhas que anunciam o mundo que nasce, porque com força, com esperança, com ternura e com dureza faremos com que ele nasça.


Nós, os poetas?

Sim, nós, os povos!!

 
(1952)


Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello, 2002

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Las uvas y el viento

Eu fui cantando errante
entre as uvas
da Europa
e sob o vento,
sob o vento da Ásia.

O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.

O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.

Pareciam os homens
inimigos,
porém a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
a que os despertava:
a claridade do mundo.

Entrei nas casas quando
comiam à mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.

Todos eram iguais.

Todos tinham olhos
para a luz, procuravam
os caminhos.

Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.

Todos.

Por isso
procurei entre as uvas
e o vento
o que de melhor têm os homens.
Agora tens que me ouvir.

Pablo Neruda in "Prólogos", Bertrand Brasil, tradução de Thiago de Mello

domingo, 22 de maio de 2011

O que é a arte








A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade.



Pablo Neruda

sexta-feira, 3 de abril de 2009

sábado, 1 de novembro de 2008

Conselhos sensatos



Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos


Pablo Neruda